Os distúrbios alimentares na busca estética

(Por Paula Chidiac)

“Eu chegava a vomitar cinco vezes por dia”, disse a estudante de relações internacionais Laura Mallmann, de 17 anos. Ao final de sua infância, ela já engrossava os dados de ocorrência de bulimia nervosa no país: em 2011, representavam 1 a 4,2% da população feminina, mesmo em dados subnotificados. Segundo a professora de Psicologia da Uniritter Letícia Leite, o transtorno causa a compulsão por comida, seguida da purgação como medida punitiva.

Aos 12 anos de idade, Laura havia desenvolvido depressão, ocasionada pela tendência familiar e por comentários maldosos de colegas da escola sobre seu peso. Começou a vomitar depois das refeições, mas não contou nem para sua psicóloga. O tempo passou, e com quinze anos ela fez um intercâmbio para os Estados Unidos – precedido por diversas observações sobre não poder engordar durante a experiência. Seu quadro de compulsão piorou, acarretando complicações para sua saúde na época, com faltas de ar, dores de estômago e até mesmo ausência da menstruação: “Naquela hora eu só precisava de alguém que dissesse que tem cura”, desabafa. Com o apoio de sua família, após retornar para o Brasil Laura aderiu ao tratamento com psicólogo, nutricionista e psiquiatra, estando oficialmente curada há um ano.

É preciso ressaltar a diferença desse distúrbio alimentar para a Anorexia Nervosa, onde há uma distorção da imagem corporal, com perda de peso intensa e proposital. As probabilidades estatísticas indicam que a doença atinge oito mulheres e 0,5 homens a cada 100 mil indivíduos. Aliado à uma predisposição genética e contexto social propício, diversos fatores podem acabar sendo a gota d’água para que se desenvolva esses transtornos – desde trabalhar como modelo até simplesmente estar exposto aos padrões de beleza na mídia, explica a psicóloga Letícia. A estudante de relações internacionais conta que os desfiles de moda também acabaram influenciando-na: “Chega a ser uma coisa doentia, é muito magro. E ninguém te mostra o contrário daquilo, sabe”.

Dentro da sala de aula, a figura é bem diferente: de acordo com a professora do curso de Design de Moda Fernanda Rech, a grande maioria de seus alunos têm questionado o consumo e o padrão da moda, colocando a diversidade em pauta. O futuro, embora incerto, apresenta possibilidades de mudanças positivas, pois a maioria dos alunos quer levar essa visão para o mercado de trabalho. “Eu acho que aos poucos nós vamos construindo novas formas de ver”, opina Fernanda. Enquanto isso, cabe à nós ajudarmos-nos a aceitar nossos corpos. “Todo mundo tem celulite, todo mundo tem estria, ninguém é capa de revista e não deve beleza a ninguém”, afirma Laura. O conselho e a história da estudante servem de aviso não somente para os pais, mas também para toda a sociedade, de que os transtornos alimentares devem ser tratados como uma questão de saúde pública.

(Revisado por Pâmela Bassualdo e Danrley Passos)

Legenda: O atual padrão de beleza midiático pode desencadear distúrbios alimentares em pessoas já propensas a tê-los.

Créditos da foto: Pâmela Bassualdo

 

Cirurgia plástica, perfeição e artificialidade

(Por Giullia Santos)

A busca incessante pela perfeição do corpo e os padrões de beleza impostos pela sociedade alimentam o mercado de cirurgia plástica estética no Brasil. No ano passado, mais de 800.000 procedimentos foram realizados no país, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, por um público majoritariamente feminino. Mulheres insatisfeitas com seus corpos que encontram, no bisturi, uma solução rápida para o problema. Mas o que era para ser solução traz à tona o questionamento social sobre a verdade do corpo cirurgicamente modificado.

Representando, aproximadamente, 87% dos pacientes que optam pela cirurgia, as mulheres lidam constantemente com as imposições do mercado de beleza. “A pressão social pela busca da perfeição do corpo”, conforme destaca a psicóloga Carla Menegat, tem um papel fundamental na procura por estes procedimentos. Implante de silicone, lipoaspiração e abdominoplastia lideram a lista de intervenções mais realizadas no país, em 2016.

O sociólogo Francisco Romão Ferreira, autor do livro Ciência, arte e cultura no corpo: a construção de sentidos sobre o corpo a partir das cirurgias plásticas, reflete: a cirurgia plástica promove uma autoimagem forte e positiva, mas esquece de dizer que é a ideologia que constrói a necessidade dessa autoimagem”. Desta forma, “o que pode significar estar feliz com a sua autoimagem? Seria estar adaptado às regras do jogo? Ajustado ao controle disciplinar dos corpos?”, questiona o sociólogo.

Por influência do padrão de beleza, “algumas mulheres optam por uma intervenção cirúrgica sem necessidade”, analisa Carla Menegat. A cirurgia plástica impacta diretamente na autoestima dos pacientes e, portanto, no seu entendimento de imagem e identidade pessoal. O aumento dos procedimentos está relacionado à importância atribuída à imagem, que no processo de construção de identidade, atua como o principal veículo de identificação. Para Giulia Araújo, de 19 anos, a escolha pelo implante de silicone “está relacionada com a autoestima”, afirma a jovem.

Apesar do aumento significativo da cirurgia plástica, é comum ouvir críticas e comentários envolvendo essas mulheres. Ao impor a necessidade de um corpo perfeitamente idealizado, a sociedade também rebate a prática da cirurgia, apontando como artificial, o corpo modificado através destes procedimentos. “A produção de sentidos sobre a imagem do corpo e a percepção que o sujeito tem do próprio corpo é, ao mesmo tempo, individual e coletiva”, reflete Francisco Romão.

Casos famosos como o de Andressa Urach, que esteve entre a vida e a morte após complicações cirúrgicas, aumentam o debate e a crítica aos procedimentos, reforçando a ideia de resultados artificiais e o risco da cirurgia estética desmedida. A busca pela perfeição reflete nas estatísticas divulgadas pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e a indústria da beleza alimenta a corrida feminina contra a balança, o tempo e o natural.

(Revisado por Hiashine Florentino e Luiza Brandão)

Fonte do gráfico: Divulgação de Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica