O que está por trás dos perfis falsos

(Por Alessandra Vida)

A conexão possibilitada pelo surgimento da internet trouxe consigo facilidades e um acesso universal a conteúdos dos mais diferentes segmentos. Mas também permitiu a muitas pessoas serem o que quisessem sob o esconderijo das telas. Pesquisas apontam que cada vez mais as pessoas se escondem em realidades virtuais e buscam a fuga da vida real.

O uso de perfis falsos em “salas” de bate-papo e sites de relacionamento são recorrentes. Segundo levantamento do Facebook realizado na rede social em 2012, cerca de 9% dos perfis existentes naquele período eram considerados falsos. Entre eles, estão os perfis duplicados ou mal categorizados e indesejáveis. Mas o que levaria alguém a criar um perfil irreal para se relacionar com outras pessoas?

De acordo com o professor e mestre em psiquiatria do Centro Universitário Ritter dos Reis, Igor Londero, “os motivos são os mais variados. Não existe um único motivo, mas geralmente tem a ver com a maneira como aquele indivíduo se vê em relação ao mundo”. Conta que já atendeu em seu consultório uma jovem que criou perfis falsos para todas suas redes sociais. Explica que no mundo real, a garota se via de uma forma muito depreciativa: “O que motivava ela naquele momento era um mundo de fantasia, onde as pessoas se relacionavam com a persona dela, com o personagem que ela tinha criado. Nada mais era do que o personagem de uma novela que ela mesma escrevia.”

A criação de uma persona é basicamente o “estado” virtual onde permite ao seu criador agir em um novo papel, alterando características físicas como gênero e raça. No livro Dependência de Internet, publicado em 2011, a psicóloga e pesquisadora em transtornos relacionados ao uso da internet Kimberly Young afirma que “a criação de uma persona on-line permite aos usuários uma saída segura para satisfazer necessidades psicológicas “.

Através da divulgação de ideais de comportamento e estética, grandes meios de comunicação acabam formando padrões sociais. Contudo, o professor Igor Londero acredita que a inacessibilidade desse padrão pode trazer decepções e frustrações. A adolescência é o período da vida mais marcado por situações como essa. O professor ainda afirma que ele é marcado pela autocrítica constante e por um retorno social mais direto e imediato. A necessidade da criação de outra realidade se instala mais fortemente, pois o jovem está mais vulnerável.

A estudante de Marketing, Elza Fraga da Rosa, de 20 anos, conta que na sua adolescência criou perfis falsos para se relacionar com outras pessoas no meio virtual: “Poderia ser o que quiser e ter o que quiser. Era uma forma de pegar o desânimo ou a frustração da realidade e transmitir para o virtual. É uma saciedade.” A estudante detalha o cotidiano virtual como uma adaptação do mundo real. Toda ação que possivelmente exista na vida real era descrita pelos bate-papos. Ali era possível casar, ter filhos e viver na casa dos sonhos. Inclusive brigas e relações poderiam ser vivenciadas. Ela ainda conta que na época, um de seus relacionamentos se tornou realidade e se encontrou com o namorado virtual algumas vezes.

A internet, ao mesmo tempo conecta e isola socialmente. Ela permite uma conexão calculada, dando a liberdade ao indivíduo de ajustar o grau de interação de modo a regular o conforto e minimizar a ansiedade social.

(Revisado por Josiane Skierzinski e Bruna Jordana)

Crédito da Foto: Alessandra Vida

Irrealidade virtual através do Instagram

(Por Marjorie Paula)

Em um mundo de aparências, aplicativos como Instagram ganham força e permitem que qualquer um possa assumir o perfil que desejar. Novos comportamentos surgem e nesse contexto realidades pré-moldadas são desenvolvidas a partir de carências afetivas e de grande insegurança quanto a imagem. Em 2017, o Instagram atingiu a marca de 700 milhões de usuários ativos – sendo os brasileiros os segundos mais presentes na rede. Em três anos o número de contas no aplicativo duplicou.

Análises realizadas pela própria empresa mostram também que o Brasil já está acima das médias globais quanto ao número de usuários, que no último ano chegou a 75% da população brasileira. Em meio a mais de 4,2 bilhões de curtidas diárias, poucos sabem as diversas tentativas de bater uma foto que existiram por trás da expectativa de uma publicação. A vida virtual permite a existência de diversas personalidades, em suas maiorias felizes e extrovertidas. O Instagram se torna uma plataforma virtual propícia para idealizações e projeções de uma vida irreal.

A necessidade do ser humano de ser aceito socialmente vem desde a infância. A psicóloga, Monalisa Minatto, explica que todo o homem tem o desejo de ser aceito socialmente. Uma necessidade emocional de ser amado, admirado e pertencer a um determinado grupo. Esse comportamento reflete nas publicações do Instagram: as pessoas passam a assumir situações, lugares e atividades que não vivenciaram.

Bruna Schneider, Social Mídia de 24 anos, acredita que anem tão recente onda de influenciadores oportuniza um cenário onde a beleza se torna onipresente e os momentos se tornam propícios para o compartilhamento. “Não há, na rede social, a divulgação de problemas do cotidiano, apenas fotos retratando momentos legais. Tudo isso incentiva a criação de falsas realidades das vidas dos usuários”, afirma Bruna.

Como exemplo, a Social Mídia traz a blogueira fitness Gabriela Pugliesi. Ela explica que acredita na ”vida perfeita” que a blogueira leva, mas claramente entende que os problemas do cotidiano pertinentes a todo o ser humano são mascarados. Bruna ainda diz: “ela não divulga em seu perfil e claro que boletos e problemas de saúde não geram likes“.

Segundo a psicóloga, esse estilo de vida pode ajudar o usuário que possui algum transtorno, trauma ou baixa autoestima, chegando a desenvolver um falso self ou ter dificuldades de lidar com a realidade.”Isso vem desde quando éramos bebês e dependíamos do amor e cuidado do outro. Nossa sobrevivência e bem-estar mental dependiam disso. Todos trazemos um pouco disso no inconsciente”, afirma.

A irrealidade é uma forma de mostrar esse comportamento social, que acaba potencializado pelo surgimento das Redes Sociais. “Antes havia a necessidade de provar uma boa vida em momentos específicos e para um grupo específico. Hoje é a todo momento e para um grupo muito maior de pessoas”, diz Bruna.Nem tão novo assim, as pessoas têm necessidade de demonstrarem uma realidade que não pertence ao offline delas.

(Revisado por Larissa Pessi e Jennyfer Siqueira)

Crédito da Foto: Marjorie Paula

Monstros dentro do computador

(Por Lidiane Moraes)

Para muitos pais, uma criança não corre risco ao se divertir em um computador, celular ou tablet. Entretanto, pesquisas podem mostrar o contrário. Os apontamentos do site não governamental Safernet revelam que a internet é onde as crianças podem estar mais vulneráveis. Em 2016, o site processou 56.924 denúncias anônimas de pornografia infantil na internet. Um aumento de 0,31% em relação ao ano anterior. 15,9% das denúncias estavam hospedadas na rede social Facebook. O Brasil ocupa o terceiro lugar com maior número de hosts (hospedeiro) denunciados, conforme ranking divulgado na página. As denúncias foram feitas através da Central de Denúncias, software desenvolvido pela plataforma para computar e monitorar as informações que são disponibilizadas para qualquer cidadão que quiser acessar.

Fonte: Safernet

 

O diretor de Prevenção e Atendimento da Safernet, Rodrigo Nejm, explica que a coleta das informações tem o intuito de facilitar e colaborar com o trabalho do Ministério Público e da Secretaria de Direitos Humanos. As ações são realizadas para que o estado brasileiro tenha soluções efetivas para o problema. Rodrigo ressalta que a ONG não tem nenhum poder de remoção de conteúdo. As remoções só podem ser feitas pelo sistema judiciário ou pela própria plataforma. “Nosso sistema verifica se as páginas que foram denunciadas continuam no ar, fazemos a verificação para o usuário que denunciou, através do protocolo da denúncia”, explica.

Para a delegada da Delegacia de Polícia para Crianças e Adolescentes de Porto Alegre (DECA), Laura Lopes, a orientação é que os pais evitem que os filhos fiquem expostos a estas situações. O monitoramento das redes é a principal forma de evitar o contato com estranhos, já que a maioria dos casos que recebe na delegacia é de perfis falsos, usados como forma de atrair as vítimas. A delegada ainda alerta que algumas redes como o Facebook são impróprias para menores de idade, como as próprias políticas de uso propõem.

“Tu pensa assim, que horror, olha o que eu vi… Mas que bom que eu vi!”. Foi assim que Rita descobriu uma conversa de um estranho com seu filho, de 14 anos. Embora ela monitorasse com frequência as redes sociais do menino, devido à correria do dia-a-dia, não o havia feito naquela semana. Foi somente em uma das faxinas semanais no quarto do filho, que o inesperado aconteceu. A mãe do menino lembra que teve algo como uma intuição – e ao olhar o celular em cima da cama, resolveu checar as mensagens.

Foi então que sentimentos de preocupação e insegurança tomaram conta dela. Nas mensagens do Facebook, encontrou conversas com um rapaz mais velho. Além das conversas, algumas ligações também teriam sido feitas para o celular de seu filho, inclusive de madrugada. Nas conversas, o homem propunha um jogo de adivinhações: quem errasse mandava foto “como o outro quisesse”. Ainda que o menor insistisse em envio de figurinhas quando do erro da pergunta, o aliciador insistia no envio de fotos pessoais.

Comportamentos como o das conversas encontradas pela mãe do menino no celular do filho são comuns entre pedófilos. Apesar de não ser possível traçar um perfil exato do agressor. Uso de elogios excessivos e tentativa de agradar às crianças é comum nos casos de pedofilia na internet. A empresa de segurança japonesa Trend Micro, disponibilizou em seu site uma cartilha mostrando um monitoramento feito com as perguntas mais comuns e o que elas queriam dizer. Questionamentos de onde o computador fica instalado na casa pode demonstrar interesse em uma conversa longe dos pais. Ofertas de carreira de modelo também são uma das táticas usadas.

Na maioria dos casos, os agressores fazem ameaças às vítimas para que não desistam das conversas. É o que explica Luciana Tisser, doutora na área de Ciências da Saúde e professora no Centro Universitário Ritter dos Reis. Mesmo com um relacionamento aberto com os pais, as crianças podem ficar reféns do agressor. Ainda segundo Luciana, apesar dos sinais serem sutis, é essencial que os pais estejam atentos às mudanças comportamentais dos filhos. A criança pode ficar apática e demonstrar mudanças como baixo rendimento escolar, medo excessivo, quadros de depressão ou isolacionismo e, em outros casos, pode demonstrar comportamento hiperssexualizado. A orientação da psicóloga é que se tenha sempre uma conversa aberta com as crianças. Luciana ainda destaca a importância do acompanhamento psicoterápico após um trauma. “O acompanhamento é imprescindível para minimizar os efeitos negativos, que são inevitáveis. É aconselhado que a criança faça um acompanhamento por um longo período após o trauma”.

Ao questionar o filho sobre os motivos da conversa com o estranho, o menino explicou à Rita que não contou pois achou que era apenas um jogo. Quando percebeu a insistência do homem em mandar fotos, decidiu parar o contato. Após a descoberta do caso, ela buscou apoio junto à família, que orientou a registrar a ocorrência. As denúncias de casos de pedofilia podem ser feitas nas delegacias especializadas de proteção à criança e adolescente, ou, em qualquer delegacia da cidade. A delegada Laura Lopes explica ainda, que é importante que o URL (endereço virtual) da página seja fornecido pelo denunciante, uma vez que a remoção da página dificulta o trabalho da polícia. São características de crime registrar por qualquer meio, cena de sexo explícito ou pornográfico envolvendo crianças ou adolescentes conforme o artigo 240 da Lei n° 11.820 de 13 de novembro de 2008 do Código Penal Brasileiro. A pena para esses crimes é de reclusão de quatro a oito anos e multa.

Além da denúncia na delegacia da cidade, Rita fez a denúncia da página do homem para o Facebook. O acionamento da escola também foi necessário. O menor e o aliciador, já maior de idade, estudam no mesmo local, onde ela acredita que o contato tenha começado. A instituição prometeu observá-los e mantê-los distantes. Atitude que, para a Mestre em Educação e Coordenadora do curso de Pedagogia da UniRitter, Lenir dos Santos Moraes, foi totalmente errada. A professora explica que a escola tem um papel fundamental na vida das crianças, já que é o lugar de maior convívio depois de casa. “Em casos graves, quando as partes envolvidas são da mesma instituição, a escola deve se posicionar; jamais se omitir. Se alguma denúncia deste tipo chega ao Ministério Público, a escola é implicada junto”.

Rita ainda não recebeu retorno sobre o andamento do caso por parte da delegacia, e a página do homem continua ativa no Facebook. Manter um relacionamento aberto com os filhos, e monitorização do conteúdo acessado são essenciais para evitar que casos como esse se repitam. Ainda que vivamos em uma era onde a comunicação se tornou mais digital do que pessoal, os pais devem sempre buscar meios de conectar-se com os filhos. A evolução na relação entre pais e filhos deve acompanhar a velocidade em que a internet se expande.

Fonte: Safernet

Gráficos: Lidiane Moraes

Foto: Leonardo Ferreira