As origens da violência

(Por Diego Rodrigues)

Historiadores, filósofos, sociólogos, psicólogos, entre outros cientistas, buscam há séculos explicações sobre as causas da violência. Seríamos naturalmente violentos ou aprendemos a ser ao longo da vida? Há o que ser feito? Como fazemos? Muitas perguntas, algumas respostas e uma certeza: compreender esse fenômeno social de modo complexo definirá os rumos da Humanidade.

Crises institucionais, crime organizado, violência doméstica, ataque a minorias nos acompanham há muito tempo. Em um contexto de globalização, a intolerância não apenas ficou mais evidente, mas foi potencializada, acreditam os especialistas. Vivemos uma sociedade do conflito, a conflitualidade aparece em quase todos os momentos das relações humanas. A violência passou a ser forma corrente de exercício de poder.

Seria possível acabar com a violência? Para o doutor em Sociologia e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Direito da UniRitter, Dani Rudnicki, é praticamente impossível. Conforme ele, no entanto, um dos caminhos seria o controle por meio da redução das assimetrias sociais. O professor aponta a criação de “territórios de paz”, por exemplo, como um projeto que ajudou no controle dos indicadores criminais em áreas mais atingidas pelo crime organizado.

Mas como compreender a rotina de violência, muitas vezes, revelada na vida cotidiana, em casa, no trabalho, em está- dios de futebol? A resposta é complexa. “Uma perspectiva individualista é o senso comum como justificativa para que atos violentos sejam cometidos. Fatores genéticos, transtornos, frustrações e traumas podem justificar atitudes tomadas. Porém, nem sempre a motivação se justifica de forma individualizada”, diz o psicólogo e membro do Núcleo de Pesquisa em Trauma e Estresse da Escola de Humanidades (NEPTE), da PUCRS, Gustavo Ramos Silva. Outro fator importante é o processo de socialização na infância e adolescência. Se houver um modelo violento para uma criança, ponderam especialistas, há chance de ela ter um futuro violento.

O efeito é em cascata. A violência cresce em níveis alarmantes, segundo as estatísticas. O Atlas da Violência 2017 aponta que, em 2015, no Brasil, ocorreram 59.080 homicídios. O que equivale a uma taxa de 28,9 por 100 mil habitantes. O número aponta que, no ano de referência, a cada uma hora, aproximadamente sete pessoas eram mortas neste país. Os números mostram que negros têm mais chance de serem assassinados. De cada 100 pessoas vítimas de homicídio no Brasil, 71 são negras. De 2005 a 2015, houve um aumento de 18,2% na taxa de homicídio de negros. Mulheres e a população LGBT estão entre as vítimas mais frequentes.

A violência não é algo que preocupa somente a população brasileira. Segundo dados apresentados pelo Global Peace Index (GPI) 2017, o ano que se passou mostrou uma ligeira melhora na pontuação geral no índice de paz mundial. A pesquisa indica que esta é a primeira melhoria na paz global registrada desde 2014. Fato considerado de maior importância é o número de países que apresentaram melhora, 93, em comparação com aqueles que se deterioraram, 68.

Com os dados apresentados, conclui-se que o mundo melhorou um pouco no quesito paz de 2015 para o ano passado, porém, tornou-se menos pacífico na última década. A Islândia segue no topo como país mais pacífico do mundo, posição esta que ocupa desde 2008. No ranking, é seguida por Nova Zelândia, Portugal, Áustria e Dinamarca. Na parte inferior do índice, comparado ao ano anterior, houve pouca mudança. A Síria continua a ser o país mais violento do mundo, seguido de Afeganistão, Iraque, Sudão do Sul e do Iêmen.

O ranking demonstra o quanto as guerras presentes nos países com menor índice de passividade afetam na paz mundial. O Brasil ocupa a posição de número 105, superado na América Latina como menos pacífico somente por Venezuela e Colômbia, 144 e 147 no ranking, respectivamente.

Professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e em Políticas Públicas da UFRGS e diretor do Instituto Latino-americano de Estudos Avançados (ILEA), José Vicente Tavares dos Santos diz que a violência é um comportamento justificado por um determinado código social. As pessoas, quando cometem um ato de violência, de algum modo, têm interiorizadas um código de conduta que as autorizam a cometer o ato. A violência não é um ato irracional. Por que existe tal cultura de recorrer à violência para solucionar uma disputa, conflito ou desavença? Esta é a grande questão a ser respondida, diz o professor. A primeira conclusão baseia-se na reprodução da violência dentro do grupo familiar, onde, por vezes, a palmada é a forma de educar uma criança. No outro extremo, os idosos também são vítimas de pessoas dentro de casa. Outro fator é reprodução da violência pelos meios de comunicação, pois a mídia atua como agente de socialização. O romance policial também tem impacto no fenômeno social. Livros e séries de TV romantizam e dramatizam atos violentos e, muitas vezes, os apontam como solução para conflitos. Assim, há enorme produção de significados que legitimam a violência como código ordenador de condutas. Todos esses são fenômenos que propagam a produção da cultura da violência.

Como passar a viver então em uma cultura de paz? Para o sociólogo, o primeiro passo é o diagnóstico, identificação e nomeação do que realmente é um ato violento para, aos poucos, desconstruir a cultura de violência. Isso depende da criação de uma cultura de paz, mostrando que há alternativas. Mediação e arbitração de conflitos seriam fundamentais, neste sentido, no desenvolvimento de uma cultura de tolerância e, por consequência, de paz. Segundo José Vicente, a violência é um ato que destrói a cidadania do outro. A cultura da paz, por sua vez, é reconhecer o outro como diverso.

Suicídio já mata mais que HIV no mundo, diz OMS

(Por Marina Rocha)

Tratado como tabu e drama durante anos, a depressão, que na verdade é uma doença e não tem cura, ganhou notoriedade graças a série “13 Reasons Why”, que conta a história de uma menina que comete suicídio. A série virou febre mundial e começou a ser assistida por pessoas do mundo todo, e foi então que muitos outros assuntos ligados a depressão tiveram notoriedade.

Após anos no escuro hoje todo o mundo está falando sobre depressão e suicídio, porém mesmo após tanta divulgação muitas pessoas ainda não compreendem o problema no qual a depressão está inserida. O Brasil é hoje após estudos da OMS o 8° país onde mais se comete suicídio no mundo, fora isso cerca de 6% da população brasileira é diagnosticada com depressão, segundo a OMS, o que resulta em aproximadamente 12 milhões de pessoas, levando em consideração todas as outras pessoas que não são diagnosticadas com a doença por não procurar ajuda esse número pode crescer ainda mais.

Mesmo com todos esses dados alarmantes a depressão ainda é tratada como coisa da cabeça das pessoas, quando deveria ser tratada como doença, pois é o que ela é. Depressão é uma doença silenciosa, como, por exemplo, a diabetes. No começo você não tem nada, então vai desenvolvendo e uma vez desenvolvida você nunca mais deixa de ter, uma vez desenvolvida a pessoa precisa de acompanhamento médico e terapêutico e caso necessário com medicamentos para manter a sua doença controlada, pois caso contrário uma depressão de nível leve pode passar para algo mais severo levando até mesmo a pessoa a cometer suicídio, o que é mais normal do que se possa imaginar, já que por ano no mundo cerca de 800 mil pessoas cometem suicídio, o que equivale a aproximadamente um maracanã lotado por mês.

Sendo um problema de saúde pública mundial e a OMS já tendo divulgado que em 13 anos a depressão será a doença mais comum do mundo, afetando mais pessoas que o câncer e doenças cardíacas apenas 28 países no mundo tem estratégias de prevenção ao suicídio, que é na grande maioria das vezes originado de um caso de depressão profunda onde por ter ficado tempo de mais sem apoio e tratamento a pessoa não vê outra alternativa a não ser o suicídio. Quando questionado sobre o desafio da Baleia Azul e a relação com automutilações e suicido o delegado de polícia responsável pela delegacia de crimes cibernéticos, Arthur Teixeira Raldi de 35 anos disse que: Não devemos voltar tanto os olhos ao desafio da baleia azul em si, mas sim ao o que leva essas crianças e adolescentes a fazer a automutilação e a cometer o suicídio. Ainda falando sobre o suicídio ligado ao Baleia Azul o delegado disse que “até agora no Rio Grande do Sul não temos nenhum caso confirmado de Baleia Azul” afirmando que os pais após a propagação desse desafio começaram a reparar mais nos seus filhos e então descobrir que eles por ventura se automutilavam e ligaram as automutilações ao Baleia Azul.

Sobre os casos de tentativa de suicídio em Porto Alegre temos com base nas informações da Secretaria de Segurança Pública um dado curioso, onde no período entre

agosto/2016 e março/2017 o mês onde mais houveram tentativas de suicídio foi, Setembro, com 9 tentativas de suicídio entre crianças e adolescentes, mesmo esse sendo o considerado Setembro Amarelo em prol da valorização à vida. Ainda com base nesses dados temos em um período de nove meses 48 tentativas de suicídio, sendo 30 meninas e 18 meninos, dos quais apenas 9 ficaram internados para tratamento da doença, quando questionada sobre o motivo de tão poucos terem ficados internados, Inglacir Dornelles Clós Delavedova, 49 anos, 7°a promotora de justiça da infância e juventude de Porto Alegre relatou que existem poucas vagas destinadas a pacientes psiquiátricos e que por tanto os pais preferem levar os filhos de volta pra casa ao ter que deixá-los nos postos de saúde em condições precárias esperando por uma vaga, mas que quando essas casos ocorrem as famílias recebem todo o apoio possível.

Com toda essa repercussão era esperado que se fossem ter mais casos de tentativas de suicídio já que por norma a SSP procura não divulgar casos de suicídio para não despertar o efeito cascata em possíveis vítimas, porém o Centro de Valorização à Vida teve um aumento de 445% na procura por ajuda após a estreia da série “13 Reasons why” que embora seja uma série que trata não apenas de um mas de vários assuntos polêmicos abordou a depressão e o suicídio de maneira equivocada, já que a personagem principal não apresenta um quadro clínico de depressão que tenha levado ela a cometer o suicídio, assistindo a série o que se pode notar é que ela é uma adolescente que passou por diversos problemas, já que a série falha em mostrar a depressão somada a todos os problemas como a real causa do suicídio da jovem.

Como a série se passa em uma escola, a diretora de ensino da escola São Judas Tadeu, Graziela Loureiro de 50 anos foi entrevistada para falar sobre o papel da escola em reconhecer e ajudar os alunos e em lidar com assuntos de grande repercussão como foi o desafio da Baleia Azul e o seriado. Questionada sobre quais as providências tomadas pela escola quando esses assuntos aparecem à tona nas salas de aula a diretora falou: A escola tem que aproveitar todas as oportunidades que se tem para dar um conhecimento de qualidade, um conhecimento pertinente, não só para os alunos, para a comunidade escolar. Deixando claro ainda que e-mails foram enviados para os pais esclarecendo sobre esses assuntos e que a escola promoveu um encontro de pais com uma psicóloga especialista no tema para que todos pudessem ter suas dúvidas sanadas, ela ainda acaba a entrevista dizendo que a escola não pode negligenciar temas importantes, e que quando eles surgem devem ser falados e esclarecidos pois esse é o papel da escola, “escola é lugar de informação relevante pertinente e de desvendar o que é verdade e o que é mentira”.

Paixão ao futebol, indiferença à vida

(Por Gabriela Soares)

O Brasil ocupa uma das primeiras posições no ranking de torcedores mortos em confrontos antes e após as partidas de futebol. As torcidas organizadas se tornaram celeiros do terror esportivo, instalando um clima de medo e insegurança para quem frequenta os estádios. É perceptível o aumento da violência e da incompetência das autoridades em controlar a situação. Nos últimos anos, apenas 3% dos delitos no âmbito do futebol (racismo, xenofobia, machismo, agressão, mutilação e morte) foram punidos. São Paulo é apontado como estado mais violento do país, seguido pelo Rio Grande do Norte e Pernambuco.

De acordo com um estudo realizado pelo sociólogo Maurício Murad, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o número de mortes ainda se concentra em classes mais baixas e com escolaridade até o ensino fundamental, mas a estatística alcança todas as faixas sociais, renda e níveis de formação, inclusive mestres e doutores. O pesquisador destaca em seus ensinamentos que, embora os confrontos sejam provocados por torcidas organizadas, a maioria dos mortos são “inocentes”: até 2013, eles eram a maioria. Antes, a faixa etária ficava restrita a jovens de 15 a 24 anos e agora chega aos 33 anos.

História das torcidas

Conforme disposto no artigo “Lazer e violência nas torcidas organizadas”, o surgimento das primeiras torcidas era denominado “charanga”, agrupamento de pessoas que visavam apoiar seus clubes, com instrumentos musicais, de uma forma alegre e o uso de uniformes. A Torcida Uniformizada do São Paulo, criada em 1940 e a Charanga do Flamengo, criada em 1942, foram os primeiros movimentos organizados.

As Torcidas Organizadas, assim como se entende hoje, começaram a existir no final da década de 60. O Grêmio Gaviões da Fiel, com fundação em 1969, é considerado a primeira torcida organizada. Com o passar dos anos as torcidas vão se firmando, inclusive por meio da violência e o quadro de associados cresce de maneira significativa, nos anos 90.

A primeira morte ligada à violência no futebol aconteceu em 1988, quando Cléo Sóstenes Dantas da Silva, 24 anos, foi assassinado em frente à sede da torcida do Palmeiras, seu clube de coração. Ele era presidente da Torcida Mancha Verde depois extinta pela Justiça, mas que retornou com o nome de Mancha Alviverde.

Comportamento do torcedor organizado

Segundo o professor de História das instituições de ensino, Fapa e Uniritter, Walter Lippold conta que o fenômeno da violência na questão do futebol não está restrito ao Brasil. Apresentamos antecedentes já na questão do Hooligans, jovens que se divertem através de futebol, bebidas e brigas, sendo o fenômeno mais estudado na Inglaterra.

Inicialmente, o termo hooligan pode designar tanto um comportamento ligado a uma família que apresenta conduta antissocial, quanto a um grupamento específico de torcedores. A primeira característica que difere os hooligans é que estes possuem afinidade com movimentos políticos de extrema direita e com ideias xenofobias.

Para entender melhor a cabeça dos membros das torcidas organizadas, em entrevista, um integrante da banda Oficial do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, conta como iniciou sua paixão pelo clube que resultou no fanatismo. Hoje, com antecedência criminal e sem permissão de comparecer nas partidas, ele afirma: “Acho que vale a pena arriscar a vida pelo time”.

Como iniciou o interesse em assistir aos jogos e a sua participação na Geral?

Comecei a frequentar os estádios desde cedo. Interessei-me em participar da torcida organizada, mas principalmente da banda. A banda que anima o jogo. Aos poucos fui me enturmando e conhecendo todos os membros. Comecei a ir cada vez mais aos jogos. Quem participa da torcida, tem que chegar com bastante tempo de antecedência. Se um jogo inicia às 21 horas da noite, mais ou menos ao meio-dia temos que estar no estádio.

O clube tem participação da organização da torcida? Tem alguma ajuda de custo como ingressos, transporte ou na retirada dos torcedores quando presos?

Antigamente o clube ajudava bastante. Hoje em dia, não temos ajuda em nada. Uns cinco anos atrás, tudo era melhor, a festa no estádio era mais completa. Hoje não temos nada. Não conseguimos nada. Não temos ajuda com ingresso, com transporte, viagens para outros estados e países. Se vamos presos, o clube não fornece assistência, ainda prejudica nas identificações. O clube não está nem aí pra torcida. A torcida faz por si mesmo. Temos que fazer material pra vender pra conseguir dinheiro para os gastos, para os instrumentos. Temos que achar maneiras.

 Quais os motivos que levam as brigas?

Geralmente, briga dentro da própria torcida envolve mais ego, principalmente quando estamos mais alterados, e bêbados. As brigas com as torcidas rivais envolve a questão de provar ser a maior torcida. Já brigamos com a direção pelo descaso com a gente, por deixarem de oferecem o que precisamos. Antigamente as brigas eram mais frequentes, e sim, por dinheiro, status, de ser reconhecido.

Vale a pena arriscar a vida pelo clube? Tudo isso não prejudica a imagem do Grêmio?

É uma pergunta muito difícil. Depende do ponto de vista do que seria arriscar a vida pelo clube. A gente sempre exalta o nome do Grêmio, às vezes temos que fazer algo para nos proteger e proteger quem está do nosso lado, mas acho que vale a pena arriscar a vida sim. Torcedor fanático pensa totalmente diferente do torcedor comum que chega só na hora do jogo e se senta para assistir.

Qual a diferença entre o torcedor “comum” e o torcedor fanático?

O torcedor comum torce pelo time só no dia do jogo. O torcedor fanático vive o time todos os dias, 24 horas por dia. Temos reuniões semanais. Chegamos cedo aos jogos, estamos frequentemente neles. Só nós sabemos o que passamos pra conseguir dinheiro pra acompanhar o time. Quando entramos no estádio ou até mesmo fora dele, a razão fica em casa. Não aceitamos que falem mal do nosso time, dos jogadores. É difícil de entender. O jogo já conduz uma emoção, e naquela mistura de sentimentos não aceitamos críticas e acabamos tendo atitudes erradas.

Referente aos antecedentes criminais. Quais são?

Eu tenho algumas. Em 2012, foi a primeira vez que fui detido. Eu fui fichado como rixa (briga de dois grupos rivais definidos). Depois fui detido mais umas dez vezes, mas as principais são por rixas, danos a patrimônio privado, incitação à violência, agressão, sendo consequentemente as que envolvem mais as torcidas. Já usei tornozeleira eletrônica. Eu teria que cumprir uma transação penal onde deveria ficar dez jogos sem ir ao estádio, me apresentei nove vezes na delegacia e uma não apareci. O juiz determinou que eu colocasse tornozeleira eletrônica. Usei menos de dois meses, pois não era mais necessário o monitoramento.

Então se você não participasse da torcida, hoje não teria essas antecedências. Você é um agressor pela torcida. Isso? Ter essas antecedências pelo teu time, carregar isso na tua vida, vale a pena?

Não é questão de ser agressor pela torcida, mas obviamente se eu não participasse não teria essas antecedências. Foram fatos que aconteceram que eu tive que me defender. Ter antecedente criminal não faz diferença na minha vida, eu não tenho uma condenação, tenho passagens. Minha ficha corrida é toda limpa. Nunca fui condenado, nem vou. Fui absolvido de todas. Já cumpri muitos anos fora dos estádios. São coisas que acontecem.

Você já foi proibido de ir a algum jogo? O grêmio tem fiscalização, como as catracas biométricas?

Já fui proibido diversas vezes em ir aos jogos, durante três meses, cinco meses, de dez a quinze jogos. Já usei tornozeleira eletrônica. O Grêmio não fiscaliza nada. Quem fiscaliza os detidos é a Brigada Militar e o Ministério Público. Os times (Internacional e Grêmio) não tem fiscalização nem deles próprios, quem dirá dos detidos. O Juizado do Torcedor geralmente quando proíbe alguém é acordado que o torcedor deve comparecer meia hora antes e meia hora após o jogo na delegacia mais próxima.

 

Fanatismo e violência

“Uma pessoa que vive para bater nos outros e em defender o time, na minha visão, não está na normalidade psicológica. Ser fanático, dentro do normal, chorar e ficar triste, acredito que no Brasil é mais aceitável”, opina o professor Walter, que para compreender o fanatismo e a violência, entra a categoria da Psicologia.

Como psiquiatra, filósofo, cientista social e revolucionário, Frantz Fanon foi um dos pensadores mais instigantes do século XX. Ele abrange que todo o ser humano tem dois tipos de pulsão: A pulsão Eros, é uma pulsão ligada aos instintos sexuais e a pulsão Thanatos, um impulso agressivo contra os outros e contra a si mesmo. Freud escreve isso quando se dá conta que a algo no ser humano inato. Toda energia Eros e Thanatos tem que ser sublimada. Toda sociedade precisa ter uma válvula de escape para as condutas agressivas.

Os fatores econômicos, políticos ou socioculturais podem influenciar no comportamento e na atitude dos torcedores. Este comportamento de massa tende a alterar certos valores, expectativas, sentimentos e sentidos das ações individuais. “Um homem sozinho na rua é uma coisa, esse homem com mais dois homens já me parece um pensamento de matilha. Vem à necessidade de se exibir, de masculinidade, para mostrar que ele é potente, através da agressividade”, refere-se o professor Walter a mudança de comportamento do indivíduo que é causada pela presença de um grupo, principalmente na violência futebolística.

Talvez, a necessidade de serem diferenciados dos torcedores comuns, conforme afirmado na entrevista do integrante da banda, possa contribuir também nesta mudança de comportamento. Um exemplo simples é que estes torcedores organizados assistem às partidas em pé. Esta postura é totalmente diferente dos torcedores comuns, que assistem ao jogo sentado e levantando-se somente durante os intervalos. Da mesma forma, a violência real pode ser estimulada pelo consumo de drogas lícitas e ilícitas, como por exemplo, o álcool. O uso dessas substâncias faz com que o indivíduo perca a inibição, sendo mais difícil distinguir comportamentos desejáveis de indesejáveis. “Toda violência física é a incapacidade de verbalizar aquilo que você sente”, finaliza o professor Walter. O Ministério Público do RS foi questionado sobre o assunto, entretanto não se manifestou.

 

Dados coletados para calcular a média de mortes ocorridas em cinco anos no Brasil

2010: 12 pessoas morreram por causa de futebol no Brasil.

2011: 11 pessoas tiveram a morte comprovadamente ligada a rixas de torcidas.

2012: 23 pessoas foram mortas por torcerem por times diferentes. Nesse ano, a violência do futebol dobrou.

2013: 30 pessoas foram assassinadas por torcedores rivais. Foi o maior número da história.

2014: 18 pessoas morreram por causa de futebol no Brasil. A redução se deveu à pausa para a Copa do Mundo.

2015: 15 pessoas morreram por agressão em público. Houve o aumento da presença das mulheres nos estádios.

Dados coletados dos cinco times mais punidos que tiveram de jogar sem a presença da torcida ou 100 km de distância se suas sedes por causa de atos violentos dos torcedores entre 2011 a 2016

Atlético-PR 11 jogos além da perda de dois mandos de campo;
Corinthians 9 jogos por mau comportamento dos torcedores;
Goiás 6 jogos pela bomba atirada da torcida esmeraldina na arquibancada onde estava a torcida do Sport;
Vasco 5 jogos por mau comportamento dos torcedores;
Palmeiras 5 jogos além da perda de um mando de campo.

Violência contra o idoso não tem desculpa, tem lei

(Por Willian Cardoso)

Entre o modesto corredor da Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso (DPPI), de Porto Alegre, uma senhora chamou a atenção pela história que se dispôs a contar sobre sua violência sofrida. Ernestina Freitas Machado, mais conhecida como Dona Neta, senhora de 90 anos, no rosto e em suas mãos, leva as marcas da passagem do tempo que aparenta esconder uma mulher castigada pelas suas situações vividas. Vítima constante de estelionato, não recorda quantas vezes já pensou em fazer denúncias do seu filho mais novo. “No fundo eu não tenho coragem, apesar de fazer essas coisas, ele é um bom filho”, desabafa. Casos como de Dona Neta se tornam frequente entre os idosos que vão até a DPPI, mas acabam não fazendo a denúncia. A população idosa atual do Rio Grande do Sul já corresponde a 17,3% de toda população, os números refletem a 1.945.900 milhões de habitantes com mais de 60 anos, segundo dados do último censo do IBGE de 2015.

Dona Neta, viúva, cozinheira aposentada, explica que o filho constantemente furtava seus cartões bancários, fazendo realizações de empréstimos indevidos em nome da idosa, comprometendo sua renda. Das 1062 ocorrências registradas, até o final da apuração desta matéria, 16 de maio, 16,6% são denúncias voltadas ao teor de violência financeira. Representando um total de 83 queixas.  Comparando com os dados adquiridos no ano de 2015, que foi o período que a DPPI possuiu o maior número de registros de ocorrências (2,5 mil), o primeiro semestre de 2017 quase atinge a metade dos índices. Segundo o Comissário Alan Lopes da Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, diariamente vão até o local uma média de 30 pessoas, mas somente 15 acabam fazendo denúncias.

Entre os seus nove filhos, somente a filha mais nova, empregada doméstica, de 48 anos, fica responsável dos cuidados da idosa, “não adianta denunciá-lo, a polícia não irá fazer nada, e nós que vamos ser prejudicadas por ele,” comenta. O Estatuto do Idoso (Lei 10.741/03), em seu artigo 102 – explica que apropriar-se de bens, proventos, pensão ou qualquer outro rendimento do idoso, dando-lhes aplicação diversa da sua finalidade, sofre reclusão de 1 a 4 anos seguido de multa. Segundo dados da Secretaria Especial de Direitos Humanos (SDH), esse tipo de crime é um dos mais denunciados no contexto nacional, representando 40,1%.

VERTENTE DOS CASOS: ANALISANDO O AGRESSOR

As narrativas das duas senhoras mostram que a violência financeira geralmente ocorre quando o idoso por necessitar de ajuda, acaba confiando nas pessoas próximas (familiares, cuidadores) que deveriam lhe auxiliar, mas acabam se aproveitando da fragilidade dessas pessoas desviando ou confiscando os bens dos idosos.  Verônica Bohm, profissional do Centro de Ciências Humanas e Educação, da Universidade de Caxias do Sul (UCS), analisou e elaborou em sua tese de pós-graduação – violência contra pessoas idosas: narrativas de agressores. Como é o ponto de vista dos agressores que cometem delitos, ou amedrontam pessoas da terceira idade. Em sua pesquisa exploratória, ela entrevistou um total de 8 pessoas, 5 mulheres e 3 homens, que cometeram algum tipo de violência contra pessoas com mais de 60 anos.

Ela exibiu seu trabalho em 03 de junho de 2016, onde apresentou que 90% dos entrevistados eram filhos destes idosos, que representam a média nacional 51,5%, seguido dos netos 8,25%, segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos (SDH). No seu estudo ficou esclarecido que os aspectos mais comuns para os maus-tratos contra pessoas mais velhas são baseados no consumo excessivo de drogas ilícitas ou de álcool, a presença do desemprego na rotina familiar, ou familiares que carregam as lembranças de terem sido vítimas de violência em outras fases das suas vidas.

A violência financeira foi citada em 12,4% dos registros feitos por Verônica. Item preocupante no atual cenário econômico brasileiro, onde as taxas de desemprego no ano de 2016 aumentaram 12%, em comparação com o ano anterior, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os idosos podem ser as únicas pessoas com renda fixa em inúmeras famílias. O que poderia ser um lugar de prestígio e poder, também pode colocá-los em condições vulneráveis quando em famílias desestruturadas.

A psicóloga Elisabeth Mazeron, professora da UniRitter, explica o quanto é difícil de romper esse ciclo sem a procura de uma ajuda profissional. “O ciclo de violência acaba se tornando quase uma regra. Principalmente em vítimas de violência na infância. Isso se torna uma marca profunda e acaba se tornando muito difícil de interromper sem o auxílio de muitas sessões de terapia”, afirma.

As situações de violência na infância, podem conduzir o adulto a reproduzir este tipo de comportamento com seus filhos, tornando-se um ciclo vicioso na família, por atravessar gerações.

O Centro de Referências às Vítimas de Violência (CRVV) recebe por mês na instituição quatro ocorrências, sendo que a cada 4 denúncias realizadas, 3 são de mulheres. Boa parte das acusações não possui prosseguimento por opção dos idosos, pois as denúncias atingem familiares próximos. Maria Valéria Carvalho Simões, assistente social do CRVV, destaca a questão de vulnerabilidade da mulher idosa e sua expectativa de vida maior: as mulheres lideram os rankings de pesquisa, até pela vulnerabilidade, e por existirem mais mulheres idosas do que homens.

ASILO PADRE CACIQUE: A VIDA RENASCE AOS 60

Em busca de oferecer um novo caminho para às vítimas de maus-tratos, oferecendo proteção, incluindo socialmente os idosos em atividades diárias, visando o estímulo de suas vidas sociais e emocionais, a instituição Asilo Padre Cacique acaba se tornando uma opção de recomeço. O Asilo Padre Cacique, é uma organização não governamental fundada em 19 de Junho de 1898, pelo padre baiano Joaquim Cacique de Barros. atualmente, abriga cerca de 150 idosos, sendo que em torno de 40% não possui algum vínculo familiar, e por esse motivo acabam gerando uma ligação afetiva com os funcionários e os voluntários da instituição.

A instituição disponibiliza atividades diárias de lazer ao idoso: cinemas, aula de informática, sala de jogos, baile dos idosos, e etc. Natália Chim, voluntária do asilo, destaca que os idosos se sentem felizes por estarem ali. “Eles voltam a se sentirem importantes. Encontram pessoas com histórias parecidas e acabam se identificando”, conclui. Para o ingresso na instituição precisa ser independente para as atividades da vida diária: alimentar-se sozinho, ir ao banheiro, conseguir se deslocar sem ajuda. Conseguir responder por si mesmo, não ter sido diagnosticado com Alzheimer ou com desvios psiquiátricos. Além, de possuir uma renda de um salário mínimo, precisa residir em Porto Alegre ou em cidades metropolitanas.

Durante a passagem entre os largos corredores do asilo, um senhor cabisbaixo, de braços cruzados, e sério (aparentando ter poucos amigos), chamou à atenção entre os demais. Seu Hermínio D’ Andrae, 93 anos, jornalista formado Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), responsável pelo informativo interno dos moradores, o Jornal Cacique, que circula a cada três meses na capital. Perguntado se gostava da instituição como morada, e se possui um bom convívio com os demais moradores, “Sim, tenho alguns amigos, mas prefiro escutar, tenho um ouvido carinhoso, e sim, gosto do tratamento que os voluntários tem conosco”, afirma.

Seu Hermínio é uma das histórias contadas no asilo que reconhece a entidade como um verdadeiro lar, tanto pelos serviços prestados, quanto pelo ambiente de convívio com os demais moradores.

De acordo com o IBGE, os números de idosos dobrou no contexto nacional, as pessoas com mais de 60 anos somam 23,5 milhões dos brasileiros, representando 12% da população no país, ao mesmo tempo, o número de crianças de até quatro anos no país caiu de 16,3 milhões, em 2000, para 13,3 milhões, em 2011, último ano que a pesquisa foi feita. A expectativa é de que a 30 anos haverá mais idosos nos meios demográficos, do que qualquer outro grupo populacional no país.

A fim de atender às demandas desta população, foram estruturadas nos últimos 30 anos instrumentos legais que garantem proteção social e ampliação de direitos às pessoas idosas, com o propósito de dar voz às vítimas que tiveram e têm seus direitos violados a Política Nacional do Idoso certifica em seu artigo 2°, direitos que garantem oportunidades para a prevenção da saúde física e mental, bem como seu aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social em condições de liberdade e dignidade. Facilitando as necessidades de uma sociedade cada vez mais preocupada com o respeito e a promoção dos direitos fundamentais da pessoa idosa no Brasil.

Asilo Padre Cacique abriga idosos na Capital

Crédito: Cainan Xavier

 

Sem direito de ir e vir na Capital

(Por Osmar Martins)

A sensação de insegurança é constante, e caminha ao lado da população porto alegrense, como se fosse sombra. O fenômeno da violência é tão abrangente, que quase não há como citar este ou aquele bairro, uma zona ou outra. O problema é geral. A mobilidade é afetada desde as simples mudanças de trajeto por medo, passa por contratações de serviço privado buscando segurança, restrições históricas de localidade, até áreas completamente dominadas por facções criminosas. O impacto macro ainda é incalculável, interferindo nos âmbitos social, econômico e psicológico. Somente em 2017, segundo levantamento de dados realizado pela Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP), já foram consumados e registrados, mais de 15 mil ocorrências entre furto e roubo, sendo 7021 furtos e 9552 como roubo.

O aumento da criminalidade nos últimos anos, fez Porto Alegre postular uma das cidades mais perigosas do mundo. Feito este, que nada agrada a população.

Impacto Social do Medo

Em entrevista realizada com Marcella Braga, 21 anos, estudante de medicina veterinária na Uniritter, a jovem conta alguns dos problemas que passa em relação a sua mobilidade na cidade, tanto pela violência por si, quanto pelo fato de ser mulher.

Abordando sobre o tamanho do impacto da violência em sua vida, Marcella diz “Afeta Bastante. Lugares como vilas, por exemplo, são conhecidos por serem violentas, evitamos isso naturalmente, cria esse impedimento, como se fosse um mapa mental, de onde podemos e não ir”, ainda, sobre a questão de ter que arcar com custos para se manter segura, a jovem afirma “Pagaria o dobro, o triplo, o que for, um trajeto pode custar a minha vida”, comenta também sobre a possibilidade que ela tem de pagar, refletindo acerca das pessoas que não tem a opção de contratar algum serviço de transporte e estão submissas a passar diariamente por estas situações.

Conversando sobre o assunto, verificamos com ela se existia algum local que deixava de ir por causa da violência. Marcella, então afirmou que, “De noite, sozinha, eu evito ir em qualquer lugar. Só ando na avenida que moro, jamais entro nas ruas de dentro. Nunca saio da minha zona.”, a estudante ainda salienta que não há outra razão que a impeça de fazer coisas e ir em lugares, senão o medo. Nunca foi falta de vontade, e, no caso dela, às vezes nem de dinheiro. Simplesmente insegurança.

A dimensão da violência vivida na região onde a estudante mora vem crescendo nos últimos anos, ela nos contou sobre um fato triste, mas curioso de seu bairro. Marcella diz que quando tinha 12 anos, brincava em uma rua sem saída não muito distante de sua casa, até quase 22 ou 23h da noite. Voltava sozinha todos os dias e praticamente não pensava nas consequências que isso poderia causar, visto que a criminalidade a 10 anos atrás era muito menor. Conclui afirmando que hoje, com 21 anos, não faz mais este trajeto de maneira alguma. Muito menos durante a noite.

Assim como muitas cidadãs de Porto Alegre, a estudante também sofre com o machismo e teme violência só de cruzar com algum homem na rua. Ao questionarmos a ela, sobre o que pensa ao ver um ou mais rapazes se aproximando, ela diz “Bate um desespero. A primeira coisa que vem em mente é procurar alguém, algum lugar aberto, algo que possa ajudar, caso o pior aconteça.”, ainda completa “Mesmo sabendo que provavelmente vamos ficar paradas e sofrer a violência, o pensamento é a possibilidade de socorro”, confirmando que a violência ataca até quando não há o ato consumado, as vezes o próprio subconsciente cria a situação de perigo, sem ela existir de fato, resultado do constante medo e insegurança que vivemos.

Em relato sobre o que sente ao andar na rua sozinha, Marcella conta “A sensação é de medo e raiva. Porque a gente se submete a alternativas por uma coisa que deveria ser natural,  poder andar nas ruas, sem pensar o que pode acontecer ou que horas são. O Estado deveria nos garantir segurança e o caráter das pessoas também”, a estudante ainda disserta sobre a questão social dos criminosos, que apesar de estarem nessa condição, muitas vezes são vítimas de um sistema falho,  sendo a consequência do problema e não a causa.

Efeitos pós-traumáticos da violência urbana 

Após ter sido assaltada pela manhã, no caminho de sua faculdade, onde foi agredida, Kátia Patuzzi, 44 anos, estudante de direito da PUCRS, conta que os impactos sofridos pelo trauma transcendem o âmbito social, passando pelo também pelo econômico e psicológico. Não só dela, mas de toda a sua família. Falando sobre as mudanças provocadas pelo trauma, Kátia ressalta “Hoje não consigo andar na rua de noite. Se vou na esquina, já fico me cuidando, olhando para os lados o tempo todo. Sofri um abalo psicológico muito forte. Desde o ocorrido, não consigo passar pelo local.”, ainda, sobre a mobilidade que está sendo abalada em sua vida, diz “Hoje vou de kombi e volto de ônibus da faculdade. No curso a noite, vou de ônibus e volto de Uber. Minha filha racha gasolina com as colegas. Todo esse orçamento é em decorrer da violência”, salientando também o impacto econômico causado pelo fenômeno.

A estudante de direito afirma que uma de suas professoras passa a mensagem de que o risco real, diário, é o de tomar um tiro, pois o assalto é praticamente corriqueiro. Ela ainda diz que assim como os trabalhadores saem todos os dias, os assaltantes também. Sobre o fato, Kátia aponta, “Hoje vejo que o perigo não está só na rua, mas também dentro dos meios de transporte. O medo está tomando conta, se você não foi assaltado ou alguém da sua família não foi, serão”, completando, enfatiza a questão de a violência ser ainda maior com pessoas do sexo feminino, “Acredito que as mulheres sejam muito mais afetadas do que os homens, pois eles partem do pressuposto de que elas não irão reagir”, evidenciando o fato de que o machismo está novamente presente nos “fundamentos” de nossa sociedade. De fato, homens se aproveitam da suposta fragilidade feminina, para abordarem alvos, teoricamente a mercê do crime.

Impacto Psicológico da violência

Para dimensionar com maior precisão o impacto psicológico provocado pela demasiada violência nas ruas de Porto Alegre, entrevistamos Iolaine Lagranha, formada em psicologia, ela é dona do Espaço ReConhecer, centro de valorização do indivíduo, localizado em Canoas. Conversamos com ela sobre o quê pode provocar a incidência deste fenômeno de andar na rua com medo, pânico, insegurança, entre outros sentimentos e sensações. Iolaine foi clara ao afirmar “A rotina do medo tem se tornado cada vez mais presente. Isso aumenta a demanda de tratamento para transtornos de pânico ou ansiedade generalizada, decorrente do estresse diário ou pós-traumático, podendo gerar diversas reações, dependendo do indivíduo”, avalia a psicóloga, observando que cada pessoa tem a sua resistência psicológica, podendo variar o impacto causado pela violência ou por traumas, de indivíduo para indivíduo.

Partindo dos relatos das mulheres entrevistadas nesta reportagem, onde assumem sentir medo, praticamente ao avistar um homem andando nas ruas, perguntamos a Iolaine se a incidência histórica de repressão do homem pela mulher, poderia causar, inconscientemente, uma associação entre a figura masculina e o temor, “Acredito que possa acontecer em gerações anteriores, hoje vejo que na medida em que a mulher toma seu espaço e direitos, elas se tornam mais seguras, não necessariamente associando o homem a figura de perigo”, completa apontando que a questão é muito complexa, pois apesar de ser um fenômeno atual, ele ainda permeia muitos contextos históricos do passado.

A visão da Polícia Civil sobre o problema

Com a finalidade de tentar mapear os pontos de maior incidência criminal em Porto Alegre e mapear os locais onde a mobilidade é mais ou menos afetada pela violência, buscamos o contato da Polícia Civil, pedindo a eles dados como mancha criminal e zonas de calor de violência, porém, recebemos a resposta de que esses dados não existiam. Em entrevista realizada com Eduardo Hartz, Diretor Regional de todas as delegacias distritais da Polícia Civil, o mesmo afirmou que sim, os dados existem, no entanto, são de acesso interno exclusivo, gerados pelo seu comitê de inteligência, para subsidiar as ações de planejamento da corporação.

Falando sobre a situação dos bairros como Restinga e outros, onde há conflito por zonas de domínio de facções criminosas, Hartz diz “Nós temos o mapeamento dessas facções e de suas lideranças. É importante ressaltar que hoje não há nenhum líder em liberdade. Todos são reconhecidos e identificados por nós ”, completa, informando que as prisões estão sendo realizadas, porém o coletivo criminoso renova os seus membros, de tempos em tempos, em um processo natural, já corriqueiro para os agentes da Polícia Civil.

Ainda sobre o tema dos grupos criminosos, abordamos com ele, o que indica a continuidade deste fenômeno, o  porque não conseguimos erradicar isto, invés de apenas tapar buracos. Hartz explica que não podemos diminuir o tema somente a um contexto policial. “Essa seria a última razão a ser utilizada, depois de todos os outros meios terem falhado, diz o Diretor, atribuiu também, possivelmente o contexto criminal, á uma falta macro da presença efetiva do Estado, em termos de educação, saúde, habitação, etc. Hartz diz que não acha que a situação social do indivíduo justifique o crime cometido, mas talvez explique, pois a criminalidade é a consequência de um problema maior de sociedade e não a causa.

Com o crescimento dos índices criminais de Porto Alegre nos últimos anos, onde, somente em 2017, foram registrados 503 homicídios e 3.317 roubos a veículo, segundo dados dispostos pela assessoria da Polícia Civil da capital. Abordamos com ele as possíveis mudanças estratégicas da corporação a partir da análise destes dados. Hartz afirma que hoje a Polícia Civil busca dar mais atenção a casos organizados, tenta investigar o mandante do crime, não o atuante, investigando quadrilhas e crimes com maior atuação coletiva. A Polícia Militar é quem é responsável pelo policiamento das ruas, pela atuação direta na repressão ao agressor, na qual buscamos o contato e não obtivemos resposta.

Abordando sobre o foco principal das operações, se seriam em erradicar os crimes patrimoniais ou o tráfico de drogas, Hartz diz “O roubo, apesar de gerar mortes, principalmente para inocentes, é a partir de um ato reflexivo. O tráfico utiliza da violência como instrumento de ação, com tomadas de ponto, assassinatos cruéis para servir de exemplo, decapitações, etc. Portanto, há maior enfoque onde há mais violência”, completa o Diretor, informando também, que hoje a Polícia Civil atua com poucos efetivos. Há 30 anos atrás, quando o estado tinha cerca de sete milhões de habitantes, quase metade do que temos hoje, trabalhavam com mais homens do que atualmente. O que dificulta ainda mais ação dos agentes. Além problema de superlotação do sistema carcerário, que segundo Hartz, não consegue cumprir a sua função dúbia, de não só punir o apenado, mas também ressocializá-lo, para que volte para a sociedade com condições.

Por último, falamos com Diretor sobre o famoso fenômeno do “prende-solta”, onde o suspeito é preso, ás vezes até mesmo em flagrante e depois de alguns dias, ele é liberado pela justiça. O diretor afirma que há uma série de análises subjetivas feitas pelo juiz, com o amparo da lei, para delegar ou não a prisão ao indivíduo. E que nestas análises, acredita ele, entram diversos fatores, como a comparação entre o crime cometido e a pena a ser dada nas condições atuais e indignas de nosso presídio, a incidência do crime, o perigo que o apenado representa ou não a sociedade, entre outros. Hartz diz também que acredita que seja difícil de separar essas questões do julgamento, esquecer estas informações na hora de definir o destino de pessoas é complicado, pois realmente os agravantes da superlotação e condições estruturais do presídio, são difíceis de passarem despercebidos.

Para onde pode caminhar Porto Alegre?

A violência é um fenômeno extremamente amplo e que afeta diversos fatores em nossas vidas, entre eles, a mobilidade, e consequentemente, pela complexidade do problema, é também a sua solução. A criminalidade fere diferentes âmbitos da sociedade, assim como é consequência de muitos deles. Existem motivos sociais, econômicos e psicológicos que geram, lucram e repreendem seus atuantes. Se quisermos acabar com isso de fato, teremos que mudar como sociedade, culturalmente, com educação, estrutura e reformulação. Como dito no início deste texto, é um problema geral, de toda a sociedade gaúcha.

 

Confira trechos da entrevista de delegado à reportagem

Foto: Kátia foi espancada em assalto a caminho da faculdade. Fonte: arquivo pessoal

 

 

O silencioso grito pelo direito de (sobre)viver

(Por Matheus Closs)

Passava das 21 horas do dia 18 de março deste ano. Rodrigo da Silva Veloso, também conhecido como Pelezinho, se posicionava em uma sinaleira próxima a usina do gasômetro. Feliz com a vitória do Internacional, que acabara de bater o São Paulo de Rio Grande, não titubeou ao vestir sua camisa vermelha para trabalhar. Rodrigo vendia jornal. Ao oferecer o jornal a um ônibus de linha que passava no local, teve um exemplar roubado. Rodrigo seguiu vendendo. Pelo menos até outro ônibus passar. Desta vez, um ônibus de torcedores, que repetiu o ato do primeiro. Rodrigo enfureceu-se e atirou uma pequena pedra no veículo. Mesmo sem estragos o ônibus parou, e com ele, um grande número de torcedores portando pedaços de madeira correram em direção ao vendedor de jornal. Rodrigo foi brutalmente espancado e, após uma semana em coma no hospital, morreu. Rodrigo morava nas ruas.

O assassinato de Pelezinho, presenciado por testemunhas e registrado em câmeras de segurança, não ganhou manchetes em grandes veículos, tampouco foi lamentado pela sociedade. O morador de rua em Porto Alegre vive esquecido entre o sucateamento dos serviços de assistência social e a banalidade da situação em que se encontra.

Nos últimos 5 anos, a população de rua em Porto Alegre aumentou em 56%, segundo estudo quanti-qualitativo de 2016 realizado através do Contrato entre Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC) e UFRGS. São 2.115 adultos em situação de rua – embora o Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) afirme que são entre 5 mil e 6 mil. Números altos que passam longe de serem devidamente assistidos.

Durante o dia, a Capital dispõe do Serviço Especializado de Atendimento à População Adulta em Situação de rua – ou CentroPop, com 60 metas de atendimento divididas entre manhã e tarde. Seguindo o Plano Plurianual de Assistência Social de 2014-2017 da FASC, em 2013 foi aberto um segundo CentroPop com 160 metas por dia, com prioridade para a terceira idade, mulheres e deficientes. São apenas cerca de 10% dos moradores de rua alcançados diariamente por estes serviços.

À noite, Porto Alegre conta com cerca de 350 vagas permanentes em três abrigos – um municipal e dois conveniados – e ainda há a possibilidade de abertura de 90 vagas para o inverno, segundo a FASC. Adotando o número levantado pela Fundação – cerca de 2 mil moradores de rua – aproximadamente 80% da população não conseguiria abrigo no inverno.

Os problemas no atendimento aos moradores de rua não são apontados somente por eles. Veridiana Machado, educadora social da FASC há 15 anos, reclama da falta de recursos básicos como papel higiênico e produtos de lavanderia. Segundo ela, além da precarização dos serviços, não há recursos financeiros suficientes, impossibilitando a oferta de vale-transporte e vale-refeição para a população de rua. Até postos importantes como vigilantes e porteiros estão escassos. “Trabalhadores terceirizados estão sempre com salários atrasados, agora sumiram do nosso local de trabalho porque não estão recebendo”, diz.

Ainda que as vagas fossem suficientes, o serviço prestado não atrai os moradores. De acordo com o estudo da FASC, dos 328 moradores de rua que responderam o porquê de não frequentarem os albergues e abrigos, 21,2% alegaram a rigidez das regras, enquanto 15,6% apontaram a forma de tratamento dos administradores e a hostilidade interna – como casos de roubo e racismo. Procurada, a FASC não se pronunciou sobre a situação.

Mortes na Capital

A população de rua não é apenas violentada pela falta de políticas públicas, nos primeiros cinco meses de 2017, além de Pelezinho, são pelo menos outros seis assassinatos. No caso de Pelezinho, as imagens do local que poderiam ajudar na identificação do ônibus, não foram divulgadas. O Diretor da Divisão de Homicídios da Polícia Civil, delegado Paulo Grillo, explica que cada caso recebe uma estratégia diferente de investigação, independentemente do perfil da vítima.

Dos sete homicídios, pelo menos quatro possuem fortes suspeitas de que a motivação seja o envolvimento com o tráfico de drogas, o que demonstra a vulnerabilidade da população frente ao consumo de entorpecentes. O estudo quanti-qualitativo da FASC ainda aponta que 24% dos moradores de rua que participaram da pesquisa afirmaram serem usuários de drogas.

Outro aspecto comum, porém, aos sete assassinatos: todas essas vítimas tiveram seus perfis limitados a condição de moradores de rua. “Quando um menino de classe média é assassinado se fala nos sonhos, onde ele estudava, na dor dos pais. Mas quando morre um morador de rua, é simplesmente um morador de rua. Como se todos fossem drogados, bandidos”, diz Rosina Campos, uma das fundadoras da Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação (ALICE), responsável pela produção do jornal Boca de Rua.

A intolerância frente à essa população também é replicada pela sociedade civil. Por terem outra dinâmica de vida, que foge da nossa realidade capitalista, são alvos fadados ao preconceito. “Julgam (os moradores) pelo perfil, pelos padrões de beleza. Eles se negam a viver no mundo do jeito que ele é”, analisa Veridiana.

Boca de Rua e resistência

Há 16 anos nascia um jornal em Porto Alegre produzido por moradores de rua. Desenvolvido pela ALICE, o Boca de Rua surge como instrumento de voz e de trabalho, com reportagens e matérias produzidas inteiramente pela população das ruas com auxílio de voluntários. Em todas as edições – trimestrais – é realizada uma reunião de pauta na Escola Porto Alegre (EPA), lugar que atualmente abriga o projeto. A partir das sugestões deles são definidas as pautas e posteriormente a temática da edição. Após a organização em pequenos grupos, feita pelos próprios moradores de rua, as matérias são construídas. Após impresso, todas às terças-feiras eles voltam a se reunir na EPA e cada um dos 35 moradores que hoje constroem o Boca, retiram sua cota de jornais a serem vendidos.

O jornal que Pelezinho vendia no momento que sentenciaria sua morte era o Boca de Rua. Enquanto exercia sua profissão, Pelezinho não imaginava que seria motivo de matéria na edição seguinte. Colega de Rodrigo no jornal, Edson José Souza Campos, 32 anos, foi uma das primeiras pessoas a socorrê-lo e, assim como Pelezinho, também sente na pele a violência como impedimento para exercer sua liberdade “A gente está sendo espancado, não podendo mais ficar nas praças. Tu vive na rua e não pode ficar sentado numa praça? Os que tem que dar segurança para nós, são os que estão espancando a gente”, diz.

Os recorrentes casos de violência que, segundo Edson “aumentaram muito em 2017”, são notados em alguns pontos da cidade. Barracos queimados deixaram manchas nas paredes em locais como no bairro Partenon. A presença de moradores de rua em parques como o da Redenção tem sido “evitada” pela Brigada Militar, que frequentemente os expulsam destes locais com certa hostilidade. Este cenário impulsionou a união do Boca de Rua com o MNPR para que a voz dessa população ganhasse, ao menos, um espaço de debate perante à sociedade. A edição trimestral de abril, maio e junho do Boca de Rua “Luto e Luta” serviu como relatório em reunião na Assembleia Legislativa. A partir dela, os deputados da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos votaram a favor da realização de audiência pública, ocorrida em 24 de maio.

O problema é dos moradores de rua, mas não somente deles. É preciso compreender estes, como cidadãos iguais a qualquer outro, com os mesmos direitos e deveres. “Eles são parte da sociedade simplesmente. O problema é transformá-los em um problema, assim como o prefeito de Porto Alegre que quer tirá-los das ruas compulsoriamente” diz Ivaldo Gehlen, professor do Departamento de Sociologia da UFRGS.

Os motivos que levam pessoas a viverem nas ruas passam em sua maioria – de acordo com a pesquisa da UFRGS/FASC – pelo uso de drogas/alcoolismo, problemas com a família e desemprego. Para evitar o aumento dessa população, o município deveria agir nestas áreas. Para os que já estão nas ruas, não existem políticas de médio e longo prazo para retirá-los dessa condição.

Apesar do alcance pequeno, não suficiente para atender parte majoritária da população de rua, o Boca de Rua serve ao menos de exemplo como projeto que convida os moradores de rua a voltar ao convívio social e a resgatar sua autoimagem. “O Boca levanta até a autoestima do cara, a gente conhece e conversa com muita gente, com médicos, estudantes. Não é algo que nos deixa perdido”, conta Fábio Rodrigues, 40 anos – há quase 10 anos vivendo nas ruas e participando do jornal.

Não há fórmula para acabar com a violência. Mas quando se trata de uma minoria devemos partir da superação do preconceito. “A solução é que eles sejam tratados como todos nós somos, isso diminuiria a discriminação – e a violência”, analisa Gehlen. As discussões não podem permanecer apenas em gabinetes. É preciso ouvir a população de rua.

Foto: Matheus Closs

 

Um estupro a cada 11 minutos

(Por Andreza Ferraz)

Débora se lembra de cinco estupros. Desde os oito anos, ela sofre o abandono da família, Estado, amigos e colegas. O seu caso não é raro. Segundo as estatísticas recolhidas pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), a cada 11 minutos uma mulher é estuprada neste país. São 130 mulheres estupradas todos os dias. Esses são dados subnotificados, porque as pesquisas mostram que apenas 10% das mulheres violentadas e estupradas têm coragem de denunciar. Outro dado: apenas 35% das mulheres que apanham dos seus companheiros têm coragem de delatar. E os números não param por aí: 70% dessas vítimas de estupro são crianças e adolescentes, mais de 80% do sexo feminino. Mulheres de diferentes classes e raças são violentadas, embora as negras sejam as principais vítimas letais. A música ‘’Maria, Maria’’ de Milton Nascimento, que em um trecho diz: ‘’De uma gente que ri, quando deve chorar, e não vive, apenas aguenta’’, traduz a história de vida de Débora. Aos oito anos, a menina foi morar sozinha nas ruas do centro de Porto Alegre por um motivo comum quando ocorre abuso sexual dentro de casa: sua mãe não acreditou que o seu companheiro abusava da filha. Então a expulsou de casa. De lá para cá, Débora foi vítima de estupro por mais quatro vezes durante toda a sua vida. O último foi aos dezenove anos quando aceitou uma carona de moto. Com quinze anos descobriu que era portadora de HIV, por conta dos abusos sofridos, pois não havia nascido com a doença. Mesmo sendo muito nova, a vítima tinha consciência de que ser tocada por um homem mais velho estava errado. Ela não entendia o motivo para ele estar fazendo aquilo com ela. Milhares de mulheres não denunciam os seus agressores por medo. Esse é o sentimento que acompanha as vítimas dia e noite, sem parar. Por se sentirem envergonhadas, culpadas e muito abaladas psicologicamente, elas acabam não prestando queixa na polícia. Em 2012, foram 1.437 casos de estupro no Rio Grande do Sul, segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP). Em 2013, foram 1.424 casos; em 2014, foram 1.373; em 2015, foram 1.432; em 2016, foram 1.472; e durante janeiro, fevereiro e março de 2017, foram 341 casos de estupros registrados em delegacias. No seu cotidiano era possível enxergar, naturalmente, o lado indesejável da vida. Sua casa era cercada de pessoas desconhecidas, drogas e mortes. Não era necessário abrir a porta de casa para ser vítima desse ciclo que cerca a sociedade. A mãe de Débora já havia sido abusada durante sua infância, e anos depois, sua filha passou pelo mesmo trauma. Mas Débora não atribui esses fatos a alguma falta de cuidado ou irresponsabilidade da sua base familiar. Acha que foi azar do destino, infelicidade. A assistente social Larissa Ferreira, atualmente funcionária educadora social num Abrigo Residencial, fala sobre a sua experiência em trabalhar no Hospital de Clínicas de Porto Alegre no setor de Violência sexual contra Criança e Adolescente. Para a assistente social, geralmente, ou quase sempre, as famílias não conseguem cuidar das vítimas e acabam expondo-as para a situação mais grave, o abuso sexual. A violência sexual é cometida por pessoas próximas às crianças e adolescentes. Depois de ter passado por tantas experiências ruins, Débora se entregou às drogas. Começou a usar crack para fugir dos problemas que a cercavam 24h por dia. Vendeu os móveis da casa, brigava com os familiares, não conseguia cuidar dos filhos, passou fome e não aguentava a sequência de tratamentos em hospitais. Por último, ficou hospitalizada no Hospital Mãe de Deus por 28 dias. Hoje, com 28 anos, Débora é mãe de quatro filhos. Está saudável e esperançosa. Dois filhos moram com famílias diferentes e os outros dois vivem com ela. Confira trechos da entrevista de Débora à reportagem.

“É por nada que as coisas estão acontecendo hoje em dia”, desabafa vítima

Unipautas – Se acontecesse hoje, tu denunciarias na delegacia da mulher?

Débora – Sim. Hoje existe muita coisa, hoje é diferente. Eu assisto muita televisão, presto bem mais atenção nas coisas. Hoje talvez eu arrancasse o cabelo do estuprador para ter uma chance de fazer DNA. Arranharia, para pelo menos ter uma chance de saber quem é a pessoa. Hoje eu também conversaria com ele. Pediria para não me matar, porque eu tenho família, e para usar camisinha, porque eu tenho medo.

Unipautas – Desde o primeiro abuso, até o último, o que mudou na tua vida? Qual foi a experiência adquirida com este trauma?

Débora – Eu me tornei uma pessoa melhor. Eu não sou uma pessoa ruim, eu não sou uma pessoa má, mas poderia ser. Se precisar tirar a roupa do corpo para ajudar alguém, eu tiro. Todo mundo gosta de mim, mas eu não me misturo com ninguém porque tenho medo. Eu só vou a festas com o meu marido, porque tenho medo de alguém fazer alguma coisa contra mim. Eu só não quis ter a vida que a minha mãe levou… Eu fui tentar levar a vida que ela levou, a vida do lado ruim, mas consegui reverter para o lado do bem.

Unipautas – O que tu deseja para os estupradores?

Débora – Eu queria que existisse pena de morte. Às vezes, o juiz não tem certeza se ele cometeu o crime, libera e ele faz de novo. Mas ninguém sabe a dor que a pessoa está passando e a família. Se um dia a minha filha me contar que algo de errado aconteceu com ela, eu vou acreditar nela. Diferente da minha mãe, que não acreditou em mim. Se depender de mim, a pessoa vai presa.

Unipautas – Hoje tendo filhos, o cuidado é redobrado para que esse ciclo de traumas não se repita na sua família?

Débora – Claro. Eu morro de medo que façam alguma coisa para a minha filha, e protejo ela demais. Quando ela crescer, de repente possa achar que eu a sufoquei demais, mas vai entender quando eu explicar como a vida funciona. Quando o meu filho for ter a primeira relação, eu vou dizer para ele usar camisinha, para não ter a mesma doença que a mãe dele tem. Eu não quero que os meus filhos passem o que eu passei.

Unipautas – Se tu pudesses deixar uma mensagem de alerta para as pessoas que vão ler essa entrevista, qual seria?

Débora – Tomar cuidado pelas ruas, não andar pela escuridão. Esse negócio de internet… Não marcar encontro com ninguém. Não tenho muito o que dizer, porque, às vezes nem dá tempo de nada. É por nada que as coisas estão acontecendo hoje em dia.

Unipautas – Qual é a vida que tu desejas seguir daqui pra frente? Objetivos, sonhos, amor, família.

Débora – O meu sonho já vai ser realizado daqui a pouco: é que o meu marido saia da cadeia, e que eu não use mais drogas. O meu objetivo é conquistar tudo que eu perdi há um mês (bens materiais e dignidade). Dar o melhor que eu puder para os meus filhos, ajudar o meu irmão, meu pai.

 

Feminicídio em alta no RS

(Por Nathalia Kerkhoven)

A cada quatro dias uma mulher é assassinada no Rio Grande do Sul pela condição de ser mulher. As motivações do feminicídio são, geralmente, o ódio, desprezo ou o sentimento de perda do controle e da propriedade sobre as mulheres. Comuns em sociedades marcadas pela associação de papéis de discriminação ao sexo feminino, como no Brasil, ocorrem em grande parte na intimidade dos relacionamentos.

Precedido por outras formas de violência, como abusos físicos e psicológicos, o feminicídio é a última fase do ciclo de violência contra a mulher. Ele visa submeter as mulheres a uma lógica de dominação masculina e um padrão cultural que a subordina. Aprendido ao longo de gerações, o impacto do crime é silenciado. Praticado sem distinção de lugar, cultura, raça ou classe.

Para Beatriz Lobo, professora de psicologia na Uniritter, apesar de o abuso psicológico ser algo muito intenso, é difícil para as mulheres o identificarem, fator que intensifica essa violência com o tempo. No Brasil, segundo o Mapa da Violência 2015 (Flacso/ONU Mulheres), de 2003 a 2013, o número de feminicídios cresceu 21%, de 3.937 para 4.762 (registrados). Em média, são 13 feminicídios por dia.

A Lei n°11.340 de 2006, que cria meios de controlar a violência doméstica e familiar contra a mulher nos termos do 8º artigo 226 da Constituição Federal (…); delibera a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras providências. Anteriormente, o artigo 121 do Código Penal trazia como situação de qualificação o crime de morte por “motivo fútil” ou por “motivo torpe”.

Além da lei implementada em 2006, a Lei n° 13.104 de 2015 altera o artigo 121 do Código Penal de 1940, que prevê o feminicídio como circunstância qualificadora de homicídio, e o artigo 1.º da Lei n° 8.072, de 25 de julho de 1990, para incluir o feminicídio no rol dos crimes hediondos.

No mesmo ano de implementação da lei, o Brasil ocupava o 5º lugar no mapa mundial da violência contra a mulher, em um ranking de 83 nações. Dois anos após a criação da lei, o feminicídio ainda esbarra no machismo enraizado.

Mestranda em ciência política do Núcleo Indisciplinar de Estudos sobre Mulher e Gênero (NIEM – UFRGS), Florencia Guarch, acredita que o Brasil compõe a lista por conta de uma negligência do Estado que não age efetivamente ou não tem políticas públicas reais para as mulheres. “A lei vem em função de um constrangimento internacional sofrido pelo Brasil. Depois de tudo que a Maria da Penha sofreu, de ter que recorrer a uma côrte internacional, só assim o Brasil se vê pressionado a tomar alguma medida. Eu acho que existe uma negligência, mas também fatos históricos da própria construção social, das sociedades da América Latina como um todo”, completa.

Feminicídio de Mulheres Negras

Nos últimos dez anos, o feminicídio de mulheres negras aumentou 54%. Por isso, a efetividade das políticas públicas depende do reconhecimento da diversidade do público-alvo. No caso do enfrentamento da violência de gênero é preciso perceber que raça, classe social e orientação sexual não são meras diferenças entre as mulheres, mas elementos que facilitam ou dificultam o acesso à rede de serviços e proteção estatal, como revela a Secretaria da Segurança Pública em (http://www.spm.gov.br/central-de-conteudos/publicacoes/2016/livro-diretrizes-nacionais-femenicidios-versao-web.pdf).

Lívia acredita que nesses casos precisamos, inicialmente, analisar a relação da população negra com as autoridades policiais. “A juventude negra morre em razão da violência estatal. Com isso em vista, não podemos esperar que as mulheres negras, que têm trajetórias muito diversas das mulheres brancas, procurem a polícia quando são vítimas de violência. O debate sobre violência de gênero precisa contemplar a diversidade”, conclui.

As mulheres negras têm, em geral, condição social e escolaridade mais baixas.  Pela falta de acesso à justiça, ou a quem recorrer, elas acabam vulnerabilizadas.

 Ações da Justiça

Em 2016, 96 mulheres foram vítimas de feminicídio no RS. Em 29% dos casos, a justiça já havia decretado medida protetiva. A juíza Traudi Grabin, coordenadora da violência doméstica e familiar no estado, conta que a justiça está trabalhando em um aplicativo, já que na prática, a medida protetiva não é totalmente eficaz.  “PLP: Promotora Legal Popular. No sentido de ser mais um instrumento que a mulher pode usar além das medidas protetivas que já são dadas pelos juízes. Então ela passa a ter um contato direto com o 190 da Brigada Militar e tem também um atendimento prioritário, assim como são atendidos roubos, latrocínios e sequestros”. O aplicativo PLP está em andamento desde junho de 2016 como projeto piloto.

Atualmente, ele atende apenas um bairro de Porto Alegre, mas a intenção é estender para toda a cidade. O problema é que para isso, a justiça depende da Secretaria de Segurança Pública e do trabalho da Brigada Militar, porque o aplicativo não é suficiente se a BM não tiver condições de ir até o local atender a vítima. A proposta também deve chegar aos nove juizados especializados do estado.

Quando questionada sobre o que poderia acelerar o processo de proteção, já que muitas mulheres são vítimas do crime enquanto aguardam a medida protetiva, a juíza diz que o crime pode acontecer assim que a mulher faz o pedido e sai da delegacia, já que a violência foge do nosso controle.

Crime Passional: Amor mata?

Apesar de ser reformado e modificado, o código penal do país é antigo, dos anos 40. Isso faz com que o crime, muitas vezes, seja tratado como “homicídio com agravante e violenta emoção”, o que não dá a real dimensão do que aconteceu.

Para Lívia de Souza, pesquisadora no Núcleo de Estudos e Pesquisa Sobre a Mulher (NEPEM – UFMG), a Lei do feminicídio tem extrema importância para que homens que matam mulheres não sejam beneficiados por argumentos como “defesa de honra” ou crime motivado por “violenta emoção”. A criação de um tipo penal específico se dá, principalmente, para tirar crimes como o da invisibilidade. “O crime de feminicídio não visa o aumento da punição, mas a criação de um marco legal que reconhece a violência contra a mulher como crime de ódio”, aponta.

 A visão da Psicologia

A psicoterapia de apoio é a principal forma de ajuda que a psicologia encontra quando a mulher espera pela medida protetiva. Para que seja efetivo, é preciso que a mulher perceba que enfrenta um problema. Geralmente a violência desencadeia uma situação traumática e isso pode gerar uma série de transtornos emocionais.

Beatriz acredita que a psicologia tem uma importante função, mas que também é preciso criar redes de apoio para essas mulheres. Tendo trabalhado com uma ONG onde as mulheres podiam ficar um tempo com seus filhos até que conseguissem se organizar, ela vê a iniciativa como algo muito importante, porque resolve uma questão prática, que às vezes a psicologia não tem como dar conta, mas acredita que tudo deve começar na infância.

“Tudo começa quando as crianças são pequenas. Então eu penso que em questões mínimas como, se a menina tem que tirar o prato da mesa, porque o menino não pode também? Eu lembro que quando eu era criança, eu sempre ia na casa da minha tia, ela tinha um filho e eu sempre tinha que tirar o prato da mesa e ele não, eu ficava revoltada com aquilo.”, Beatriz relembra um fato de sua infância e de muitas outras meninas e completa: “No momento em que ensinamos aos meninos que não é legal puxar o cabelo das meninas, que não pode bater e ensinamos às meninas que, quando isso acontece e alguém diz que “é porque ele gosta de ti”, isso não é demonstração de amor (…)”, conclui.

 “Agora ou na hora de nossa morte”

“Degolada com uma serra” é o título de um dos 20 relatos da exposição “Agora ou na hora de nossa morte”, localizada no Palácio da Justiça, no Centro Histórico de Porto Alegre. No local, os relatos estão colocados em painéis dispostos em um varal ao lado de sutiãs pretos, que simbolizam a morte de mulheres vítimas de maridos e companheiros.

Junto da exposição, é possível ouvir relatos de vítimas de violência doméstica que sobreviveram às agressões. Também estão expostos números desse tipo de crime no estado e um mural que convida os visitantes a sugerirem uma solução para o problema.

 Jovens, mulheres e mídia: como se posicionar?

Em uma geração de jovens tão engajados em questões sociais, é difícil compreender que os números de feminicídios, sigam crescendo. Beatriz vê a resposta na micropolítica e ressalta a importância de falar sobre o assunto nas rodas de amigos. “Precisamos falar disso. As pessoas precisam ir a debates e conversas. As redes sociais também tem uma função muito importante” e completa dizendo que precisamos de ações que coloquem o assunto em pauta.

Florencia também acredita que as redes sociais e a internet, de modo geral, sejam uma boa ferramenta para as novas gerações. “Essa geração de mulheres, da minha em diante, tem informações que as mulheres de antes não tinham e a gente pode ter que questionar a veracidade dessas informações, mas saber que tem isso é muito importante”, diz.

Lívia vê nos debates a solução: “Precisamos falar que assédio não é brincadeira, que as mulheres têm o direito de passar por um grupo de homens sem escutar algum comentário ofensivo, que as mulheres devem ter as mesmas oportunidades ofertadas aos homens, que o dever do cuidado da casa e dos filhos não é exclusivo das mulheres”, afirma.

Sobre a participação da mídia, as três têm visões muito claras sobre sua importância. “A mídia precisa ir além do discurso raso sobre igualdade de gênero e feminismo, é preciso que seus produtos culturais e práticas institucionais reflitam o discurso”, diz Lívia.

Florencia vê a importância de que todos os casos sejam noticiados e que não devemos fazer com que isso se torne comum, quebrando o tabu de que a mulher é agredida porque mereceu. “Vamos deixar de achar razões para justificar a violência e vamos começar a dar os nomes. Acho que a mídia tem esse poder essencial, de dar voz à esses movimentos e as demandas que muitas vezes ficam caladas e marginalizadas”.

Finalizando o debate, Beatriz concorda que precisamos dar os devidos nomes a cada coisa, porque assim, podemos ver diferenças até no processamento da informação. “A mídia devia ter um papel de mostrar o que está acontecendo. Porque as pessoas veem na televisão e acham que é normal. Existem muitas questões de manipulação da informação e no momento em que não se dá os nomes exatos, essa informação não está sendo clara“, conclui.

A certeza que envolve esse debate é que as mulheres não podem ser caladas. Enquanto a opressão ocorrer pela única condição de serem mulheres, as políticas públicas brasileiras não serão suficientes para punir os criminosos que veem na violência o resultado do poder que pensam poder exercer sobre elas.

Foto: Leonardo Ferreira

Violência a 60 quadros por segundo

(Por Bruno Raupp)

A violência é brutal no Brasil e o nosso cinema tem banalizado este problema em detrimento do sucesso comercial e renome mundial. A ferocidade presente no dia a dia e a selvageria que assola o cidadão brasileiro não deve ser vendida como um mero produto de entretenimento e, muito menos, transformada em um padrão a ser imitado copiosamente pelos estúdios tupiniquins.

O cinema, desde seu primórdio, tem o poder de contar histórias reais e debater temas recorrentes da sociedade. Com o amadurecimento da chamada sétima arte, os assuntos debatidos em tela tornaram-se mais viscerais e expositivos. Portanto, a exportação da estética da violência deve ser vista com maus olhos, pois subjuga o gênero de forma tendenciosa e falha na busca por um diálogo real e necessário.

A violência é um tópico presente em qualquer forma de arte. Da literatura ao teatro, ela é um tema central para entender e debater as construções sociais que ocorrem atualmente. O cinema, como ferramenta de debate, auxiliou e auxilia nesse entrave, pois possui a habilidade de contextualizar um determinado tipo de violência – como filmes de guerra, e entregar às grandes massas, gerando debate e criando uma reflexão em seu público.

Entretanto, a possibilidade de acender uma discussão sobre determinado assunto deve ser tratada com proeza e cautela. Ao analisar o cinema nacional atual, a violência é um assunto recorrente entre as produções cinematográficas. Desta prerrogativa surge uma questão importante: o cinema brasileiro debate a violência como um problema intrínseco na sociedade ou reproduz uma estética criada com o intuito de lucro na bilheteria?

Essa pergunta tem severa importância na criação de uma visão crítica em relação às produções nacionais. Um dos expoentes do cinema brasileiro em trazer a violência para as salas de cinema é o filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. Lançado em 2002, a obra captura, através de sua narrativa, a violência do tráfico nas favelas e a violência causada pelas diferenças entre classes sociais.

Por mais que outros filmes já tivessem debatido a violência urbana – Central do Brasil, de Walter Salles, de forma mais contida e Pixote, a Lei do Mais Fraco, de Héctor Babenco, de forma mais explícita, foi Cidade de Deus que alcançou tanto sucesso de crítica quanto de público, gerando uma alta receita e disputando variados prêmios de renome internacional.

Com o lançamento de Tropa de Elite, de José Padilha, em 2007, essa estética catapultada por Cidade de Deus ganhou ainda mais força. Tropa de Elite reforçou temas como a violência enraizada nas instituições e a tensa realidade das favelas do Rio de Janeiro.

O filme também fez um estrondoso sucesso nas bilheterias nacionais – levando a produção de uma sequência lançada em 2010 – e disputou inúmeros festivais. Mas, ao analisar uma década após o seu lançamento, o cinema nacional foi inundado por filmes com temáticas similares, mas que falham em debater a violência como problema social, criando apenas um produto que busca o entretenimento e lucro com um viés violento.

Para o Professor do Departamento de Sociologia da UFRGS, Alex Niche Teixeira, a discussão sobre a violência no cinema se estende ao escopo político e seu atual estado de polarização. “A possibilidade de discussão do sistema como um todo ficou para o segundo Tropa de Elite e exige um tipo enquadramento que tem sido equivocadamente rotulado como de esquerda e com isso, vinculado ao porta vozes desta abordagem nos espaços políticos partidários como aqueles com envolvimento com o petismo e a defesa de vagabundo”, comenta o professor. Esta polarização acaba por influenciar negativamente nas produções cinematográficas, pois pode haver boicotes por parte do público, dependendo de como o tema é retratado e debatido.

Em 2015, foi lançado o filme Operações Especiais, de Tomás Portella, protagonizado por Cléo Pires. Cléo, na película, representa uma policial honesta que deve sobreviver a um sistema corrupto. Essa premissa possui dois pontos interessantes de se debater. Por um lado, o papel principal de um filme policial pertencer a uma mulher é um saldo positivo, pois instituições como a polícia são notoriamente conhecidas pela sua hierarquia sexista e misógina. Porém, ao debater a violência de forma maniqueísta, a obra abandona sua função de ferramenta de argumentação e acaba perdendo seu posto de legitimar causas sociais que sofrem com os mais diversos tipo de violência, o que acaba gerando estereótipos e falácias que prejudicam a narrativa cinematográfica e o cinema nacional no geral.

Segundo o Professor do Departamento de Antropologia da UFRGS, Marcelo Tadvald:

“Tanto o cinema quanto outras mídias, tendem a reforçar ou fortalecer padrões disponíveis na sociedade, e isto vale para linguagem, comportamento, moda, assim por diante. Justamente tal aspecto caracteriza e potencializa o papel do cinema como ferramenta de discussão e transformação social de forma especial, pois ele convoca o grande público ao debate sobre questões sociais e artísticas prementes. O cinema se constitui assim em um verdadeiro panóptico do social.”

Outro problema que decorre, é o fato de que filmes com este tipo de abordagem tornem-se um padrão estabelecido de sucesso comercial. Desta forma, outros projetos e debates acabam não recebendo atenção suficiente da grande mídia e, muitas vezes, sequer chegam às salas de cinema, alcançando apenas pequenos circuitos e festivais.

“O fato é que vivemos em um país violento. Não faltam manchetes de jornais e programas sensacionalistas de televisão descrevendo crimes brutais, mas normalmente, quando essas histórias não tratam sobre tráfico de drogas, elas nem são contadas no cinema”, criticou o cineasta Lucas Reis, em relação à falta de diversidade quando o tema debatido é a violência.

Isso afeta diretamente a produção nacional e o movimento cinematográfico. O cinema brasileiro já possui a comédia como um padrão atual, com dezenas de filmes que reproduzem uma mesma fórmula e acabam excluindo novos tipos de abordagens de gênero.

Todavia, nos últimos dois anos, uma nova cena vem ganhando forças com filmes como Aquarius, de Kleber Mendonça Filho e Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert. Isso demonstra uma nova etapa para o cinema nacional, pois ambos filmes debatem diferentes problemas sociais com abordagens inusitadas para as produções brasileiras.

Debater a violência é importante para compreender os fenômenos sociais com maior espectro, entretanto, o modo como esta discussão tem sido colocada em debate deve ser revisto. A mera reprodução de falácias ou a imitação unidimensional dos entraves relacionados à violência que emergem da sociedade acabam por não gerar reflexão alguma.

O cinema é uma poderosa ferramenta de argumentação. A sua capacidade de inspirar e envolver o espectador ao ponto gerar um raciocínio deve ser mantida como seu principal objetivo, pois a sétima arte é um ponto de partida para que visões e pensamentos mudem para melhor, contanto que esteja no caminho certo.

A história do cinema brasileiro

Gráfico (Bruno Raupp)

Foto da matéria divulgação (Alexandre Lima)

Menos ciclovia, mais violência

(Por Richard Masiero)

‘’Quebrei a clavícula. Um pedestre cortou meu caminho na ciclovia da José [do Patrocínio], e como tem carros estacionados, não deu para desviar direito. Bati no retrovisor de um carro e fui ao chão.’’ Esse é o relato de Leonardo Accurso, fotógrafo, de 27 anos. ‘’Já apanhei, já tive que bater e já fui atropelado. No caso em que bati, eram dois tentando bater em mim.’’, disse Naian Meneghetti, empresário, 26 anos. Esses relatos são comuns entre ciclistas, o desrespeito e a violência se tornaram fatores diários nas ciclovias de Porto Alegre.

Essa violência é motivada devido à falta de urbanização. O Plano Diretor Cicloviário de Porto Alegre previa 495 quilômetros de ciclovias, distribuídas e interligadas pelas principais áreas da cidade. Somente 45,2 quilômetros foram construídos, compondo menos de 10% do que foi proposto. Através de seu portal on-line, a EPTC afirmou o atraso nas obras depende das contrapartidas dos empreendimentos imobiliários, os quais representam boa parte dos recursos. Existem ainda as ciclovias que estavam nos projetos das obras para a Copa do Mundo de 2014, que nunca saíram do papel. Com isso, os ciclistas são obrigados a trafegar de forma compartilhada com o trânsito, motivando os principais casos de violência.

‘’Nosso trânsito pode ser comparado à Lei da Selva, numa espécie de vale-tudo, onde o mais forte prepondera sobre o mais fraco. O ciclista e o pedestre constituem a parte mais vulnerável do sistema.’’, afirma João Fortini Albano, doutor em transportes. O ciclista, diante de não ter vias exclusivas, fica submetido a dividir espaço com carros, caminhões, ônibus, motos e pedestres. A ciclovia só tem condição de funcionar bem se formar uma rede interligada onde o ciclista possa se engrenar nos principais destinos, satisfazendo as necessidades de deslocamento. Apesar de ser baixo o custo para se fazer um quilômetro de ciclovia, a infraestrutura cicloviária de Porto Alegre está crescendo de maneira devagar. Não se observa uma grande vontade política.

Ciclista transitando na contramão, junto ao trânsito – Foto: Richard Masiero

 

Em abril deste ano, voluntários da Cidade da Bicicleta, um espaço aberto que fomenta a cultura da bicicleta na Capital, fizeram uma carta aberta para o Prefeito Nelson Marchezan Jr., solicitando atenção e agilidade. Quanto mais tempo se leva para construir as ciclovias planejadas, mais o plano inicial se torna obsoleto. Em 2013, a Câmara dos Deputados fez uma emenda constitucional que previa que 20% do valor arrecadado em multas de trânsito fossem revertidos para os projetos cicloviários. Em 2014 a emenda foi derrubada e o valor nunca chegou a ser aplicado na construção de ciclovias.

Ciclista trafegando sobre a calçada – Foto: Richard Masiero

 

Acidentes envolvendo ciclistas em Porto Alegre

Fonte: EPTC

Segundos os dados oficiais, até abril deste ano foram registrados 50 acidentes envolvendo ciclistas.

A equipe de reportagem conversou com um motorista, que preferiu não se identificar. Segundo ele, o espaço para os ciclistas é de suma importância, mas precisa ser mais bem pensado.

O que você acha sobre as ciclovias em Porto Alegre? ‘’É preciso ter um espaço para os ciclistas, senão eles ficam andando junto com a gente no trânsito. Correm risco de se machucar, ainda mais que a gente não cuida muito para o lado direito [da via], a gente olha mais para o lado esquerdo porque é onde passam as motos. Tem que fazer ciclovia, o que não pode é fazer que nem a do [Hospital] Mãe de Deus, que atrapalha todo trânsito.’’

O motorista se referiu à ciclovia da Avenida José de Alencar, no Bairro Menino Deus. Em frente ao Hospital Mãe de Deus, as duas vias da Avenida se transformam em apenas uma, porque existe um ponto de táxi e a ciclovia. Com isso, nos horários de maior movimento, os carros se afunilam para passar, gerando congestionamento.

Na Europa, o uso da bicicleta surgiu através dos movimentos ambientalistas. A bicicleta se posiciona a favor do meio ambiente e da saúde das pessoas. A construção de ciclovias incentiva o uso de transportes alternativos, mas é necessário que esse sistema atenda as necessidade de deslocamento, principalmente de casa para o trabalho e vice-versa. Além das ciclovias, é necessário também a existência de bicicletários, para ter onde deixar as bicicletas. No Brasil, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília são as cidades com uma estrutura cicloviária melhor desenvolvida. Porto Alegre ocupa o 13` lugar, segundo um levantamento da Organização Mobilize Brasil.

Em Porto Alegre, a realidade é a inexistência de ciclovias em quantidade suficiente, e quando o tráfego é compartilhado com outros veículos, existe falta de respeito e violência.

 

Uso das bikes

PRÓS

  • 10 bicicletas estacionadas ocupam espaço equivalente ao de 1 carro estacionado.
  • 5 bicicletas em movimento ocupam o espaço de um automóvel.
  • Nas distâncias entre 400 metros a 1,5 quilômetros, a bicicleta é o meio de transporte mais rápido.
  • 5.000 bicicletas em circulação representam 6,5 toneladas a menos de poluentes no ar.

 

CONTRAS

  • Vulnerabilidade a roubos
  • Lado mais fraco nas colisões
  • Dificuldades nas rampas e subidas extensas
  • Vento, frio e chuva
  • Poucas faixas para circular
  • Lenta para grandes deslocamentos

A intolerância no ambiente de trabalho e suas consequências

(Por Thaís Rodriguez)

Gustavo de Andrade, 54 anos, está atuando como de motorista de ônibus atualmente. Trabalhou a maior parte da vida nessa profissão, mas para grandes empresas e no emprego anterior prestou serviços a uma influente família. Também já foi bancário, mas a estrada, segundo ele, é libertadora. Não se cansa de seguir nessa profissão, entretanto, trabalhar anos no mesmo lugar pode ser entediante. Segundo o simpático motorista, por esse motivo pede demissão de em média 5 a 8 anos em cada empresa, pelo simples fato de se sentir preso.

Diz que é preciso ter muito ‘’sangue frio’’ pois o psicológico pode ser facilmente abalado para quem não está preparado, uma vez que passou por lugares onde andar armado era considerado normal. Já para a técnica de enfermagem, Malvina Terezinha, 58, que está a 28 anos na mesma empresa. Diz que passou por diversos altos e baixos, diz ser necessário saber em quem confiar. Confessou ter pensado em abrir mão do cargo por ter tido uma supervisora agressiva, ao ponto de voltar aos choros para casa. Mas pensava em como seria difícil procurar emprego na situação dela, solteira e mãe de 3 filhos, trabalhando por 36 horas. Oque veio a ponderar o que valia mais a pena já que teve mais um menino depois dos 40, logo a pressão foi ainda maior. Inspirada e ativa, mostrou-se satisfeita por ter ultrapassado grandes barreiras, e conta que é preciso ser forte e paciente se quer chegar aonde se quer, pelas maneiras corretas.

No presente momento conta os dias para se aposentar e poder curtir os netos. Segundo a psicóloga Luana Santos, é notável tamanha procura em seu consultório por pessoas insatisfeitas de alguma maneira em seus empregos e transmitem insegurança ao falar sobre seus pensamentos e vida pessoal. Tendem a se afastar dos entes queridos ao pensar que trazem problemas e despesas ao eles ao procurarem tratamento, sem saber qual o princípio. É preciso transparecer mudanças e muitas vezes transtornos de humor para surgir a procura por solução. O tratamento se inicia basicamente ao trabalhar a auto estima do paciente, dialogar e colocar as cartas na mesa. Porém, por se tratar de algo que os sustenta. O retorno pode ser tardio, bem porque erram ao pensar que só existe aquele mundo, aquela vaga ou até mesmo aquela pessoa. As oportunidades existem, mas é necessário buscá-la, e eu estou aqui para isso. Se auto valorizar para aí sim ser valorizado, e todos nós merecemos. ‘’Temos o direito de ir atrás da felicidade’’ afirma.

A troca diária de humor, a preguiça de realizar atividades e a monotonia da rotina podem causar grandes impactos na saúde psicológica, desde a escola á aposentadoria. É preciso ser atento aos detalhes de forma mútua. Nunca é tarde para recomeçar e aprender, antes de prestar atenção ao redor, repare mais em você.

Capital registra mais de mil ocorrências de violência contra idosos

(Por Ariel Freitas)

Ao aguardar a sua vez para ser atendido na Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, Bartolomeu, 74 anos, ex-pedreiro e viúvo, se tornou oficialmente um dos 1.062 registros de crimes cometidos contra idosos em Porto Alegre nos primeiros meses de 2017. Vítima de ameaças constantes, o senhor que reside no bairro Nova Gleba, zona leste da capital, revela que possui receio por uma disputa de terreno entre familiares.

Casos como o de Bartolomeu acabam se tornando frequentes na cidade em que 15 pessoas são atendidas na Delegacia do Idoso diariamente. Só em janeiro deste ano foram registradas 225 ocorrências na Delegacia do Idoso, sendo 51 direcionadas ao tema de ameaças. No mês de fevereiro a DPPI obteve 238 queixas, 23 sobre maus-tratos. O mês em que foi apresentado o maior número de registros foi o de março com 288 acusações, 23 delas por injúrias contra idoso. Até o final desta apuração, 17 de maio, foram registrados 106 Boletins de Ocorrências sendo sete por lesões corporais.

A violência em números

 

Segundo dados obtidos da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, os crimes mais cometidos contra idosos são os de ameaça, maus-tratos, abandono, injúria, apropriação de bem, negligência, omissão na assistência ao idoso, discriminação de pessoa idosa, lesão corporal, perturbação da tranquilidade e estelionato. As mulheres idosas lideram os rankings de denúncias por sua vulnerabilidade e pela sua expectativa de vida maior.

AS RAÍZES DA VIOLÊNCIA

Grande parte das ocorrências demonstram que as agressões têm sido cometidas nos locais onde as vítimas deveriam nutrir o sentimento de segurança: em casa. A falta de paciência e intolerância por parte da família tem se mostrado mais evidente quando o tema é a pessoa idosa. Familiares que deveriam assegurar a proteção, reproduzir o sentimento de afeto e garantir as necessidades básicas são os que mais cometem esse tipo de infração.

Em alguns casos, os agressores passaram por uma infância conturbada em que o único contato entre uma criança e seus pais acaba sendo o momento em que é repreendido com agressões físicas e psicológicas, fazendo ele reproduzir sua experiência. Esse círculo vicioso se torna difícil de ser interrompido sem a procura de uma ajuda profissional. “Isso gera uma cicatriz profunda e fica difícil cessar sem o auxílio de sessões de terapia”, explica a psicóloga Elisabeth Mazeron.

Contando com um número reduzido de funcionários, o departamento de proteção tenta atender a demanda de 200 casos mensais. Sofrendo por transferências de servidores têm em sua disposição nove funcionários para exercer atividades diárias. Essa mudança afeta diretamente no dia-a-dia do atendimento comprometendo o setor responsável pela apuração dos casos. O comissário Alan Lopes explica que com a redução na quantidade de funcionários a DPPI perdeu o Grupo de Investigação, se concentrando apenas em crimes hediondos. O aumento nos delitos com pessoas de 60 anos ou mais fica evidente quando elaboramos uma comparação com os dados adquiridos em todo o ano de 2015, período que a DPPI obteve o maior número de registros (2,5 mil). Os primeiros meses de 2017 com 1062 ocorrências quase alcança a metade dos índices do ano retrasado (1350).

A CAPITAL MAIS ENVELHECIDA

Porto Alegre tem se destacado como a Capital que possui o maior índice de idosos no país. De acordo com os dados do Observatório da Cidade de Porto Alegre representam cerca de 15% da população no país. Com a rápida expansão da faixa-etária e com os crimes acompanhando esse cenário, foram elaboradas políticas públicas com o objetivo de proteger o bem-estar dos cidadãos com uma idade avançada. Em 2014, foi criado o projeto de lei que formou a Semana Municipal de Combate à Violência. Idealizado pelo vereador Márcios Bins Ely (PDT) o programa visa alertar a sociedade gaúcha sobre os maus-tratos sofridos pelos idosos.

Em um cenário em que a população possui uma faixa etária mais envelhecida, instituições que buscam acolher vítimas de maus-tratos, abandonos, negligências, e etc., ganham espaço. O Asilo Padre Cacique abriga atualmente cerca de 150 idosos. Fundado em 19 de junho de 1898, a instituição procura proporcionar proteção e atividades diárias que contribuem para suas vidas sociais e emocionais. Disponibilizando aulas de informáticas nas terças-feiras, o Baile dos Idosos realizados por voluntários às quintas-feiras e sessões de cinemas aos sábados. Natália Chim, voluntária do asilo, explica que os idosos encontram um recomeço conhecendo pessoas com idades semelhantes, recebendo o afeto dos funcionários e construindo novas histórias de identificação a instituição.

Segundo especialistas precisamos pensar em políticas públicas com urgência, pois o Estado está envelhecendo. O Rio Grande do Sul possui aproximadamente 1.9 milhão de habitantes com uma faixa-etária igual ou superior a 60 anos, dos quais 210 mil deles vivem em Porto Alegre. A preocupação pelo bem-estar do idoso é constante e apesar de ter apresentado recursos para reduzir as violências, os projetos têm apresentado resultados ineficazes.

 

Crédito das fotos: Cainan Xavier

Legenda: Idosos abandonados são assistidos no Asilo Padre Cacique

 

Gaslighting: o machismo que violenta a mente feminina

(Por Giovana Moraes)

“Você é louca”, “você está exagerando”, “isso é coisa da sua cabeça”, “isso nunca aconteceu”. Frases como essas tendem a se repetir, e o grau de violência tende a aumentar. Faz parte do jogo colocar a vítima como culpada, levando o agressor a tomar determinadas atitudes: “Você me faz agir dessa maneira”, “Por que você está fazendo isso comigo?”. E de pergunta em pergunta os relacionamentos abusivos vêm acumulando um número maior de vítimas. Violência psicológica que especialistas denominam de Gaslighting.

Em meio à turbulência política que o Brasil enfrenta, esse debate ganhou força nos últimos meses. O movimento feminista vem identificando comportamentos que acabam prejudicando a autoestima e a confiança das mulheres. Uma dessas práticas é chamada de “gaslighting”, exemplo de abuso psicológico no qual informações são distorcidas fazendo com que a vítima questione sua própria realidade e conduta.

Há grandes chances de você já ter vivido um relacionamento assim. E eu quero lhe dizer que: você não está sozinha.

“Eu era exagerada por me chatear ao ter minhas intimidades sexuais contadas em uma roda de cerveja”

Natalia Dias, 21 anos

“Ele dizia que eu tinha que agradecer por tê-lo, pois ninguém além dele iria me querer”

Camila Fernandes, 26 anos

“Tentava me controlar, se eu não olhasse para ele enquanto gritava comigo, ele segurava meu rosto com força e apontava o dedo em minha cara”

Vanessa Dutra, 17 anos

“Ele só me queria por perto por capricho, pelo prêmio de me ter”

Luana Medeiros, 22 anos

“Ele terminou comigo porque eu era uma vadia”

Giulia Ferraro, 20 anos

Se você se identifica ou já passou por isso, estejam cientes que nem tudo o que acontece é culpa de vocês. Vocês não são obrigadas a se modificar a ponto de não se reconhecer para agradar outra pessoa, porque um relacionamneto tem que ser recíproco. Amor próprio é maravilhoso, porque você passa a não aceitar de outra pessoa menos do que você se ama. E por mais que seja difícil, tenham força. Vale a pena no final, o sentimento de liberdade é maravilhoso.

A mulher não é uma propriedade. Nunca é culpa da vítima. Mulheres não são produtos. Isso não deve ser invisível na mídia e na cultura. A voz das mulheres precisa ser valorizada. Mulher não “tem que” nada, se não quiser. O Gaslighting violenta a mente feminina. É o tipo de manipulação emocional que alimenta uma epidemia em nosso país. Uma epidemia sem fim, que define as mulheres como loucas e exageradamente sensíveis. Isso é injusto. É hora de se conscientizar. Unidas. Só assim a mudança, pelos olhos da sociedade, acontecerá.