Apropriação cultural em debate

(Por: Hiashine Florentino)

(Por: Hiashine Florentino)

Nos últimos meses, o debate sobre a apropriação cultural vem ganhando atenção das pessoas, depois que a estudante Thauane Cordeiro, 19 anos, em fevereiro deste ano, foi repreendida por uma ativista negra no metrô de Curitiba, no Paraná, por fazer uso do turbante, importante símbolo sagrado e significativo para a etnia africana. A visibilidade do caso trouxe à tona a discussão sobre a apropriação cultural.

A situação repercutiu após, a jovem que está em tratamento contra a leucemia, postar um texto sobre o caso no Facebook: “Eu comecei a reparar que tinha bastante mulheres negras, lindas aliás, que tavam me olhando torto, tipo ‘olha lá a branquinha se apropriando da nossa cultura’. Enfim, veio uma falar comigo e dizer que eu não deveria usar turbante porque eu era branca. Tirei o turbante e falei: tá vendo essa careca, isso se chama câncer, então eu uso o que eu quero!  Adeus”, escreveu Thauane em sua rede social, publicando uma foto usando o objeto e finalizando com a frase: “Foto da negra branca mais ‘chave’ que vocês conhecem”, lançando a hashtag, “Vai ter todos de turbante sim”. O post rendeu mais de 37 mil compartilhamentos e mais de 100 mil curtidas.

Entre muitos comentários, uns apoiavam: “Sou negra e acho que cada um usa o que quiser. Se um branco usa algo da cultura negra é sinal que não tem preconceito é disto que o mundo precisa, independentemente de estar doente ou não”, mas também há quem criticasse a atitude da jovem: “Enquanto negras são chamadas de macumbeiras feias quando saem na rua de turbante, brancas ganham fama fazendo o mesmo”, comentou outra.

Depois deste episódio, a apropriação cultural começou a ser tratada com mais seriedade e ganhar mais destaque em debates sobre os direitos raciais no Brasil, mostrando a importância de objetos para os grupos étnicos. Para a estudante de psicologia Kerolin Fagundes, 22 anos, o desenvolvimento das indústrias propiciou que elementos culturais da população negra fossem violados e ignorados, perdendo seu significado histórico.

“O sistema e o indivíduo propagam de forma vazia e inexistente a cultura negra, somos um país miscigenado, mas devemos respeitar e conhecer o que se utiliza, não sendo somente um acessório”, fala a jovem que atualmente participa do “InterFaces: da cor ao corpo à violência do racismo”, projeto que reúne estudantes negros da UniRitter para debater sobre estas questões.

Na internet esses assuntos ganham cada vez mais visibilidade, Nátaly Neri, 23, que há dois anos, grava vídeos para o seu canal do YouTube, chamado “Afros e Afins”, que aborda o empoderamento da mulher negra, comentou: “O caso da menina do Paraná, em termos midiáticos é tudo que a branquitude e a mídia racista precisavam para chacotear nas pautas dos movimentos negros e deturpar nossos conceitos”, afirma Nátaly que conta com mais de 200 mil inscritos, e fala diretamente para Thauane. “Moça, se você se sentiu maltratada, abusada, se sua liberdade foi podada e que as pessoas estavam tentando dizer o que você deveria fazer da sua vida, que bom você viralizou, a mídia te escutou, eu por exemplo duas vezes só nesta semana, fui encostada por homens brancos que pediram para eu arrancar meu cabelo porque ele era muito feio, e infelizmente eu não saí em nenhum meio de comunicação”, completa a estudante de ciências sociais.

As polêmicas tranças de Anitta

 No mês de agosto, enquanto gravava um videoclipe no Morro do Vidigal, a cantora pop Anitta foi fotografada usando tranças afros e logo recebeu inúmeras críticas pela apropriação, a artista rebateu dizendo: “Eu me importo com coisas que realmente vai mudar o futuro do país, que vá mudar a vida das pessoas. Uma trança é uma trança”, respondeu.

A estudante de farmácia, Gabriela Flores, 22 anos, classificou como um “atrevimento” perante a cultura afro, símbolos como este ser tratado com banalidade e alfineta a cantora: “Essa frase da Anitta, demonstra ironia e indiferença, as tranças, assim, como os turbantes para as mulheres negras são um ato não só de beleza, mas, firmação, ousar agora no presente, é forma de rebelar o que foi reprimido no passado”, diz a jovem que participa ativamente de movimentos pela causa negra.

Ao contrário de Gabriela, o estudante de rádio e tv, Vítor Duarte, 20 anos, acha delimitador dizer que cultura não tem dono pois, seguir movimentos culturais não vivenciando daquele povo, é uma forma de expandir e unir o mundo podendo acabar com coisas inaceitáveis como o preconceito, e defende Anitta: “Ela está levando a cultura negra para o mainstream  favorecendo a nossa negritude, o contexto das tranças é justamente por conta do videoclipe ser gravado em uma comunidade carioca, onde 95% dos moradores são negros, ela estava retratando as pessoas que vivem lá”, argumenta o futuro comunicador, profissão majoritariamente de brancos.

Para a atriz, Nara Corrêa, 56, que há 24 anos usa dreadlocks, as tranças representam resistência política e cultural herdado pelos ancestrais, mas virou artigo de moda, se antes os penteados afros no cabelo das negras não pareciam interessante, quando a artista branca saí na capa da revista a opinião da sociedade muda. “Já me perguntaram inúmeras vezes se meu cabelo fedia. Infelizmente, há muitos rótulos, comparam a capacidade intelectual do indivíduo, com seu estilo”, fala assumindo o preconceito que sofre e ressalta: “Se eu trabalhasse em um emprego formal acho que teria problemas por causa do meu cabelo”, comenta Nara.

Um problema estrutural

Assim como acontece com os negros, os foliões apropriam-se dos indígenas com cocares e pinturas de tinta guache, em fantasias de carnaval, porém, o significado é mais amplo, pintar o corpo com tinta feita do fruto de urucum representa para as tribos a iniciação para um ritual específico e sagrado, os indianos sofrem apropriação ao testemunharem, sáris e os deuses hinduístas, Ganesha, Shiva e Krishna estampando artigos da indústria têxtil, os chineses por presenciar o uso do alfabeto, e dos símbolos orientais tatuados em ocidentais, que mal sabem a verdadeira tradução do que está firmado na pele, isso retratando apenas os casos mais rasos retirados destas etnias.

Segundo a mestre em filosofia, feminista e militante negra, Djamila Ribeiro, uma coisa é o intercâmbio de culturas, que é muito positivo, outra coisa é a apropriação.  “No nosso país, as culturas foram hierarquizadas, sendo a negra colocada como inferior, exótica. E a troca só é possível quando não existem hierarquias, enquanto terreiros são invadidos, há marcas que acham ‘cult’ colocar modelos brancas representando Iemanjá. Esse discurso de que a cultura é humana só é válida quando querem apropriá-la, ” e alerta que as críticas devem ser feitas para às indústrias que lucram e não às pessoas pois, é energia gasta com o alvo errado: “Não julgo certo apontar dedos para pessoas brancas que fazem o uso da cultura negra por alguns motivos. Primeiro, muitas dessas pessoas desconhecem a discussão sobre apropriação cultural, segundo, não se pode responsabilizar somente os sujeitos, e por fim estamos falando de um problema estrutural”, afirma a ativista dos direitos humanos.

Ainda há muita carência sobre este assunto nas grandes mídias, a apropriação precisa ser debatida pois, é algo de extrema delicadeza que fere os grupos dominados por um sistema dominante, que antes não tinham direito de reivindicar a usurpação de valorosos elementos da sua etnia, ou seja, a cultura é popular, mas o verdadeiro dono não, e isso precisa mudar.

(Revisado por: Giullia Silveira e Luiza Brandão)

Legenda: Cantora Anitta posta foto no Instagram

Foto: Reprodução Instagram da cantora Anitta.

Qual o lugar do indígena em Porto Alegre?

(Por Deise Freitas)

Caminhar pelas ruas de Porto Alegre é parte da rotina da população da capital gaúcha. Mas o seu caminho pode estar sendo observado se você não pertencer a parte hegemônica da população. As minorias sempre são acompanhadas por olhos que observam com desconfiança. Olhos preconceituosos e julgadores. Para os grupos indígenas, que trabalham no centro de Porto Alegre, os olhos não são lá muito amistosos. Eles vêm carregados de uma coisa muito antiga: o preconceito. Onde o preconceito contra o indígena começou? lá em 1500, ano do chamado “descobrimento do Brasil”. Quando os portugueses chegaram, estranharam os nativos – tinham certeza que o modo que viviam não estava certo. Tentaram despir de sua cultura aqueles que chamaram de “índios”. Isso foi há 517 anos, mas a marca da discriminação e da intolerância se mantém até hoje.

Centro de Porto Alegre, aos poucos o sol vai nascendo. As lojas abrem suas portas, pessoas caminham apressadas de um lado para outro, o movimento é constante. Toda essa cena está comandada pelo relógio. No meio do caos programado, há quem observa e segue no seu próprio tempo. Uma família indígena chega, são mulheres, homens e uma grande quantidade de crianças. Sem nem um comprometimento com o relógio, estende uma toalha bem simples. Em cima do pequeno pedaço de pano são cuidadosamente colocados alguns artesanatos. A família devidamente instalada está pronta para ser ignorada.

A Constituição de 1988 alterou como o indígena era visto pelo Estado e trouxe transformações às leis vigentes no Estatuto do índio de 1973. A principal mudança foi o reconhecimento do índio como índio. Parece estranha essa última frase, mas antes disso a identidade cultural dos povos indígenas não era respeitada. -Vistos como incapazes e fadados ao desaparecimento, os índios ficaram por muito tempo na sombra da existência.

Finalmente conquistou-se o direito a organização social, aos costumes, línguas, crenças e tradições. Mas quão assegurados os indígenas estão? Qual o suporte que o Estado lhes oferece para usufruir dos seus direitos?

Durante a semana,  famosa entre os porto alegrenses, rua da praia é ponto de comércio para Guarani, Kaigangue e Charrua. No final de semana o destino é o Parque da Redenção, onde a concentração de pessoas é grande – assim como o comércio ambulante. Além da venda de artesanatos, há apresentações de música e de dança indígenas. O que eram para ser locais de trabalho, acabam se transformando em lugares de violência social.

O cacique da Aldeia Cantagalo, Jaime Vherá Guyrá, relata as dificuldades que os indígenas passam ao tentar o sustento de suas famílias no centro de Porto Alegre. O descaso vem também de quem, por lei, tem compromisso de assistência: a prefeitura. “ Com muita briga, a gente teve muita briga pra ver se deixavam o indígena que está no meio do centro vender seu trabalho. Nunca recebemos com dignidade”, relata o cacique. Mas mesmo com a conquista, Jaime denuncia o descaso, a falta de apoio. Fala com pesar sobre as intempéries que dificultam as vendas dos artesanatos. Para ele a liberdade do comércio não basta, tem que haver estrutura e suporte.

O novo coordenador municipal dos Povos Indígenas, Guilherme Fuhr, concorda com o cacique da aldeia Cantagalo. Para ele, deve existir um apoio da prefeitura. “Não pode haver um retrocesso no que já foi conquistado”, salienta o coordenador. Como nova proposta de atuação para seu mandato, Guilherme Fuhr tem ideia de transformar o mês de abril no mês da cultura indígena – Como acontece em setembro, tradicional mês das comemorações gaúchas. O coordenador acredita que o conhecimento sobre a cultura indígena pode afastar o preconceito das pessoas.

Outra reclamação de Jaime é como os índios se sentem sob os olhares dos não indígenas (juruá em guarani). A falta de conhecimento da cultura indígena leva ao preconceito, e às vezes até a uma ação mais ríspida. Furh relata que a população liga para a prefeitura “denunciando” grupos indígenas pela forma que vivem no centro da capital gaúcha. Seja por estarem ocupando um espaço público ou pela presença das crianças, que costumam ficar brincando sem restrição de caminhada.

O antropólogo, Sérgio Baptista, explica melhor a relação do indígena na cidade com base em artefatos guaranis encontrados pela região do centro. “Foi sobre as aldeias indígenas guarani que a cidade se erigiu e se impôs. Igualmente, a presença deles continua após a fundação de Porto Alegre”, esclarece. E certamente mantendo seus antigos costumes, como o de criar os filhos de forma livre “não compreendendo como os juruá deixam seus filhos em creches”.

O espaço indígena tenta ser reconquistado. Das terras onde eram donos, hoje lutam com muito sofrimento para ter direito ao que é seu. E que a própria constituição brasileira garante. Luta solitária dos que compartilham o mesmo interesse. Interesse que a poucos interessa.

Ao andar pelo centro de Porto Alegre, a imagem da família sentada no chão com crianças correndo se destoa do restante, dos prédios, da pressa, dos manequins, dos carros… Mal sabem aqueles que estranham, que os estranhos são aqueles que olham com diferença e indiferença.

Brique da Redenção é espaço dominical para grupos indígenas venderem seus artesanatos (Deise Freitas)