Plástica, uma necessidade obsessiva

(Por Luiza Brandão Flores)

No Brasil, de acordo com estudo divulgado pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica e Estética (Isaps), em 2016, o País ainda é o segundo no ranking em número de cirurgias plásticas, onde para obter satisfação pessoal e mudar radicalmente sua fisionomia, algumas pessoas estão aderindo ao estilo “Living Doll” (tendência dos bonecos humanos), através de múltiplas cirurgias plásticas, o trabalho com a imagem e o impacto que as mudanças causam em suas vidas, são fatores que fomentam essas pessoas a irem em busca da imagem ideal e do personagem idealizado.

De acordo com a psicanalista Michele Poletto, a razão que leva essas pessoas a se transformarem radicalmente é que “sempre há uma combinação de fatores: culto exagerado à beleza, à perfeição, à juventude, excessivas fragilidades emocionais, construção emocional frágil de sua autoimagem, entre tantos outros.” Essas decisões geralmente acarretam problemas de saúde, satisfazem o físico das pessoas, mas além de trazerem essas consequências, podem originar conflitos familiares como a negação do corpo e da imagem de seus filhos, diz Michele.

 Modificar-se para se tornar um personagem ilusório atrai a atenção de muitos e principalmente da mídia. Esta especulação pelo inusitado e o diferente expõe essas pessoas ao mundo, atrai a atenção de quem colabora para se submeter a intervenções cirúrgicas em busca do corpo perfeito, segundo a visão da psicóloga Tatiana Passuello Ruffoni, ainda diz que, “este não é o único fator, o perfil de pessoas que tem a necessidade de transformar sua aparência é composto por pessoas que não possuem uma imagem valorizada de si própria. Em essência são pessoas muito inseguras, e que formam a ilusão de que conquistando o corpo ideal serão felizes e completas.

Na visão de Michele Poletto, o que pode contribuir para a escolha de mudar a identidade são os estímulos da modernidade e os avanços nas técnicas cirúrgicas. Ela diz ainda que o colapso e as dificuldades do mundo interno da pessoa também é fator que os faz buscar caminhos concretos e a compreender o que este tipo de desejo pelo produto final revela, colaborando para sua decisão. Um dos exemplos mais conhecidos é do eslovaco Justin Jedlica, o Ken Humano, que relatou diversas vezes que já fez mais de cem cirurgias plásticas para se assemelhar ao boneco. Refere também que esse projeto já se tornou a vida dele, sendo o pioneiro nesse procedimento.

A jornalista Eliane Brum relata que “as crianças veem a Barbie como um modelo que vai muito além de um padrão de beleza. Barbie é aquela que ensina as meninas que se nasce para consumir”. Para muitos o ideal de homem bonito é o Ken e de mulher é a Barbie e, de acordo com a psicóloga Tatiana, “esses bonecos estipulam um protótipo de beleza que afeta o psicológico, surge um problema no estabelecimento da identidade do indivíduo.” O que para ela, acaba deixando duvidoso a certeza por sua identidade real.

De acordo com Eliane Brum, “a Barbie é vendida como uma amiga, uma mentora e um modelo a ser seguido, com influência sobre pelo menos duas gerações de mulheres.” O padrão de beleza imposto pela sociedade, o sonho de ser perfeito e se tornar um ícone ajudam na obsessão de plásticas cirúrgicas,  de acordo com Michele isso é um distúrbio de imagem que acarreta um comprometimento psíquico e o comprometimento com a saúde.

Na pesquisa  publicada no censo de 2017, ao longo dos anos, houve aumento absoluto no número de cirurgias plásticas, influenciado por uma faixa etária de maior procura, entre 19 e 35 anos de idade. A conexão corpo e mente dessas pessoas está afetada e, segundo o documentário Tabu Brasil do National Geographic de 2015, a busca pela beleza acaba entrando em um ciclo sem fim, onde a medicina estética fica à disposição, e que há uma indústria cultural por trás, que fomenta de maneira subliminar o problema da imagem corporal às pessoas.

No livro Ciência Arte e Cultura no Corpo, de Francisco Romão Ferreira, “o culto ao corpo, o papel do corpo no meio social e sua importância no processo de construção da identidade na sociedade atual criam novos valores e novos sentidos que atuam na construção de uma nova percepção corporal em curso, e apontam para questões éticas que ainda não estão na pauta de discussão dos autores sociais que atuam no campo da Saúde Pública”. O crescimento dos mercados relativos às transformações corporais de natureza estética, colocam a estetização da saúde e as tentativas de metamorfose corporal como novas questões de Saúde Pública a serem discutidas e enfrentadas, de acordo com o livro de Ferreira. Este ainda é um assunto que deve ser abordado com maior frequência e seriedade com a realização de entrevistas com psicólogos e médicos que trabalham com este tema, diz Tatiana.

(Revisado por: Hiashine Florentino e Jiulia Santos)

Cirurgia plástica, perfeição e artificialidade

(Por Giullia Santos)

A busca incessante pela perfeição do corpo e os padrões de beleza impostos pela sociedade alimentam o mercado de cirurgia plástica estética no Brasil. No ano passado, mais de 800.000 procedimentos foram realizados no país, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, por um público majoritariamente feminino. Mulheres insatisfeitas com seus corpos que encontram, no bisturi, uma solução rápida para o problema. Mas o que era para ser solução traz à tona o questionamento social sobre a verdade do corpo cirurgicamente modificado.

Representando, aproximadamente, 87% dos pacientes que optam pela cirurgia, as mulheres lidam constantemente com as imposições do mercado de beleza. “A pressão social pela busca da perfeição do corpo”, conforme destaca a psicóloga Carla Menegat, tem um papel fundamental na procura por estes procedimentos. Implante de silicone, lipoaspiração e abdominoplastia lideram a lista de intervenções mais realizadas no país, em 2016.

O sociólogo Francisco Romão Ferreira, autor do livro Ciência, arte e cultura no corpo: a construção de sentidos sobre o corpo a partir das cirurgias plásticas, reflete: a cirurgia plástica promove uma autoimagem forte e positiva, mas esquece de dizer que é a ideologia que constrói a necessidade dessa autoimagem”. Desta forma, “o que pode significar estar feliz com a sua autoimagem? Seria estar adaptado às regras do jogo? Ajustado ao controle disciplinar dos corpos?”, questiona o sociólogo.

Por influência do padrão de beleza, “algumas mulheres optam por uma intervenção cirúrgica sem necessidade”, analisa Carla Menegat. A cirurgia plástica impacta diretamente na autoestima dos pacientes e, portanto, no seu entendimento de imagem e identidade pessoal. O aumento dos procedimentos está relacionado à importância atribuída à imagem, que no processo de construção de identidade, atua como o principal veículo de identificação. Para Giulia Araújo, de 19 anos, a escolha pelo implante de silicone “está relacionada com a autoestima”, afirma a jovem.

Apesar do aumento significativo da cirurgia plástica, é comum ouvir críticas e comentários envolvendo essas mulheres. Ao impor a necessidade de um corpo perfeitamente idealizado, a sociedade também rebate a prática da cirurgia, apontando como artificial, o corpo modificado através destes procedimentos. “A produção de sentidos sobre a imagem do corpo e a percepção que o sujeito tem do próprio corpo é, ao mesmo tempo, individual e coletiva”, reflete Francisco Romão.

Casos famosos como o de Andressa Urach, que esteve entre a vida e a morte após complicações cirúrgicas, aumentam o debate e a crítica aos procedimentos, reforçando a ideia de resultados artificiais e o risco da cirurgia estética desmedida. A busca pela perfeição reflete nas estatísticas divulgadas pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e a indústria da beleza alimenta a corrida feminina contra a balança, o tempo e o natural.

(Revisado por Hiashine Florentino e Luiza Brandão)

Fonte do gráfico: Divulgação de Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica