Concursos de beleza infantil abrem debate sobre a adultização precoce

(Por Bruna Jordana) 

Ela caminha pela passarela, com postura elegante e sob um vestido de gala sorri para os jurados na expectativa de ser a escolhida para representar o seu país mundo afora. Esta é a descrição de um concurso de miss que só se diferencia por um detalhe que tem chamando a atenção de especialistas: as candidatas à coroa têm entre cinco e nove anos de idade.

Nascido e moldado nos Estados Unidos, o evento tem pouco tempo de existência e pouca divulgação no Brasil. Thiago Fagundes e Cássio Pardo são os Coordenadores da Produtora Space, empresa localizada na capital que é  responsável pela organização do concurso Mini Miss Brasil Mundial. A maioria dessas competições são feitas por etapas, onde as meninas são avaliadas pelos quesitos de beleza, elegância ao desfilar, simpatia e pontualidade durante a programação. Os trajes para o desfile são o típico da região da candidata e o traje de gala. Segundo o coordenador Thiago Fagundes, a comissão julgadora é composta por pessoas relacionadas a área da beleza como cirurgiões plásticos e maquiadores.

É o caso de uma menina de 10 anos que recentemente participou de um importante concurso de beleza mirim. Segundo sua mãe, ela teve auxílio de um profissional que lhe deu também aulas de etiqueta e oratória. A primeira participação em concursos só ocorreu após algumas mudanças no hábito alimentar: “eu disse pra ela o seguinte: ‘você é cheinha, miss é magra’. Aí ela disse: mãe, e se eu emagrecer, você me coloca no concurso de miss?”. A mãe disse que a filha então cortou doces e refrigerantes da sua alimentação. “Foi quando ela disse ‘mãe eu emagreci 5 kg você, vai me colocar no concurso?’ Fiz alguns empréstimos e coloquei ela no miss Alagoas”, comenta. Embora seja defendido pelos pais, concursos deste gênero têm a tendência de impor padrões que podem causar inúmeras consequências. Segundo a psicóloga infantil, Maúcha Sifuentes, estes concursos podem influenciar no desenvolvimento de  transtornos alimentares que ficam mais claros na vida adulta.

Tanto a mãe, quanto os coordenadores da Produtora Space, acreditam que dentro do concurso tudo é levado de uma maneira leve, sem ser encarado pelas meninas como uma competição, de fato. Entretanto para a  psicóloga Maúcha Sifuentes, as crianças que participam destes eventos passam a ser mais competitivas do que cooperativas, encarando com mais profissionalismo, dedicação e cobranças pela questão de estarem sendo avaliadas. Além disso, estudos demonstram que na vida adulta elas são mais inseguras, tendo uma imagem distorcida de si uma vez que o padrão de beleza foi muito instigado e rígido.

Permitir ou não a entrada das filhas neste mundo de concursos de beleza é uma decisão dos pais que, muitas vezes, projetam até mesmo de maneira inconsciente suas questões pessoais e insatisfações na criança. Independente da escolha, a especialista ressalta que não somos apenas beleza: “A gente tem que poder ter um repertório mais amplo, de outras habilidades,de outras relações, de poder entender que a gente é imperfeito e não buscar qual é esse ideal de beleza”. Por isso, para especialistas, é importante que os pais estejam cientes dos impactos que estes concursos podem causar.

(Revisado por Alessandra Kominkiewicz)

A identidade estética e o poder dos significados

(Por Jennyfer Siqueira)

Falso e significado são palavras intimamente ligadas quando uma cultura já possui sua definição de “belo” e se confronta com outra fora da “norma”. A mulher negra que ostenta suas tranças, dreadlocks ou mega hair está sujeita a julgamentos nessa realidade. Tendo que reafirmar a todo o momento o que é verdadeiro para si e o que as representam como beleza. E para as especialistas, o problema são significados colocados nessa estética diferente da “verdadeira” e “ideal”.

“Vejo esse falso como uma característica que as outras pessoas atribuem a mim”, Sandra Meirelles afirma. Quando a técnica de enfermagem do Hospital da Criança Conceição reflete sobre a expressão “pessoa falsa”, chega ao que é consenso na academia. Tanto a historiadora, Fernanda Oliveira, quanto a psicóloga, Ana Maria Bercht, concordam que o uso de expressões como falso ou pessoa falsa criam um juízo de valor de como alguém é como ser humano. “As pessoas afirmam uma identidade antes de saber o que penso”, aponta Sandra.

Ana, mestranda em psicologia social, nunca se deparou com esse conceito de falso. Se voltarmos um pouco, mais precisamente, a partir da história das Américas, a liberdade do falso nunca existiu para grupos racializados. “Existe a possibilidade de acionar e manter aquilo que é verdadeiro para si”, conforme analisa a historiadora. Sandra sabe bem o que é isso. Depois de 20 anos tendo tranças, resolveu mudar. Agora, com o cabelo curto, conta que ele representa melhor sua personalidade prática e camaleônica. Apesar de não atribuir sentido político e de ativismo nas tranças, tinha como bonito o penteado. O que não impedia “os outros” de atribuir o significado ao seu cabelo.

Como canal de transmissão de mensagens, e sustentada pela estrutura social, a estética estabelece sua importância pelo potencial de manifestação da identidade que o ser humano “nutre de sentidos e significados que se fazem através do corpo”. Para Fernanda, quando esse movimento é realizado, a pessoa passa a dizer quem ela é, do que se orgulha e deixa de ser “um corpo apontado pelo outro”. Entretanto, Ana ressalva que “não podemos dizer que uma pessoa é falsa pela sua estética e aparência” já que ela envolve outras questões como estrutura social e relações de poder.

Assim como Fernanda e Ana, Sandra vê a afirmação desse estereótipo nas falas dos conhecidos quando veem sua mudança de corte de cabelo e ligam sua estética ao estereótipo criado para mulher negra que usa alisamento, dreads, mega hair e tranças. Apesar de não levantar bandeira, ela concorda com a historiadora que para os grupos racializados o corpo fala e as pessoas o leem. “Todos nós temos nossos preconceitos. A única forma de reverter isso é estudando. É procurar saber do que se trata antes de falar a sua opinião”, diz Sandra.

As crianças, principalmente meninas, são bombardeadas com modelos pré-estipulados por seus responsáveis e pelo seu ambiente social. A psicóloga relaciona a realidade das mulheres serem ensinadas a enxergarem seus corpos sob a ótica da aparência desde cedo ao fato delas serem as maiores consumidoras de tratamentos, serviços e produtos associados a beleza. Ana aponta o vínculo desse “belo” a características tidas como positivas pela estrutura social por estarem associadas às pessoas brancas e que automaticamente “rejeita as outras etnias”.

A beleza negra trava a mais de 50 anos uma luta para ser reconhecida e exposta a termos afirmativos. Como analisa a historiadora, o grupo adquiriu a possibilidade de diferenciar o falso do verdadeiro e de dizer “isso é o que me constitui”. Conquista de anos de ativismo cada vez mais presente nos círculos sociais e na mídia. Fernanda ainda ressalta a importância de não deixar o debate ficar na superfície e perder “seu potencial de transformação”. Já que quando aprofundada, a rejeição dessa “beleza” a outras culturas encontra-se com o cerne de grande problema que é pensar racialização no Brasil.

(Revisado por Larissa Pessi, Luísa Meímes e Marjorie Paula)

Legenda da Foto: Mulheres debatem expressão “pessoa falsa” a partir da ótica da estética e identidade

Crédito da Foto: Fayler Aprato