A era da pós-verdade e o ressurgimento de um antigo problema

(Por Danrley Passos)

Com o crescimento da convergência entre as mídias, onde as empresas se utilizam cada vez mais da internet para a divulgação do seu produto, impulsionado pelas novas tecnologias e utilização das redes sociais no meio profissional, encontramos informações cada vez mais acessíveis. As notícias, que antes se concentravam apenas em jornais, rádio e televisão, hoje são encontradas também no maior concorrente destes meios: a internet e as redes sociais. O problema é que nem sempre estes meios são confiáveis. O compartilhamento de notícias falsas cresce neste mundo das tecnologias e de redes sociais acessíveis, que ajudam na propagação de fatos de interesses pessoais.

Em 2016, a Oxford Dictionaries — departamento da Universidade de Oxford responsável pela elaboração de dicionários — elegeu, como em todos os anos, uma nova palavra para a língua inglesa: “pós-verdade”. O termo explica situações em que fatos objetivos, e de interesse público, tem menos importância do que apelos com interesses pessoais. A “pós-verdade” explica que a verdade está perdendo espaço no debate político, através de “boatos” e notícias falsas que impulsionam um ideal, ou que são criadas a fim de gerar lucro através de audiência.

Justamente sobre isso, a professora Denise Rocchi, dos cursos de Jornalismo e Relações Internacionais da Uniritter, diz que alguns desses criadores de notícias falsas muitas vezes não têm um interesse ideológico, mas sim lucrativo. Eles veem uma oportunidade no mercado e se aproveitam. “Para ele [criador de notícias falsas] não há uma preocupação, ele não quer necessariamente criar um problema com político sobre o qual ele venha a fazer, se ele achar que vai dar audiência, ele faz”, explica.

As “fakes news” não são uma novidade, mas ganharam uma maior proporção recentemente. Para Denise, que estuda o assunto na disciplina de Laboratório de Mídia e Política Internacional da Uniritter, elas ganharam mais atenção em 2016, nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. “A diferença é que com as redes sociais, com a tecnologia, elas ganharam mais velocidade”, diz. Quem tem o mesmo pensamento é o produtor da rádio Gaúcha, e idealizador do quadro “Notícia Falsa nas Redes”, Tiago Boff. Ele comenta que o presidente norte-americano, Donald Trump, “usou de sua influência para disseminar falsas informações e assim ganhou força no pleito, chegando a uma vitória inesperada”.

Justamente por isso que notamos que é na área da política que há mais impacto, por atingir um maior número de pessoas. Porém, como lembra Denise, a ideia de intrigas já existe há um tempo. “Quem cobriu política antes da era da internet, vai lembrar que a ideia de boato, de espalhar mentiras sobre outro candidato, já acontecia há muito tempo”, lembra.

A crescente ocorrência da divulgação desses boatos que, pela quantidade de compartilhamentos nas redes sociais — em especial o facebook e seu algoritmo, que cria uma bolha de conteúdo para cada usuário — tomam um tom de legitimidade tão grande que, em muitos casos, nem mesmo fontes confiáveis conseguem desmentir essas “informações”. “O Facebook está me mostrando os amigos que ele acha que eu interajo mais, a gente meio que concorda, e quando aparece um resultado diferente disso as pessoas se surpreendem. Tu estás convivendo com um segmento, e não com o todo”, comenta Denise.

O compartilhamento de um desses boatos de interesse público foi o que motivou a criação do quadro “Notícia Falsa nas Redes”, na rádio Gaúcha. O critério de escolha dessas “notícias” para o quadro, segundo Boff, é a “quantidade de compartilhamentos, mais o interesse público dela”. Ou seja, se a notícia é muito compartilhada, significa que um número grande de pessoas está sendo desinformada. Logo, há uma mobilização para esclarecer, apurar e informar corretamente.

O problema se torna mais complexo ainda quando, além de notícias falsas, existem sites e blogs falsos que dão às “notícias” uma dimensão maior. Sobre isso, Boff diz que os pequenos e desconhecidos blogs costumam compartilhar sem checagem, pois querem o clique na matéria. “As manchetes são chamativas demais. Isso é um perfil da fake news, ela é mais escandalosa, mais chamativa, o que serve de alerta ainda maior para sua veracidade”, alerta.

Além disso, Boff indica que o leitor acompanhe o trabalho dos veículos, para notar se eles transmitem confiança e credibilidade. Para ele, “não é muito difícil identificar algum site ou blog que seja tendencioso, mas só com um hábito de leitura, com uma constante informação que o leitor pode ter certeza”. Erros grosseiros de português e de concordância também são uma marca das falsas notícias, segundo o produtor.

No Brasil, um estudo realizado pela Associação dos Especialistas em Políticas Públicas de São Paulo (AEPPSP), que foi realizado com base nos critérios de um grupo de estudo da Universidade de São Paulo (USP), revelou alguns dos sites que mais se encaixam nestes critérios, e que tem algumas características em comum. Por exemplo, sites com notícias não assinadas, sem identificação de administradores ou jornalistas, textos que contém certa quantia de opiniões e discursos de “ódio”, repletos de propagandas, são alguns sinais que acabam por revelar a suspeita de falsidades.

Os critérios adotados para a pesquisa são do Monitor do Debate Político no Meio Digital, criado por pesquisadores da USP. O estudo, após ser publicado no Facebook da AEPPSP, foi retirado devido a possíveis mal entendidos. Abaixo, seguem os nomes dos sites citados pelo estudo.

Sites que se encaixam no conceito de “pós-verdade”, segundo estudo da AEPPSP

Com essa frequência de notícias falsas, o que resta ao público é acompanhar alguns veículos e notar a sua credibilidade. Tiago Boff ainda diz que “deve-se desconfiar de manchetes que são quase inacreditáveis e que não estão nos sites maiores”. As notícias estão cada vez mais se tornando mercadorias — principalmente para esses, que usam as falsas notícias para seu lucro e/ou interesse pessoal. Por isso, é importante que haja uma leitura frequente, aliada ao acompanhamento dos veículos, para que as pessoas tenham certeza de que este veículo é sério, faz a checagem, e trabalha como o jornalismo deve trabalhar: apurando e informando corretamente.

(Revisado por Andrew Fischer e Sarah Acosta)

Crédito da Foto: Danrley Passos

A espetacularização das brigas entre torcedores pela imprensa

(Por Victória Alfama)

Estádio Beira-Rio, dia de clássico Gre-Nal: 1o de março de 2015. A Geral do Grêmio, acompanhada do restante da torcida gremista, se desloca desde o ponto de encontro no antigo Olímpico, no bairro Azenha, em Porto Alegre. Na chegada, confronto entre torcedores. Uma pessoa é ferida por uma pedrada. Arena do Grêmio, dois anos antes, outro Gre-Nal: torcedores marcam uma briga na esta- ção de metrô de Sapucaia do Sul, da Trensurb. Dois torcedores são presos e 11 vidros de um vagão, estilhaçados. Horas depois, relatos sobre as cenas de violência já podiam ser encontradas em sites dos principais jornais, dividindo espaço com as informações sobre as partidas. É neste momento, segundo especialistas, que, em alguns casos, os setoristas de esporte estão pisando na bola. Narrando cenas de brigas, os repórteres trabalham como correspondentes de guerras em dias de clássicos na Capital. A narração das brigas sem contextualização e o uso de termos como “rivais”, “guerra” e “batalha”, muitas vezes, serve mais para promover os integrantes das torcidas envolvidos em confrontos do que para buscar soluções. Diante de diversas coberturas da imprensa local, muitos concordam em mudar a forma como ocorre a apuração das brigas. “Vários fatores precisam ser questionados. Desde a forma como os clubes financiam as Organizadas, passando, inclusive, pelo clima de guerra proporcionado pelos veículos de comunicação”, afirmou Sandra de Deus, coordenadora do Curso de Especialização e líder do grupo de pesquisa em Jornalismo Esportivo da UFRGS. Para Sandra, brigas não devem ser consideradas como um acontecimento alheio ao futebol. Segundo a jornalista, não existe a “diminuição” da gravidade das brigas; existe, sim, uma cobertura irreflexiva, onde a espetacularização dos fatos se sobrepõe à apuração jornalística. Visão semelhante pode ser encontrada no Ministério Público. Segundo o promotor responsável, Márcio Bressani, a forma de abordagem da imprensa frequentemente é equivocada, tomando proporções descabidas. “Existe, por vezes, uma desproporção. Questões positivas são deixadas de lado e as questões negativas acabam tomando o lugar”, relatou o promotor. Questionado sobre a possível influência que matérias negativas podem ter nos leitores, Bressani afirma: “sem dúvida nenhuma. Existem pessoas que não possuem discernimento para entender que aquilo é uma questão negativa e já pensam em vingança”. “Nós acompanhamos as brigas, acompanhamos a punição e o cumprimento da punição”, relatou o editor Diego Araújo, sobre a cobertura na editoria de esporte da Zero Hora. Desde 2012, o jornal possui um grupo de investigação para cobrir este o polêmico dentro do futebol, sempre dando espaço para o contraponto dos envolvidos. Segundo Araújo, o grupo investiga o fato com falas de todas as partes envolvidas, inclusive da torcida organizada. Além do acompanhamento das situações de violência, a equipe relatou casos de dinheiro entre clubes e torcidas organizadas e falhas no cumprimento de punições de torcedores que não poderiam frequentar os estádios. Os jornalistas realizam a cobertura normal em dias de jogos e, em casos de matérias especiais, se infiltram entre os torcedores. “Fizemos uma série de reportagens sobre as torcidas organizadas há nove anos. Nos infiltramos e descobrimos como elas funcionam”, explicou ainda Cid Martins, repórter da Rádio Gaúcha. Outras iniciativas passam pela aproximação dos repórteres com as torcidas nas arquibancadas. Um exemplo é o trabalho feito por jornalistas da Rádio Gaúcha. “Trouxemos a identificação com o torcedor nas arquibancadas. Faz parte do nosso acompanhamento”, relatou Kelly Matos, repórter da Gaúcha. Já no Correio do Povo, diante do fato, após a localização dos participantes, os repórteres escutam os agressores, os seguranças, o Ministério Público e a Federação Gaúcha de Futebol. “Jornalista não é o dono da verdade. Ouvimos todos os lados e tu tens a tua opinião. Não necessariamente, na maioria das vezes, é a melhor opinião ”, comentou Hiltor Mombach, editor de esporte do Correio do Povo. Para os especialistas, no entanto, caberia aos jornalistas a melhor apuração dos fatores ligados à violência fora dos gramados, como as origens dos episódios de brigas nas torcidas e os incentivos que os clubes dão às torcidas organizadas, compreendendo a relação entre os envolvidos para além da troca de socos.