Arquitetura do medo e a vida nos condomínios fechados

(Por Patricia Vieira)

Porto Alegre tem muitos condomínios. Conforme o Panorama do Mercado Imobiliário feito pelo Sindicato de Habitação do Rio Grande do Sul (Secovi-RS), em 2016, a Capital tinha 14.402 conjuntos habitacionais, os quais abrigavam cerca de 70% da população total do município. Ainda conforme o levantamento, a maioria deles se concentra em áreas centralizadas da cidade, como os bairros Petrópolis, Menino Deus e Centro Histórico. Por outro lado, em regiões mais afastadas, existe um número menor de condomínios, fazendo delas lugares de acelerado crescimento urbano atualmente. É o que acontece nas Zonas Sul e Norte da Capital.

Segundo o arquiteto e urbanista Cláudio Ugalde, chefe da Divisão de Planejamento Urbano e Regional da Metroplan (Fundação Estadual de Planejamento Metropolitano e Regional) em um contexto de crise da segurança pública, o aumento da violência torna-se grande argumento para a venda dos imóveis nessas regiões. Assim, cria-se o fenômeno da chamada Arquitetura do Medo. “As pessoas e as comunidades se fecham para a interação social. É esse conjunto edificado, todas as soluções arquitetônicas que se estabelecem para se fechar a interação social e para afugentar as pessoas que tentam se aproximar de alguma maneira.” Diferente das áreas onde existe amplo comércio, circulação em praças e áreas de uso comum do espaço público, os arredores desses empreendimentos se tornam vazios, fazendo com que a circulação de pedestres se torne algo escasso. Assim, predomina o risco de incidência de crimes e violência. “Todas as áreas em que existem dificuldades de circulação e presença de pessoas gera insegurança. Enquanto os condôminos buscam ter segurança intramuros, as pessoas que trafegam nas ruas ao longo dos muros, pelo lado de fora, não têm segurança alguma, porque são fachadas inativas” explica Cláudio.

Aliado a questões como o aumento da frota de veículos particulares do RS, a sensação de medo se transforma num ciclo. Conforme dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RS), Porto Alegre possui quase 675 mil veículos em circulação, considerando carros e motos. Em regiões em que a incidência de condomínios é predominante, a utilização de automóveis particulares significa a privação do uso de mecanismos de interação social e uso comum, como por exemplo, a utilização de transporte coletivo e espaços abertos.

Para a psicóloga Luciara Itaqui, esses fatores tendem a modificar a estrutura da relação do urbano e das pessoas: “As cidades no decurso da história sempre tiveram um sentido de exercício de cidadania e como espaço de convivência social. Devido ao contexto de insegurança, as pessoas passam a ver os outros com receio. Esse isolamento doméstico faz com que as pessoas fiquem privadas da vivência urbana. Isso intensifica a privatização da vida e faz com que a relação com a cidadania seja castrada, pois o espaço público não é mais o espaço das trocas, do aprendizado. A rua não é mais um local de socialização, mas uma via que serve para levar as pessoas de um local privado para outro.”

Dessa forma, o esvaziamento do espaço público se torna algo comum, e a realidade da crise da segurança, um episódio de isolamento coletivo. A população porto-alegrense modifica sua história através de novos formatos de “bolhas sociais”. Para Luciara, “sem a vivência com o diferente, cada vez mais as pessoas criam suas ilhas de isolamento social e o medo acaba imperando.” Nessa perspectiva, o urbanista Cláudio acredita no enfrentamento coletivo da violência através do uso do espaço público: “Tornar a cidade mais segura é um desafio para todos nós.” Afinal, vencê-lo significa repensar privilégios individuais em benefício da sociedade em coletivo.

Apropriação cultural em debate

(Por: Hiashine Florentino)

(Por: Hiashine Florentino)

Nos últimos meses, o debate sobre a apropriação cultural vem ganhando atenção das pessoas, depois que a estudante Thauane Cordeiro, 19 anos, em fevereiro deste ano, foi repreendida por uma ativista negra no metrô de Curitiba, no Paraná, por fazer uso do turbante, importante símbolo sagrado e significativo para a etnia africana. A visibilidade do caso trouxe à tona a discussão sobre a apropriação cultural.

A situação repercutiu após, a jovem que está em tratamento contra a leucemia, postar um texto sobre o caso no Facebook: “Eu comecei a reparar que tinha bastante mulheres negras, lindas aliás, que tavam me olhando torto, tipo ‘olha lá a branquinha se apropriando da nossa cultura’. Enfim, veio uma falar comigo e dizer que eu não deveria usar turbante porque eu era branca. Tirei o turbante e falei: tá vendo essa careca, isso se chama câncer, então eu uso o que eu quero!  Adeus”, escreveu Thauane em sua rede social, publicando uma foto usando o objeto e finalizando com a frase: “Foto da negra branca mais ‘chave’ que vocês conhecem”, lançando a hashtag, “Vai ter todos de turbante sim”. O post rendeu mais de 37 mil compartilhamentos e mais de 100 mil curtidas.

Entre muitos comentários, uns apoiavam: “Sou negra e acho que cada um usa o que quiser. Se um branco usa algo da cultura negra é sinal que não tem preconceito é disto que o mundo precisa, independentemente de estar doente ou não”, mas também há quem criticasse a atitude da jovem: “Enquanto negras são chamadas de macumbeiras feias quando saem na rua de turbante, brancas ganham fama fazendo o mesmo”, comentou outra.

Depois deste episódio, a apropriação cultural começou a ser tratada com mais seriedade e ganhar mais destaque em debates sobre os direitos raciais no Brasil, mostrando a importância de objetos para os grupos étnicos. Para a estudante de psicologia Kerolin Fagundes, 22 anos, o desenvolvimento das indústrias propiciou que elementos culturais da população negra fossem violados e ignorados, perdendo seu significado histórico.

“O sistema e o indivíduo propagam de forma vazia e inexistente a cultura negra, somos um país miscigenado, mas devemos respeitar e conhecer o que se utiliza, não sendo somente um acessório”, fala a jovem que atualmente participa do “InterFaces: da cor ao corpo à violência do racismo”, projeto que reúne estudantes negros da UniRitter para debater sobre estas questões.

Na internet esses assuntos ganham cada vez mais visibilidade, Nátaly Neri, 23, que há dois anos, grava vídeos para o seu canal do YouTube, chamado “Afros e Afins”, que aborda o empoderamento da mulher negra, comentou: “O caso da menina do Paraná, em termos midiáticos é tudo que a branquitude e a mídia racista precisavam para chacotear nas pautas dos movimentos negros e deturpar nossos conceitos”, afirma Nátaly que conta com mais de 200 mil inscritos, e fala diretamente para Thauane. “Moça, se você se sentiu maltratada, abusada, se sua liberdade foi podada e que as pessoas estavam tentando dizer o que você deveria fazer da sua vida, que bom você viralizou, a mídia te escutou, eu por exemplo duas vezes só nesta semana, fui encostada por homens brancos que pediram para eu arrancar meu cabelo porque ele era muito feio, e infelizmente eu não saí em nenhum meio de comunicação”, completa a estudante de ciências sociais.

As polêmicas tranças de Anitta

 No mês de agosto, enquanto gravava um videoclipe no Morro do Vidigal, a cantora pop Anitta foi fotografada usando tranças afros e logo recebeu inúmeras críticas pela apropriação, a artista rebateu dizendo: “Eu me importo com coisas que realmente vai mudar o futuro do país, que vá mudar a vida das pessoas. Uma trança é uma trança”, respondeu.

A estudante de farmácia, Gabriela Flores, 22 anos, classificou como um “atrevimento” perante a cultura afro, símbolos como este ser tratado com banalidade e alfineta a cantora: “Essa frase da Anitta, demonstra ironia e indiferença, as tranças, assim, como os turbantes para as mulheres negras são um ato não só de beleza, mas, firmação, ousar agora no presente, é forma de rebelar o que foi reprimido no passado”, diz a jovem que participa ativamente de movimentos pela causa negra.

Ao contrário de Gabriela, o estudante de rádio e tv, Vítor Duarte, 20 anos, acha delimitador dizer que cultura não tem dono pois, seguir movimentos culturais não vivenciando daquele povo, é uma forma de expandir e unir o mundo podendo acabar com coisas inaceitáveis como o preconceito, e defende Anitta: “Ela está levando a cultura negra para o mainstream  favorecendo a nossa negritude, o contexto das tranças é justamente por conta do videoclipe ser gravado em uma comunidade carioca, onde 95% dos moradores são negros, ela estava retratando as pessoas que vivem lá”, argumenta o futuro comunicador, profissão majoritariamente de brancos.

Para a atriz, Nara Corrêa, 56, que há 24 anos usa dreadlocks, as tranças representam resistência política e cultural herdado pelos ancestrais, mas virou artigo de moda, se antes os penteados afros no cabelo das negras não pareciam interessante, quando a artista branca saí na capa da revista a opinião da sociedade muda. “Já me perguntaram inúmeras vezes se meu cabelo fedia. Infelizmente, há muitos rótulos, comparam a capacidade intelectual do indivíduo, com seu estilo”, fala assumindo o preconceito que sofre e ressalta: “Se eu trabalhasse em um emprego formal acho que teria problemas por causa do meu cabelo”, comenta Nara.

Um problema estrutural

Assim como acontece com os negros, os foliões apropriam-se dos indígenas com cocares e pinturas de tinta guache, em fantasias de carnaval, porém, o significado é mais amplo, pintar o corpo com tinta feita do fruto de urucum representa para as tribos a iniciação para um ritual específico e sagrado, os indianos sofrem apropriação ao testemunharem, sáris e os deuses hinduístas, Ganesha, Shiva e Krishna estampando artigos da indústria têxtil, os chineses por presenciar o uso do alfabeto, e dos símbolos orientais tatuados em ocidentais, que mal sabem a verdadeira tradução do que está firmado na pele, isso retratando apenas os casos mais rasos retirados destas etnias.

Segundo a mestre em filosofia, feminista e militante negra, Djamila Ribeiro, uma coisa é o intercâmbio de culturas, que é muito positivo, outra coisa é a apropriação.  “No nosso país, as culturas foram hierarquizadas, sendo a negra colocada como inferior, exótica. E a troca só é possível quando não existem hierarquias, enquanto terreiros são invadidos, há marcas que acham ‘cult’ colocar modelos brancas representando Iemanjá. Esse discurso de que a cultura é humana só é válida quando querem apropriá-la, ” e alerta que as críticas devem ser feitas para às indústrias que lucram e não às pessoas pois, é energia gasta com o alvo errado: “Não julgo certo apontar dedos para pessoas brancas que fazem o uso da cultura negra por alguns motivos. Primeiro, muitas dessas pessoas desconhecem a discussão sobre apropriação cultural, segundo, não se pode responsabilizar somente os sujeitos, e por fim estamos falando de um problema estrutural”, afirma a ativista dos direitos humanos.

Ainda há muita carência sobre este assunto nas grandes mídias, a apropriação precisa ser debatida pois, é algo de extrema delicadeza que fere os grupos dominados por um sistema dominante, que antes não tinham direito de reivindicar a usurpação de valorosos elementos da sua etnia, ou seja, a cultura é popular, mas o verdadeiro dono não, e isso precisa mudar.

(Revisado por: Giullia Silveira e Luiza Brandão)

Legenda: Cantora Anitta posta foto no Instagram

Foto: Reprodução Instagram da cantora Anitta.

Consequências cirúrgicas provocadas pela cultura do corpo perfeito no século XXI

(Por Pâmela Bassualdo)

O Brasil é o segundo país no ranking de cirurgias plásticas no mundo. Esse cenário impulsiona mais as intervenções estéticas a cada ano. Cerca de 200 mil procedimentos estéticos são feitos anualmente no país, mas em muitos casos o erro médico gera resultados jamais esperados, tanto físicos como psicológicos.

De acordo com artigos da psicóloga Helena Miranda dos Santos, a expectativa é produzida pelo o que é idealizado na mídia, causando em mulheres e homens uma procura pelo corpo ideal. Essas idealizações para um corpo perfeito são maioria entre as pessoas do século XXI e intervenções estéticas, invasivas ou simples, aumentaram desde 2011. “Nós, como seres que vivemos na busca do desejado, consumimos esses serviços e produtos na expectativa de sermos aceitos, felizes e termos sucesso”, explica o psicólogo Elias Pokorski.

O procedimento mais utilizado no mundo inteiro é a aplicação de botox, toxina que em grandes quantidades é letal. Aliás, essa é a palavra que descreve bem a média de oito casos de mortes por cirurgias plásticas por ano no Brasil. Mulheres são cerca de 87% de quem procura um cirurgião, e entre as cirurgias feitas, as principais são: Lispoaspiração, colocação de próteses nos seios, rinoplastia e abdominoplastia.

Quando ganhou o primeiro filho, Patrícia Mosele, de 40 anos, percebeu a diferença que isso causou em seu corpo. Como milhões de mulheres ao redor do mundo, ela se incomodava com os defeitos que via, principalmente na barriga após a gravidez. Pensou em uma intervenção cirúrgica, foram duas bem-sucedidas, mas na terceira toda a expectativa virou pesadelo. O médico cometeu graves erros e Patrícia precisou de 17 operações de correção para recuperar o que foi perdido. A expectativa de melhorar se tornou a expectativa de corrigir. Tinha vinte e dois anos quando fez a primeira abdominoplastia. Uma enquete aberta em uma rede social mostrou que 88% dos que responderam têm entre 18 e 24 anos e estão interessados em procedimentos estéticos. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgias Plásticas, desde 2015 houve um aumento na realização dos procedimentos em pessoas dessa faixa etária.

Por trás de uma taxa tão alta de sucesso, há uma porcentagem que não é percebida. A pequena parcela de cirurgias mal feitas ou de negligência médica, que desenrola severos problemas físicos e mentais nos pacientes. A cirurgia de Patrícia foi considerada pelo Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, como uma das cinco piores já realizadas na instituição. Mesmo com processos por danos morais e assédio sexual, o médico que errou sua cirurgia continua a exercer a função de cirurgião plástico.

As penas são brandas e segundo relatório do Conselho Regional de Medicina de São Paulo somente 46% das denúncias foram favoráveis aos pacientes, sendo aplicadas como danos morais. Advogada e professora de Direito da Universidade de São Paulo, Simone Henriquez explica como respondem esses médicos na Justiça: “Teoricamente o profissional médico responde um processo civil, penal – lesão corporal e até homicídio- e administrativamente – no âmbito do Conselho Profissional”. No site JurisBrasil, que mostra um banco de dados sobre jurisprudência, constam mais de quatro mil resultados sobre processos de responsabilidade em danos estéticos de cirurgias plásticas. Isso é um total de 2% das operações realizadas.

Além de gastar cerca de 50 mil reais em correções cirúrgicas, Patrícia Mosele ainda precisou ir ao psicólogo, devido a uma depressão e baixa auto-estima.  “Cada dia que passa eu tento correr atrás e superar, nunca vai ser 100% de novo”, desabafou. O médico que realizou o procedimento colocou uma prótese maior do que o corpo comportava, os pontos abriram e o caso agravou. Os sintomas psicológicos são diferentes para cada indivíduo. “Cada pessoa tem sua velocidade e particularidade na maneira como lida em cada fase. Mas se pensarmos em problemas gerados pode pensar na depressão, que é algo comum em situações assim”, explica o psicólogo Elias Pokorski. A maioria dos psicólogos procurados pela reportagem não conseguiu dar parâmetros para os sintomas produzidos por cada paciente, sendo necessária análise aprofundada para cada ocorrência.

Casos como o de Patrícia podem parecer difíceis de encontrar, mas são mais comuns do que se imagina. Apesar dos riscos, milhares de pessoas ainda pretendem passar por cirurgias arriscadas na busca do corpo mostrado em páginas publicitárias. A decisão pelos procedimentos foi unânime entre os jovens que participaram da enquete, e a insatisfação com o próprio corpo é reforçada principalmente pelas mídias sociais. A meta de Pati, como é chamada pelos amigos, é terminar de cuidar do que foi arruinado, juntando dinheiro para mais uma cirurgia de correção, que ela espera ser a última. A busca pela perfeição está longe do fim para ela e para tantas outras Patrícias que já existem ou existirão ao redor do mundo.

(Revisado por Paula Chidiac, Danrley Passos e Andrew Fischer)

Legenda: Apesar dos índices de mortes e erros em cirurgias plásticas, o Brasil continua nas primeiras posições dos procedimentos estéticos do mundo

Crédito da foto: Pamela Bassualdo

Ingressos meia-entrada, a catraca das fraudes

(Por Rafael Godoy)

Um hábito comum entre os estudantes é a utilização da carteira estudantil para obter descontos na compra de ingressos, um benefício importante adquirido ao longo do tempo, mas por outro lado é uma porta aberta para as fraudes. O objetivo do pagamento da metade do valor é proporcionar aos alunos, idosos, pessoas com deficiência, jovens comprovadamente carentes e doadores de sangue regulares, o direito de participar de espetáculos artístico-culturais e esportivos pagando apenas 50% do ingresso.

A grande fatia das fraudes vem por parte de pessoas que não estão devidamente matriculadas em instituições de ensino, prática muito comum, mesmo sendo regulamenta por lei esta categoria de ingresso. O benefício é garantido por Lei Federal e obriga os estabelecimentos a disponibilizar 40% do total de ingressos de cada evento nesta modalidade.

Para diminuir este tipo de irregularidade foram impostas no decorrer dos anos diversas alterações na lei vigente, uma delas foi a padronização da Carteira de Identificação Estudantil (CIE), que começou a ser expedida pela União Nacional dos Estudantes e pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas. O documento passou a ter certificação digital e padrão nacional regido por estritas medidas de segurança e fiscalização, de forma a evitar fraudes.

Estelionato e falsa identidade

Mesmo com a fiscalização e a padronização do documento, ainda é possível burlar a legislação e efetuar a compra de ingressos sem comprovação do merecimento do desconto. Nem a possível pena para quem falsifica o documento é suficiente para acabar com tal prática. A falsificação da carteira de estudante tipifica o crime de estelionato previsto no Código Penal Brasileiro. Para os casos de fraude em documentos, a legislação prevê pena de até cinco anos de prisão, além do pagamento de multa.

Outra prática irregular é a utilização de carteira de sócios por terceiros. É comum torcedores ingressarem nos estádios apresentando o cartão de sócio de algum amigo, familiar ou conhecido. Tal ato é totalmente proibido, pois a mesma é de uso pessoal e intransferível. Este tipo de prática é prevista no Código Penal Brasileiro como falsa identidade, onde a pessoa usa de documento falso ou de outro indivíduo para obter vantagens e prejudicar outrem. Nesta situação é previsto na legislação reclusão de três meses a um ano ou pagamento de multa.

Controle das irregularidades

Para combater tais irregularidades, as entidades veem organizando-se para acabar de uma vez por todas com tais práticas fraudulentas. Em entrevista realizada com o Diretor Executivo de Administração do Sport Club Internacional, Luiz Eduardo Silveira, ele conta como o Inter vem agindo neste tipo de caso. No que diz respeito sobre o controle de acesso dos torcedores ao estádio o diretor executivo disse que todos os acessos são controlados e  bilhetes especiais possuem controle exclusivo por portão, havendo um procedimento diferente onde é solicitado documentação para verificar o pertencimento do ingresso ao mesmo.

O controle das compras de ingressos é de inteira responsabilidade do Internacional, utilizando um sistema de empresa terceirizada. O acesso dos torcedores com carteiras de sócios,  também possuem acesso diferenciado e as mesmas possuem chip e caso identificado que seja de terceiro, não é autorizada a entrada. O Internacional vem se precavendo para evitar possíveis fraudes, e duas medidas são elencadas como fundamentais, segundo o dirigente colorado. “A verificação diferenciada nas catracas de meia-entrada e a identificação com CPF na compra de ingressos da bilheteria”, explica Luiz.

Para o professor do curso de Direito da UniRitter, Marcelo Sant’Anna, o direito dos consumidores deve ser garantido, respeitado as regras. Segundo o professor, somente a compra não se caracteriza como crime, no entanto a compra e utilização de meia-entrada mediante o uso de documento falso sim. Segundo o mestre em Direito, o uso de carteiras de sócios por terceiros dependendo da situação pode caracterizar crime previsto no Código Penal, e todos os envolvidos que contribuíram para o ato ilícito podem ser responsabilizadas. Sant’Anna falou sobre as medidas que os clubes devem tomar nestes tipos de casos. “Cabe aos estabelecimentos cumprir a lei da meia-entrada, caso o associado tenha infringido uma norma estatutária da associação, o estabelecimento poderá aplicar as medidas previstas no estatuto social”, finalizou.

A lei da meia entrada surgiu como uma grande conquista, principalmente para os estudantes, oportunizando a um maior número de pessoas acesso a eventos esportivos e culturais com pagamento da metade do valor. Ao longo dos anos foram surgindo novos textos e complementos para melhorar a legislação e evitar possíveis fraudes, mas constantes irregularidades ameaçam, a longo prazo, a existência do benefício deste importante sistema de inclusão social.

(Revisado por Ana Carolina Pinheiro e Patrícia Vieira)

A era do fake news e o papel do jornalismo

(Por Jocelias Costa)

A pós-verdade foi escolhida a palavra de 2016 pelo dicionário de Oxford, que definiu o termo como “ algo que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência para definir a opinião pública do que o apelo à emoção ou crenças pessoais”. Mas como ela afeta a vida dos comunicadores? Como os jornalistas estão reagindo a essa nova realidade?

Para o jornalista da rádio Guaíba, Carlos Guimarães, a fake news está muito ligada a definição da pós-verdade e que esse fenômeno está mais associado ao receptor da notícia do que por aqueles que emitem publicamente as informações. “A fake news surge a partir de uma mídia independente que lança um boato ou uma notícia para condicionar a opinião pública e dependendo de como for, podemos acreditar ou não naquilo que foi publicitado”, opinou o jornalista.

Na visão do sociólogo e jornalista, Marcos Rolim, um dos fatores determinantes para o crescimento do “fake news” é a disseminação das novas tecnologias que torna possível que todos sejam emissoras de informações de fatos ou fenômenos sociais. “ O que ocorre é que essas possibilidades – que possuem extraordinário potencial democrático –  também facilitam e até estimulam a produção irresponsável de informações.” explicou o sociólogo.

Outra questão destacada por Marcos Rolim foi o fato da sociedade ser influenciada pelas notícias falsas devido a falta de uma formação cidadã, acreditando apenas nas informações que confirmam seus preconceitos, onde acontece o compartilhamento das informações falsas. “Uma pessoa com noções elementares a respeito de ética e comunicação jamais reproduziria uma mensagem anônima, por exemplo, mas pessoas sem noção  fazem isso com frequência”, relatou Marcos Rolim que também destacou que na polarização política e ideológica, as noticias falsas se tornam uma arma de guerra. “ Quem se sente em um debate, não tem tempo nem disposição para pensar. O que importa é sobreviver e “matar” seu adversário.”

Comentarista esportivo da rádio Guaíba desde 2014, Carlos Guimarães também enfatizou a questão do público acreditar naquilo que vai de encontro ao pensamento dele. “Existe fake news que são escancaradas, mas tem muita gente que acredita por ter empatia aquilo que acredita. Isso acontece muito em política e também no futebol.”

E o papel do jornalista?

Sobre o papel do jornalista em relação a esse fenômeno, Carlos Guimarães entende que a profissão no Brasil está passando por um processo de adaptação, as disseminações das redes sociais e que cada vez mais o jornalista deve buscar entender o fato das pessoas estarem buscando informações de forma independente e também refletir sobre o verdadeiro papel do jornalismo na sociedade nos dias de hoje. “Acredito que o jornalismo mudou. Não saberia dizer o que é um verdadeiro jornalismo. O verdadeiro jornalismo que nos ensinam em sala de aula é o da função social do quarto poder, aquela ideia que somos importantes para a sociedade somos informantes para o que a sociedade precisa”, ressaltou o jornalista. Marcos Rolim comentou que a imprensa tem responsabilidade no crescimento do fake news por muitas vezes não apurar as próprias informações que podem ser facilmente instrumentalizadas pelos emissores das falsas notícias. “Caberá à imprensa – a antiga e a nova imprensa – desmontar as notícias falsas, denunciando o que elas carregam de manipulação e desprezo pela Inteligência. Se ela não fizer isso, estará condenada a desaparecer”, falou o sociólogo.

Com o objetivo de apurar os fatos que muitas vezes são recebidos pelas redes sociais, em abril deste ano o Grupo RBS lançou o serviço “Notícia Falsa na rede”, buscando esclarecer  os boatos surgidos nas páginas de facebook, sites, e grupos de whatsapp. O mentor da ideia foi o jornalista e produtor da rádio Gaúcha, Tiago Boff explicou que o projeto surgiu após uma entrevista com a Secretária Estadual do Meio Ambiente, Ana Pellini, que na ocasião esclareceu uma notícia que estava sendo compartilhada no whatsapp, que o Jardim Botânico seria vendido para uma empreiteira. A notícia era falsa e a partir desse fato, surgiu o quadro na rádio Gaúcha sendo expandida para o jornal Zero-Hora. Tiago Boff trabalha em conjunto com a equipe de redes sociais de Zero Hora, onde são recebidas com tons duvidosos. “Eles recebem muitos compartilhamentos de notícias que, aparentemente, são falsas. Erros de português, manchetes extraordinárias, sensacionalistas, que envolvem política e comumente são publicadas em sites não confiáveis. Depois da suspeita, eu busco um dos citados, empresa, fonte, etc. Escrevemos a matéria para a Zero Hora – eu ou algum repórter que esteja com a pauta – e também gravo para o ar.” No projeto “Notícia Falsa na rede”, Tiago Boff afirma que o whatsapp é o maior disseminador de notícias falsas.

Mesmo com a evidência das redes sociais e das possíveis criações de notícias o brasileiro acredita ainda nas informações da grande mídia, segundo pesquisa do Instituto Reuters para o Estudo de Jornalismo, divulgado pela universidade inglesa Oxford afirmou que 60% dos brasileiros entrevistados acreditam nos meios de comunicação. Além disso o levantamento aponta que os brasileiros preferem a prática do celular como instrumento de informação, sendo 65% do país faz uso dos smartphones. Segundo a pesquisa mais de 97% das famílias brasileiras têm um aparelho de TV, mas só em 2015, apenas uma em cada duas casas ficavam conectadas a internet.  As produtoras de notícias permaneceram as  mais populares no ambiente on-line, mas  com alterações significante no uso de dispositivo usados para acessas o conteúdo de jornalismo, tendo nos smartphones como principal canal de consumo de noticias pela internet.

(Revisado: Danrley Gonçalves e Bruna Graco )

“Gatos” têm vantagens físicas nas categorias de base

(Por: Dan Gonçalves)

Os noticiários esportivos trazem cada vez mais casos sobre atletas que comentem atos ilícitos para ter vantagens nas competições. Quando falamos nessas infrações pensamos diretamente no doping quando atletas usam substâncias proibidas, mas também há outra maneira de ter ganho desempenho no universo do futebol e quem usa este artificio é chamado de “gato”, na gíria do esporte. O Gato é quem usa documentos falos ou de outra pessoa para disputar competições em categorias inferiores.

Existem casos que chamam a atenção, o mais recentemente aconteceu no Internacional, o atleta Fernando Baiano usou os documentos o irmão mais novo, que tem 19 anos, para atuar nas categorias de base. O nome verdadeiro dele é Fabio e possuía 24 anos, quando assumiu o ato, em 2014, onde tinha idade para jogar pelos profissionais. O próprio jogador confessou ao clube e teve contrato rescindido.  Outro jogador que ficou famoso pelo “gato” na base foi Sandro Hiroshi, que jogou no São Paulo em 1999 e ficou sem jogar por 180 dias como punição.

Procurada a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) informou que a responsabilidade de verificação dos documentos dos atletas seria de responsabilidade dos clubes e que ela apenas faria apenas conferência se não há erros na documentação. No livro de regulamentos da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de 2017, na seção dois, o artigo 13, paragrafo quatro, diz apenas que os clubes são responsáveis pelas condições dos jogadores de poderem atuar pelas competições, organizadas pela CBF.

Qual a vantagem que um jogador que adultera a idade e joga nas categorias de base pode ter? O atleta realmente tem vantagem? O preparador físico das categorias de base do Novo Hamburgo, Rafael Delavi, que é formado desde 2009 pela Unisinos e já passou por Aimoré e Veranópolis, respondeu estas perguntas. O profissional da educação física revelou que o jogador mais velho, que atua nas categorias de base, é superior em quase todos aspectos físicos e classificou a diferença como “grande” na capacidade física dos atletas. Delavi também disse que os jogadores que atuam na categoria correta para a idade estão em formação físicas e quando um jogador mais velho atua numa categoria inferior, ele vai estar mais pronto.

“Fisicamente, na verdade ele é superior em todas as capacidades físicas. Ele é mais forte, ele é mais resistente muitas vezes ele tem mais velocidade. Então essa é uma diferença muito grande”, afirma o preparador físico Rafael Delavi. Já o instrutor de musculação do Grêmio Náutico União e avaliador do Centro de Treinamento Olympus, Bruno Padre, falou que há diferença na musculatura entre adultos e adolescentes, que os músculos estão em maturação nos adolescentes e a capacidade física de um adulto já está pronta, já na fase da adolescência está em evolução. O instrutor deixou claro que uma série de fatores vai definir se o atleta vai ter vantagem ou não. “Se os dois (adulto e o adolescente) começarem, praticamente a treinarem juntos, a tendência é que o jovem tenha um adaptação mais rápida que o mais velho. A vantagem vai depender mesmo do condicionamento da pessoa,”  explicou Padre.

Estes casos de “gatos” foram apenas os descobertos e há outros que não foram citados na reportagem, além de uma infração desportiva, o jogador que adultera a idade pelo sonho de ser jogador de futebol, também pode tirar a vaga de uma outra pessoa que está agindo corretamente de um clube e também de seu sonho.

(Revisores: Jocelias Costa, Paula Chidiac)

A era da pós-verdade e o ressurgimento de um antigo problema

(Por Danrley Passos)

Com o crescimento da convergência entre as mídias, onde as empresas se utilizam cada vez mais da internet para a divulgação do seu produto, impulsionado pelas novas tecnologias e utilização das redes sociais no meio profissional, encontramos informações cada vez mais acessíveis. As notícias, que antes se concentravam apenas em jornais, rádio e televisão, hoje são encontradas também no maior concorrente destes meios: a internet e as redes sociais. O problema é que nem sempre estes meios são confiáveis. O compartilhamento de notícias falsas cresce neste mundo das tecnologias e de redes sociais acessíveis, que ajudam na propagação de fatos de interesses pessoais.

Em 2016, a Oxford Dictionaries — departamento da Universidade de Oxford responsável pela elaboração de dicionários — elegeu, como em todos os anos, uma nova palavra para a língua inglesa: “pós-verdade”. O termo explica situações em que fatos objetivos, e de interesse público, tem menos importância do que apelos com interesses pessoais. A “pós-verdade” explica que a verdade está perdendo espaço no debate político, através de “boatos” e notícias falsas que impulsionam um ideal, ou que são criadas a fim de gerar lucro através de audiência.

Justamente sobre isso, a professora Denise Rocchi, dos cursos de Jornalismo e Relações Internacionais da Uniritter, diz que alguns desses criadores de notícias falsas muitas vezes não têm um interesse ideológico, mas sim lucrativo. Eles veem uma oportunidade no mercado e se aproveitam. “Para ele [criador de notícias falsas] não há uma preocupação, ele não quer necessariamente criar um problema com político sobre o qual ele venha a fazer, se ele achar que vai dar audiência, ele faz”, explica.

As “fakes news” não são uma novidade, mas ganharam uma maior proporção recentemente. Para Denise, que estuda o assunto na disciplina de Laboratório de Mídia e Política Internacional da Uniritter, elas ganharam mais atenção em 2016, nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. “A diferença é que com as redes sociais, com a tecnologia, elas ganharam mais velocidade”, diz. Quem tem o mesmo pensamento é o produtor da rádio Gaúcha, e idealizador do quadro “Notícia Falsa nas Redes”, Tiago Boff. Ele comenta que o presidente norte-americano, Donald Trump, “usou de sua influência para disseminar falsas informações e assim ganhou força no pleito, chegando a uma vitória inesperada”.

Justamente por isso que notamos que é na área da política que há mais impacto, por atingir um maior número de pessoas. Porém, como lembra Denise, a ideia de intrigas já existe há um tempo. “Quem cobriu política antes da era da internet, vai lembrar que a ideia de boato, de espalhar mentiras sobre outro candidato, já acontecia há muito tempo”, lembra.

A crescente ocorrência da divulgação desses boatos que, pela quantidade de compartilhamentos nas redes sociais — em especial o facebook e seu algoritmo, que cria uma bolha de conteúdo para cada usuário — tomam um tom de legitimidade tão grande que, em muitos casos, nem mesmo fontes confiáveis conseguem desmentir essas “informações”. “O Facebook está me mostrando os amigos que ele acha que eu interajo mais, a gente meio que concorda, e quando aparece um resultado diferente disso as pessoas se surpreendem. Tu estás convivendo com um segmento, e não com o todo”, comenta Denise.

O compartilhamento de um desses boatos de interesse público foi o que motivou a criação do quadro “Notícia Falsa nas Redes”, na rádio Gaúcha. O critério de escolha dessas “notícias” para o quadro, segundo Boff, é a “quantidade de compartilhamentos, mais o interesse público dela”. Ou seja, se a notícia é muito compartilhada, significa que um número grande de pessoas está sendo desinformada. Logo, há uma mobilização para esclarecer, apurar e informar corretamente.

O problema se torna mais complexo ainda quando, além de notícias falsas, existem sites e blogs falsos que dão às “notícias” uma dimensão maior. Sobre isso, Boff diz que os pequenos e desconhecidos blogs costumam compartilhar sem checagem, pois querem o clique na matéria. “As manchetes são chamativas demais. Isso é um perfil da fake news, ela é mais escandalosa, mais chamativa, o que serve de alerta ainda maior para sua veracidade”, alerta.

Além disso, Boff indica que o leitor acompanhe o trabalho dos veículos, para notar se eles transmitem confiança e credibilidade. Para ele, “não é muito difícil identificar algum site ou blog que seja tendencioso, mas só com um hábito de leitura, com uma constante informação que o leitor pode ter certeza”. Erros grosseiros de português e de concordância também são uma marca das falsas notícias, segundo o produtor.

No Brasil, um estudo realizado pela Associação dos Especialistas em Políticas Públicas de São Paulo (AEPPSP), que foi realizado com base nos critérios de um grupo de estudo da Universidade de São Paulo (USP), revelou alguns dos sites que mais se encaixam nestes critérios, e que tem algumas características em comum. Por exemplo, sites com notícias não assinadas, sem identificação de administradores ou jornalistas, textos que contém certa quantia de opiniões e discursos de “ódio”, repletos de propagandas, são alguns sinais que acabam por revelar a suspeita de falsidades.

Os critérios adotados para a pesquisa são do Monitor do Debate Político no Meio Digital, criado por pesquisadores da USP. O estudo, após ser publicado no Facebook da AEPPSP, foi retirado devido a possíveis mal entendidos. Abaixo, seguem os nomes dos sites citados pelo estudo.

Sites que se encaixam no conceito de “pós-verdade”, segundo estudo da AEPPSP

Com essa frequência de notícias falsas, o que resta ao público é acompanhar alguns veículos e notar a sua credibilidade. Tiago Boff ainda diz que “deve-se desconfiar de manchetes que são quase inacreditáveis e que não estão nos sites maiores”. As notícias estão cada vez mais se tornando mercadorias — principalmente para esses, que usam as falsas notícias para seu lucro e/ou interesse pessoal. Por isso, é importante que haja uma leitura frequente, aliada ao acompanhamento dos veículos, para que as pessoas tenham certeza de que este veículo é sério, faz a checagem, e trabalha como o jornalismo deve trabalhar: apurando e informando corretamente.

(Revisado por Andrew Fischer e Sarah Acosta)

Crédito da Foto: Danrley Passos

Casos de uso suspeito do cartão TRI somaram mais de 14 mil em 2016, diz EPTC

Sarah Acosta

Um fenômeno pouco notado dentro dos ônibus da capital, mas que tem acontecido de forma frequente, são pessoas passando pelas catracas com cartões do Transporte Integrado de Porto Alegre (TRI) que não pertencem a elas. Jovens usando cartões de idosos, trabalhadores usando o desconto escolar dos filhos e pessoas sozinhas passando com cartões de acompanhantes. A rapidez com que os cartões são passados no sensor impediria a fiscalização dos cobradores.

De acordo com dados da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), atualmente existem mais de 270 mil usuários beneficiados com isenções, dentre eles deficientes, acompanhantes, idosos, crianças carentes contempladas com o Vou à Escola, agentes da Brigada Militar, Guarda Municipal e fiscais da EPTC. E mais de 120 mil usuários que pagam apenas meia passagem, sendo eles estudantes e professores. Os passageiros que não se encaixam no perfil dos beneficiários acabam tendo que pagar a passagem integral que hoje custa R$ 4,05.

A EPTC, até o final de 2016, já havia analisado o uso suspeito de mais de 14.000 cartões e orientado cerca de 7.000 usuários quanto ao uso pessoal e intransferível de seu benefício. “Desta fiscalização, cassamos 3.457 cartões isentos por inúmeras irregularidades, inclusive idosos, que somaram 760 cassações nos últimos 3 anos”, afirma Jorge Brasil, gerente de relacionamento na empresa pública.

Foram transportados mais de 290 milhões de passageiros nos ônibus de Porto Alegre, somente em 2016. Dentre estas pessoas, 24 milhões foram pagantes de meia tarifa e 46 milhões usuários de isenções. Os benefícios e isenções destas categorias representaram 24% dos usuários do transporte público da capital no ano passado, e nem todos foram usados por seus verdadeiros donos.

Para o professor de Psicologia da UniRitter, Carlos Alberto Veit, o Brasil enfrenta uma crise de valores. “Com o enfraquecimento da tradição, das famílias e das religiões caímos em uma espécie de vale tudo”, e completa “Acrescido a isso, tem o jeitinho brasileiro, que é bem caracterizado pela Lei de Gerson: ‘Gosto de levar vantagem em tudo’”. O professor também atenta para o exemplo que o povo recebe dos próprios governantes que são pessoas acusadas de corrupção, mas que não recebem nenhuma punição legal. “Eles transmitem a ideia de que ‘se deram bem’, não importando a maneira. É o tipo de exemplo que muitos tentam copiar”, explica.

Na visão da antropóloga social e professora de pós-graduação da PUCRS, e Lucia Helena Alves Muller, a questão não é tão grave, tem um teor mais familiar e por conta disto os indivíduos que cometem essa infração não percebem que é algo errado. “A ideia de que tu, como idoso, tem um cartão TRI que não usa e tem o teu neto que vai todo o dia para escola e está pagando a passagem cara, tu não dar[o cartão] para ele é negar teu papel de avô”, defende. Lucia ainda afirma que a circulação de recursos, não apenas do cartão TRI, representa a sobrevivência, principalmente de famílias de baixa renda que é onde estão os principais usuários do transporte público. “A gente vive em uma sociedade onde a vida econômica é uma vida familiar, não é individual, o dinheiro circula, até o cartão de crédito circula”, completa.

Vale ressaltar que o valor da tarifa é calculado de acordo com o custo da quilometragem sobre o número de pessoas pagantes. Quanto menos pessoas pagando a passagem, maior o valor da tarifa. Logo, estas pessoas que deixam de pagar a passagem ao utilizar o cartão de terceiros contribuem para o aumento do custo. Para cessar casos como estes, a EPTC tem projetos sendo desenvolvidos. O mais importante deles é a implantação da biometria facial para fazer o controle dos isentos.

(Revisado por Andrew Fischer e Danrley Passos)

Legenda: Carteiras do TRI são usadas irregularmente na Capital

Crédito: Sarah Acosta

Plástica, uma necessidade obsessiva

(Por Luiza Brandão Flores)

No Brasil, de acordo com estudo divulgado pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica e Estética (Isaps), em 2016, o País ainda é o segundo no ranking em número de cirurgias plásticas, onde para obter satisfação pessoal e mudar radicalmente sua fisionomia, algumas pessoas estão aderindo ao estilo “Living Doll” (tendência dos bonecos humanos), através de múltiplas cirurgias plásticas, o trabalho com a imagem e o impacto que as mudanças causam em suas vidas, são fatores que fomentam essas pessoas a irem em busca da imagem ideal e do personagem idealizado.

De acordo com a psicanalista Michele Poletto, a razão que leva essas pessoas a se transformarem radicalmente é que “sempre há uma combinação de fatores: culto exagerado à beleza, à perfeição, à juventude, excessivas fragilidades emocionais, construção emocional frágil de sua autoimagem, entre tantos outros.” Essas decisões geralmente acarretam problemas de saúde, satisfazem o físico das pessoas, mas além de trazerem essas consequências, podem originar conflitos familiares como a negação do corpo e da imagem de seus filhos, diz Michele.

 Modificar-se para se tornar um personagem ilusório atrai a atenção de muitos e principalmente da mídia. Esta especulação pelo inusitado e o diferente expõe essas pessoas ao mundo, atrai a atenção de quem colabora para se submeter a intervenções cirúrgicas em busca do corpo perfeito, segundo a visão da psicóloga Tatiana Passuello Ruffoni, ainda diz que, “este não é o único fator, o perfil de pessoas que tem a necessidade de transformar sua aparência é composto por pessoas que não possuem uma imagem valorizada de si própria. Em essência são pessoas muito inseguras, e que formam a ilusão de que conquistando o corpo ideal serão felizes e completas.

Na visão de Michele Poletto, o que pode contribuir para a escolha de mudar a identidade são os estímulos da modernidade e os avanços nas técnicas cirúrgicas. Ela diz ainda que o colapso e as dificuldades do mundo interno da pessoa também é fator que os faz buscar caminhos concretos e a compreender o que este tipo de desejo pelo produto final revela, colaborando para sua decisão. Um dos exemplos mais conhecidos é do eslovaco Justin Jedlica, o Ken Humano, que relatou diversas vezes que já fez mais de cem cirurgias plásticas para se assemelhar ao boneco. Refere também que esse projeto já se tornou a vida dele, sendo o pioneiro nesse procedimento.

A jornalista Eliane Brum relata que “as crianças veem a Barbie como um modelo que vai muito além de um padrão de beleza. Barbie é aquela que ensina as meninas que se nasce para consumir”. Para muitos o ideal de homem bonito é o Ken e de mulher é a Barbie e, de acordo com a psicóloga Tatiana, “esses bonecos estipulam um protótipo de beleza que afeta o psicológico, surge um problema no estabelecimento da identidade do indivíduo.” O que para ela, acaba deixando duvidoso a certeza por sua identidade real.

De acordo com Eliane Brum, “a Barbie é vendida como uma amiga, uma mentora e um modelo a ser seguido, com influência sobre pelo menos duas gerações de mulheres.” O padrão de beleza imposto pela sociedade, o sonho de ser perfeito e se tornar um ícone ajudam na obsessão de plásticas cirúrgicas,  de acordo com Michele isso é um distúrbio de imagem que acarreta um comprometimento psíquico e o comprometimento com a saúde.

Na pesquisa  publicada no censo de 2017, ao longo dos anos, houve aumento absoluto no número de cirurgias plásticas, influenciado por uma faixa etária de maior procura, entre 19 e 35 anos de idade. A conexão corpo e mente dessas pessoas está afetada e, segundo o documentário Tabu Brasil do National Geographic de 2015, a busca pela beleza acaba entrando em um ciclo sem fim, onde a medicina estética fica à disposição, e que há uma indústria cultural por trás, que fomenta de maneira subliminar o problema da imagem corporal às pessoas.

No livro Ciência Arte e Cultura no Corpo, de Francisco Romão Ferreira, “o culto ao corpo, o papel do corpo no meio social e sua importância no processo de construção da identidade na sociedade atual criam novos valores e novos sentidos que atuam na construção de uma nova percepção corporal em curso, e apontam para questões éticas que ainda não estão na pauta de discussão dos autores sociais que atuam no campo da Saúde Pública”. O crescimento dos mercados relativos às transformações corporais de natureza estética, colocam a estetização da saúde e as tentativas de metamorfose corporal como novas questões de Saúde Pública a serem discutidas e enfrentadas, de acordo com o livro de Ferreira. Este ainda é um assunto que deve ser abordado com maior frequência e seriedade com a realização de entrevistas com psicólogos e médicos que trabalham com este tema, diz Tatiana.

(Revisado por: Hiashine Florentino e Jiulia Santos)

A vida nas sombras dos escritores-fantasma

(Por Andrew Fischer)

 Conversar por horas com uma pessoa, observando comportamentos e trejeitos a ponto de aspirar parte da essência do entrevistado, para depois narrar as histórias ouvidas como se fosse quem as viveu. Isto é parte do que faz um ghostwriter, ou escritor-fantasma em português, profissional contratado para escrever algo para outra pessoa sem receber o crédito pela obra. Por meio de um acordo, a identidade do escritor-fantasma geralmente não se torna pública. Esta profissão é empregada em diversas áreas, sendo a literatura a mais comum delas. Os escritores-fantasma perambulam pela Terra desde 500 A.C, mas pouco se houve falar deles. A inexistência de um órgão que regulamente a função não impede que sua atuação seja analisada pela ótica da Justiça e da ética.

“Apesar de a gente não ter costume de fazer esta distinção, no caso dos ghostwriters é válido separar autor e escritor”, afirma o professor de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS), Eduardo Ribeiro. O autor é o centro da obra, sem ele a narrativa não existiria, e o escritor é quem transcreve o relato. Para entender a profissão é pertinente fazer tal separação para tornar claro que o ghostwriter é o escritor e não o autor de uma obra.

Pessoas, empresas e editoras fazem uso do fantasma, mas poucas divulgam ou assumem a contratação do profissional. Em 2014, dos 1,6 mil associados à União Brasileira de Escritores (UBE), 20% realizavam este tipo de trabalho periodicamente. Naquele ano estimava-se que 90% dos profissionais tenham sido fantasma ao menos uma vez durante a carreira. A dificuldade em mapear o número preciso de ghostwriters no Brasil deve-se ao sigilo exigido judicialmente. As áreas que mais contratam escritores-fantasma são as de produção técnica, autobiografia e biografia encomendada.

O ano era 1999 quando o escritor que trabalhava como oficial da Marinha e fazia a tradução de uma série de livros foi convidado por uma amiga para tornar-se fantasma. Formado em Letras pela PUCRS, professor de inglês, tradutor e escritor, Robertson Frizero é ghostwriter. Desde aquela época, ele escreveu biografias de famosos e livros de conhecimento oriental. Na maioria das vezes, o contratante exige que o escritor se mantenha anônimo, porém, Frizero conta que já pediu que seu nome não fosse vinculado a uma determinada obra por discordar do conteúdo da publicação.

A ética é um aspecto a ser explorado para ampliar o campo de visão relacionado aos fantasmas. “Ética é um conjunto de normas que regram e normatizam ações voluntárias, classificando elas como boas ou más”, explica Ribeiro. Para ele, quando se trata de escritores-fantasma, a ética deve estar presente tanto na conduta de um escritor quanto na de quem o contrata. “O ghostwriter pode ser usado para passar a impressão de que o contratante tenha uma habilidade que na verdade não tem, logrando o público”, afirma Ribeiro. Apesar de a profissão apresentar obstáculos e obscuridades, o professor não vê problema algum quando um ghostwriter é identificado como o escritor de uma obra ou que ela não tenha a intenção de iludir os leitores.

Envolvendo direitos morais e patrimoniais, a Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/98) é utilizada para entender a questão jurídica que envolve os fantasmas. “O direito autoral é o que tem o autor de obra literária, científica ou artística. O direito moral é a manifestação da personalidade do autor, é inalienável e irrenunciável. O direito patrimonial trata dos direitos de utilizar, usufruir e dispor das obras intelectuais por si ou por terceiros, estes mediante autorização expressa”, explica o advogado especialista em Propriedade Intelectual, Jaderson Gaewski.

Os escritores-fantasma estão presentemente invisíveis na produção cultural e intelectual, exercendo diferentes papéis nas áreas. Independente da função e do processo criativo que utilizam, os ghostwriters fazem parte da literatura, embora a profissão não esteja sob os holofotes com frequência. “É uma atividade que vive meio na penumbra. As pessoas fingem que não existe. Muitos nem sabem da existência ou não se dão conta, mas está lá”, afirma Frizero. Estes fantasmas não arrastam correntes de ferro ou assombram mansões antigas e decadentes, mas sopram vida em folhas de papel em branco, na maioria das vezes, tingindo as páginas de livros com narrativas memoráveis.

(Revisado por Danrley Passos e Sarah Acosta)

Legenda: Questões éticas e jurídicas do ghostwriter, escritor que não revela a autoria de uma obra

Crédito da Foto: Andrew Fischer

Os distúrbios alimentares na busca estética

(Por Paula Chidiac)

“Eu chegava a vomitar cinco vezes por dia”, disse a estudante de relações internacionais Laura Mallmann, de 17 anos. Ao final de sua infância, ela já engrossava os dados de ocorrência de bulimia nervosa no país: em 2011, representavam 1 a 4,2% da população feminina, mesmo em dados subnotificados. Segundo a professora de Psicologia da Uniritter Letícia Leite, o transtorno causa a compulsão por comida, seguida da purgação como medida punitiva.

Aos 12 anos de idade, Laura havia desenvolvido depressão, ocasionada pela tendência familiar e por comentários maldosos de colegas da escola sobre seu peso. Começou a vomitar depois das refeições, mas não contou nem para sua psicóloga. O tempo passou, e com quinze anos ela fez um intercâmbio para os Estados Unidos – precedido por diversas observações sobre não poder engordar durante a experiência. Seu quadro de compulsão piorou, acarretando complicações para sua saúde na época, com faltas de ar, dores de estômago e até mesmo ausência da menstruação: “Naquela hora eu só precisava de alguém que dissesse que tem cura”, desabafa. Com o apoio de sua família, após retornar para o Brasil Laura aderiu ao tratamento com psicólogo, nutricionista e psiquiatra, estando oficialmente curada há um ano.

É preciso ressaltar a diferença desse distúrbio alimentar para a Anorexia Nervosa, onde há uma distorção da imagem corporal, com perda de peso intensa e proposital. As probabilidades estatísticas indicam que a doença atinge oito mulheres e 0,5 homens a cada 100 mil indivíduos. Aliado à uma predisposição genética e contexto social propício, diversos fatores podem acabar sendo a gota d’água para que se desenvolva esses transtornos – desde trabalhar como modelo até simplesmente estar exposto aos padrões de beleza na mídia, explica a psicóloga Letícia. A estudante de relações internacionais conta que os desfiles de moda também acabaram influenciando-na: “Chega a ser uma coisa doentia, é muito magro. E ninguém te mostra o contrário daquilo, sabe”.

Dentro da sala de aula, a figura é bem diferente: de acordo com a professora do curso de Design de Moda Fernanda Rech, a grande maioria de seus alunos têm questionado o consumo e o padrão da moda, colocando a diversidade em pauta. O futuro, embora incerto, apresenta possibilidades de mudanças positivas, pois a maioria dos alunos quer levar essa visão para o mercado de trabalho. “Eu acho que aos poucos nós vamos construindo novas formas de ver”, opina Fernanda. Enquanto isso, cabe à nós ajudarmos-nos a aceitar nossos corpos. “Todo mundo tem celulite, todo mundo tem estria, ninguém é capa de revista e não deve beleza a ninguém”, afirma Laura. O conselho e a história da estudante servem de aviso não somente para os pais, mas também para toda a sociedade, de que os transtornos alimentares devem ser tratados como uma questão de saúde pública.

(Revisado por Pâmela Bassualdo e Danrley Passos)

Legenda: O atual padrão de beleza midiático pode desencadear distúrbios alimentares em pessoas já propensas a tê-los.

Créditos da foto: Pâmela Bassualdo

 

Não basta ter talento para ser um jogador de futebol

(Por Valéria Possamai)

Qual menino nunca sonhou em ser jogador de futebol? A fama dos craques é vista com deslumbramento pelos garotos. No entanto, não só de grandes dribles é formada a carreira de um jogador. Até chegar ao time profissional, inúmeros desafios fazem parte da realidade dentro e fora das quatro linhas.

No bairro Vila Nova em Porto Alegre, está localizada uma das franquias da Escola de Futebol do Esporte Clube Juventude, time da região da Serra Gaúcha. O clube é reconhecido por revelar atletas de categoria de base, que hoje, por exemplo, atuam nos times da dupla Grenal. No local, são atendidos meninos entre 4 e 17 anos que sonham em se tornar um jogador profissional.

Os jovens garotos são lapidados pelo coordenador Arnoldo Luis Bergmann e pelo treinador Cristiano Brücker, ambos especializados na formação de atletas e com passagens pelas categorias de base de times como Grêmio, Flamengo e Cruzeiro. Os profissionais atuam constantemente com os sonhos dos garotos e com a realidade por trás deles. “A gente também trabalha a cabeça deles para uma possível decepção. Procuramos fazer com que o não em uma peneira se transforme em combustível para eles ficarem mais fortes”, aponta o professor Cristiano.

Além disso, conforme explica Arnoldo, aos meninos é destacado que “o mesmo peso do não é o peso do sim”. Pois, a partir do momento em que o garoto avança para uma categoria de base o ritmo de treinamentos é dobrado. “Para lidar com essas situações, só a habilidade não é o suficiente. Hoje, além de jogar e ter talento é preciso ter foco para ser um jogador”, afirma o coordenador da escola.

Dentro de campo, além de se desvencilhar dos adversários, os garotos precisam vencer as barreiras psicológicas. Muitos dos meninos entram no mundo da bola para melhorar a vida da família. Isto, gera um quadro de pressão emocional sobre os meninos, conforme explica o Psicólogo e Professor da Faculdade Sogipa, Márcio Geller Marques: “Na medida em que os meninos começam a receber uma ajuda de custo do Clube, a questão da dimensão no esporte começa a aumentar. Ocorre que os pais muitas vezes largam seus empregos em outra localidade e se deslocam para acompanhar o filho. E isso gera uma grande pressão, pois imagina se o menino não consegue ser profissional e o pai largou tudo. ”

Salário dos jogadores em 2015

Apesar dos meninos verem no Futebol a oportunidade de mudar de vida financeiramente, estudos revelam que os milhões são uma realidade para poucos. Conforme dados da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em 2015 a média de salários de 82% dos atletas profissionais era de até R$1.000. E, apenas um jogador recebia mais que R$500.00. O que revela uma situação comum de quem sonha em jogar em um grande clube: trabalho e treinamento.

(Revisado por Gabriel Schardong, Juan Link, Paulo Ricardo Netto)

Crédito da Foto: divulgação Escolinha Juventude/POA – Facebook

 

Cirurgia plástica, perfeição e artificialidade

(Por Giullia Santos)

A busca incessante pela perfeição do corpo e os padrões de beleza impostos pela sociedade alimentam o mercado de cirurgia plástica estética no Brasil. No ano passado, mais de 800.000 procedimentos foram realizados no país, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, por um público majoritariamente feminino. Mulheres insatisfeitas com seus corpos que encontram, no bisturi, uma solução rápida para o problema. Mas o que era para ser solução traz à tona o questionamento social sobre a verdade do corpo cirurgicamente modificado.

Representando, aproximadamente, 87% dos pacientes que optam pela cirurgia, as mulheres lidam constantemente com as imposições do mercado de beleza. “A pressão social pela busca da perfeição do corpo”, conforme destaca a psicóloga Carla Menegat, tem um papel fundamental na procura por estes procedimentos. Implante de silicone, lipoaspiração e abdominoplastia lideram a lista de intervenções mais realizadas no país, em 2016.

O sociólogo Francisco Romão Ferreira, autor do livro Ciência, arte e cultura no corpo: a construção de sentidos sobre o corpo a partir das cirurgias plásticas, reflete: a cirurgia plástica promove uma autoimagem forte e positiva, mas esquece de dizer que é a ideologia que constrói a necessidade dessa autoimagem”. Desta forma, “o que pode significar estar feliz com a sua autoimagem? Seria estar adaptado às regras do jogo? Ajustado ao controle disciplinar dos corpos?”, questiona o sociólogo.

Por influência do padrão de beleza, “algumas mulheres optam por uma intervenção cirúrgica sem necessidade”, analisa Carla Menegat. A cirurgia plástica impacta diretamente na autoestima dos pacientes e, portanto, no seu entendimento de imagem e identidade pessoal. O aumento dos procedimentos está relacionado à importância atribuída à imagem, que no processo de construção de identidade, atua como o principal veículo de identificação. Para Giulia Araújo, de 19 anos, a escolha pelo implante de silicone “está relacionada com a autoestima”, afirma a jovem.

Apesar do aumento significativo da cirurgia plástica, é comum ouvir críticas e comentários envolvendo essas mulheres. Ao impor a necessidade de um corpo perfeitamente idealizado, a sociedade também rebate a prática da cirurgia, apontando como artificial, o corpo modificado através destes procedimentos. “A produção de sentidos sobre a imagem do corpo e a percepção que o sujeito tem do próprio corpo é, ao mesmo tempo, individual e coletiva”, reflete Francisco Romão.

Casos famosos como o de Andressa Urach, que esteve entre a vida e a morte após complicações cirúrgicas, aumentam o debate e a crítica aos procedimentos, reforçando a ideia de resultados artificiais e o risco da cirurgia estética desmedida. A busca pela perfeição reflete nas estatísticas divulgadas pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e a indústria da beleza alimenta a corrida feminina contra a balança, o tempo e o natural.

(Revisado por Hiashine Florentino e Luiza Brandão)

Fonte do gráfico: Divulgação de Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica

A palavra oficial entra em crise

(Por Ana Carolina Pinheiro)

Na maior cidade da América do Sul, crianças matriculadas nas escolas municipais têm merenda reduzida para prevenir a obesidade infantil. Graças à aprovação da reforma trabalhista, trabalhadores terão maior possibilidade de negociar de igual para igual com seus patrões. Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) é apto para julgar e conceder habeas corpus a empresário mesmo após ter sido padrinho de casamento da filha do acusado. No Rio Grande do Sul, servidores públicos recebem seus salários parcelados há 20 meses devido a crise do Estado. Apesar de deixarem dúvidas sobre sua autenticidade, estes fatos foram divulgados em veículos oficiais.

Não é de hoje que as instituições valem-se da credibilidade que têm para propagar informações que nem sempre são verdadeiras, mas, paralelamente, elas nunca foram tão desacreditadas e questionadas. Relembrando o clássico “Por que os líderes mentem”, de John Mearsheimer, a jornalista e mestre em Relações Internacionais, Denise De Rocchi, explica que precisamos primeiro pensar o que significa mentira. Um líder pode mentir deliberadamente, pode omitir uma informação ou não ser totalmente transparente na maneira de apresentar algo.

E é justamente com este espectro da mentira que os governos jogam em busca de benefícios, ocultando determinados fatos ou apresentando números de um jeito que os favoreça. “Hoje, as leis de transparência obrigam os governos a prestar contas do uso do dinheiro público, mas às vezes esse dado é oferecido de uma maneira tão confusa que quase ninguém entende”, explica Denise. Para o jornalista, advogado e doutor em Sociologia, Dani Rudnicki, esse jogo possibilita discursos pautados mais pelo marketing do que pela verdade. “Há poucos anos, uma governadora afirmou que alcançou o déficit zero no Estado. Hoje, nós estamos com uma tremenda crise econômica, com o atraso do funcionalismo – e não sabe se é verdade ou não que falta dinheiro porque o governo não tem credibilidade”, reflete Rudnicki.

Outro fator que contribuiu para a descrença dos governos e das instituições é a agilidade do fluxo de informações e a interação promovida pelas redes sociais. “Estamos no momento da pós-verdade, em que as pessoas tendem a acreditar no que elas querem. Hoje, se um governo ou um jornalista publica algo que não corresponde à realidade, ou que o leitor não quer aceitar como verdade, a resposta vem”, ressalta Denise. Já para Rudnicki, um exercício interessante é observar os discursos dos últimos cinco governadores do Estado. “Todos garantem que melhoraram a questão da segurança pública e reduziram a criminalidade, e isso é fantástico! Se nos últimos 20 anos a violência vem diminuindo, porque a população têm tanto medo?”, completa.

A descrença da população nas instituições pode ser percebida também no imaginário cada vez mais comum de que político é tudo igual e que nenhum presta. Essa generalização do estigma do político mau-caráter fez com que surgissem figuras com o discurso do não-político, como por exemplo Donald Trump, que era um grande empresário. “A gente vive num modelo de democracia que é a democracia representativa. Se a maior parte da população diz que as pessoas que foram eleitas para representá-las não as representa, é um problema e tanto”, afirma a jornalista.

Em junho de 2017, o instituto Datafolha publicou uma pesquisa sobre o grau de confiabilidade das instituições brasileiras. Segundo ela, 69% dos brasileiros não confiam nos partidos políticos. O percentual de descrença no Congresso Nacional e na Presidência da República foi de 65%, e o da Justiça Eleitoral ficou em 40%. A mesma pesquisa revelou que a instituição de maior confiabilidade segundo os brasileiros são as Forças Armadas, cujo índice de desconfiança foi de apenas 5%.

Números que revelam que a palavra oficial está em crise. A população já não acredita mais na forma de atuação adotada tradicionalmente pelas instituições. Velhas práticas já não são mais aceitas por uma sociedade que busca a ampliação das leis de transparência e que, graças a internet, tem maior possibilidade de acesso à informação. Hoje, em poucos minutos os fatos se tornam públicos, caem nas redes sociais e logo são replicados por milhares de pessoas. A única saída que parece haver para a reconstrução da confiabilidade das instituições é a reinvenção: um novo modelo, com uma nova forma de atuação e de diálogo, e que precisa imediatamente começar a ser discutido.

(Revisado por: Patrícia Vieira e Rafael Godoy)

Pesquisa do Datafolha revela índice de credibilidade de instituições brasileiras

 

 

Drogas e suas ilusões fazem parte da vida de muitos brasileiros

(Por Gabriel Schardong)

Qual adulto brasileiro nunca decidiu, após uma longa e cansativa semana de trabalho, ir para um bar beber sua cervejinha para esquecer um pouco dos problemas corriqueiros de sua semana? A grande maioria já. Muitos buscam essa maneira de, mesmo que por pouco tempo, não lembrar de seus problemas e fugir um pouco da realidade. As drogas, sejam elas lícitas – como a cerveja e o cigarro – e também as ilícitas, que são as mais pesadas, são como uma opção de fuga para o povo que vive em um pais que está à beira do caos.

Os efeitos das drogas, servem como fuga para diversos problemas. Pobreza, discriminação, desemprego, alto nível de estresse no trabalho e conflitos familiares, são alguns dos mais comuns. O Mestre em psiquiatria, Igor Londero, explica sobre as causas que levam as pessoas a enxergarem as drogas como um tipo de saída: “Na realidade as causas para o uso de drogas são diversas. Uma das causas mais comum é a pessoa ter um problema psiquiátrico/psicológico (por exemplo depressão) e acabar usando substâncias para tentar aliviar os sintomas; ou seja, um tipo de automedicação.”.

Londero também falou sobre a função do profissional da psiquiatria nestes casos: “Primeiramente cada caso deve ser avaliado individualmente para o correto diagnóstico, pois pode ser um caso de uso esporádico, abuso ou dependência. Para cada caso existem condutas diferentes a serem tomadas.”. Para Igor, a chave para um tratamento bem-sucedido é a avaliação.

A televisão e as redes sociais têm um forte poder diante do povo brasileiro. A publicidade, com propagandas, outdoors e campanhas surge com um paradigma: influenciar o uso ou desestimular. Desde o ano 2000, foram proibidos os anúncios para venda de cigarro na mídia tradicional (TV, rádio, revista e jornal). O Mestre em Comunicação e Informação, Francisco dos Santos, falou sobre a forma da publicidade divulgar o cigarro, após a proibição: “A única possibilidade de comercial hoje são ações que chamamos de “below the line”, ou, como se chamava há algum tempo, mídia alternativa. Vemos ações de divulgação em bares e boates, estantes luminosas com os cigarros e comunicação de marca.”. Segundo Francisco, basta olhar com cuidado para perceber que não existem mais campanhas para promoção do uso do cigarro e que isto é, de alguma forma, a parte da publicidade para desestimular o consumo.

Quanto as bebidas alcoólicas, não há proibição para propagandas, porém existem diversas regras no Código de Autorregulamentação Publicitária. Não podem conter nos comerciais menores de 25 anos de idade, e as mensagens devem ser destinadas especificamente ao público adulto. Há também um horário específico para a veiculação em rádio e TV, que é no período entre 21h30 e 6h00. Francisco também comentou sobre este tema: “Em relação à bebida alcoólica, temos o anexo A do Código de Autorregulamentação Publicitária, feito pelo CONAR, que versa sobre a publicidade de bebidas alcoólicas. Veja que tem uma série de restrições quanto ao uso de imagens (não pode ter crianças – que bom!) bem como aos horários de veiculação.”. Ele ainda completa dizendo que as marcas de bebidas alcoólicas investem em uma comunicação mais direcionada, através da internet e patrocínio de eventos.

A bebida alcoólica é a droga mais consumida entre os jovens brasileiros. O gráfico acima aponta que mais da metade dos estudantes do 9º ano do ensino fundamental de escolas públicas e privadas de todo país, já beberam algum tipo de bebida alcoólica alguma vez na vida. Números preocupantes, partindo do ponto de que é na adolescência que se estabelecem hábitos que serão levados pela vida adulta.

(Revisado por Juan Link, Valéria Possamai e Paulo Ricardo Netto)

O preço dos likes

(Por Juan Link)

As redes sociais passaram a ter outro propósito além da interação e comunicação de seus usuários. Cada vez mais as pessoas se autopromovem nas redes para “ostentar”. O fato relevante em prol destes é que para se tornar uma “personalidade” vale tudo. Um dos principais aspectos é o econômico. Todos os dias pessoas ingressam no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) por gastarem os limites dados pelas financeiras e não conseguirem pagar. Muitas vezes a causa deste endividamento é a vida construída na internet.

Para mostrar o quanto sua vida é interessante, pessoas gastam dinheiro e limite do cartão de crédito. Caso não pague sua próxima fatura no período de 90 dias, pode acabar na lista de brasileiros inadimplentes, que hoje conta com cerca de 35 milhões de pessoas no Brasil (24,5% da população brasileira), segundo o levantamento do Serasa Experian, no ano de 2014. Estes números são válidos em casos de dívidas atrasadas acima de R$ 200,00.

Na mesmo levantamento do Serasa Experian, foi feito um mapa da inadimplência por região do país. A região Sul tem o menor número de inadimplentes, com 22,4%. Cerca de 6,1 milhões dos  27,4% da população residentes dos três estados.  A região com o maior número de inadimplentes é a Norte, com 31,1% de habitantes. Por lá, quase 1/3 da população está no vermelho.  Além disso, o levantamento dividiu os devedores por idade. Quase 30% da população na faixa dos 26 aos 30 anos vivem na inadimplência.

No Rio Grande do Sul, cerca de três milhões de pessoas vivem na inadimplência (35% dos gaúchos acima dos 18 anos). Diante deste quadro, a economista Clarice Bittencourt explica os aspectos que promovem esta situação: Quanto maior a capacidade de endividamento dos agentes econômicos, os gastos de consumo ficam comprometidos. Menos demanda, menos venda. Quando não ocorre a venda, não há estímulo para se investir, pois não há perspectiva futura de aumento das vendas. Se não tem investimento, há menos emprego, menos pessoas consumindo e menor o nível de renda, e se repete esse ciclo”, explica.

A especialista também comentou uma forma de como sair da crise atual em que vive o país: “A interrupção ocorre quando surgir um novo nicho de inovação, estimulando a economia. Isso só ocorre com expectativas positivas dos agentes econômicos. Para que isso ocorra a economia deve proporcionar estabilidade e boa gestão dos agentes públicos, para fazer com que os investidores passem a acreditar nesse mercado”, apontou.

Além da questão econômica do país, temos o convívio deste problema na sociedade. Para isto, conversamos com o professor de Filosofia do Instituto Federal de Osório-RS, Sérgio Portella, para saber quais são os fatores que levam as pessoas a se tornarem consumistas compulsivos para obter fama na internet.

Perguntado sobre os atrativos que levam pessoas a obterem vida falsa nas redes, o professor explica que isso ocorre devido a falta de conhecimento sobre o que é verdade ou mentira, pois as pessoas ainda não sabem.  Sérgio ainda aponta que o prejudica a sociedade são opiniões expostas sem embasamento: Prejudicial é a estrutura opiniática tomada como cultura que proporciona isso. A própria noção de especialista, quando investida sobre quesitos de controle dos desejos (marketing, por exemplo) já anuncia a ausência de critérios substanciais presente”.

Questionado sobre as redes sociais estarem influenciando a sociedade, o especialista discorda: “Não. Simplesmente potencializam o que já estaria latente e desapercebido. Não nos tornamos intolerantes nos últimos anos, simplesmente damos voz para algo que não tinha sido exposto, seja pela conivência dos meios de comunicação ou pela condição de senso comum que é compartilhada pela pseudo-elite letrada brasileira”.

(Revisado por Paulo Ricardo Netto, Valéria Possamai e Gabriel Schardong)

 

Concursos de beleza infantil abrem debate sobre a adultização precoce

(Por Bruna Jordana) 

Ela caminha pela passarela, com postura elegante e sob um vestido de gala sorri para os jurados na expectativa de ser a escolhida para representar o seu país mundo afora. Esta é a descrição de um concurso de miss que só se diferencia por um detalhe que tem chamando a atenção de especialistas: as candidatas à coroa têm entre cinco e nove anos de idade.

Nascido e moldado nos Estados Unidos, o evento tem pouco tempo de existência e pouca divulgação no Brasil. Thiago Fagundes e Cássio Pardo são os Coordenadores da Produtora Space, empresa localizada na capital que é  responsável pela organização do concurso Mini Miss Brasil Mundial. A maioria dessas competições são feitas por etapas, onde as meninas são avaliadas pelos quesitos de beleza, elegância ao desfilar, simpatia e pontualidade durante a programação. Os trajes para o desfile são o típico da região da candidata e o traje de gala. Segundo o coordenador Thiago Fagundes, a comissão julgadora é composta por pessoas relacionadas a área da beleza como cirurgiões plásticos e maquiadores.

É o caso de uma menina de 10 anos que recentemente participou de um importante concurso de beleza mirim. Segundo sua mãe, ela teve auxílio de um profissional que lhe deu também aulas de etiqueta e oratória. A primeira participação em concursos só ocorreu após algumas mudanças no hábito alimentar: “eu disse pra ela o seguinte: ‘você é cheinha, miss é magra’. Aí ela disse: mãe, e se eu emagrecer, você me coloca no concurso de miss?”. A mãe disse que a filha então cortou doces e refrigerantes da sua alimentação. “Foi quando ela disse ‘mãe eu emagreci 5 kg você, vai me colocar no concurso?’ Fiz alguns empréstimos e coloquei ela no miss Alagoas”, comenta. Embora seja defendido pelos pais, concursos deste gênero têm a tendência de impor padrões que podem causar inúmeras consequências. Segundo a psicóloga infantil, Maúcha Sifuentes, estes concursos podem influenciar no desenvolvimento de  transtornos alimentares que ficam mais claros na vida adulta.

Tanto a mãe, quanto os coordenadores da Produtora Space, acreditam que dentro do concurso tudo é levado de uma maneira leve, sem ser encarado pelas meninas como uma competição, de fato. Entretanto para a  psicóloga Maúcha Sifuentes, as crianças que participam destes eventos passam a ser mais competitivas do que cooperativas, encarando com mais profissionalismo, dedicação e cobranças pela questão de estarem sendo avaliadas. Além disso, estudos demonstram que na vida adulta elas são mais inseguras, tendo uma imagem distorcida de si uma vez que o padrão de beleza foi muito instigado e rígido.

Permitir ou não a entrada das filhas neste mundo de concursos de beleza é uma decisão dos pais que, muitas vezes, projetam até mesmo de maneira inconsciente suas questões pessoais e insatisfações na criança. Independente da escolha, a especialista ressalta que não somos apenas beleza: “A gente tem que poder ter um repertório mais amplo, de outras habilidades,de outras relações, de poder entender que a gente é imperfeito e não buscar qual é esse ideal de beleza”. Por isso, para especialistas, é importante que os pais estejam cientes dos impactos que estes concursos podem causar.

(Revisado por Alessandra Kominkiewicz)

O Brasil está na rota do tráfico de pessoas

(Por Luana de Oliveira)

O tráfico de pessoas é um dos crimes com mais rentabilidade no mundo. Caracterizado pelo transporte ou alojamento de pessoas para fins de exploração sexual ou situações como de trabalho análogo à escravidão, tráfico de órgãos e adoção ilegal, o crime ocorre por meio de ameaças, uso da força, fraude ou rapto. O Brasil é um país de origem, trânsito e destino de pessoas traficadas. As regiões de Uruguaiana e Caxias do Sul por exemplo, são alvos atuais de investigação por rota de tráfico.

Segundo o Protocolo De Palermo aprovado pelas Nações Unidas, e assinado em 2003, é considerado tráfico de pessoas quando acontece recrutamento, transporte, transferência, alojamento ou acolhimento de pessoas recorrendo a ameaças ou a uso de força ou forma de coação, fraude, engano,abuso de autoridade, situações de vulnerabilidade, entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios, para obter o consentimento de uma pessoa que tem autoridade sobre outra para fins de exploração. Existem diversas modalidades de tráfico de pessoas no mundo.

No Brasil, as finalidades mais frequentes são as de trabalho escravo e exploração sexual. Existem muitas formas de coagir a vítima a cometer o ato, uma delas é a aliciação, o que acontece muito nesses casos. Segundo o sociólogo Thales Speroni (investigador do grupo de estudos em imigração e minorias étnicas da Universidade Autônoma de Barcelona), o aliciamento relacionado a esses casos, é apenas um dos segmentos relacionados ao fato. “Às vezes uma mãe ou um pai colocam um filho em uma rede de tráfico, às vezes sabendo e às vezes sem saber, e é fundamental sabermos sobre essa possibilidade para podermos denunciar”, explica.

Outra questão importante do pesquisador é o fato da sociedade não se apegar apenas no aliciamento, afirmando que “essa negociação no qual vem uma promessa falsa, a pessoa aceita e depois se frustra é apenas um dos caminhos possíveis para o tráfico de pessoas” , afirma. “Na maioria dos casos o agente de aliciamento não é uma pessoa desconhecida, muitas vezes não é que ela está tendo ideia de que está te colocando numa situação degradante, muitas vezes o próprio aliciador pode estar acreditando no tipo de coisa que está te propondo”, ressalta. Em outras palavras, como dizem as palavras do especialista, às vezes o próprio aliciador é enganado. O sociólogo afirma também, que muitas vezes as vítimas sabem da situação pela qual irão passar, e isto acontece muito com relação ao tráfico para fins de trabalho escravo.

Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), as localizações com maiores estimativas de tráfico de pessoas para o trabalho escravo encontram-se  no nordeste, no norte do estado de Minas Gerais e norte do país, normalmente em carvoarias e plantações de cana. Na maior parte  dos casos as vítimas aliciadas são pessoas com índices de vulnerabilidade social, com baixo nível de escolaridade, moradoras de locais com graves problemas sociais, sendo contatadas por empresários que as prometem um bom salário, com isso elas acabam sendo levadas para outras localidades fora de seu próprio estado, onde se sujeitam a jornadas exaustivas de trabalho, em lugares afastados e de difícil acesso, tendo que pagar por sua alimentação, em situações degradantes de hospedagem, ou seja, o salário tão desejado e esperado, não é pago, diante do fato em que  precisam pagar pelo o que consomem, não conseguindo voltar para casa até o término da dívida ou que sejam resgatadas.

A Polícia Rodoviária Federal nesses casos, trabalha em conjunto com o Ministério do Trabalho e o Ministério Público do Trabalho, na operação de resgate das vítimas. O inspetor Leandro Da Silva Lins Baía, contou detalhes de uma operação de resgate feita na região de Vacaria, onde pessoas eram convocadas em diferentes partes do Brasil para trabalhar na colheita de maçãs. “Essas pessoas são trazidas, arregimentadas no seu município de origem e chegam em caravanas, em ônibus fretados, com a promessa de trabalho, de ganho, mas que na realidade chegam ali nesse local que é interior, rural sem muitos recursos e acabam sendo confinados em verdadeiros galpões em situações de vida deploráveis”, confirma, lembrando que na localidade existia comércio perante o proprietário. “Montam um mercado ali dentro e exploram as pessoas, então um quilo de arroz  que custa dois reais, lá é  vendido para eles e forçado que se compre pelo dobro do preço, ou seja, a pessoa vem com uma perspectiva de retornar dali a dois, três meses para sua casa, e na realidade ele fica trabalha o tempo todo e acaba ficando com uma dívida perante ao seu contratante”, diz. Essa operação aconteceu a aproximadamente  dez anos  juntamente com a polícia Civil, Ministério do Trabalho e Ministério Público do Trabalho e a partir dali houve um reajuste das condutas dos trabalhos temporários para esta função nas devidas localidades.

Um outro caso relatado pelo inspetor Rodrigo Cardozo Hoppe em uma operação feita na cidade de Marabá (Sul do Pará), fazendas empregavam trabalhadores em situações análogas à de escravo. “Esses trabalhadores são jogados para desmatar, cuidar do gado, fazer algum tipo de plantio, não tendo as aplicações da legislação, os empregadores não empregavam as pessoas conforme a legislação”, afirma Rodrigo que, chegando ao local, encontrou as vítimas em situações degradantes.

“A botina em que  o trabalhador usava era descontada, a enxada em que ele usava era cobrada e colocada o triplo ou o quádruplo do valor”. Com o resgate da PRF junto ao Ministério do Trabalho e Ministério Público do Trabalho, também foi descoberto que as fazendas pagavam depois de dois ou três meses os trabalhadores, que recebiam cerca de quarenta reais, pois além de ser cobrado utensílios de trabalho, era cobrado sua alimentação e estadia.´Ao serem resgatadas as vítimas são ressarcidas, e destinadas a seu local de origem. Esse pagamento é feito perante ao recolhimento de multas pelo Ministério Do Trabalho pelas mãos do empregador criminoso, que se recusar o pagamento tem seu direito ao comércio bloqueado. As investigações sobre estes casos são feitas através  do Ministério do Trabalho, Ministério Público do Trabalho e Emprego através do mapeamento dos casos, geralmente por denúncias de pessoas atribuídas por eles ou pela Polícia Civil. Em alguns casos o Ministério Do Trabalho convoca a Polícia Federal,  para auxiliar nas investigações.

Existe uma relação interna de tráfico de pessoas e trabalho escravo, muitas das autoridades que lutam contra o caso defendem que todo o caso de trabalho escravo pode ser considerado também como tráfico de pessoas, pois conforme o Protocolo De Palermo, o mero acolhimento, e alojamento de trabalhadores com a finalidade de exploração da escravidão já é o suficiente para configurar este crime. Casos de prostituição forçada também devem ser vistos como escravidão.

Como denunciar:

No Brasil existem muitas plataformas de denúncia contra tráfico de pessoas, entre elas podemos destacar o disque-denúncia nacional (Disque 100), um serviço de discagem direta e gratuita disponível para todo o país, coordenado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, que encaminha as denúncias à rede de proteção e responsabilização local, onde a vítima se encontra, com funcionalidade das 8h às 22 horas. Além desse procedimento, as denúncias podem ser feitas pelo site da Polícia Federal em casos de tráfico internacional. Dentro do Brasil, em caso de suspeita de trabalho análogo ao escravo, a denúncia pode ser feita à Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego nos seguintes telefones: (061) 3317-6174/ 3317-6273/ 3317-6692/ 3317-6719.

(Revisado por Alessandra Kominkiewizc e Bruna Jordana)

Legenda: Resgate trabalhadores com regimes análogo ao de escravo no Pará em 2010

Crédito do Foto: Divulgação/PRF

 

 

 

O que está por trás dos perfis falsos

(Por Alessandra Vida)

A conexão possibilitada pelo surgimento da internet trouxe consigo facilidades e um acesso universal a conteúdos dos mais diferentes segmentos. Mas também permitiu a muitas pessoas serem o que quisessem sob o esconderijo das telas. Pesquisas apontam que cada vez mais as pessoas se escondem em realidades virtuais e buscam a fuga da vida real.

O uso de perfis falsos em “salas” de bate-papo e sites de relacionamento são recorrentes. Segundo levantamento do Facebook realizado na rede social em 2012, cerca de 9% dos perfis existentes naquele período eram considerados falsos. Entre eles, estão os perfis duplicados ou mal categorizados e indesejáveis. Mas o que levaria alguém a criar um perfil irreal para se relacionar com outras pessoas?

De acordo com o professor e mestre em psiquiatria do Centro Universitário Ritter dos Reis, Igor Londero, “os motivos são os mais variados. Não existe um único motivo, mas geralmente tem a ver com a maneira como aquele indivíduo se vê em relação ao mundo”. Conta que já atendeu em seu consultório uma jovem que criou perfis falsos para todas suas redes sociais. Explica que no mundo real, a garota se via de uma forma muito depreciativa: “O que motivava ela naquele momento era um mundo de fantasia, onde as pessoas se relacionavam com a persona dela, com o personagem que ela tinha criado. Nada mais era do que o personagem de uma novela que ela mesma escrevia.”

A criação de uma persona é basicamente o “estado” virtual onde permite ao seu criador agir em um novo papel, alterando características físicas como gênero e raça. No livro Dependência de Internet, publicado em 2011, a psicóloga e pesquisadora em transtornos relacionados ao uso da internet Kimberly Young afirma que “a criação de uma persona on-line permite aos usuários uma saída segura para satisfazer necessidades psicológicas “.

Através da divulgação de ideais de comportamento e estética, grandes meios de comunicação acabam formando padrões sociais. Contudo, o professor Igor Londero acredita que a inacessibilidade desse padrão pode trazer decepções e frustrações. A adolescência é o período da vida mais marcado por situações como essa. O professor ainda afirma que ele é marcado pela autocrítica constante e por um retorno social mais direto e imediato. A necessidade da criação de outra realidade se instala mais fortemente, pois o jovem está mais vulnerável.

A estudante de Marketing, Elza Fraga da Rosa, de 20 anos, conta que na sua adolescência criou perfis falsos para se relacionar com outras pessoas no meio virtual: “Poderia ser o que quiser e ter o que quiser. Era uma forma de pegar o desânimo ou a frustração da realidade e transmitir para o virtual. É uma saciedade.” A estudante detalha o cotidiano virtual como uma adaptação do mundo real. Toda ação que possivelmente exista na vida real era descrita pelos bate-papos. Ali era possível casar, ter filhos e viver na casa dos sonhos. Inclusive brigas e relações poderiam ser vivenciadas. Ela ainda conta que na época, um de seus relacionamentos se tornou realidade e se encontrou com o namorado virtual algumas vezes.

A internet, ao mesmo tempo conecta e isola socialmente. Ela permite uma conexão calculada, dando a liberdade ao indivíduo de ajustar o grau de interação de modo a regular o conforto e minimizar a ansiedade social.

(Revisado por Josiane Skierzinski e Bruna Jordana)

Crédito da Foto: Alessandra Vida

Irrealidade virtual através do Instagram

(Por Marjorie Paula)

Em um mundo de aparências, aplicativos como Instagram ganham força e permitem que qualquer um possa assumir o perfil que desejar. Novos comportamentos surgem e nesse contexto realidades pré-moldadas são desenvolvidas a partir de carências afetivas e de grande insegurança quanto a imagem. Em 2017, o Instagram atingiu a marca de 700 milhões de usuários ativos – sendo os brasileiros os segundos mais presentes na rede. Em três anos o número de contas no aplicativo duplicou.

Análises realizadas pela própria empresa mostram também que o Brasil já está acima das médias globais quanto ao número de usuários, que no último ano chegou a 75% da população brasileira. Em meio a mais de 4,2 bilhões de curtidas diárias, poucos sabem as diversas tentativas de bater uma foto que existiram por trás da expectativa de uma publicação. A vida virtual permite a existência de diversas personalidades, em suas maiorias felizes e extrovertidas. O Instagram se torna uma plataforma virtual propícia para idealizações e projeções de uma vida irreal.

A necessidade do ser humano de ser aceito socialmente vem desde a infância. A psicóloga, Monalisa Minatto, explica que todo o homem tem o desejo de ser aceito socialmente. Uma necessidade emocional de ser amado, admirado e pertencer a um determinado grupo. Esse comportamento reflete nas publicações do Instagram: as pessoas passam a assumir situações, lugares e atividades que não vivenciaram.

Bruna Schneider, Social Mídia de 24 anos, acredita que anem tão recente onda de influenciadores oportuniza um cenário onde a beleza se torna onipresente e os momentos se tornam propícios para o compartilhamento. “Não há, na rede social, a divulgação de problemas do cotidiano, apenas fotos retratando momentos legais. Tudo isso incentiva a criação de falsas realidades das vidas dos usuários”, afirma Bruna.

Como exemplo, a Social Mídia traz a blogueira fitness Gabriela Pugliesi. Ela explica que acredita na ”vida perfeita” que a blogueira leva, mas claramente entende que os problemas do cotidiano pertinentes a todo o ser humano são mascarados. Bruna ainda diz: “ela não divulga em seu perfil e claro que boletos e problemas de saúde não geram likes“.

Segundo a psicóloga, esse estilo de vida pode ajudar o usuário que possui algum transtorno, trauma ou baixa autoestima, chegando a desenvolver um falso self ou ter dificuldades de lidar com a realidade.”Isso vem desde quando éramos bebês e dependíamos do amor e cuidado do outro. Nossa sobrevivência e bem-estar mental dependiam disso. Todos trazemos um pouco disso no inconsciente”, afirma.

A irrealidade é uma forma de mostrar esse comportamento social, que acaba potencializado pelo surgimento das Redes Sociais. “Antes havia a necessidade de provar uma boa vida em momentos específicos e para um grupo específico. Hoje é a todo momento e para um grupo muito maior de pessoas”, diz Bruna.Nem tão novo assim, as pessoas têm necessidade de demonstrarem uma realidade que não pertence ao offline delas.

(Revisado por Larissa Pessi e Jennyfer Siqueira)

Crédito da Foto: Marjorie Paula

O que leva o cidadão a consumir

(Por Larissa Pessi)

A todo momento a publicidade apresenta produtos como necessários para o consumidor. Ora é um calçado dito sustentável, ora é um carro com comando de voz. No filme “O Clube da Luta”, o controverso personagem de Brad Pitt discursa para os membros do clube sobre como a publicidade incentiva o consumo de falsas necessidades. Mas o que é necessário para o ser humano viver bem?

A antropóloga e jornalista Aline Rochedo esclarece que essa é uma questão sem resposta exata. “O que é necessário para uma pessoa consumir para ter qualidade de vida, por exemplo, no morro, é diferente do que uma pessoa precisa na classe média, nos meios urbanos, em cidades do interior ou em uma população ribeirinha”, explica. O que se pode dizer, segundo Aline, é que as necessidades podem ser reais, construídas e subjetivas, e mudam ao decorrer da vida. Além disso, não é apenas a necessidade que leva ao consumo. Diversos outros fatores influenciam o cidadão diariamente, inclusive a publicidade.

O escritor Mario Vargas Llosa declara em seu livro “A civilização do espetáculo” que “a publicidade exerce influência decisiva sobre os gostos, a sensibilidade, a imaginação e os costumes”. É também assim que pensa o professor do curso de Publicidade e Propaganda da UniRitter Francisco Santos. Para ele, os anúncios não apenas influenciam os padrões de consumo, como também incitam a população a consumir. O professor explica que, na teoria, um anúncio tem o papel de conectar a marca ao seu público, mas na prática isso muda: “A publicidade tem um poder doutrinatório muito grande”.

Entre os demais motivos que levam o cidadão a consumir, aponta a antropóloga, está um fenômeno observado pelo sociólogo e filósofo alemão Simmel na virada do século 19 para o 20, em Berlim, mas que ainda visualizamos hoje. “Existia um desejo nessas grandes cidades de se sentir aceito, de se fazer pertencer a grupos, então se consome para pertencer a esses grupos, mas também se consome para se diferenciar, para ser único na multidão”, explica Aline. Outro fenômeno ocorreu recentemente no Brasil, com o aumento da classe média, que ocasionou o aumento do poder de compra e, consequentemente, do consumo. Eventualmente, o consumo pode virar consumismo e causar um fenômeno que atinge 61 milhões de brasileiros: o endividamento. A partir da liberação do saque do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) muitos buscaram quitar suas dívidas. De acordo com a Caixa Econômica, do total de R$ 42,8 bilhões liberados, cerca de um terço – R$ 13,7 bilhões – foi destinado para esse fim.

Como aborda o sociólogo Baudrillard em sua obra, o consumo também pode vir do desejo de status: “é uma função social de prestígio e de distribuição hierárquica”. A antropóloga Aline Rochedo cita o exemplo dos meninos de periferia que adquirem um boné ou tênis de marca, o que resulta de uma disputa interna em seu próprio grupo social, onde existem posições hierárquicas. Em pesquisa, o SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) e o CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) verificaram que em 60% das vezes a compra de roupas, calçados e acessórios era a origem das dívidas. Esses itens também são os que 37% dos consumidores mais compram por impulso, sem realmente precisarem, devido a facilidade de crédito. A falta de controle financeiro é o terceiro maior motivo para inadimplência, depois do desemprego e da falta de renda.

A antropóloga ainda completa o raciocínio de Baudrillard afirmando que o ser humano olha para o outro e sonha em ter os mesmos objetos e estilo de vida, mas que dá a eles outro significado. Aline ainda ressalta que o consumo pode ser um ato político, uma forma de empoderamento e, até, de resistência.

(Revisado por Jennyfer Siqueira, Luísa Meimes e Marjorie Paula)

Legenda: Mulheres somam 56% das pessoas endividadas no país, diz SPC/SERASA

Crédito da Foto: Larissa Pessi

O impacto dos crimes de colarinho branco na economia brasileira

(Por Josiane Skieresinski)

Todos os dias a população brasileira é bombardeada por notícias que abordam a violência do país e muitas outras que falam do cenário político. Mas por algum motivo algumas pessoas ainda tenham a sensação de que pouca coisa está mudando de fato no nesse cenário. Talvez essa sensação esteja ligada ao modo como cada caso é julgado pela justiça. Até pouco tempo, os noticiários apresentavam casos de políticos e empresários que cometeram crimes e acabaram passando impunes, ao contrário de pessoal envolvidas em pequenos delitos, como furtos a pedestre ou porte de pequenas quantidades de drogas.

Segundo o professor dos cursos de graduação e mestrado em Direito da Universidade La Salle Daniel Achutti, essas situações ocorrem pelo contexto histórico do país. “As prisões não foram construídas para punir pessoas que produzem para a sociedade, mas foi feita para punir as pessoas que não contribuem com o sistema capitalista. Então se nesse sistema tu precisas de pessoas que consomem, que geram renda, não são essas pessoas que vão ser afastadas da sociedade e sim os que não tem como se manter. E por isso furtam o patrimônio alheio. O empresário que gera renda e trabalho não é visto como mau e sim como uma pessoa que contribui para o desenvolvimento do país”, conta o professor.

Existem atualmente, no Brasil, 622,2 mil presos divididos em mais de 1.400 unidades prisionais, segundo o Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça (Depen). Esses números refletem diretamente na economia do país. Segundo a professora e coordenadora do Curso de Ciências Econômicas da Universidade La Salle Dra. Judite Sanson de Bem, fala que as demandas do país são inúmeras e que a verba que sai do governo para essas demandas não corresponde com o valor que chega para as ações. “Além disso eu não saberia te dizer com certeza, se mesmo não tendo esses desvios as demandas que o Brasil tem seriam cumpridas efetivamente, mas com certeza já amenizaria grande parte dos problemas e das falhas nos serviços públicos”, avalia a professora.

(Revisado por Alessandra Kominkiewics e Luisa Meimes)

171, o crime que virou gíria

(Por: Luísa Meimes)

Um crime praticado sem violência física, mas que deixa pessoas e empresas em prejuízo, tem crescido diariamente na Capital. O estelionato, único crime conhecido pelo seu próprio artigo no Código Penal, o famoso “171”, lesou mais de 3,9 mil pessoas em Porto Alegre no ano passado. De acordo com os dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado, somente nos primeiros seis meses de 2017 já foram 2.143 registros. Isso representa aproximadamente 12 vezes em que o crime é cometido e registrado por dia apenas na capital gaúcha. O número aumentou em comparação ao mesmo período do ano anterior.

O advogado Brunno Pires, explica que o estelionato tem como ponto central a crença da vítima. “Para que o crime seja caracterizado tu precisas manter a pessoa em erro, ou seja, a pessoa voluntariamente vai te dar aquela vantagem”. Segundo a lei, é uma fraude aplicada em contratos ou combinações praticada por qualquer pessoa que tenha a intenção de enganar ou trapacear alguém com o objetivo de obter vantagem para si ou para outros. Inserido no meio das infrações penais contra o patrimônio, o estelionato se configura a partir de três elementos: vantagem ilícita, prejuízo alheio e fraude. Sendo esta última utilizada para induzir, criar falsa percepção da realidade ou fazer com que a vítima permaneça inconscientemente em erro. A ausência de um desses três elementos impede que o crime se caracterize como estelionato.

Segundo o delegado e Diretor do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais), Rodrigo Bozzetto, as vítimas desse crime costumam ser idosos e pessoas com baixo nível de escolaridade, mas admite que isso não é um padrão de referência para ser vítima desse tipo de crime. “Dependendo da situação a vítima pode ter certa escolaridade e um bom nível de educação que mesmo assim pode acabar sendo vítima”, para o delegado a maior parte das vítimas também vislumbra alguma vantagem: “é o que a gente chama de torpeza bilateral (quando a vítima também age de má fé), as pessoas muitas vezes querem levar vantagem, por exemplo, em sites de vendas é apresentado um produto com valor muito irrisório e a pessoa se interessa porque ela vai ter alguma vantagem“, explica.

Na maioria das vezes a vítima se interessa por uma mercadoria de origem falsa. “Esse produto é fruto de um roubo, furto ou um produto falsificado. Então, a vítima de estelionato tem certa ganância assim como o próprio estelionatário”, ressalta o delegado. Parte da origem de muitos produtos provém de furto. Nos primeiros seis meses de 2017 foram registrados pelo menos 77 casos de furto por dia na capital, onde a maioria desses produtos acabam sendo postos a venda.

Para Brunno, o mais importante quando a vítima desconfia que se trata de um golpe é contatar a polícia e fazer uma ocorrência. Entretanto, reforça que como envolve ardil e fraude, é costume o autor desse crime sumir. “Como a pessoa está sendo enganada para ela se dar conta leva tempo. Então, é essencial que isso aconteça da forma mais rápida possível para que possa ser esclarecido por meio da investigação policial”, ressalta o advogado.

O delegado também salienta que a vítima ao perceber a tentativa, ou o estelionato consumado, deve se dirigir a alguma delegacia de polícia. “A primeira medida que a vítima pode tomar é registrar uma ocorrência para deixar isso formalizado”, indica. Com a constatação de que houve crime, a Polícia Civil investiga o modo com que o estelionatário operou seus golpes para então identificar e indiciar o criminoso.

(Revisado por: Josiane Skieresinski e Larissa Pessi)

Crédito da Foto: Luisa Meimes

A identidade estética e o poder dos significados

(Por Jennyfer Siqueira)

Falso e significado são palavras intimamente ligadas quando uma cultura já possui sua definição de “belo” e se confronta com outra fora da “norma”. A mulher negra que ostenta suas tranças, dreadlocks ou mega hair está sujeita a julgamentos nessa realidade. Tendo que reafirmar a todo o momento o que é verdadeiro para si e o que as representam como beleza. E para as especialistas, o problema são significados colocados nessa estética diferente da “verdadeira” e “ideal”.

“Vejo esse falso como uma característica que as outras pessoas atribuem a mim”, Sandra Meirelles afirma. Quando a técnica de enfermagem do Hospital da Criança Conceição reflete sobre a expressão “pessoa falsa”, chega ao que é consenso na academia. Tanto a historiadora, Fernanda Oliveira, quanto a psicóloga, Ana Maria Bercht, concordam que o uso de expressões como falso ou pessoa falsa criam um juízo de valor de como alguém é como ser humano. “As pessoas afirmam uma identidade antes de saber o que penso”, aponta Sandra.

Ana, mestranda em psicologia social, nunca se deparou com esse conceito de falso. Se voltarmos um pouco, mais precisamente, a partir da história das Américas, a liberdade do falso nunca existiu para grupos racializados. “Existe a possibilidade de acionar e manter aquilo que é verdadeiro para si”, conforme analisa a historiadora. Sandra sabe bem o que é isso. Depois de 20 anos tendo tranças, resolveu mudar. Agora, com o cabelo curto, conta que ele representa melhor sua personalidade prática e camaleônica. Apesar de não atribuir sentido político e de ativismo nas tranças, tinha como bonito o penteado. O que não impedia “os outros” de atribuir o significado ao seu cabelo.

Como canal de transmissão de mensagens, e sustentada pela estrutura social, a estética estabelece sua importância pelo potencial de manifestação da identidade que o ser humano “nutre de sentidos e significados que se fazem através do corpo”. Para Fernanda, quando esse movimento é realizado, a pessoa passa a dizer quem ela é, do que se orgulha e deixa de ser “um corpo apontado pelo outro”. Entretanto, Ana ressalva que “não podemos dizer que uma pessoa é falsa pela sua estética e aparência” já que ela envolve outras questões como estrutura social e relações de poder.

Assim como Fernanda e Ana, Sandra vê a afirmação desse estereótipo nas falas dos conhecidos quando veem sua mudança de corte de cabelo e ligam sua estética ao estereótipo criado para mulher negra que usa alisamento, dreads, mega hair e tranças. Apesar de não levantar bandeira, ela concorda com a historiadora que para os grupos racializados o corpo fala e as pessoas o leem. “Todos nós temos nossos preconceitos. A única forma de reverter isso é estudando. É procurar saber do que se trata antes de falar a sua opinião”, diz Sandra.

As crianças, principalmente meninas, são bombardeadas com modelos pré-estipulados por seus responsáveis e pelo seu ambiente social. A psicóloga relaciona a realidade das mulheres serem ensinadas a enxergarem seus corpos sob a ótica da aparência desde cedo ao fato delas serem as maiores consumidoras de tratamentos, serviços e produtos associados a beleza. Ana aponta o vínculo desse “belo” a características tidas como positivas pela estrutura social por estarem associadas às pessoas brancas e que automaticamente “rejeita as outras etnias”.

A beleza negra trava a mais de 50 anos uma luta para ser reconhecida e exposta a termos afirmativos. Como analisa a historiadora, o grupo adquiriu a possibilidade de diferenciar o falso do verdadeiro e de dizer “isso é o que me constitui”. Conquista de anos de ativismo cada vez mais presente nos círculos sociais e na mídia. Fernanda ainda ressalta a importância de não deixar o debate ficar na superfície e perder “seu potencial de transformação”. Já que quando aprofundada, a rejeição dessa “beleza” a outras culturas encontra-se com o cerne de grande problema que é pensar racialização no Brasil.

(Revisado por Larissa Pessi, Luísa Meímes e Marjorie Paula)

Legenda da Foto: Mulheres debatem expressão “pessoa falsa” a partir da ótica da estética e identidade

Crédito da Foto: Fayler Aprato

As origens da violência

(Por Diego Rodrigues)

Historiadores, filósofos, sociólogos, psicólogos, entre outros cientistas, buscam há séculos explicações sobre as causas da violência. Seríamos naturalmente violentos ou aprendemos a ser ao longo da vida? Há o que ser feito? Como fazemos? Muitas perguntas, algumas respostas e uma certeza: compreender esse fenômeno social de modo complexo definirá os rumos da Humanidade.

Crises institucionais, crime organizado, violência doméstica, ataque a minorias nos acompanham há muito tempo. Em um contexto de globalização, a intolerância não apenas ficou mais evidente, mas foi potencializada, acreditam os especialistas. Vivemos uma sociedade do conflito, a conflitualidade aparece em quase todos os momentos das relações humanas. A violência passou a ser forma corrente de exercício de poder.

Seria possível acabar com a violência? Para o doutor em Sociologia e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Direito da UniRitter, Dani Rudnicki, é praticamente impossível. Conforme ele, no entanto, um dos caminhos seria o controle por meio da redução das assimetrias sociais. O professor aponta a criação de “territórios de paz”, por exemplo, como um projeto que ajudou no controle dos indicadores criminais em áreas mais atingidas pelo crime organizado.

Mas como compreender a rotina de violência, muitas vezes, revelada na vida cotidiana, em casa, no trabalho, em está- dios de futebol? A resposta é complexa. “Uma perspectiva individualista é o senso comum como justificativa para que atos violentos sejam cometidos. Fatores genéticos, transtornos, frustrações e traumas podem justificar atitudes tomadas. Porém, nem sempre a motivação se justifica de forma individualizada”, diz o psicólogo e membro do Núcleo de Pesquisa em Trauma e Estresse da Escola de Humanidades (NEPTE), da PUCRS, Gustavo Ramos Silva. Outro fator importante é o processo de socialização na infância e adolescência. Se houver um modelo violento para uma criança, ponderam especialistas, há chance de ela ter um futuro violento.

O efeito é em cascata. A violência cresce em níveis alarmantes, segundo as estatísticas. O Atlas da Violência 2017 aponta que, em 2015, no Brasil, ocorreram 59.080 homicídios. O que equivale a uma taxa de 28,9 por 100 mil habitantes. O número aponta que, no ano de referência, a cada uma hora, aproximadamente sete pessoas eram mortas neste país. Os números mostram que negros têm mais chance de serem assassinados. De cada 100 pessoas vítimas de homicídio no Brasil, 71 são negras. De 2005 a 2015, houve um aumento de 18,2% na taxa de homicídio de negros. Mulheres e a população LGBT estão entre as vítimas mais frequentes.

A violência não é algo que preocupa somente a população brasileira. Segundo dados apresentados pelo Global Peace Index (GPI) 2017, o ano que se passou mostrou uma ligeira melhora na pontuação geral no índice de paz mundial. A pesquisa indica que esta é a primeira melhoria na paz global registrada desde 2014. Fato considerado de maior importância é o número de países que apresentaram melhora, 93, em comparação com aqueles que se deterioraram, 68.

Com os dados apresentados, conclui-se que o mundo melhorou um pouco no quesito paz de 2015 para o ano passado, porém, tornou-se menos pacífico na última década. A Islândia segue no topo como país mais pacífico do mundo, posição esta que ocupa desde 2008. No ranking, é seguida por Nova Zelândia, Portugal, Áustria e Dinamarca. Na parte inferior do índice, comparado ao ano anterior, houve pouca mudança. A Síria continua a ser o país mais violento do mundo, seguido de Afeganistão, Iraque, Sudão do Sul e do Iêmen.

O ranking demonstra o quanto as guerras presentes nos países com menor índice de passividade afetam na paz mundial. O Brasil ocupa a posição de número 105, superado na América Latina como menos pacífico somente por Venezuela e Colômbia, 144 e 147 no ranking, respectivamente.

Professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e em Políticas Públicas da UFRGS e diretor do Instituto Latino-americano de Estudos Avançados (ILEA), José Vicente Tavares dos Santos diz que a violência é um comportamento justificado por um determinado código social. As pessoas, quando cometem um ato de violência, de algum modo, têm interiorizadas um código de conduta que as autorizam a cometer o ato. A violência não é um ato irracional. Por que existe tal cultura de recorrer à violência para solucionar uma disputa, conflito ou desavença? Esta é a grande questão a ser respondida, diz o professor. A primeira conclusão baseia-se na reprodução da violência dentro do grupo familiar, onde, por vezes, a palmada é a forma de educar uma criança. No outro extremo, os idosos também são vítimas de pessoas dentro de casa. Outro fator é reprodução da violência pelos meios de comunicação, pois a mídia atua como agente de socialização. O romance policial também tem impacto no fenômeno social. Livros e séries de TV romantizam e dramatizam atos violentos e, muitas vezes, os apontam como solução para conflitos. Assim, há enorme produção de significados que legitimam a violência como código ordenador de condutas. Todos esses são fenômenos que propagam a produção da cultura da violência.

Como passar a viver então em uma cultura de paz? Para o sociólogo, o primeiro passo é o diagnóstico, identificação e nomeação do que realmente é um ato violento para, aos poucos, desconstruir a cultura de violência. Isso depende da criação de uma cultura de paz, mostrando que há alternativas. Mediação e arbitração de conflitos seriam fundamentais, neste sentido, no desenvolvimento de uma cultura de tolerância e, por consequência, de paz. Segundo José Vicente, a violência é um ato que destrói a cidadania do outro. A cultura da paz, por sua vez, é reconhecer o outro como diverso.

Suicídio já mata mais que HIV no mundo, diz OMS

(Por Marina Rocha)

Tratado como tabu e drama durante anos, a depressão, que na verdade é uma doença e não tem cura, ganhou notoriedade graças a série “13 Reasons Why”, que conta a história de uma menina que comete suicídio. A série virou febre mundial e começou a ser assistida por pessoas do mundo todo, e foi então que muitos outros assuntos ligados a depressão tiveram notoriedade.

Após anos no escuro hoje todo o mundo está falando sobre depressão e suicídio, porém mesmo após tanta divulgação muitas pessoas ainda não compreendem o problema no qual a depressão está inserida. O Brasil é hoje após estudos da OMS o 8° país onde mais se comete suicídio no mundo, fora isso cerca de 6% da população brasileira é diagnosticada com depressão, segundo a OMS, o que resulta em aproximadamente 12 milhões de pessoas, levando em consideração todas as outras pessoas que não são diagnosticadas com a doença por não procurar ajuda esse número pode crescer ainda mais.

Mesmo com todos esses dados alarmantes a depressão ainda é tratada como coisa da cabeça das pessoas, quando deveria ser tratada como doença, pois é o que ela é. Depressão é uma doença silenciosa, como, por exemplo, a diabetes. No começo você não tem nada, então vai desenvolvendo e uma vez desenvolvida você nunca mais deixa de ter, uma vez desenvolvida a pessoa precisa de acompanhamento médico e terapêutico e caso necessário com medicamentos para manter a sua doença controlada, pois caso contrário uma depressão de nível leve pode passar para algo mais severo levando até mesmo a pessoa a cometer suicídio, o que é mais normal do que se possa imaginar, já que por ano no mundo cerca de 800 mil pessoas cometem suicídio, o que equivale a aproximadamente um maracanã lotado por mês.

Sendo um problema de saúde pública mundial e a OMS já tendo divulgado que em 13 anos a depressão será a doença mais comum do mundo, afetando mais pessoas que o câncer e doenças cardíacas apenas 28 países no mundo tem estratégias de prevenção ao suicídio, que é na grande maioria das vezes originado de um caso de depressão profunda onde por ter ficado tempo de mais sem apoio e tratamento a pessoa não vê outra alternativa a não ser o suicídio. Quando questionado sobre o desafio da Baleia Azul e a relação com automutilações e suicido o delegado de polícia responsável pela delegacia de crimes cibernéticos, Arthur Teixeira Raldi de 35 anos disse que: Não devemos voltar tanto os olhos ao desafio da baleia azul em si, mas sim ao o que leva essas crianças e adolescentes a fazer a automutilação e a cometer o suicídio. Ainda falando sobre o suicídio ligado ao Baleia Azul o delegado disse que “até agora no Rio Grande do Sul não temos nenhum caso confirmado de Baleia Azul” afirmando que os pais após a propagação desse desafio começaram a reparar mais nos seus filhos e então descobrir que eles por ventura se automutilavam e ligaram as automutilações ao Baleia Azul.

Sobre os casos de tentativa de suicídio em Porto Alegre temos com base nas informações da Secretaria de Segurança Pública um dado curioso, onde no período entre

agosto/2016 e março/2017 o mês onde mais houveram tentativas de suicídio foi, Setembro, com 9 tentativas de suicídio entre crianças e adolescentes, mesmo esse sendo o considerado Setembro Amarelo em prol da valorização à vida. Ainda com base nesses dados temos em um período de nove meses 48 tentativas de suicídio, sendo 30 meninas e 18 meninos, dos quais apenas 9 ficaram internados para tratamento da doença, quando questionada sobre o motivo de tão poucos terem ficados internados, Inglacir Dornelles Clós Delavedova, 49 anos, 7°a promotora de justiça da infância e juventude de Porto Alegre relatou que existem poucas vagas destinadas a pacientes psiquiátricos e que por tanto os pais preferem levar os filhos de volta pra casa ao ter que deixá-los nos postos de saúde em condições precárias esperando por uma vaga, mas que quando essas casos ocorrem as famílias recebem todo o apoio possível.

Com toda essa repercussão era esperado que se fossem ter mais casos de tentativas de suicídio já que por norma a SSP procura não divulgar casos de suicídio para não despertar o efeito cascata em possíveis vítimas, porém o Centro de Valorização à Vida teve um aumento de 445% na procura por ajuda após a estreia da série “13 Reasons why” que embora seja uma série que trata não apenas de um mas de vários assuntos polêmicos abordou a depressão e o suicídio de maneira equivocada, já que a personagem principal não apresenta um quadro clínico de depressão que tenha levado ela a cometer o suicídio, assistindo a série o que se pode notar é que ela é uma adolescente que passou por diversos problemas, já que a série falha em mostrar a depressão somada a todos os problemas como a real causa do suicídio da jovem.

Como a série se passa em uma escola, a diretora de ensino da escola São Judas Tadeu, Graziela Loureiro de 50 anos foi entrevistada para falar sobre o papel da escola em reconhecer e ajudar os alunos e em lidar com assuntos de grande repercussão como foi o desafio da Baleia Azul e o seriado. Questionada sobre quais as providências tomadas pela escola quando esses assuntos aparecem à tona nas salas de aula a diretora falou: A escola tem que aproveitar todas as oportunidades que se tem para dar um conhecimento de qualidade, um conhecimento pertinente, não só para os alunos, para a comunidade escolar. Deixando claro ainda que e-mails foram enviados para os pais esclarecendo sobre esses assuntos e que a escola promoveu um encontro de pais com uma psicóloga especialista no tema para que todos pudessem ter suas dúvidas sanadas, ela ainda acaba a entrevista dizendo que a escola não pode negligenciar temas importantes, e que quando eles surgem devem ser falados e esclarecidos pois esse é o papel da escola, “escola é lugar de informação relevante pertinente e de desvendar o que é verdade e o que é mentira”.

Violência na escola: desafios para o futuro

(Por Renato Kubaszewski)

O problema da violência finalmente chegou ao seu estado mais grave e evidenciou com força nas escolas, pois hoje em dia as salas de aula viraram campos de batalha para os alunos. As escolas estão se tornando um dos principais casos de violência entre jovens e os números destes casos só aumentam, desde bullying até agressão física e, mais recentemente, morte. Caso este de morte que aconteceu na escola Luis de Camões em Cachoeirinha-RS e repercutiu no país todo.

Um dos principais e mais recentes casos de violência em escolas aconteceu em 08 de março deste ano, na escola Luis de Camões, em Cachoeirinha. Durante uma briga dentro da sala de aula, Marta, de 14 anos, foi estrangulada até a morte por uma colega de 12 anos. O caso teve grande repercussão no estado e é só mais um dos muitos problemas de violência em escolas que temos hoje em dia. Focando em Cachoeirinha, conseguimos expor não só a falta de apoio psicológico nas escolas, mas também a falta de acompanhamento dos pais, regras de conduta e também influências, seja de amigos ou até mesmo de programas na televisão.

Segundo a psicóloga Enedir da Rocha, de 55 anos, e que está na profissão há mais de 20 anos, o aumento da violência nas escolas vem crescendo pela falta de princípios. Para Enedir a educação parou de mostrar os valores da religião, o governo não tem investido como deveria e a desorganização familiar deixa os jovens com os limites frouxos. “A desigualdade social também é um grande motivo e a escola tem dificuldade de se impor nisso. Às vezes os jovens querem ostentar e mostrar poder. Se não conseguem mostrar poder por bem material, tentam por meio da força”, analisou Enedir.

Sobre as medidas a serem tomadas para mudar e evitar a violência nas escolas e os problemas de educação Enedir falou que os profissionais do meio devem trabalhar mais para o bem comum e melhorar o investimento na educação. “Devemos tentar ver os problemas dos jovens em casa e orientar para prevenir antes que aconteça algo. Também melhorar o investimento na educação e a valorização dos professores”, resumiu a psicóloga.

Segundo uma matéria da BBC Brasil, a necessidade de ajuda para o tema sobre violência nas escolas é um dos argumentos para o projeto da lei 3.688, em tramitação no Congresso há 17 anos, que propõe a contratação de psicólogos e assistentes sociais para assegurar a atendimento a alunos da rede pública e apoio aos professores no ambiente escolar.

Apesar de professores, psicólogos e especialistas defenderem o projeto e a sua necessidade, a Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação) avisa que algumas de suas dificuldades são a viabilidade financeira e operacional. Grande parte dos municípios no Brasil não conseguem pagar o piso salarial do professor que seria de R$ 2.298,80 e, segundo a Undime, ter o projeto com os psicólogos e assistentes sociais recebendo um salário que possivelmente seria superior ao dos professores, geraria um conflito entre eles.

Em 2012, a Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul implantou um programa de prevenção à violência nas escolas e o projeto inclui desde apoio aos alunos até terapia para professores. Vale citar que a escola Luis de Camões, cujo teve o assassinato de Marta, decidiu não participar do projeto criado pela Secretaria de Educação do estado.

Para a pedagoga Vânia Beretta, que trabalha há 16 anos na escola Presidente Kennedy, em Cachoeirinha, os motivos para o excesso de problemas de violência nas escolas são uma série de fatores. Vânia acredita que as famílias conversam pouco com os jovens, justamente na fase em que se acham donos da verdade. “É uma falta de acompanhamento familiar. Nós temos que colocar regras. Quando não se há regras, não temos controle e aí tudo pode acontecer”, disse a pedagoga.

Vânia também disse que o ponto chave para evitar violência na escola é a prevenção. Segundo a pedagoga a melhor maneira é prevenir tudo antes que seja tarde para tentar resolver. Trabalhar valores, a convivência e fazer atividades culturais também ajudariam na situação dos jovens na escola. “Estamos mostrando para o aluno que o diálogo deve acontecer e sempre com respeito. A escola não pode virar as costas para as coisas que acontecem”, analisou Vânia.

Ainda na escola Presidente Kennedy, Daniela Machado, que trabalha na escola há 10 anos e está no seu segundo ano como diretora da instituição, também falou sua opinião sobre o aumento da violência nas escolas. A diretora da escola acha que os pais têm culpa por ficar pouco tempo com os filhos e suprirem sua ausência fazendo todas as vontades dos jovens. “A escola, por sua vez, tenta transmitir os valores necessários, mas estão com poucos profissionais, faltam professores e se faz necessária à presença de um psicólogo para auxiliar”, disse a diretora.

Sobre a as medidas que se devem ser tomadas para mudar o quadro de violência, a diretora acredita que o diálogo deve ser a base tudo e devem mostrar aos jovens que existem outras possibilidades para resolver os problemas. Daniela também não acredita que a sua escola um dia passe por algo como aconteceu na escola Luis de Camões. “Não acredito que em nossa escola venhamos a ter uma situação tão triste. Temos um grupo muito comprometido e construímos uma rede de confiança que funciona”, finalizou Daniela.

De acordo com a Educabras, a Unesco realizou uma pesquisa e constatou que 53% das escolas particulares não tomam atitudes e prevenções necessários para evitar incidentes de violência para proteger alunos e professores. E se pensar nas escolas públicas, o número aumenta para 65%. Na tentativa de prevenir e ajudar as necessidades que as escolas da cidade passam a prefeitura municipal de Cachoeirinha tem criado desde novembro de 2016 palestras e conversas lideradas pelo DECA (Departamento Estadual da Criança e Adolescente) da Polícia Civil.

Denominado de “Papo Responsa”, a DECA apresentou às instituições o que tem como objetivo de implantar o projeto nas escolas da cidade. Com a mesma metodologia do programa “Papo Responsa”, em março a escola Marechal Mascarenhas de Moraes, também de Cachoeirinha, recebeu palestra do DEIC (Departamento do Estado de Investigações Criminais), por meio da Polícia Civil e da Divisão de Prevenção e Educação (DIPE), tentando auxiliar os alunos das escolas na sua educação.

Por mais que as atitudes ainda sejam poucas e pequenas, as escolas de Cachoeirinha estão tomando providências para tentar melhorar e corrigir seus problemas de educação e prevenir a violência, para não se repetir o que aconteceu na escola Luis de Camões. Ainda que seja difícil corrigir todos os problemas de educação e violência, as escolas estão tentando e o primeiro passo é a iniciativa por suas melhorias. Além da prefeitura de Cachoeirinha, o governo também deveria ter atitudes para melhorar os investimentos nas escolas e assim reerguemos a situação da educação no estado.

Quando o perigo está dentro de casa

(Por Larissa Mascolo)

Em briga de marido e mulher, deve-se sim meter a colher. Por trás das estatísticas, é possível evidenciar as violências cometidas por parceiro e ex-parceiros. Foram mais de 10 mil ameaças e 6,2 mil agressões físicas registradas apenas neste ano no Estado, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública.

Por trás das estatísticas, é possível evidenciar as pequenas violências cometidas por ex-parceiros ou atuais contra a mulher, seja o assédio moral, os xingamentos, as respostas grosseiras, a questão do poder, que acaba acarretando no autojulgamento da própria vítima. “Existem vários tipos de violência contra a mulher, a violência de gênero é exercida pelo homem em relação a esposa, ele é agradável com todos, mas com a esposa não”, explica a psicóloga e terapeuta de casal e família, Marli Kath Sattler.

Apesar do conhecimento da Lei, constantemente ela é desconsiderada. Conforme definido no artigo 5da Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha), “Violência doméstica e familiar contra a mulher é qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial”, ou seja, é qualquer tipo de violência cometida à mulher pelos membros do grupo familiar e, compreendida como doméstica se a agressão ou omissão ocorrer no âmbito doméstico permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar.

O perigo mora em casa

Os depoimentos expostos na recente exposição ‘Agora ou na hora de nossa morte’, realizada no Palácio da Justiça, no Centro Histórico de Porto Alegre, reflete sobre o que muitas mulheres sofrem dentro de suas casas, o lugar que, muitas vezes, é considerado como o mais seguro.

Realizado pelo Data Popular e o Instituto Patrícia Galvão, em 2013, a pesquisa ‘Percepção da sociedade sobre violência e assassinatos de mulheres’ revelou que, para 70% da população, a mulher sofre mais violência dentro de casa do que em espaços públicos no Brasile metade avaliou que as mulheres, de fato, se sentem mais inseguras dentro da própria casa. Ainda de acordo com esta pesquisa, 54% disseram conhecer uma mulher que já foi agredida por um parceiro, e 56% um homem que já agrediu uma parceira.

A tristeza pode ser sentida, tantas mulheres que perdem a vida no seu próprio lar, e ainda são julgadas culpadas por um crime que não cometeram. Assim, a casa se torna prisão, e a porta de entrada é uma cela em meio à escuridão.

As estatísticas comprovam o que muitos insistem em não enxergar. De acordo com dados fornecidos pelo Tribunal de Justiça do Estado (TJRS), 67,7% dos feminicídios são praticados dentro de casa e, 71% das vítimas não tinham medida protetiva de urgência decretada. Para a juíza-corregedora e chefe da Coordenadoria Estadual das Mulheres em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Tribunal de Justiça, Traudi Beatriz Grabin, “a gente sabe que na prática a medida protetiva não é uma coisa 100% eficaz, mas ela é uma das melhores alternativas que se tem hoje para prevenir a agressão em relação à mulher, principalmente essa agressão maior que é contra a vida dela, que é o feminicídio”.

Patrulha como forma de prevenção da violência doméstica

Um dos reforços para o combate da violência doméstica e familiar contra a mulher na Capital foi a implementação da Patrulha Maria da Penha, criada em 2012 pela Brigada Militar, e que hoje está presente em 27 municípios.

De acordo com a coordenadora da patrulha Maria da Penha, Clarisse Heck, “até o início do trabalho da Patrulha Maria da Penha poucas mulheres tinham conhecimento dos benefícios de que poderiam dispor, que entre outras providências, as medidas garantem à mulher o direito a uma ordem judicial para que o agressor deixe imediatamente a residência, determinando uma distância mínima entre o agressor e vítima, bem como dos familiares e outras testemunhas”. No ano de 2015 foram 12.754 casos atendidos, em 2016, 15.195 foram contempladas com o atendimento das patrulhas Maria da Penha no Rio Grande do Sul, nos 27 municípios.

Na cidade de Porto Alegre, estão disponíveis seis unidades operacionais que abrangem todos os bairros da capital. Cada unidade operacional dispõe de uma Patrulha que realiza a fiscalização das medidas protetivas de urgência, contando com dezoito policiais militares. Todos os servidores possuem algum tipo de treinamento especializado para atuar no atendimento à vítima de violência doméstica e familiar.  Segundo dados do TJRS, 30% destes crimes ocorrem porque o autor não aceita a separação, ou por discussões/ brigas, ainda de acordo com os dados, 89,4% dos agressores são homens.

Cada patrulha é composta por, no mínimo, dois policiais militares, sendo um deles, preferencialmente, do sexo feminino, que realizam visitas de atendimento policial à mulher em situação de violência doméstica e familiar. Normalmente são realizadas três visitas, mas o número depende da gravidade do caso.  “A Patrulha Maria da Penha auxilia muito na questão da falta de informação, na orientação dessas mulheres e também do empoderamento delas, porque a Patrulha faz visitas nas residências das vítimas e ali é o momento em que ela se sente acolhida, se sente segura, confiante e é o momento então que a polícia orienta da melhor forma de como proceder diante do caso concreto. A patrulha Maria da Penha é um importante instrumento para a garantia dos Direitos Humanos das Mulheres”, ressaltou a coordenadora.

Proposta concreta de combate à violência doméstica e familiar contra a mulher

No Brasil, a taxa de homicídios é de 4,8 por 100 mil mulheres – sendo a quinta maior no mundo no ranking de mulheres assassinadas, segundo dados do Mapa da Violência 2015, fornecidos pela Organização Mundial da Saúde. Já no Rio Grande do Sul, nos dois últimos anos, houve uma redução de 3% na taxa de feminicídios, de acordo com dados da SSP.

A Lei Maria da Penha foi sancionada em 7 de agosto de 2006, sendo a terceira melhor lei do mundo no combate à violência doméstica, e estabelece que todo o caso de violência doméstica e familiar é crime, devendo ser apurado através de inquérito policial e ser remetido ao Ministério Público. “A lei Maria da Penha é uma lei muito boa, mas é uma lei muito boa aplicada num Estado que não só negligência, mas também que é reprodutor desse sistema patriarcal, desse machismo, dessa violência, então a gente vê a violência contra a mulher em várias esferas dentro do Estado”, destaca a integrante do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre a Mulher e Gênero da UFRGS, Florência Guarch.

Esses crimes são julgados nos Juizados Especializados de Violência Doméstica contra a Mulher, que foram criados a partir dessa legislação, e nas cidades em que ainda não existem, são julgados nas Varas Criminais.

Em Porto Alegre, o Poder Judiciário é um dos poucos no Brasil que possui nove Juizados Especializados em Violência Doméstica e Familiar distribuídos pelo Estado nas comarcas da Capital. São elas: Caxias do Sul, Pelotas, Santa Maria, Canoas, São Leopoldo, Novo Hamburgo, e Rio Grande. Ao final do ano de 2006 (ano de início da vigência da Lei Maria da Penha), foram requeridas 109 medidas protetivas. Depois de dez anos, das 51. 219 medidas protetivas solicitadas em 2016, 28.104 foram concedidas, o que representa 54,8% medidas aprovadas pelos magistrados.

No Rio Grande do Sul, de acordo com dados da Secretaria da Segurança Pública, no Poder Judiciário do Estado, em 2016, foram iniciados 156 processos que apuram feminicídios (tentados e consumados). Os agressores têm idade entre 25 a 39 anos, representando 33,7%, de acordo com dados do Tribunal de Justiça do Estado, e ainda, 21,1% das vítimas têm filhos com o agressor.

Segundo o artigo 7º da Lei Maria da Penha, são definidas cinco formas de violência doméstica e familiar contra a mulher: a violência física, a violência psicológica, a violência sexual, a violência patrimonial, e a violência moral. Neste primeiro semestre de 2017, a SSP registrou, em Porto Alegre, 10.030 ameaças, e 6.226 lesões corporais. Em 48,4% os crimes ocorrem em relacionamentos atuais.

Que a violência doméstica existe e é cotidiana na vida de muitas mulheres é fato. Apesar das medidas protetivas, da aprovação da Lei e de atendimentos especializados para a mulher, nenhuma é uma garantia total de segurança à vítima. É necessário que o assunto seja debatido, que o Estado dê uma atenção maior a essa problemática, e que a população não fique cega quanto às relações abusivas que presenciam. É quase impossível não conhecer uma mulher que foi vítima, ou até mesmo um agressor, e isso é assustador. Os índices da violência contra a mulher continuam crescendo, e milhares perdem suas vidas no estágio final do ciclo desta violência, quando então acontece o feminicídio. O engajamento da sociedade para combater qualquer violência cometida contra a mulher é indiscutível. A luta não é só das vítimas, e sim de todos.

Paixão ao futebol, indiferença à vida

(Por Gabriela Soares)

O Brasil ocupa uma das primeiras posições no ranking de torcedores mortos em confrontos antes e após as partidas de futebol. As torcidas organizadas se tornaram celeiros do terror esportivo, instalando um clima de medo e insegurança para quem frequenta os estádios. É perceptível o aumento da violência e da incompetência das autoridades em controlar a situação. Nos últimos anos, apenas 3% dos delitos no âmbito do futebol (racismo, xenofobia, machismo, agressão, mutilação e morte) foram punidos. São Paulo é apontado como estado mais violento do país, seguido pelo Rio Grande do Norte e Pernambuco.

De acordo com um estudo realizado pelo sociólogo Maurício Murad, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o número de mortes ainda se concentra em classes mais baixas e com escolaridade até o ensino fundamental, mas a estatística alcança todas as faixas sociais, renda e níveis de formação, inclusive mestres e doutores. O pesquisador destaca em seus ensinamentos que, embora os confrontos sejam provocados por torcidas organizadas, a maioria dos mortos são “inocentes”: até 2013, eles eram a maioria. Antes, a faixa etária ficava restrita a jovens de 15 a 24 anos e agora chega aos 33 anos.

História das torcidas

Conforme disposto no artigo “Lazer e violência nas torcidas organizadas”, o surgimento das primeiras torcidas era denominado “charanga”, agrupamento de pessoas que visavam apoiar seus clubes, com instrumentos musicais, de uma forma alegre e o uso de uniformes. A Torcida Uniformizada do São Paulo, criada em 1940 e a Charanga do Flamengo, criada em 1942, foram os primeiros movimentos organizados.

As Torcidas Organizadas, assim como se entende hoje, começaram a existir no final da década de 60. O Grêmio Gaviões da Fiel, com fundação em 1969, é considerado a primeira torcida organizada. Com o passar dos anos as torcidas vão se firmando, inclusive por meio da violência e o quadro de associados cresce de maneira significativa, nos anos 90.

A primeira morte ligada à violência no futebol aconteceu em 1988, quando Cléo Sóstenes Dantas da Silva, 24 anos, foi assassinado em frente à sede da torcida do Palmeiras, seu clube de coração. Ele era presidente da Torcida Mancha Verde depois extinta pela Justiça, mas que retornou com o nome de Mancha Alviverde.

Comportamento do torcedor organizado

Segundo o professor de História das instituições de ensino, Fapa e Uniritter, Walter Lippold conta que o fenômeno da violência na questão do futebol não está restrito ao Brasil. Apresentamos antecedentes já na questão do Hooligans, jovens que se divertem através de futebol, bebidas e brigas, sendo o fenômeno mais estudado na Inglaterra.

Inicialmente, o termo hooligan pode designar tanto um comportamento ligado a uma família que apresenta conduta antissocial, quanto a um grupamento específico de torcedores. A primeira característica que difere os hooligans é que estes possuem afinidade com movimentos políticos de extrema direita e com ideias xenofobias.

Para entender melhor a cabeça dos membros das torcidas organizadas, em entrevista, um integrante da banda Oficial do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, conta como iniciou sua paixão pelo clube que resultou no fanatismo. Hoje, com antecedência criminal e sem permissão de comparecer nas partidas, ele afirma: “Acho que vale a pena arriscar a vida pelo time”.

Como iniciou o interesse em assistir aos jogos e a sua participação na Geral?

Comecei a frequentar os estádios desde cedo. Interessei-me em participar da torcida organizada, mas principalmente da banda. A banda que anima o jogo. Aos poucos fui me enturmando e conhecendo todos os membros. Comecei a ir cada vez mais aos jogos. Quem participa da torcida, tem que chegar com bastante tempo de antecedência. Se um jogo inicia às 21 horas da noite, mais ou menos ao meio-dia temos que estar no estádio.

O clube tem participação da organização da torcida? Tem alguma ajuda de custo como ingressos, transporte ou na retirada dos torcedores quando presos?

Antigamente o clube ajudava bastante. Hoje em dia, não temos ajuda em nada. Uns cinco anos atrás, tudo era melhor, a festa no estádio era mais completa. Hoje não temos nada. Não conseguimos nada. Não temos ajuda com ingresso, com transporte, viagens para outros estados e países. Se vamos presos, o clube não fornece assistência, ainda prejudica nas identificações. O clube não está nem aí pra torcida. A torcida faz por si mesmo. Temos que fazer material pra vender pra conseguir dinheiro para os gastos, para os instrumentos. Temos que achar maneiras.

 Quais os motivos que levam as brigas?

Geralmente, briga dentro da própria torcida envolve mais ego, principalmente quando estamos mais alterados, e bêbados. As brigas com as torcidas rivais envolve a questão de provar ser a maior torcida. Já brigamos com a direção pelo descaso com a gente, por deixarem de oferecem o que precisamos. Antigamente as brigas eram mais frequentes, e sim, por dinheiro, status, de ser reconhecido.

Vale a pena arriscar a vida pelo clube? Tudo isso não prejudica a imagem do Grêmio?

É uma pergunta muito difícil. Depende do ponto de vista do que seria arriscar a vida pelo clube. A gente sempre exalta o nome do Grêmio, às vezes temos que fazer algo para nos proteger e proteger quem está do nosso lado, mas acho que vale a pena arriscar a vida sim. Torcedor fanático pensa totalmente diferente do torcedor comum que chega só na hora do jogo e se senta para assistir.

Qual a diferença entre o torcedor “comum” e o torcedor fanático?

O torcedor comum torce pelo time só no dia do jogo. O torcedor fanático vive o time todos os dias, 24 horas por dia. Temos reuniões semanais. Chegamos cedo aos jogos, estamos frequentemente neles. Só nós sabemos o que passamos pra conseguir dinheiro pra acompanhar o time. Quando entramos no estádio ou até mesmo fora dele, a razão fica em casa. Não aceitamos que falem mal do nosso time, dos jogadores. É difícil de entender. O jogo já conduz uma emoção, e naquela mistura de sentimentos não aceitamos críticas e acabamos tendo atitudes erradas.

Referente aos antecedentes criminais. Quais são?

Eu tenho algumas. Em 2012, foi a primeira vez que fui detido. Eu fui fichado como rixa (briga de dois grupos rivais definidos). Depois fui detido mais umas dez vezes, mas as principais são por rixas, danos a patrimônio privado, incitação à violência, agressão, sendo consequentemente as que envolvem mais as torcidas. Já usei tornozeleira eletrônica. Eu teria que cumprir uma transação penal onde deveria ficar dez jogos sem ir ao estádio, me apresentei nove vezes na delegacia e uma não apareci. O juiz determinou que eu colocasse tornozeleira eletrônica. Usei menos de dois meses, pois não era mais necessário o monitoramento.

Então se você não participasse da torcida, hoje não teria essas antecedências. Você é um agressor pela torcida. Isso? Ter essas antecedências pelo teu time, carregar isso na tua vida, vale a pena?

Não é questão de ser agressor pela torcida, mas obviamente se eu não participasse não teria essas antecedências. Foram fatos que aconteceram que eu tive que me defender. Ter antecedente criminal não faz diferença na minha vida, eu não tenho uma condenação, tenho passagens. Minha ficha corrida é toda limpa. Nunca fui condenado, nem vou. Fui absolvido de todas. Já cumpri muitos anos fora dos estádios. São coisas que acontecem.

Você já foi proibido de ir a algum jogo? O grêmio tem fiscalização, como as catracas biométricas?

Já fui proibido diversas vezes em ir aos jogos, durante três meses, cinco meses, de dez a quinze jogos. Já usei tornozeleira eletrônica. O Grêmio não fiscaliza nada. Quem fiscaliza os detidos é a Brigada Militar e o Ministério Público. Os times (Internacional e Grêmio) não tem fiscalização nem deles próprios, quem dirá dos detidos. O Juizado do Torcedor geralmente quando proíbe alguém é acordado que o torcedor deve comparecer meia hora antes e meia hora após o jogo na delegacia mais próxima.

 

Fanatismo e violência

“Uma pessoa que vive para bater nos outros e em defender o time, na minha visão, não está na normalidade psicológica. Ser fanático, dentro do normal, chorar e ficar triste, acredito que no Brasil é mais aceitável”, opina o professor Walter, que para compreender o fanatismo e a violência, entra a categoria da Psicologia.

Como psiquiatra, filósofo, cientista social e revolucionário, Frantz Fanon foi um dos pensadores mais instigantes do século XX. Ele abrange que todo o ser humano tem dois tipos de pulsão: A pulsão Eros, é uma pulsão ligada aos instintos sexuais e a pulsão Thanatos, um impulso agressivo contra os outros e contra a si mesmo. Freud escreve isso quando se dá conta que a algo no ser humano inato. Toda energia Eros e Thanatos tem que ser sublimada. Toda sociedade precisa ter uma válvula de escape para as condutas agressivas.

Os fatores econômicos, políticos ou socioculturais podem influenciar no comportamento e na atitude dos torcedores. Este comportamento de massa tende a alterar certos valores, expectativas, sentimentos e sentidos das ações individuais. “Um homem sozinho na rua é uma coisa, esse homem com mais dois homens já me parece um pensamento de matilha. Vem à necessidade de se exibir, de masculinidade, para mostrar que ele é potente, através da agressividade”, refere-se o professor Walter a mudança de comportamento do indivíduo que é causada pela presença de um grupo, principalmente na violência futebolística.

Talvez, a necessidade de serem diferenciados dos torcedores comuns, conforme afirmado na entrevista do integrante da banda, possa contribuir também nesta mudança de comportamento. Um exemplo simples é que estes torcedores organizados assistem às partidas em pé. Esta postura é totalmente diferente dos torcedores comuns, que assistem ao jogo sentado e levantando-se somente durante os intervalos. Da mesma forma, a violência real pode ser estimulada pelo consumo de drogas lícitas e ilícitas, como por exemplo, o álcool. O uso dessas substâncias faz com que o indivíduo perca a inibição, sendo mais difícil distinguir comportamentos desejáveis de indesejáveis. “Toda violência física é a incapacidade de verbalizar aquilo que você sente”, finaliza o professor Walter. O Ministério Público do RS foi questionado sobre o assunto, entretanto não se manifestou.

 

Dados coletados para calcular a média de mortes ocorridas em cinco anos no Brasil

2010: 12 pessoas morreram por causa de futebol no Brasil.

2011: 11 pessoas tiveram a morte comprovadamente ligada a rixas de torcidas.

2012: 23 pessoas foram mortas por torcerem por times diferentes. Nesse ano, a violência do futebol dobrou.

2013: 30 pessoas foram assassinadas por torcedores rivais. Foi o maior número da história.

2014: 18 pessoas morreram por causa de futebol no Brasil. A redução se deveu à pausa para a Copa do Mundo.

2015: 15 pessoas morreram por agressão em público. Houve o aumento da presença das mulheres nos estádios.

Dados coletados dos cinco times mais punidos que tiveram de jogar sem a presença da torcida ou 100 km de distância se suas sedes por causa de atos violentos dos torcedores entre 2011 a 2016

Atlético-PR 11 jogos além da perda de dois mandos de campo;
Corinthians 9 jogos por mau comportamento dos torcedores;
Goiás 6 jogos pela bomba atirada da torcida esmeraldina na arquibancada onde estava a torcida do Sport;
Vasco 5 jogos por mau comportamento dos torcedores;
Palmeiras 5 jogos além da perda de um mando de campo.

Violência contra o idoso não tem desculpa, tem lei

(Por Willian Cardoso)

Entre o modesto corredor da Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso (DPPI), de Porto Alegre, uma senhora chamou a atenção pela história que se dispôs a contar sobre sua violência sofrida. Ernestina Freitas Machado, mais conhecida como Dona Neta, senhora de 90 anos, no rosto e em suas mãos, leva as marcas da passagem do tempo que aparenta esconder uma mulher castigada pelas suas situações vividas. Vítima constante de estelionato, não recorda quantas vezes já pensou em fazer denúncias do seu filho mais novo. “No fundo eu não tenho coragem, apesar de fazer essas coisas, ele é um bom filho”, desabafa. Casos como de Dona Neta se tornam frequente entre os idosos que vão até a DPPI, mas acabam não fazendo a denúncia. A população idosa atual do Rio Grande do Sul já corresponde a 17,3% de toda população, os números refletem a 1.945.900 milhões de habitantes com mais de 60 anos, segundo dados do último censo do IBGE de 2015.

Dona Neta, viúva, cozinheira aposentada, explica que o filho constantemente furtava seus cartões bancários, fazendo realizações de empréstimos indevidos em nome da idosa, comprometendo sua renda. Das 1062 ocorrências registradas, até o final da apuração desta matéria, 16 de maio, 16,6% são denúncias voltadas ao teor de violência financeira. Representando um total de 83 queixas.  Comparando com os dados adquiridos no ano de 2015, que foi o período que a DPPI possuiu o maior número de registros de ocorrências (2,5 mil), o primeiro semestre de 2017 quase atinge a metade dos índices. Segundo o Comissário Alan Lopes da Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, diariamente vão até o local uma média de 30 pessoas, mas somente 15 acabam fazendo denúncias.

Entre os seus nove filhos, somente a filha mais nova, empregada doméstica, de 48 anos, fica responsável dos cuidados da idosa, “não adianta denunciá-lo, a polícia não irá fazer nada, e nós que vamos ser prejudicadas por ele,” comenta. O Estatuto do Idoso (Lei 10.741/03), em seu artigo 102 – explica que apropriar-se de bens, proventos, pensão ou qualquer outro rendimento do idoso, dando-lhes aplicação diversa da sua finalidade, sofre reclusão de 1 a 4 anos seguido de multa. Segundo dados da Secretaria Especial de Direitos Humanos (SDH), esse tipo de crime é um dos mais denunciados no contexto nacional, representando 40,1%.

VERTENTE DOS CASOS: ANALISANDO O AGRESSOR

As narrativas das duas senhoras mostram que a violência financeira geralmente ocorre quando o idoso por necessitar de ajuda, acaba confiando nas pessoas próximas (familiares, cuidadores) que deveriam lhe auxiliar, mas acabam se aproveitando da fragilidade dessas pessoas desviando ou confiscando os bens dos idosos.  Verônica Bohm, profissional do Centro de Ciências Humanas e Educação, da Universidade de Caxias do Sul (UCS), analisou e elaborou em sua tese de pós-graduação – violência contra pessoas idosas: narrativas de agressores. Como é o ponto de vista dos agressores que cometem delitos, ou amedrontam pessoas da terceira idade. Em sua pesquisa exploratória, ela entrevistou um total de 8 pessoas, 5 mulheres e 3 homens, que cometeram algum tipo de violência contra pessoas com mais de 60 anos.

Ela exibiu seu trabalho em 03 de junho de 2016, onde apresentou que 90% dos entrevistados eram filhos destes idosos, que representam a média nacional 51,5%, seguido dos netos 8,25%, segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos (SDH). No seu estudo ficou esclarecido que os aspectos mais comuns para os maus-tratos contra pessoas mais velhas são baseados no consumo excessivo de drogas ilícitas ou de álcool, a presença do desemprego na rotina familiar, ou familiares que carregam as lembranças de terem sido vítimas de violência em outras fases das suas vidas.

A violência financeira foi citada em 12,4% dos registros feitos por Verônica. Item preocupante no atual cenário econômico brasileiro, onde as taxas de desemprego no ano de 2016 aumentaram 12%, em comparação com o ano anterior, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os idosos podem ser as únicas pessoas com renda fixa em inúmeras famílias. O que poderia ser um lugar de prestígio e poder, também pode colocá-los em condições vulneráveis quando em famílias desestruturadas.

A psicóloga Elisabeth Mazeron, professora da UniRitter, explica o quanto é difícil de romper esse ciclo sem a procura de uma ajuda profissional. “O ciclo de violência acaba se tornando quase uma regra. Principalmente em vítimas de violência na infância. Isso se torna uma marca profunda e acaba se tornando muito difícil de interromper sem o auxílio de muitas sessões de terapia”, afirma.

As situações de violência na infância, podem conduzir o adulto a reproduzir este tipo de comportamento com seus filhos, tornando-se um ciclo vicioso na família, por atravessar gerações.

O Centro de Referências às Vítimas de Violência (CRVV) recebe por mês na instituição quatro ocorrências, sendo que a cada 4 denúncias realizadas, 3 são de mulheres. Boa parte das acusações não possui prosseguimento por opção dos idosos, pois as denúncias atingem familiares próximos. Maria Valéria Carvalho Simões, assistente social do CRVV, destaca a questão de vulnerabilidade da mulher idosa e sua expectativa de vida maior: as mulheres lideram os rankings de pesquisa, até pela vulnerabilidade, e por existirem mais mulheres idosas do que homens.

ASILO PADRE CACIQUE: A VIDA RENASCE AOS 60

Em busca de oferecer um novo caminho para às vítimas de maus-tratos, oferecendo proteção, incluindo socialmente os idosos em atividades diárias, visando o estímulo de suas vidas sociais e emocionais, a instituição Asilo Padre Cacique acaba se tornando uma opção de recomeço. O Asilo Padre Cacique, é uma organização não governamental fundada em 19 de Junho de 1898, pelo padre baiano Joaquim Cacique de Barros. atualmente, abriga cerca de 150 idosos, sendo que em torno de 40% não possui algum vínculo familiar, e por esse motivo acabam gerando uma ligação afetiva com os funcionários e os voluntários da instituição.

A instituição disponibiliza atividades diárias de lazer ao idoso: cinemas, aula de informática, sala de jogos, baile dos idosos, e etc. Natália Chim, voluntária do asilo, destaca que os idosos se sentem felizes por estarem ali. “Eles voltam a se sentirem importantes. Encontram pessoas com histórias parecidas e acabam se identificando”, conclui. Para o ingresso na instituição precisa ser independente para as atividades da vida diária: alimentar-se sozinho, ir ao banheiro, conseguir se deslocar sem ajuda. Conseguir responder por si mesmo, não ter sido diagnosticado com Alzheimer ou com desvios psiquiátricos. Além, de possuir uma renda de um salário mínimo, precisa residir em Porto Alegre ou em cidades metropolitanas.

Durante a passagem entre os largos corredores do asilo, um senhor cabisbaixo, de braços cruzados, e sério (aparentando ter poucos amigos), chamou à atenção entre os demais. Seu Hermínio D’ Andrae, 93 anos, jornalista formado Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), responsável pelo informativo interno dos moradores, o Jornal Cacique, que circula a cada três meses na capital. Perguntado se gostava da instituição como morada, e se possui um bom convívio com os demais moradores, “Sim, tenho alguns amigos, mas prefiro escutar, tenho um ouvido carinhoso, e sim, gosto do tratamento que os voluntários tem conosco”, afirma.

Seu Hermínio é uma das histórias contadas no asilo que reconhece a entidade como um verdadeiro lar, tanto pelos serviços prestados, quanto pelo ambiente de convívio com os demais moradores.

De acordo com o IBGE, os números de idosos dobrou no contexto nacional, as pessoas com mais de 60 anos somam 23,5 milhões dos brasileiros, representando 12% da população no país, ao mesmo tempo, o número de crianças de até quatro anos no país caiu de 16,3 milhões, em 2000, para 13,3 milhões, em 2011, último ano que a pesquisa foi feita. A expectativa é de que a 30 anos haverá mais idosos nos meios demográficos, do que qualquer outro grupo populacional no país.

A fim de atender às demandas desta população, foram estruturadas nos últimos 30 anos instrumentos legais que garantem proteção social e ampliação de direitos às pessoas idosas, com o propósito de dar voz às vítimas que tiveram e têm seus direitos violados a Política Nacional do Idoso certifica em seu artigo 2°, direitos que garantem oportunidades para a prevenção da saúde física e mental, bem como seu aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social em condições de liberdade e dignidade. Facilitando as necessidades de uma sociedade cada vez mais preocupada com o respeito e a promoção dos direitos fundamentais da pessoa idosa no Brasil.

Asilo Padre Cacique abriga idosos na Capital

Crédito: Cainan Xavier

 

Sem direito de ir e vir na Capital

(Por Osmar Martins)

A sensação de insegurança é constante, e caminha ao lado da população porto alegrense, como se fosse sombra. O fenômeno da violência é tão abrangente, que quase não há como citar este ou aquele bairro, uma zona ou outra. O problema é geral. A mobilidade é afetada desde as simples mudanças de trajeto por medo, passa por contratações de serviço privado buscando segurança, restrições históricas de localidade, até áreas completamente dominadas por facções criminosas. O impacto macro ainda é incalculável, interferindo nos âmbitos social, econômico e psicológico. Somente em 2017, segundo levantamento de dados realizado pela Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP), já foram consumados e registrados, mais de 15 mil ocorrências entre furto e roubo, sendo 7021 furtos e 9552 como roubo.

O aumento da criminalidade nos últimos anos, fez Porto Alegre postular uma das cidades mais perigosas do mundo. Feito este, que nada agrada a população.

Impacto Social do Medo

Em entrevista realizada com Marcella Braga, 21 anos, estudante de medicina veterinária na Uniritter, a jovem conta alguns dos problemas que passa em relação a sua mobilidade na cidade, tanto pela violência por si, quanto pelo fato de ser mulher.

Abordando sobre o tamanho do impacto da violência em sua vida, Marcella diz “Afeta Bastante. Lugares como vilas, por exemplo, são conhecidos por serem violentas, evitamos isso naturalmente, cria esse impedimento, como se fosse um mapa mental, de onde podemos e não ir”, ainda, sobre a questão de ter que arcar com custos para se manter segura, a jovem afirma “Pagaria o dobro, o triplo, o que for, um trajeto pode custar a minha vida”, comenta também sobre a possibilidade que ela tem de pagar, refletindo acerca das pessoas que não tem a opção de contratar algum serviço de transporte e estão submissas a passar diariamente por estas situações.

Conversando sobre o assunto, verificamos com ela se existia algum local que deixava de ir por causa da violência. Marcella, então afirmou que, “De noite, sozinha, eu evito ir em qualquer lugar. Só ando na avenida que moro, jamais entro nas ruas de dentro. Nunca saio da minha zona.”, a estudante ainda salienta que não há outra razão que a impeça de fazer coisas e ir em lugares, senão o medo. Nunca foi falta de vontade, e, no caso dela, às vezes nem de dinheiro. Simplesmente insegurança.

A dimensão da violência vivida na região onde a estudante mora vem crescendo nos últimos anos, ela nos contou sobre um fato triste, mas curioso de seu bairro. Marcella diz que quando tinha 12 anos, brincava em uma rua sem saída não muito distante de sua casa, até quase 22 ou 23h da noite. Voltava sozinha todos os dias e praticamente não pensava nas consequências que isso poderia causar, visto que a criminalidade a 10 anos atrás era muito menor. Conclui afirmando que hoje, com 21 anos, não faz mais este trajeto de maneira alguma. Muito menos durante a noite.

Assim como muitas cidadãs de Porto Alegre, a estudante também sofre com o machismo e teme violência só de cruzar com algum homem na rua. Ao questionarmos a ela, sobre o que pensa ao ver um ou mais rapazes se aproximando, ela diz “Bate um desespero. A primeira coisa que vem em mente é procurar alguém, algum lugar aberto, algo que possa ajudar, caso o pior aconteça.”, ainda completa “Mesmo sabendo que provavelmente vamos ficar paradas e sofrer a violência, o pensamento é a possibilidade de socorro”, confirmando que a violência ataca até quando não há o ato consumado, as vezes o próprio subconsciente cria a situação de perigo, sem ela existir de fato, resultado do constante medo e insegurança que vivemos.

Em relato sobre o que sente ao andar na rua sozinha, Marcella conta “A sensação é de medo e raiva. Porque a gente se submete a alternativas por uma coisa que deveria ser natural,  poder andar nas ruas, sem pensar o que pode acontecer ou que horas são. O Estado deveria nos garantir segurança e o caráter das pessoas também”, a estudante ainda disserta sobre a questão social dos criminosos, que apesar de estarem nessa condição, muitas vezes são vítimas de um sistema falho,  sendo a consequência do problema e não a causa.

Efeitos pós-traumáticos da violência urbana 

Após ter sido assaltada pela manhã, no caminho de sua faculdade, onde foi agredida, Kátia Patuzzi, 44 anos, estudante de direito da PUCRS, conta que os impactos sofridos pelo trauma transcendem o âmbito social, passando pelo também pelo econômico e psicológico. Não só dela, mas de toda a sua família. Falando sobre as mudanças provocadas pelo trauma, Kátia ressalta “Hoje não consigo andar na rua de noite. Se vou na esquina, já fico me cuidando, olhando para os lados o tempo todo. Sofri um abalo psicológico muito forte. Desde o ocorrido, não consigo passar pelo local.”, ainda, sobre a mobilidade que está sendo abalada em sua vida, diz “Hoje vou de kombi e volto de ônibus da faculdade. No curso a noite, vou de ônibus e volto de Uber. Minha filha racha gasolina com as colegas. Todo esse orçamento é em decorrer da violência”, salientando também o impacto econômico causado pelo fenômeno.

A estudante de direito afirma que uma de suas professoras passa a mensagem de que o risco real, diário, é o de tomar um tiro, pois o assalto é praticamente corriqueiro. Ela ainda diz que assim como os trabalhadores saem todos os dias, os assaltantes também. Sobre o fato, Kátia aponta, “Hoje vejo que o perigo não está só na rua, mas também dentro dos meios de transporte. O medo está tomando conta, se você não foi assaltado ou alguém da sua família não foi, serão”, completando, enfatiza a questão de a violência ser ainda maior com pessoas do sexo feminino, “Acredito que as mulheres sejam muito mais afetadas do que os homens, pois eles partem do pressuposto de que elas não irão reagir”, evidenciando o fato de que o machismo está novamente presente nos “fundamentos” de nossa sociedade. De fato, homens se aproveitam da suposta fragilidade feminina, para abordarem alvos, teoricamente a mercê do crime.

Impacto Psicológico da violência

Para dimensionar com maior precisão o impacto psicológico provocado pela demasiada violência nas ruas de Porto Alegre, entrevistamos Iolaine Lagranha, formada em psicologia, ela é dona do Espaço ReConhecer, centro de valorização do indivíduo, localizado em Canoas. Conversamos com ela sobre o quê pode provocar a incidência deste fenômeno de andar na rua com medo, pânico, insegurança, entre outros sentimentos e sensações. Iolaine foi clara ao afirmar “A rotina do medo tem se tornado cada vez mais presente. Isso aumenta a demanda de tratamento para transtornos de pânico ou ansiedade generalizada, decorrente do estresse diário ou pós-traumático, podendo gerar diversas reações, dependendo do indivíduo”, avalia a psicóloga, observando que cada pessoa tem a sua resistência psicológica, podendo variar o impacto causado pela violência ou por traumas, de indivíduo para indivíduo.

Partindo dos relatos das mulheres entrevistadas nesta reportagem, onde assumem sentir medo, praticamente ao avistar um homem andando nas ruas, perguntamos a Iolaine se a incidência histórica de repressão do homem pela mulher, poderia causar, inconscientemente, uma associação entre a figura masculina e o temor, “Acredito que possa acontecer em gerações anteriores, hoje vejo que na medida em que a mulher toma seu espaço e direitos, elas se tornam mais seguras, não necessariamente associando o homem a figura de perigo”, completa apontando que a questão é muito complexa, pois apesar de ser um fenômeno atual, ele ainda permeia muitos contextos históricos do passado.

A visão da Polícia Civil sobre o problema

Com a finalidade de tentar mapear os pontos de maior incidência criminal em Porto Alegre e mapear os locais onde a mobilidade é mais ou menos afetada pela violência, buscamos o contato da Polícia Civil, pedindo a eles dados como mancha criminal e zonas de calor de violência, porém, recebemos a resposta de que esses dados não existiam. Em entrevista realizada com Eduardo Hartz, Diretor Regional de todas as delegacias distritais da Polícia Civil, o mesmo afirmou que sim, os dados existem, no entanto, são de acesso interno exclusivo, gerados pelo seu comitê de inteligência, para subsidiar as ações de planejamento da corporação.

Falando sobre a situação dos bairros como Restinga e outros, onde há conflito por zonas de domínio de facções criminosas, Hartz diz “Nós temos o mapeamento dessas facções e de suas lideranças. É importante ressaltar que hoje não há nenhum líder em liberdade. Todos são reconhecidos e identificados por nós ”, completa, informando que as prisões estão sendo realizadas, porém o coletivo criminoso renova os seus membros, de tempos em tempos, em um processo natural, já corriqueiro para os agentes da Polícia Civil.

Ainda sobre o tema dos grupos criminosos, abordamos com ele, o que indica a continuidade deste fenômeno, o  porque não conseguimos erradicar isto, invés de apenas tapar buracos. Hartz explica que não podemos diminuir o tema somente a um contexto policial. “Essa seria a última razão a ser utilizada, depois de todos os outros meios terem falhado, diz o Diretor, atribuiu também, possivelmente o contexto criminal, á uma falta macro da presença efetiva do Estado, em termos de educação, saúde, habitação, etc. Hartz diz que não acha que a situação social do indivíduo justifique o crime cometido, mas talvez explique, pois a criminalidade é a consequência de um problema maior de sociedade e não a causa.

Com o crescimento dos índices criminais de Porto Alegre nos últimos anos, onde, somente em 2017, foram registrados 503 homicídios e 3.317 roubos a veículo, segundo dados dispostos pela assessoria da Polícia Civil da capital. Abordamos com ele as possíveis mudanças estratégicas da corporação a partir da análise destes dados. Hartz afirma que hoje a Polícia Civil busca dar mais atenção a casos organizados, tenta investigar o mandante do crime, não o atuante, investigando quadrilhas e crimes com maior atuação coletiva. A Polícia Militar é quem é responsável pelo policiamento das ruas, pela atuação direta na repressão ao agressor, na qual buscamos o contato e não obtivemos resposta.

Abordando sobre o foco principal das operações, se seriam em erradicar os crimes patrimoniais ou o tráfico de drogas, Hartz diz “O roubo, apesar de gerar mortes, principalmente para inocentes, é a partir de um ato reflexivo. O tráfico utiliza da violência como instrumento de ação, com tomadas de ponto, assassinatos cruéis para servir de exemplo, decapitações, etc. Portanto, há maior enfoque onde há mais violência”, completa o Diretor, informando também, que hoje a Polícia Civil atua com poucos efetivos. Há 30 anos atrás, quando o estado tinha cerca de sete milhões de habitantes, quase metade do que temos hoje, trabalhavam com mais homens do que atualmente. O que dificulta ainda mais ação dos agentes. Além problema de superlotação do sistema carcerário, que segundo Hartz, não consegue cumprir a sua função dúbia, de não só punir o apenado, mas também ressocializá-lo, para que volte para a sociedade com condições.

Por último, falamos com Diretor sobre o famoso fenômeno do “prende-solta”, onde o suspeito é preso, ás vezes até mesmo em flagrante e depois de alguns dias, ele é liberado pela justiça. O diretor afirma que há uma série de análises subjetivas feitas pelo juiz, com o amparo da lei, para delegar ou não a prisão ao indivíduo. E que nestas análises, acredita ele, entram diversos fatores, como a comparação entre o crime cometido e a pena a ser dada nas condições atuais e indignas de nosso presídio, a incidência do crime, o perigo que o apenado representa ou não a sociedade, entre outros. Hartz diz também que acredita que seja difícil de separar essas questões do julgamento, esquecer estas informações na hora de definir o destino de pessoas é complicado, pois realmente os agravantes da superlotação e condições estruturais do presídio, são difíceis de passarem despercebidos.

Para onde pode caminhar Porto Alegre?

A violência é um fenômeno extremamente amplo e que afeta diversos fatores em nossas vidas, entre eles, a mobilidade, e consequentemente, pela complexidade do problema, é também a sua solução. A criminalidade fere diferentes âmbitos da sociedade, assim como é consequência de muitos deles. Existem motivos sociais, econômicos e psicológicos que geram, lucram e repreendem seus atuantes. Se quisermos acabar com isso de fato, teremos que mudar como sociedade, culturalmente, com educação, estrutura e reformulação. Como dito no início deste texto, é um problema geral, de toda a sociedade gaúcha.

 

Confira trechos da entrevista de delegado à reportagem

Foto: Kátia foi espancada em assalto a caminho da faculdade. Fonte: arquivo pessoal

 

 

O silencioso grito pelo direito de (sobre)viver

(Por Matheus Closs)

Passava das 21 horas do dia 18 de março deste ano. Rodrigo da Silva Veloso, também conhecido como Pelezinho, se posicionava em uma sinaleira próxima a usina do gasômetro. Feliz com a vitória do Internacional, que acabara de bater o São Paulo de Rio Grande, não titubeou ao vestir sua camisa vermelha para trabalhar. Rodrigo vendia jornal. Ao oferecer o jornal a um ônibus de linha que passava no local, teve um exemplar roubado. Rodrigo seguiu vendendo. Pelo menos até outro ônibus passar. Desta vez, um ônibus de torcedores, que repetiu o ato do primeiro. Rodrigo enfureceu-se e atirou uma pequena pedra no veículo. Mesmo sem estragos o ônibus parou, e com ele, um grande número de torcedores portando pedaços de madeira correram em direção ao vendedor de jornal. Rodrigo foi brutalmente espancado e, após uma semana em coma no hospital, morreu. Rodrigo morava nas ruas.

O assassinato de Pelezinho, presenciado por testemunhas e registrado em câmeras de segurança, não ganhou manchetes em grandes veículos, tampouco foi lamentado pela sociedade. O morador de rua em Porto Alegre vive esquecido entre o sucateamento dos serviços de assistência social e a banalidade da situação em que se encontra.

Nos últimos 5 anos, a população de rua em Porto Alegre aumentou em 56%, segundo estudo quanti-qualitativo de 2016 realizado através do Contrato entre Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC) e UFRGS. São 2.115 adultos em situação de rua – embora o Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) afirme que são entre 5 mil e 6 mil. Números altos que passam longe de serem devidamente assistidos.

Durante o dia, a Capital dispõe do Serviço Especializado de Atendimento à População Adulta em Situação de rua – ou CentroPop, com 60 metas de atendimento divididas entre manhã e tarde. Seguindo o Plano Plurianual de Assistência Social de 2014-2017 da FASC, em 2013 foi aberto um segundo CentroPop com 160 metas por dia, com prioridade para a terceira idade, mulheres e deficientes. São apenas cerca de 10% dos moradores de rua alcançados diariamente por estes serviços.

À noite, Porto Alegre conta com cerca de 350 vagas permanentes em três abrigos – um municipal e dois conveniados – e ainda há a possibilidade de abertura de 90 vagas para o inverno, segundo a FASC. Adotando o número levantado pela Fundação – cerca de 2 mil moradores de rua – aproximadamente 80% da população não conseguiria abrigo no inverno.

Os problemas no atendimento aos moradores de rua não são apontados somente por eles. Veridiana Machado, educadora social da FASC há 15 anos, reclama da falta de recursos básicos como papel higiênico e produtos de lavanderia. Segundo ela, além da precarização dos serviços, não há recursos financeiros suficientes, impossibilitando a oferta de vale-transporte e vale-refeição para a população de rua. Até postos importantes como vigilantes e porteiros estão escassos. “Trabalhadores terceirizados estão sempre com salários atrasados, agora sumiram do nosso local de trabalho porque não estão recebendo”, diz.

Ainda que as vagas fossem suficientes, o serviço prestado não atrai os moradores. De acordo com o estudo da FASC, dos 328 moradores de rua que responderam o porquê de não frequentarem os albergues e abrigos, 21,2% alegaram a rigidez das regras, enquanto 15,6% apontaram a forma de tratamento dos administradores e a hostilidade interna – como casos de roubo e racismo. Procurada, a FASC não se pronunciou sobre a situação.

Mortes na Capital

A população de rua não é apenas violentada pela falta de políticas públicas, nos primeiros cinco meses de 2017, além de Pelezinho, são pelo menos outros seis assassinatos. No caso de Pelezinho, as imagens do local que poderiam ajudar na identificação do ônibus, não foram divulgadas. O Diretor da Divisão de Homicídios da Polícia Civil, delegado Paulo Grillo, explica que cada caso recebe uma estratégia diferente de investigação, independentemente do perfil da vítima.

Dos sete homicídios, pelo menos quatro possuem fortes suspeitas de que a motivação seja o envolvimento com o tráfico de drogas, o que demonstra a vulnerabilidade da população frente ao consumo de entorpecentes. O estudo quanti-qualitativo da FASC ainda aponta que 24% dos moradores de rua que participaram da pesquisa afirmaram serem usuários de drogas.

Outro aspecto comum, porém, aos sete assassinatos: todas essas vítimas tiveram seus perfis limitados a condição de moradores de rua. “Quando um menino de classe média é assassinado se fala nos sonhos, onde ele estudava, na dor dos pais. Mas quando morre um morador de rua, é simplesmente um morador de rua. Como se todos fossem drogados, bandidos”, diz Rosina Campos, uma das fundadoras da Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação (ALICE), responsável pela produção do jornal Boca de Rua.

A intolerância frente à essa população também é replicada pela sociedade civil. Por terem outra dinâmica de vida, que foge da nossa realidade capitalista, são alvos fadados ao preconceito. “Julgam (os moradores) pelo perfil, pelos padrões de beleza. Eles se negam a viver no mundo do jeito que ele é”, analisa Veridiana.

Boca de Rua e resistência

Há 16 anos nascia um jornal em Porto Alegre produzido por moradores de rua. Desenvolvido pela ALICE, o Boca de Rua surge como instrumento de voz e de trabalho, com reportagens e matérias produzidas inteiramente pela população das ruas com auxílio de voluntários. Em todas as edições – trimestrais – é realizada uma reunião de pauta na Escola Porto Alegre (EPA), lugar que atualmente abriga o projeto. A partir das sugestões deles são definidas as pautas e posteriormente a temática da edição. Após a organização em pequenos grupos, feita pelos próprios moradores de rua, as matérias são construídas. Após impresso, todas às terças-feiras eles voltam a se reunir na EPA e cada um dos 35 moradores que hoje constroem o Boca, retiram sua cota de jornais a serem vendidos.

O jornal que Pelezinho vendia no momento que sentenciaria sua morte era o Boca de Rua. Enquanto exercia sua profissão, Pelezinho não imaginava que seria motivo de matéria na edição seguinte. Colega de Rodrigo no jornal, Edson José Souza Campos, 32 anos, foi uma das primeiras pessoas a socorrê-lo e, assim como Pelezinho, também sente na pele a violência como impedimento para exercer sua liberdade “A gente está sendo espancado, não podendo mais ficar nas praças. Tu vive na rua e não pode ficar sentado numa praça? Os que tem que dar segurança para nós, são os que estão espancando a gente”, diz.

Os recorrentes casos de violência que, segundo Edson “aumentaram muito em 2017”, são notados em alguns pontos da cidade. Barracos queimados deixaram manchas nas paredes em locais como no bairro Partenon. A presença de moradores de rua em parques como o da Redenção tem sido “evitada” pela Brigada Militar, que frequentemente os expulsam destes locais com certa hostilidade. Este cenário impulsionou a união do Boca de Rua com o MNPR para que a voz dessa população ganhasse, ao menos, um espaço de debate perante à sociedade. A edição trimestral de abril, maio e junho do Boca de Rua “Luto e Luta” serviu como relatório em reunião na Assembleia Legislativa. A partir dela, os deputados da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos votaram a favor da realização de audiência pública, ocorrida em 24 de maio.

O problema é dos moradores de rua, mas não somente deles. É preciso compreender estes, como cidadãos iguais a qualquer outro, com os mesmos direitos e deveres. “Eles são parte da sociedade simplesmente. O problema é transformá-los em um problema, assim como o prefeito de Porto Alegre que quer tirá-los das ruas compulsoriamente” diz Ivaldo Gehlen, professor do Departamento de Sociologia da UFRGS.

Os motivos que levam pessoas a viverem nas ruas passam em sua maioria – de acordo com a pesquisa da UFRGS/FASC – pelo uso de drogas/alcoolismo, problemas com a família e desemprego. Para evitar o aumento dessa população, o município deveria agir nestas áreas. Para os que já estão nas ruas, não existem políticas de médio e longo prazo para retirá-los dessa condição.

Apesar do alcance pequeno, não suficiente para atender parte majoritária da população de rua, o Boca de Rua serve ao menos de exemplo como projeto que convida os moradores de rua a voltar ao convívio social e a resgatar sua autoimagem. “O Boca levanta até a autoestima do cara, a gente conhece e conversa com muita gente, com médicos, estudantes. Não é algo que nos deixa perdido”, conta Fábio Rodrigues, 40 anos – há quase 10 anos vivendo nas ruas e participando do jornal.

Não há fórmula para acabar com a violência. Mas quando se trata de uma minoria devemos partir da superação do preconceito. “A solução é que eles sejam tratados como todos nós somos, isso diminuiria a discriminação – e a violência”, analisa Gehlen. As discussões não podem permanecer apenas em gabinetes. É preciso ouvir a população de rua.

Foto: Matheus Closs

 

A visão do professor na educação inclusiva

(Por: Patrick Julian)

Com o decorrer de cada ano, escolas regulares tendem a aumentar o número de pessoas com necessidade especiais em sala de aula. Entre 2005 e 2015, alunos com deficiência no Brasil passou de 114.834 para 750.983, de acordo com o Censo Escolar do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). Em 2016, o aumento de estudantes com transtornos globais de desenvolvimento e deficiência passou de 930.683 em colégios e no EJA (Educação de Jovens e Adultos).

Com um conceito de integração, a Lei Brasileira de Inclusão ( Lei 13.146/2015), reforças discussões para um convívio social adequado para os portadores de deficiência. O regulamento que entrou em vigor em dois de janeiro de 2016, regido pelo Senador Paulo Paim (PT-RS), tem um olhar para as atitudes discriminatórias e também com as mudanças nas áreas da educação.

O professor.

O amor por transformar vidas com a educação, acaba sendo uma das motivações de boa parte de professores tanto em redes públicas como privadas. Trabalhar com inclusão em escolas municipais e estaduais, se torna uma dificuldade por existir poucos retornos vindo do âmbito do governo. Não basta ter a melhor infraestrutura, os melhores jogos pedagógicos, se o número de matriculados aumenta em salas de aulas, e a formação contínua de cada professor, para atender cada necessidade específica de cada aluno, não é melhorada.

A pedagoga, formada na FAPA (Faculdades Porto-Alegrenses), Krisle Ferreira trabalha há 12 anos como educadora, que atuou em escolas e hoje é professora no  Centro de Integração Empresa – Escola (CIEE), afirma que a maior dificuldade para lidar com inclusão foi encontrar uma boa estrutura física e uma gestão preparada para receber alunos com necessidade especiais. “Espero que seja investido na qualificação dos profissionais que já estão em sala de aula, e que todos consigam enxergar que a educação inclusiva é para haver uma inclusão não uma exclusão por falta de professores capacitados”.

A Escola Estadual de 2º Grau José Feijó, atende por turno mais de 150 alunos e geralmente tem em torno um portador de necessidade especiais. Com uma abordagem de melhorar o ensino de inclusão para os estudantes, com matérias pedagógicos e uma infraestrutura regular perante o âmbito escolar inclusivo e com poucas verbas disponibilizada pelo estado. O Serviço de Orientação Educacional, lidera pela professora concursada Nara S. Rodrigues, concursada pelo o estado e tem mais de 30 anos como educadora, informa que o SOE tem como subsídio de acolher o aprendiz e direcionar os familiares para um acompanhamento fora de aula.

“O aluno de inclusão é prejudicado por não ter um atendimento especializado, e muitos precisariam de um atendimento multidisciplinar, seria muito importante” afirma coordenação do serviço educacional da escola. Os colégios estaduais do segundo grau, necessitam de aparam para o desenvolvimento pedagógico de novos matriculados. Procurado o secretário de educação estadual, Ronald Krummenauer, para conversar sobre o ensino básico da inclusão no estado, mas não tivemos respostas.

A realidade da inclusão.

A visibilidade para casos que se tornam “invisíveis” pela sociedade, tornasse um meio de qualificação e desenvolvimento moral para cada indivíduo e seus direitos humanos. Apesar de Porto Alegre ser uma das pioneiras em projetos pedagógicos de inclusão, as condições educacionais se mantem desiguais tanto quanto ao professor e os matriculados. Por haver 98 escolas municipais que atendem mais de 2.500 mil portadores de necessidades especiais, conforme os dados da Secretária Municipal de Educação (SMED), o número é desproporcional por conter poucos professores que não são especializados em cada necessidade educacional. Uma qualificação profissional de educadores e uma infraestrutura eficaz para cada instituição, tornasse um benefício de inclusão e igualdade as crianças com deficiência.

A capital é referência em inclusao nos ensinos fundamentais. O municipio disponibiliza salas pedagogica para atender alunos nas redes publicas, com a orientação de um educador formado para responder as necessidade de cada estudante. Muitos desses profissionais tiveram que fazer uma Pós Graduação, Mestrado ou Doutorado para exercer as atividades nesses espaços. O orgão que é respovel pelas Salas de Integração e Recursos (SIR)  é coordenada pela Assessoria pedagogica da SMED .

“Eu sei os professores reclamam um pouco dessa assessoria, mas as vezes as coisas param né, um pouco se reorganiza e depois continua de novo.” – Cristina Lac, coordenação de comunicação do SMED.

A Escola Municipal Grande Oriente do Rio Grande do Sul, localizada na Zona Norte do município, tem espaço apropriado para o atendimento das necessidades dos alunos com deficiência. A Sala de Integração e Recursos, tem uma proposta de melhora do desenvolvimento de integração interpessoal dos alunos com dificuldades pedagógicas. O SIR no Grande Oriente, possui 25 alunos sendo auxiliados a cada duas vezes por semana no turno inverso de aula. Para atuar com inclusão em escolas, é preciso ser capacitado com um curso superior em atender as necessidade de cada deficiência.

Toda relação do aluno com o orientador acaba se tornando uma forma de participação no cotidiano da vida e das relações familiares, fazendo com que o espaço oferecido pelo município, traga uma grande evolução na aprendizagem para a criança. “Geralmente alguns pais, acabam desmotivando seus filhos, todo nossos trabalho dado por nos acaba sendo em vão quando ocorre isso”, afirma Luisa (nome fictício) educadora que trabalha no SIR.

Com a nova reforma na educação municipal, a prefeitura tem um enfoque no avanço do ensino dos estudantes. Com novas rotinas escolares, a aprendizagem de alunos será o foco do novo gerenciamento de Nelson Marchezan prefeito de Porto Alegre. O secretário municipal da Educação, Adriano Naves de Brito, junto com a prefeitura tem como proposta quatro horas diárias das oito horas da manhã até o meio dia, assim o educador ficara mais tempo acompanhando o aluno.

Na escola Grande Oriente que atende mais de 200 alunos por turno, as refeições são divididas por serie, assim explica a instrutora da sala de integração “os alunos do primário vão um pouco antes para a refeição para quando bater o sinal os maiores irem no intervalo, assim, quando o aluno termina o ano ele está com uma fisionomia diferente quando começa as aulas. Pelo falo de que não se alimentou direito, encurtando o horário de alimentação, a escola não conseguira colocar todos alunos num pequeno refeitório”.

Questionada se a prefeitura ouviu o lado dos professores com a nova proposta de educação para os municípios, a jornalista Carla Luc, responde: “tem que cumprir a lei de estágio de educação (…) a educação tem que ter o direito de quatro horas em sala de aula, e isso não vem acontecendo e o período de alimentação estava contada como hora aula. E esse tempo era descontado como uma folga semanal”. O Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul e a Assessoria Pedagógica do SMED foi procurado e não obtemos respostas.

A escola tornasse a segunda casa para muitos alunos, de onde se formam cidades capacitados para um convívio intelectual na sociedade. O sistema político é a base e a imagem de uma cidade, uma gestão adequada amenizaria falta de inclusão de alunos e professores no âmbito educacional. Os dois lados da educação deveriam ser ouvidos e atendidos, tanto a parte dos educadores, diretores e familiares e não construir uma nova reforma escolar com o olhar só do governo.

Fonte: MEC

Cinco grupos controlam a Capital

(Por Ulisses Miranda)

O Presídio Central tem oficialmente, desde o dia 13 de janeiro deste ano, um novo – e desconhecido – nome: Cadeia Pública de Porto Alegre. Os problemas, no entanto, são velhos e bastante conhecidos. O primeiro e mais lembrado deles é a superlotação. O local disponibiliza 1.824 vagas, mas a lotação, ultrapassa regularmente os 4.600 presos (4.670 em maio de 2017). Em alguns dias a CPPA chega há abrigar 5 mil pessoas. O número faz com que, por exemplo, os apenados fiquem “livres” das celas. O cárcere se resume aos grandes corredores que formam as galerias – como são chamados os andares de cada pavilhão. O segundo problema é o domínio por parte das organizações criminosas, tanto no presídio quanto nos bairros da Capital.

“Começou a haver uma interligação entre uma região da cidade e uma galeria, de maneira que quem manda naquela região manda naquela galeria e vice-versa”, afirma o Juiz da Vara de Execuções Criminais de Porto Alegre, Sidinei Brzuska. Essa correlação, segundo o magistrado, teve início com criminosos ligados ao tráfico na Vila Conceição. A polícia prendia os envolvidos dessa região e os colocava na mesma galeria do Central – por não conseguir prover a segurança de todos, caso fosse “misturá-los”. Atualmente, essa situação é comum a todas as facções.

Formada em Direito, Ciências Sociais e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUCRS, Marcelli Cipriani aponta em seu estudo que 35 bairros da Capital estão sob domínio de uma ou mais facções. Somadas, as populações destes logradouros correspondem a pouco mais da metade da população total de Porto Alegre: são mais de 790 mil cidadãos vivendo em áreas dominadas pelo tráfico, dentre os cerca de 1 milhão e 400 mil residentes na cidade.

Como evidenciam os números, a Capital está dividida – e, claro, em constante disputa. Mas só há “desorganização criminosa” do lado de fora. Dentro do Central há a seguinte disposição: quatro (A, B, D e F) dos nove pavilhões estão sob domínio de algum grupo. Em dez das onze galerias – divididas entre os quatro pavilhões anteriormente citados – há presença de facções. Nos pavilhões E, G, H, I e J na teoria, estão os presos sem nenhum tipo de ligação com elas. Enquanto o primeiro abriga dependentes químicos, ex-policiais e presos com ensino superior, no segundo, o G, ficam os chamados trabalhadores (que prestam algum tipo de serviço dentro do aprisionamento) e os evangélicos. No pavilhão H estão autores de crimes sexuais, gays e travestis. No I, estão incursos da Lei Maria da Penha e no último, o J, estão os presos em trânsito. “O tamanho das facções dá-se pelo tamanho da área mais externa de domínio do que interna, mas são interligados”, continua Brzuska.

Essa divisão, aliás, é apontada por integrantes da sociedade como um erro administrativo. Desde que a gestão do então Presídio Central passou das mãos da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) para as da Brigada Militar (BM), em 1995, a forma de lidar com a massa carcerária também mudou. Na tentativa de amenizar anos marcados por mortes, motins, fugas e tentativas de fugas, a BM abriu diálogo com os presos. Entre as tratativas, se percebeu a necessidade de separar aqueles apenados com algum tipo de desavença. Aos poucos, as galerias foram formadas conforme as “afinidades”. A BM conseguiu, enfim, controlar a situação que era violenta, embora não seja o estado o responsável por manter os presos seguros. “Quem assegura a integridade física do preso é a facção, portanto, se você quer desmanchar a facção, você precisa assegurar a integridade física do preso”, provoca o juiz Brzuska.

Mas não é só isso: há outro déficit no que se refere aos serviços prestados pelo Estado. Mesmo que o artigo 12 da Lei de Execuções Penais determine que “a assistência material ao preso e ao internado consistirá no fornecimento de alimentação, vestuário e instalações higiênicas”, o governo estadual, que oficialmente é o responsável pela unidade, fornece apenas energia elétrica, água e alimentação básica para os presos. Por isso, em dias de visitas, familiares e amigos dos presos levam roupas, calçado, colchões, sabonete e toda uma série de produtos que são, por lei, de obrigação do Estado prover.

Esse “modelo de gestão” é amplamente discutido – e criticado. Em janeiro de 2013, entidades que compõem o Fórum da Questão Penitenciária denunciaram à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) a grave situação do presídio. Em dezembro do mesmo ano, através da Resolução 14/2013, a CIDH aconselhou o Brasil a adotar providências diante da “grave situação” por aqui. A recomendação era de que o governo não deixasse por conta dos próprios presos funções disciplinares e o controle de segurança dentro do presídio. A violência dentro do Central apenas se extingue à medida que as facções, após cada confusão, percebem o tamanho do prejuízo aos “negócios”. Visitas são perdidas e revistas se tornam mais constantes.

Em conseguinte, o artigo 13 da LEP outorga que sejam criados “locais destinados à venda de produtos e objetos permitidos e não fornecidos pela Administração”. Esse cenário possibilitou a criação de um mercado vantajoso para as facções dentro do presídio. Com variedade de produtos (que vai de higiene a lanches), esse comércio alimenta a criação de dívidas que, uma vez acumuladas durante a pena, são pagas nas ruas. O cenário do presídio se mantém organizado, sob a ótica do crime. As ruas da Capital, no entanto, vivem em intensa desorganização. Nos primeiros 15 dias de 2017, Porto Alegre teve aumento de 18,4% nos homicídios, sendo que a maior parte dos crimes foi na Zona Norte, onde facções disputam poder. O Atlas da Violência 2017, feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública coloca a capital gaúcha na 99ª posição entre os municípios mais violentos. Dada a abrangência atual dos grupos criminosos pode-se traçar um paralelo com três cidades que fazem parte da Região Metropolitana e também aparecem no estudo: Alvorada (12ª), Viamão (32ª) e Canoas (89ª).

Essas são algumas das falhas que contribuem para a expansão das facções em Porto Alegre. Onde o Estado se ausenta, as facções entram. Os apenados que não recebem ajuda de fora, recebem lá dentro e, automaticamente, começam a fazer parte de determinado grupo. A BM prende o pequeno traficante e o presídio superlota. A população aplaude, mas a violência não diminui. As facções agradecem e cooptam.

Um estupro a cada 11 minutos

(Por Andreza Ferraz)

Débora se lembra de cinco estupros. Desde os oito anos, ela sofre o abandono da família, Estado, amigos e colegas. O seu caso não é raro. Segundo as estatísticas recolhidas pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), a cada 11 minutos uma mulher é estuprada neste país. São 130 mulheres estupradas todos os dias. Esses são dados subnotificados, porque as pesquisas mostram que apenas 10% das mulheres violentadas e estupradas têm coragem de denunciar. Outro dado: apenas 35% das mulheres que apanham dos seus companheiros têm coragem de delatar. E os números não param por aí: 70% dessas vítimas de estupro são crianças e adolescentes, mais de 80% do sexo feminino. Mulheres de diferentes classes e raças são violentadas, embora as negras sejam as principais vítimas letais. A música ‘’Maria, Maria’’ de Milton Nascimento, que em um trecho diz: ‘’De uma gente que ri, quando deve chorar, e não vive, apenas aguenta’’, traduz a história de vida de Débora. Aos oito anos, a menina foi morar sozinha nas ruas do centro de Porto Alegre por um motivo comum quando ocorre abuso sexual dentro de casa: sua mãe não acreditou que o seu companheiro abusava da filha. Então a expulsou de casa. De lá para cá, Débora foi vítima de estupro por mais quatro vezes durante toda a sua vida. O último foi aos dezenove anos quando aceitou uma carona de moto. Com quinze anos descobriu que era portadora de HIV, por conta dos abusos sofridos, pois não havia nascido com a doença. Mesmo sendo muito nova, a vítima tinha consciência de que ser tocada por um homem mais velho estava errado. Ela não entendia o motivo para ele estar fazendo aquilo com ela. Milhares de mulheres não denunciam os seus agressores por medo. Esse é o sentimento que acompanha as vítimas dia e noite, sem parar. Por se sentirem envergonhadas, culpadas e muito abaladas psicologicamente, elas acabam não prestando queixa na polícia. Em 2012, foram 1.437 casos de estupro no Rio Grande do Sul, segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP). Em 2013, foram 1.424 casos; em 2014, foram 1.373; em 2015, foram 1.432; em 2016, foram 1.472; e durante janeiro, fevereiro e março de 2017, foram 341 casos de estupros registrados em delegacias. No seu cotidiano era possível enxergar, naturalmente, o lado indesejável da vida. Sua casa era cercada de pessoas desconhecidas, drogas e mortes. Não era necessário abrir a porta de casa para ser vítima desse ciclo que cerca a sociedade. A mãe de Débora já havia sido abusada durante sua infância, e anos depois, sua filha passou pelo mesmo trauma. Mas Débora não atribui esses fatos a alguma falta de cuidado ou irresponsabilidade da sua base familiar. Acha que foi azar do destino, infelicidade. A assistente social Larissa Ferreira, atualmente funcionária educadora social num Abrigo Residencial, fala sobre a sua experiência em trabalhar no Hospital de Clínicas de Porto Alegre no setor de Violência sexual contra Criança e Adolescente. Para a assistente social, geralmente, ou quase sempre, as famílias não conseguem cuidar das vítimas e acabam expondo-as para a situação mais grave, o abuso sexual. A violência sexual é cometida por pessoas próximas às crianças e adolescentes. Depois de ter passado por tantas experiências ruins, Débora se entregou às drogas. Começou a usar crack para fugir dos problemas que a cercavam 24h por dia. Vendeu os móveis da casa, brigava com os familiares, não conseguia cuidar dos filhos, passou fome e não aguentava a sequência de tratamentos em hospitais. Por último, ficou hospitalizada no Hospital Mãe de Deus por 28 dias. Hoje, com 28 anos, Débora é mãe de quatro filhos. Está saudável e esperançosa. Dois filhos moram com famílias diferentes e os outros dois vivem com ela. Confira trechos da entrevista de Débora à reportagem.

“É por nada que as coisas estão acontecendo hoje em dia”, desabafa vítima

Unipautas – Se acontecesse hoje, tu denunciarias na delegacia da mulher?

Débora – Sim. Hoje existe muita coisa, hoje é diferente. Eu assisto muita televisão, presto bem mais atenção nas coisas. Hoje talvez eu arrancasse o cabelo do estuprador para ter uma chance de fazer DNA. Arranharia, para pelo menos ter uma chance de saber quem é a pessoa. Hoje eu também conversaria com ele. Pediria para não me matar, porque eu tenho família, e para usar camisinha, porque eu tenho medo.

Unipautas – Desde o primeiro abuso, até o último, o que mudou na tua vida? Qual foi a experiência adquirida com este trauma?

Débora – Eu me tornei uma pessoa melhor. Eu não sou uma pessoa ruim, eu não sou uma pessoa má, mas poderia ser. Se precisar tirar a roupa do corpo para ajudar alguém, eu tiro. Todo mundo gosta de mim, mas eu não me misturo com ninguém porque tenho medo. Eu só vou a festas com o meu marido, porque tenho medo de alguém fazer alguma coisa contra mim. Eu só não quis ter a vida que a minha mãe levou… Eu fui tentar levar a vida que ela levou, a vida do lado ruim, mas consegui reverter para o lado do bem.

Unipautas – O que tu deseja para os estupradores?

Débora – Eu queria que existisse pena de morte. Às vezes, o juiz não tem certeza se ele cometeu o crime, libera e ele faz de novo. Mas ninguém sabe a dor que a pessoa está passando e a família. Se um dia a minha filha me contar que algo de errado aconteceu com ela, eu vou acreditar nela. Diferente da minha mãe, que não acreditou em mim. Se depender de mim, a pessoa vai presa.

Unipautas – Hoje tendo filhos, o cuidado é redobrado para que esse ciclo de traumas não se repita na sua família?

Débora – Claro. Eu morro de medo que façam alguma coisa para a minha filha, e protejo ela demais. Quando ela crescer, de repente possa achar que eu a sufoquei demais, mas vai entender quando eu explicar como a vida funciona. Quando o meu filho for ter a primeira relação, eu vou dizer para ele usar camisinha, para não ter a mesma doença que a mãe dele tem. Eu não quero que os meus filhos passem o que eu passei.

Unipautas – Se tu pudesses deixar uma mensagem de alerta para as pessoas que vão ler essa entrevista, qual seria?

Débora – Tomar cuidado pelas ruas, não andar pela escuridão. Esse negócio de internet… Não marcar encontro com ninguém. Não tenho muito o que dizer, porque, às vezes nem dá tempo de nada. É por nada que as coisas estão acontecendo hoje em dia.

Unipautas – Qual é a vida que tu desejas seguir daqui pra frente? Objetivos, sonhos, amor, família.

Débora – O meu sonho já vai ser realizado daqui a pouco: é que o meu marido saia da cadeia, e que eu não use mais drogas. O meu objetivo é conquistar tudo que eu perdi há um mês (bens materiais e dignidade). Dar o melhor que eu puder para os meus filhos, ajudar o meu irmão, meu pai.

 

A violência contra as mulheres nos espaços públicos

(Por Brunna Oliveira)

Por que mudar suas roupas para sair? Por que trocar sua rotina diária, como pegar um ônibus em um determinado local e horário para poder se sentir segura? Quando um bom dia ou boa noite se tornou um convite para homens? Por que as mulheres ainda precisam aceitar como um “elogio” cantadas intimidadoras e desconfortáveis? Como ainda vivemos em uma sociedade machista que entende como normais atitudes como estas? Esses são alguns questionamentos que a grande maioria das mulheres, se não todas, já parou mesmo que por um breve momento, para tentar entender.

Diariamente, as delegacias da mulher do Rio Grande do Sul (DEAM’s) recebem denúncias sobre alguma violência de gênero. Em média 4 mulheres são estupradas por dia, sendo 63 casos de lesão corporal e 109 denúncias a respeito de ameaças, conforme dados da Secretaria de Segurança Pública. Este é um problema que atinge as mulheres em diversos cantos do Rio Grande do Sul e mesmo assim os dados são bastante escassos. Quando se trata da violência nos espaços públicos, esses dados são silenciosos e muitas vezes não são nem denunciados, pois julgam não ser “grave o suficiente”, ou acreditam que o Estado irá se omitir perante suas denúncias.

Tatiane, 26 anos, estudante de história da arte, recordou alguns episódios de abuso dentro dos ônibus. Ela comentou que nunca havia sentido essa insegurança tão evidente, que surgiu há alguns anos. A vítima, que já sofreu mais dois assédios no transporte público, recorda a circunstância mais impactante pela qual já passou. Quando estava sentada na janela do ônibus, aproveitando o pouco tempo que tinha para dormir, já que a sua rotina era um tanto árdua com a faculdade, pegou no sono.

“Eu coloquei em dúvida o que eu estava vendo. Eu coloquei em dúvida o que tinha acontecido. Isso é bastante dessa construção social de desacreditar a palavra da mulher”, relata.

No momento em que acordou, sentada no banco próximo à janela do ônibus, lembra de acordar e se arrumar, tentando se localizar. Olhou para baixo, estava vestida com uma saia e o indivíduo que sentava ao seu lado, já havia colocado a mão em sua perna. Ela comentou não acreditar no que estava vendo. “Uma vez que o medo é tão evidente, ele se torna presente em todo o lugar” acrescentou a vítima. Sem reação, ela comenta que seu principal receio era do que uma pessoa daquelas seria capaz de fazer caso ela tentasse sair dali ou falar algo. Todos esses episódios aconteceram dentro do transporte público, um lugar que têm outras pessoas, mas que ninguém tem coragem de falar algo, porque normalmente as pessoas têm medo de atitudes como essas.

As delegacias estão recebendo com o passar do tempo, maior número de denúncias sobre a violência nos espaços públicos. Conforme informações da delegada Jeiselaure de Souza, que atende a DEAM no município de Viamão, 7 a 10 ocorrências são feitas diariamente, em média. Ela comenta que um dos dias de maior procura é a segunda-feira, pois não há plantão 24 horas e por isso as mulheres precisam se dirigir a uma delegacia de pronto atendimento para registrar o B.O.

Cantada ou assédio?

“Temos notado que quanto mais campanhas de conscientização, palestras e encontros com mulheres existem, maior é o número de ocorrências. Isso não significa que há aumento da violência contra a mulher, mas sim que as mulheres estão criando cada vez mais coragem para fazer as denúncias. O importante é denunciar, sempre o mais rápido possível” afirma.

Para as mulheres que se sentem desconfortáveis ou inseguras para registrar a ocorrência, a delegada explica que o atendimento é feito por meio de fichas. A denúncia é efetuada em uma sala individualizada, onde a vítima pode relatar o que houve e informa se tem interesse em medida protetiva. Após isso, são feitos todos os encaminhamentos: exames periciais, serviço de proteção à mulher – caso necessário – e acompanhamento psicológico. Depois que as medidas protetivas de urgência são encaminhadas ao Poder Judiciário, a vítima deve comparecer ao local em até 48 horas para saber se foi deferida.

Em um dia quente e com um grande volume de pessoas circulando na capital do RS, Débora, 22 anos, estudante de jornalismo, recorda de pegar um ônibus para ir até um dos bairros da cidade – estava lotado, até então nada fora do normal, visto a situação que nosso transporte público se encontra nos horários de pico. A garota comentou que todos estavam “esmagados” e que inclusive não tinha espaço para se mover ou conseguir trocar de lugar dentro do coletivo. Era mais um dia normal de temperaturas altíssimas e a vítima lembra de estar com uma blusa de alcinhas e que quando tentava encontrar um espaço um rapaz a encarava.

Ela estava desconfortável, pois o rapaz que a observava, olhava descaradamente para seus seios e para seu rosto em forma de intimidá-la. O homem a pressionava e por mais de uma vez ficou se esfregando na vítima, até ela sentir sua blusa molhada. Sem ter para onde fugir e desesperada, Débora não sabia o que fazer.

“Ele era um rapaz alto e jovem. Não tinha uma figura de “homem tarado” como estamos acostumadas a imaginar. Por ser tão alto, ele ficava batendo na minha barriga com o pênis e em uma das vezes, cheguei a sentir minha blusa molhada. Nessa hora fiquei pasma, em choque. Eu só consegui dizer: “Meu deus!”.

Monstros dentro do computador

(Por Lidiane Moraes)

Para muitos pais, uma criança não corre risco ao se divertir em um computador, celular ou tablet. Entretanto, pesquisas podem mostrar o contrário. Os apontamentos do site não governamental Safernet revelam que a internet é onde as crianças podem estar mais vulneráveis. Em 2016, o site processou 56.924 denúncias anônimas de pornografia infantil na internet. Um aumento de 0,31% em relação ao ano anterior. 15,9% das denúncias estavam hospedadas na rede social Facebook. O Brasil ocupa o terceiro lugar com maior número de hosts (hospedeiro) denunciados, conforme ranking divulgado na página. As denúncias foram feitas através da Central de Denúncias, software desenvolvido pela plataforma para computar e monitorar as informações que são disponibilizadas para qualquer cidadão que quiser acessar.

Fonte: Safernet

 

O diretor de Prevenção e Atendimento da Safernet, Rodrigo Nejm, explica que a coleta das informações tem o intuito de facilitar e colaborar com o trabalho do Ministério Público e da Secretaria de Direitos Humanos. As ações são realizadas para que o estado brasileiro tenha soluções efetivas para o problema. Rodrigo ressalta que a ONG não tem nenhum poder de remoção de conteúdo. As remoções só podem ser feitas pelo sistema judiciário ou pela própria plataforma. “Nosso sistema verifica se as páginas que foram denunciadas continuam no ar, fazemos a verificação para o usuário que denunciou, através do protocolo da denúncia”, explica.

Para a delegada da Delegacia de Polícia para Crianças e Adolescentes de Porto Alegre (DECA), Laura Lopes, a orientação é que os pais evitem que os filhos fiquem expostos a estas situações. O monitoramento das redes é a principal forma de evitar o contato com estranhos, já que a maioria dos casos que recebe na delegacia é de perfis falsos, usados como forma de atrair as vítimas. A delegada ainda alerta que algumas redes como o Facebook são impróprias para menores de idade, como as próprias políticas de uso propõem.

“Tu pensa assim, que horror, olha o que eu vi… Mas que bom que eu vi!”. Foi assim que Rita descobriu uma conversa de um estranho com seu filho, de 14 anos. Embora ela monitorasse com frequência as redes sociais do menino, devido à correria do dia-a-dia, não o havia feito naquela semana. Foi somente em uma das faxinas semanais no quarto do filho, que o inesperado aconteceu. A mãe do menino lembra que teve algo como uma intuição – e ao olhar o celular em cima da cama, resolveu checar as mensagens.

Foi então que sentimentos de preocupação e insegurança tomaram conta dela. Nas mensagens do Facebook, encontrou conversas com um rapaz mais velho. Além das conversas, algumas ligações também teriam sido feitas para o celular de seu filho, inclusive de madrugada. Nas conversas, o homem propunha um jogo de adivinhações: quem errasse mandava foto “como o outro quisesse”. Ainda que o menor insistisse em envio de figurinhas quando do erro da pergunta, o aliciador insistia no envio de fotos pessoais.

Comportamentos como o das conversas encontradas pela mãe do menino no celular do filho são comuns entre pedófilos. Apesar de não ser possível traçar um perfil exato do agressor. Uso de elogios excessivos e tentativa de agradar às crianças é comum nos casos de pedofilia na internet. A empresa de segurança japonesa Trend Micro, disponibilizou em seu site uma cartilha mostrando um monitoramento feito com as perguntas mais comuns e o que elas queriam dizer. Questionamentos de onde o computador fica instalado na casa pode demonstrar interesse em uma conversa longe dos pais. Ofertas de carreira de modelo também são uma das táticas usadas.

Na maioria dos casos, os agressores fazem ameaças às vítimas para que não desistam das conversas. É o que explica Luciana Tisser, doutora na área de Ciências da Saúde e professora no Centro Universitário Ritter dos Reis. Mesmo com um relacionamento aberto com os pais, as crianças podem ficar reféns do agressor. Ainda segundo Luciana, apesar dos sinais serem sutis, é essencial que os pais estejam atentos às mudanças comportamentais dos filhos. A criança pode ficar apática e demonstrar mudanças como baixo rendimento escolar, medo excessivo, quadros de depressão ou isolacionismo e, em outros casos, pode demonstrar comportamento hiperssexualizado. A orientação da psicóloga é que se tenha sempre uma conversa aberta com as crianças. Luciana ainda destaca a importância do acompanhamento psicoterápico após um trauma. “O acompanhamento é imprescindível para minimizar os efeitos negativos, que são inevitáveis. É aconselhado que a criança faça um acompanhamento por um longo período após o trauma”.

Ao questionar o filho sobre os motivos da conversa com o estranho, o menino explicou à Rita que não contou pois achou que era apenas um jogo. Quando percebeu a insistência do homem em mandar fotos, decidiu parar o contato. Após a descoberta do caso, ela buscou apoio junto à família, que orientou a registrar a ocorrência. As denúncias de casos de pedofilia podem ser feitas nas delegacias especializadas de proteção à criança e adolescente, ou, em qualquer delegacia da cidade. A delegada Laura Lopes explica ainda, que é importante que o URL (endereço virtual) da página seja fornecido pelo denunciante, uma vez que a remoção da página dificulta o trabalho da polícia. São características de crime registrar por qualquer meio, cena de sexo explícito ou pornográfico envolvendo crianças ou adolescentes conforme o artigo 240 da Lei n° 11.820 de 13 de novembro de 2008 do Código Penal Brasileiro. A pena para esses crimes é de reclusão de quatro a oito anos e multa.

Além da denúncia na delegacia da cidade, Rita fez a denúncia da página do homem para o Facebook. O acionamento da escola também foi necessário. O menor e o aliciador, já maior de idade, estudam no mesmo local, onde ela acredita que o contato tenha começado. A instituição prometeu observá-los e mantê-los distantes. Atitude que, para a Mestre em Educação e Coordenadora do curso de Pedagogia da UniRitter, Lenir dos Santos Moraes, foi totalmente errada. A professora explica que a escola tem um papel fundamental na vida das crianças, já que é o lugar de maior convívio depois de casa. “Em casos graves, quando as partes envolvidas são da mesma instituição, a escola deve se posicionar; jamais se omitir. Se alguma denúncia deste tipo chega ao Ministério Público, a escola é implicada junto”.

Rita ainda não recebeu retorno sobre o andamento do caso por parte da delegacia, e a página do homem continua ativa no Facebook. Manter um relacionamento aberto com os filhos, e monitorização do conteúdo acessado são essenciais para evitar que casos como esse se repitam. Ainda que vivamos em uma era onde a comunicação se tornou mais digital do que pessoal, os pais devem sempre buscar meios de conectar-se com os filhos. A evolução na relação entre pais e filhos deve acompanhar a velocidade em que a internet se expande.

Fonte: Safernet

Gráficos: Lidiane Moraes

Foto: Leonardo Ferreira

Realidade invisível: a mulher na crueldade do cárcere

(Por Mirella Rocha)

O sistema carcerário feminino no Rio Grande do Sul está crescendo cada vez mais e as penitenciárias estão estagnadas com suas estruturas precárias, sem capacidade de abrigar o número de mulheres necessitadas de alojamentos. Segundo os dados atualizados em 2014 pela Infopen, mais de 41% das apenadas não têm privilégio de serem acolhidas em presídios destinados especialmente para mulheres e com seus direitos previstos.

Independentemente  de já existirem leis que se aplicam diretamente a elas, a realidade continua sendo desumana e as encarceradas ainda são reféns de um sistema judiciário e carcerário  culturalmente machista, racista e punitivo.

Janaina de Souza Bujes, mestre em Ciências Criminais e professora do Centro Universitário Ritter dos Reis, explica que mesmo que a distinção de estabelecimentos penais por gênero seja mencionada pela Lei de Execução Penal (lei nº 7.210 de 11 de julho de 1984), as detentas não possuem estruturas o suficiente para cumprirem suas penas e são obrigadas a viver em unidades compartilhando os mesmos corredores que os encarcerados. Essas unidades se constituíram a partir da superlotação dos presídios femininos e com o número de presas maior em relação ao número de instituições, o estado criou alas específicas para mulheres dentro de penitenciárias masculinas. A professora também ressalta: O sistema carcerário não leva em consideração as peculiaridades do ser mulher e da condição feminina na nossa sociedade. A gente pode afirmar que o sistema carcerário onde as mulheres estão presas foi pensado dentro da lógica masculina, então a cadeia feminina é igual a cadeia masculina”. As prisões são iguais em termos de segurança, organização interna e precariedade, mas como as mulheres têm peculiaridades e especificidades distintas dos homens, se torna um local muito mais nocivo, agressivo e violador de direito à elas do que a eles.

A Irmã Petra, Coordenadora Nacional da Pastoral Carcerária para a Questão da Mulher esteve no estado para um encontro de agentes da pastoral que também atuam com encarceradas e visitou os principais presídios do RS. “O cenário de grande parte das prisões mistas gaúchas é a falta de colchões, alimentos, remédios e produtos de higiene como absorvente e também o racionamento de água. E as detentas ainda são submetidas a prática da revista vexatória. Não existe humanidade nesses presídios”. A mulher, quando é presa, não perde apenas seu direito à liberdade, mas também o direito à saúde, assistência médica e material. Incluindo também a falta de exames ginecológicos e métodos contraceptivos. Ainda que esses direitos estejam previstos por lei, as apenadas não recebem esse auxílio do estado.

A assistência é necessária para que evite os improvisos que já viraram hábitos entre as encarceradas, como utilizar miolo de pão para substituir o OB ou jornais para substituir o papel higiênico.Em presídios masculinos formam-se filas imensas de pessoas para visitarem os homens, sejam amigos, maridos, filhos ou irmãos, eles seguem recebendo sacolas com mantimentos e necessidades básicas. Já nos presídios femininos, a imagem é totalmente diferente.As filas são inexistentes e as presas sofrem com o abandono dos familiares ou cônjuges, que, infelizmente, são sua única fonte de alimento e produtos de higiene pessoal “Quando a mulher é presa, ela só pode contar, na maior parte das vezes, com outras mulheres, as familiares, a mãe ou a tia, dificilmente tu vai encontrar uma mulher cujo marido e companheiro não a tenha abandonado depois dela ter sido presa”, diz Janaina.

O desinteresse jurídico também prejudica de outras formas as visitas das encarceradas, o Doutor em Ciências Criminais e professor da Universidade Federal de Pelotas, Bruno Rotta, explica que quando os companheiros demonstram interesse em visitar as apenadas, as administrações dos presídios não levam em conta as visitas íntimas, mesmo que o relacionamento da apenada esteja de acordo com as regras, deixando de contribuir para o empoderamento da mulher e podando até a sexualidade dela no sistema carcerário.

Essas mulheres também sofrem em diversas vertentes por conta da negligência judicial, entre as situações mais comuns: Doenças causadas pelo descuido do ambiente, sistema de saúde escasso, poucas horas ao ar livre. “A mulher recebe uma carga muito forte de disciplina se comparada ao homem, horário de banho de sol, intervalo, tudo isso é levado em conta ao horário destinado aos homens e ela fica sempre em segundo plano”, diz Bruno.

Além disso, assistir aulas, ir ao atendimento médico, se deslocar até o pátio para exercer qualquer atividade, são situações que submetem as encarceradas a passarem pelos corredores masculinos, onde o assédio moral e sexual vinda dos presos que elas têm convívio e dos agentes públicos sucedem.

A assistente social do Madre Pelletier, Daniela Maturano explica que as apenadas oriundas do sistema misto relatam que preferiam encontrar um companheiro para se sentirem seguras dentro do presídio, pois se fossem “casadas”, nenhum outro preso tentaria assediá-las.

Conforme Janaína, há diversos relatos em relação a violação de direitos e ao assédio sofrido por essas mulheres. As encarceradas são humilhadas desde o momento do flagrante até o julgamento final. A pesquisadora afirma ainda que elas não são acompanhadas por mulheres até as delegacias e nem têm a assistência das mesmas dentro das penitenciárias. Dependem de homens do atendimento médico até a sua refeição.

Janaina afirma: “existe na legislação uma regulamentação que prevê que os estabelecimentos femininos precisam ter agentes penitenciários femininos para atender as presas e numa situação que a prisão é mista, também se espera que tenham mulheres para atender essa presas, agora, como tem o trânsito de homens, obviamente elas vão sofrer alguma espécie de assédio, se não assédio psicológico, moral, será assédio sexual”.

Quando pensamos que a maior parte dos lares, hoje em dia, são chefiados por mulheres, nós temos muitas na condição de mãe que não tem um companheiro e quando essas mulheres são presas, seus filhos ficam com suas respectivas avós, com irmãs ou com outro parente próximo e isso é um dos fatores mais prejudiciais para a vida da apenada que, além de cumprir a pena em condições precárias, tem a preocupação com o filho que está em um ambiente distante. Em situações piores e mais dramáticas, os filhos são entregues a um conselho tutelar ou a um órgão de assistência e nunca mais vêem as mães.

Essas detentas precisam cumprir suas penas em estabelecimentos prisionais distintos, pois nesses lugares, a lei prevê que elas tenham berçário, creche e a garantia de poder cuidar dos seus filhos, principalmente as lactantes (que possuem filhos pequenos até seis meses). Além disso, muitas delas estão sujeitas a não serem levadas ao atendimento médico a tempo e realizarem seus partos algemadas no chão da penitenciária.

Elas existem e estão vulneráveis a um cenário cruel dentro de um sistema carcerário que reflete a nossa sociedade, reproduzindo a desigualdade social, o machismo, o racismo e a homofobia vista aqui fora. É importante refletir sobre quem nós estamos prendendo e quem se responsabiliza pelas necessidades e os direitos dessas detentas. O sistema carcerário brasileiro é seletivo e nunca ressocializou alguém como deveria. É um castigo e um trauma para as encarceradas.

A luta dessas mulheres segue diariamente dentro de cada penitenciária do estado, em busca de dignidade, voz e visibilidade, enquanto o sistema judiciário simula soluções e continua prendendo elas massivamente. A reportagem do Unipautas tentou visitar uma das unidades prisionais com problemas, mas a Superintendência dos Serviços Penitenciários não autorizou a visita.

Fotos: divulgação Thawornurak/shutterstock

Senegaleses segregados na Capital

(Por Vitória Karoline)

A violência com senegaleses no Estado do Rio Grande do Sul aumenta a cada ano pela discriminação e xenofobia praticada com esses imigrantes no qual a maioria são vendedores ambulantes. Para combater a violência diária, os senegaleses possuem como referência a Associação de Senegaleses de Porto Alegre junto a Secretaria de Desenvolvimento Social, eles auxiliam os imigrantes senegaleses, desde 01 de janeiro de 2015 fazendo os protocolos necessários, atendendo solicitação de pedido de refúgio e encaminhando as ocorrências de agressões. Segundo o presidente da Associação de Senegaleses Mor Ndiaye, atualmente Porto Alegre, possui em média de 1.200 senegaleses sendo que no Rio Grande do Sul vivem 4.000 imigrantes.

Enquanto a equipe de reportagem esperava para entrevistar o presidente Ndiaye, um senegalês que não quis se identificar desabafou sentir saudade de sua família, ao falar sobre eles, ele bate sua mão no peito duas vezes; um sinal de respeito e orgulho de sua família e diz Há 2 anos estou morando no Brasil. Daqui 3 meses irei voltar ao Senegal, tenho medo de voltar e minha família não estar mais lá… fico pensando se eles estão vivos ou não. Sinto muita saudade deles”.

“O motivo para chegar no Brasil é um ritual, crescemos em um lugar onde vimos que não temos oportunidades para realizar o nosso sonho e temos de ir para outro país. Mas com certeza o melhor motivo de vir para o Brasil é para ajudar minha mãe. O ensinamento que eu tenho da minha religião, sempre a melhor coisa do mundo, o que podemos fazer, é ajudar a nossa mãe e o nosso pai” disse o vice-presidente da associação de senegaleses Omar Mourid.

Os senegaleses que vivem no Brasil, enfrentam a xenofobia e a discriminação em seu dia-a-dia de uma forma transparente aos olhos dos outros indivíduos. Imigrantes e negros acabam sofrendo também com o racismo. O Brasil infelizmente é um dos países onde o racismo ainda é muito praticado. Segundo os dados do SIM/Datasus, em 53,37% do total de homicídios ocorridos no Brasil (56.337), as vítimas foram os jovens (30.072); destes, 77,0% eram pretos e pardo, sendo 93,30% do sexo masculino (Brasil 2014). “Eles sofrem calados. Muitos não sabem o que é a palavra racismo, eles nunca ouviram falar pois são inocentes. Eles chegam aqui e se deparam com algo que não eram acostumados. Ano passado tivemos que devolver muitos senegaleses ao Senegal por problemas de cabeça ou depressão. Eles acabam tendo uma crise existencial e enlouquecem” diz Ndiaye.

Eles não gostam de falar pois se sentem mal. Alguns imigrantes possuem medo pois acham que podem ser vítimas de agressões futuramente. No decorrer de uma entrevista com o senegalês Serigne Toure, ele admite que sofreu racismo, mas opta por não falar para não se sentir mal. Toure está no Rio Grande do Sul há 2 anos e 6 meses e possui diploma em eletricista, informática, ar condicionado, câmara de vigilância e marceneiro.

“No brasil tem muita oportunidade, mas não para nós imigrantes senegaleses por conta da discriminação. Sou profissional de pintura, mas como eu não consigo emprego, não sei como vou conseguir me sustentar aqui e nem como ajudar meus familiares que permaneceram no Senegal. Sinto muita falta deles. Se eu tivesse oportunidade, voltaria hoje á tarde para o Senegal”, diz Ousmane Niang que está há 3 anos e 6 meses sem ver a sua família.

Algumas pessoas enxergam os senegaleses como pessoas que querem roubar emprego de outras, mas a realidade é a outra. “Desde que brasil é brasil nunca ouvi nenhuma reclamação sobre esses imigrantes que chegaram aqui e tomaram conta de nossas terras. E chega 1.200 imigrantes senegaleses em Porto Alegre e estão tomando conta, por que será!?”, desabafa Ndiaye.

Para falar a respeito disso, conversamos com o professor de história, atualidades e ciências políticas da rede Unificado, Pedro Duarte.

Repórter: – Qual a relação do Brasil com os imigrantes?

Pedro Duarte: De todos os países, o Brasil é a nação que mais recebeu correntes migratórias em toda a história. Afinal, aqui, muito antes da colonização europeia, povos autóctones já se deslocavam de região para região, como é o caso dos índios guaranis, que migraram da região amazônica para esta porção sul do continente, ocupando o que hoje é Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

Após a Descoberta da América, pelos espanhóis, e o reconhecimento do Brasil, além da grande migração voluntária de portugueses, a colônia ainda recebeu a maior diáspora compulsória da humanidade, onde mais de quatro milhões de negros africanos foram trazidos, ao longo de mais de três séculos para trabalhar como escravos. Na mesma proporção, o território que hoje compreende o Rio Grande do Sul, recebeu ao longo dos séculos estes portugueses e africanos, que ajudaram a moldar, junto com espanhóis, o caráter cultural que hoje o Estado possui.

Por volta do século XVII, mais portugueses – agora de Açores -, em casais, chegavam ao território sul. Mais adiante, no século XIX e início do século XX, foi a vez de imigrantes alemães, italianos e poloneses preencherem os vazios geográficos e concluir o mosaico étnico que hoje forma a cultura gaúcha. Por isso, é importante perceber que tanto o Brasil quanto o próprio Rio Grande do Sul, ao longo de toda a sua história, recebeu várias correntes migratórias. E todo esse histórico, hoje em dia, faz com que outros países ainda olhem para o Brasil como opção de refúgio e uma terra de oportunidades. Atualmente Porto Alegre tem recebido um grande afluxo de senegaleses, que buscam asilo no nosso estado em busca de oportunidades e condições de vida. Vale destacar que estes imigrantes em busca de refúgio compartilham de crenças e pensamentos sociais que não conflitam com a nossa cultura. Por isso, recebê-los é mais que uma demonstração de fraternidade, é um ato de reconhecimento social para com mais esta cultura que vem a somar. Negar a entrada de senegaleses no Rio Grande é negar a própria história de todas as outras etnias que vieram para cá e que ajudaram a formar a cultura do nosso Estado.

Os efeitos psicológicos

A psicopedagoga Vera Martins, de Porto Alegre, analisa o atual cenário cultural:

“Penso que o mundo está vivendo um movimento cultural, social, econômico e político, o que gera uma busca de qualidade de vida para todo cidadão. Assim como muitos brasileiros saem para terem novas oportunidades no exterior, recebemos senegaleses, haitianos, nigerianos, que vem para o Brasil em busca de estudo, emprego, paz. Considero o nosso país bastante preconceituoso. Sabemos que o negro brasileiro já sofre discriminação, imagina então um negro senegalês que não fala a mesma língua, não professa o mesmo credo, não tem a mesma formação cultural! A resistência na divisão de espaço, compartilhamento de culturas, usos e costumes exige com que nos desapeguemos da tradição e nos libertemos do preconceito que permeia nossa sociedade. Acredito que estamos passando por um processo de aprendizado cuja convivência é inevitável, e todos nós seremos um mesmo povo, lutando por qualidade de vida.”

 

Suporte para os imigrantes:

O Centro Ítalo Brasileiro de Assistência e Orientações aos Imigrantes (CIBAI) recolhe inúmeras doações diárias como alimentos, roupas, cobertores e livros para os imigrantes. Uma das pessoas que compõe esse time, é a secretária Mari Matos, ela recolhe as doações feitas e tem o primeiro contato com os imigrantes que chegam até o local pedindo doações e para voluntários fazerem o seu currículo. O CIBAI também realiza curso de português para os imigrantes que não dominam a língua portuguesa. A professora Jheine Sieben está dando aula a 10 meses no CIBAI e comenta sobre o que significa o CIBAI para ela: “A principal forma de quebrar preconceitos e paradigmas é unindo culturas e informando sobre elas, e o CIBAI é isso. É dar a oportunidade voluntárias de eles aprenderem o português para sua formação e podem conviver e se relacionar com brasileiros e vice-versa”.

A pesquisa feita pelos estudantes da faculdade UniRitter no dia 05 de junho de 2017, aponta que 100% dos senegaleses veem ao Brasil possuem o objetivo de ajudar seus familiares que permanecem no Senegal. Senegal é localizado na África Central e faz fronteira com o Oceano Atlântico e é dividido em 14 regiões nas quais a desnutrição e pobreza predomina. A professora e uma das administradoras do curso de português do CIBAI Aline Medeiros comenta: “a maioria deles vêm para o nosso país em busca de melhores oportunidades para poder ajudar seus familiares. Então, ao ajuda-los nessa conquista do idioma, indiretamente estamos lhes ajudando a alcançar os seus objetivos”.

Para assessorar os imigrantes também temos Grupo de Assessoria a Imigrantes e Refugiados (GAIRE), eles auxiliam os imigrantes nos Casos Trabalhistas, Revalidação de Diplomas, Reunião Familiar e Solicitação de Refúgio, casamento, acesso à educação e à saúde. Existe também o Serviço de Assessoria Jurídica Universitária (SAJU), todos os serviços prestados por eles são de forma gratuita tais como assessoria jurídica, psicológica e social. Eles exercem um papel importante na vida dos imigrantes pelo fato de não conhecerem a legislação brasileira e precisa ter conhecimento para saber seus direitos. “A questão da língua e a burocracia das nossas instituições acabam dificultando muito a questão migratória na prática, as políticas públicas de integração ainda estão muito abaixo da qualidade necessária e como consequência isso acaba gerando muitas demandas de migrantes procurando o GAIRE e outros serviços de assistência jurídica gratuita. ” Afirma Bruno Cardoso integrante do GAIRE.

Referente à esta situação comentada, o vice-presidente Mourid, relata um acontecimento que ocorreu com ele quando chegou no Brasil: “Eu entrei no Brasil pelo Acre, peguei um ônibus e fui para São Paulo e de lá para Caxias do Sul, morei 6 meses em Caxias, lá eu trabalhei com construção civil, um serviço muito pesado, porém depois de 6 meses começaram a me explorar e eu tive que tolerar pois no momento não sabíamos muita coisa para processar a forma de trabalho, existia muita coisa errada no serviço”. Atualmente Mourid mora em Porto Alegre/RS desde 2014.

 

Nova lei para imigrantes

No dia 25 de maio foi publicado no Diário Oficial da União a nova lei de imigração que impacta diretamente na vida dos imigrantes. A opinião do vice-presidente Mourid, referente à nova lei ele é de que irá facilitar mais as coisas e que a justiça irá tratar um imigrante da mesma forma que um brasileiro. Um dos pontos que irá facilitar é a documentação, muitas pessoas se formam em seu país de origem, mas o seu o documento não vale no Brasil. Os principais vetos são:

  • Anistia para migrantes que ingressaram no Brasil sem documentos até 6 de julho de 2016;
  • Conceito de “migrante” – a lei sancionada conta apenas com as definições de “imigrante”, “emigrante”, “residente fronteiriço”, “visitante” e “apátrida”
  • Revogação das expulsões de migrantes decretadas antes de 1988;
  • Livre circulação de povos indígenas entre fronteiras nas terras tradicionalmente ocupadas por eles;
  • Extensão da autorização de residência a pessoas sem vínculo familiar direto;
  • Dispensa do serviço militar de brasileiros por opção ou naturalizados que cumpriram obrigações militares em outro país;
  • Direito dos migrantes de exercer cargo, emprego ou função pública
  • Concessão de visto ou de autorização de residência para fins de reunião familiar a outras hipóteses de parentesco, dependência afetiva e fatores de sociabilidade
  • Definição que considera como grupos vulneráveis: solicitantes de refúgio; requerentes de visto humanitário; vítimas de tráfico de pessoas; vítimas de trabalho escravo; migrantes em cumprimento de pena ou que respondem criminalmente em liberdade; menores desacompanhados.

Fonte: site MigraMundo.

Foto: Vitória Karoline

 

Feminicídio em alta no RS

(Por Nathalia Kerkhoven)

A cada quatro dias uma mulher é assassinada no Rio Grande do Sul pela condição de ser mulher. As motivações do feminicídio são, geralmente, o ódio, desprezo ou o sentimento de perda do controle e da propriedade sobre as mulheres. Comuns em sociedades marcadas pela associação de papéis de discriminação ao sexo feminino, como no Brasil, ocorrem em grande parte na intimidade dos relacionamentos.

Precedido por outras formas de violência, como abusos físicos e psicológicos, o feminicídio é a última fase do ciclo de violência contra a mulher. Ele visa submeter as mulheres a uma lógica de dominação masculina e um padrão cultural que a subordina. Aprendido ao longo de gerações, o impacto do crime é silenciado. Praticado sem distinção de lugar, cultura, raça ou classe.

Para Beatriz Lobo, professora de psicologia na Uniritter, apesar de o abuso psicológico ser algo muito intenso, é difícil para as mulheres o identificarem, fator que intensifica essa violência com o tempo. No Brasil, segundo o Mapa da Violência 2015 (Flacso/ONU Mulheres), de 2003 a 2013, o número de feminicídios cresceu 21%, de 3.937 para 4.762 (registrados). Em média, são 13 feminicídios por dia.

A Lei n°11.340 de 2006, que cria meios de controlar a violência doméstica e familiar contra a mulher nos termos do 8º artigo 226 da Constituição Federal (…); delibera a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras providências. Anteriormente, o artigo 121 do Código Penal trazia como situação de qualificação o crime de morte por “motivo fútil” ou por “motivo torpe”.

Além da lei implementada em 2006, a Lei n° 13.104 de 2015 altera o artigo 121 do Código Penal de 1940, que prevê o feminicídio como circunstância qualificadora de homicídio, e o artigo 1.º da Lei n° 8.072, de 25 de julho de 1990, para incluir o feminicídio no rol dos crimes hediondos.

No mesmo ano de implementação da lei, o Brasil ocupava o 5º lugar no mapa mundial da violência contra a mulher, em um ranking de 83 nações. Dois anos após a criação da lei, o feminicídio ainda esbarra no machismo enraizado.

Mestranda em ciência política do Núcleo Indisciplinar de Estudos sobre Mulher e Gênero (NIEM – UFRGS), Florencia Guarch, acredita que o Brasil compõe a lista por conta de uma negligência do Estado que não age efetivamente ou não tem políticas públicas reais para as mulheres. “A lei vem em função de um constrangimento internacional sofrido pelo Brasil. Depois de tudo que a Maria da Penha sofreu, de ter que recorrer a uma côrte internacional, só assim o Brasil se vê pressionado a tomar alguma medida. Eu acho que existe uma negligência, mas também fatos históricos da própria construção social, das sociedades da América Latina como um todo”, completa.

Feminicídio de Mulheres Negras

Nos últimos dez anos, o feminicídio de mulheres negras aumentou 54%. Por isso, a efetividade das políticas públicas depende do reconhecimento da diversidade do público-alvo. No caso do enfrentamento da violência de gênero é preciso perceber que raça, classe social e orientação sexual não são meras diferenças entre as mulheres, mas elementos que facilitam ou dificultam o acesso à rede de serviços e proteção estatal, como revela a Secretaria da Segurança Pública em (http://www.spm.gov.br/central-de-conteudos/publicacoes/2016/livro-diretrizes-nacionais-femenicidios-versao-web.pdf).

Lívia acredita que nesses casos precisamos, inicialmente, analisar a relação da população negra com as autoridades policiais. “A juventude negra morre em razão da violência estatal. Com isso em vista, não podemos esperar que as mulheres negras, que têm trajetórias muito diversas das mulheres brancas, procurem a polícia quando são vítimas de violência. O debate sobre violência de gênero precisa contemplar a diversidade”, conclui.

As mulheres negras têm, em geral, condição social e escolaridade mais baixas.  Pela falta de acesso à justiça, ou a quem recorrer, elas acabam vulnerabilizadas.

 Ações da Justiça

Em 2016, 96 mulheres foram vítimas de feminicídio no RS. Em 29% dos casos, a justiça já havia decretado medida protetiva. A juíza Traudi Grabin, coordenadora da violência doméstica e familiar no estado, conta que a justiça está trabalhando em um aplicativo, já que na prática, a medida protetiva não é totalmente eficaz.  “PLP: Promotora Legal Popular. No sentido de ser mais um instrumento que a mulher pode usar além das medidas protetivas que já são dadas pelos juízes. Então ela passa a ter um contato direto com o 190 da Brigada Militar e tem também um atendimento prioritário, assim como são atendidos roubos, latrocínios e sequestros”. O aplicativo PLP está em andamento desde junho de 2016 como projeto piloto.

Atualmente, ele atende apenas um bairro de Porto Alegre, mas a intenção é estender para toda a cidade. O problema é que para isso, a justiça depende da Secretaria de Segurança Pública e do trabalho da Brigada Militar, porque o aplicativo não é suficiente se a BM não tiver condições de ir até o local atender a vítima. A proposta também deve chegar aos nove juizados especializados do estado.

Quando questionada sobre o que poderia acelerar o processo de proteção, já que muitas mulheres são vítimas do crime enquanto aguardam a medida protetiva, a juíza diz que o crime pode acontecer assim que a mulher faz o pedido e sai da delegacia, já que a violência foge do nosso controle.

Crime Passional: Amor mata?

Apesar de ser reformado e modificado, o código penal do país é antigo, dos anos 40. Isso faz com que o crime, muitas vezes, seja tratado como “homicídio com agravante e violenta emoção”, o que não dá a real dimensão do que aconteceu.

Para Lívia de Souza, pesquisadora no Núcleo de Estudos e Pesquisa Sobre a Mulher (NEPEM – UFMG), a Lei do feminicídio tem extrema importância para que homens que matam mulheres não sejam beneficiados por argumentos como “defesa de honra” ou crime motivado por “violenta emoção”. A criação de um tipo penal específico se dá, principalmente, para tirar crimes como o da invisibilidade. “O crime de feminicídio não visa o aumento da punição, mas a criação de um marco legal que reconhece a violência contra a mulher como crime de ódio”, aponta.

 A visão da Psicologia

A psicoterapia de apoio é a principal forma de ajuda que a psicologia encontra quando a mulher espera pela medida protetiva. Para que seja efetivo, é preciso que a mulher perceba que enfrenta um problema. Geralmente a violência desencadeia uma situação traumática e isso pode gerar uma série de transtornos emocionais.

Beatriz acredita que a psicologia tem uma importante função, mas que também é preciso criar redes de apoio para essas mulheres. Tendo trabalhado com uma ONG onde as mulheres podiam ficar um tempo com seus filhos até que conseguissem se organizar, ela vê a iniciativa como algo muito importante, porque resolve uma questão prática, que às vezes a psicologia não tem como dar conta, mas acredita que tudo deve começar na infância.

“Tudo começa quando as crianças são pequenas. Então eu penso que em questões mínimas como, se a menina tem que tirar o prato da mesa, porque o menino não pode também? Eu lembro que quando eu era criança, eu sempre ia na casa da minha tia, ela tinha um filho e eu sempre tinha que tirar o prato da mesa e ele não, eu ficava revoltada com aquilo.”, Beatriz relembra um fato de sua infância e de muitas outras meninas e completa: “No momento em que ensinamos aos meninos que não é legal puxar o cabelo das meninas, que não pode bater e ensinamos às meninas que, quando isso acontece e alguém diz que “é porque ele gosta de ti”, isso não é demonstração de amor (…)”, conclui.

 “Agora ou na hora de nossa morte”

“Degolada com uma serra” é o título de um dos 20 relatos da exposição “Agora ou na hora de nossa morte”, localizada no Palácio da Justiça, no Centro Histórico de Porto Alegre. No local, os relatos estão colocados em painéis dispostos em um varal ao lado de sutiãs pretos, que simbolizam a morte de mulheres vítimas de maridos e companheiros.

Junto da exposição, é possível ouvir relatos de vítimas de violência doméstica que sobreviveram às agressões. Também estão expostos números desse tipo de crime no estado e um mural que convida os visitantes a sugerirem uma solução para o problema.

 Jovens, mulheres e mídia: como se posicionar?

Em uma geração de jovens tão engajados em questões sociais, é difícil compreender que os números de feminicídios, sigam crescendo. Beatriz vê a resposta na micropolítica e ressalta a importância de falar sobre o assunto nas rodas de amigos. “Precisamos falar disso. As pessoas precisam ir a debates e conversas. As redes sociais também tem uma função muito importante” e completa dizendo que precisamos de ações que coloquem o assunto em pauta.

Florencia também acredita que as redes sociais e a internet, de modo geral, sejam uma boa ferramenta para as novas gerações. “Essa geração de mulheres, da minha em diante, tem informações que as mulheres de antes não tinham e a gente pode ter que questionar a veracidade dessas informações, mas saber que tem isso é muito importante”, diz.

Lívia vê nos debates a solução: “Precisamos falar que assédio não é brincadeira, que as mulheres têm o direito de passar por um grupo de homens sem escutar algum comentário ofensivo, que as mulheres devem ter as mesmas oportunidades ofertadas aos homens, que o dever do cuidado da casa e dos filhos não é exclusivo das mulheres”, afirma.

Sobre a participação da mídia, as três têm visões muito claras sobre sua importância. “A mídia precisa ir além do discurso raso sobre igualdade de gênero e feminismo, é preciso que seus produtos culturais e práticas institucionais reflitam o discurso”, diz Lívia.

Florencia vê a importância de que todos os casos sejam noticiados e que não devemos fazer com que isso se torne comum, quebrando o tabu de que a mulher é agredida porque mereceu. “Vamos deixar de achar razões para justificar a violência e vamos começar a dar os nomes. Acho que a mídia tem esse poder essencial, de dar voz à esses movimentos e as demandas que muitas vezes ficam caladas e marginalizadas”.

Finalizando o debate, Beatriz concorda que precisamos dar os devidos nomes a cada coisa, porque assim, podemos ver diferenças até no processamento da informação. “A mídia devia ter um papel de mostrar o que está acontecendo. Porque as pessoas veem na televisão e acham que é normal. Existem muitas questões de manipulação da informação e no momento em que não se dá os nomes exatos, essa informação não está sendo clara“, conclui.

A certeza que envolve esse debate é que as mulheres não podem ser caladas. Enquanto a opressão ocorrer pela única condição de serem mulheres, as políticas públicas brasileiras não serão suficientes para punir os criminosos que veem na violência o resultado do poder que pensam poder exercer sobre elas.

Foto: Leonardo Ferreira

Violência diária na rotina de trabalho das pessoas trans

(Por Nicole Escouto)

No cenário que deveria acolher profissionais independentemente da sua orientação sexual, muitas vezes, é mais um opressor na vida de quem busca reconhecimento e dignidade.

De acordo com o relatório ano base 2016 do Grupo Gay da Bahia, apenas no ano passado 343 lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros – LGBT’s foram assassinados, o maior número de mortes já registrado, sendo 42% dos casos travestis e transexuais. A violência contra esse segmento da população é uma realidade que ganha força pela legislação deficitária, que não caracteriza crimes motivados por homolesbotransfobia. Cenário este que produz um ambiente de insegurança e impunidade.

Até 22 de maio de 2017, 61 travestis e transexuais já foram assassinados. O levantamento realizado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais – ANTRA, divulgado pelo jornal “O Tempo”, revela, ainda, que a maioria das vítimas se prostituíam.  A ANTRA também afirma que 90% da população trans no país vive nesta condição.

Um dos fatores que contribui com este cenário é a evasão escolar.  O bullying homofóbico colabora e a violência tende a aumentar quando a vítima é travesti ou transexual, e as consequências, além da desistência da escola, podem ser depressão e até suicídio, conforme a cartilha produzida pela Assembleia Legislativa RS.

Com o objetivo de  criar um espaço de estudos inclusivo aos transexuais, onde poderão ter acesso digno à educação e concorrer a uma vaga na universidade através do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), foi criado o Trans ENEM POA. O projeto inspirado por iniciativas de outros estados, ademais, visa o empoderamento pessoal, por meio da troca de experiências e conteúdo relacionado à área dos Direitos Humanos, Saúde e Cidadania, e tem sua equipe formada integralmente por voluntárias (cis e trans).

Outra iniciativa, a fim de aproximar travestis e transexuais do mercado de trabalho, criada em 2013, é o TransEmpregos. Idealizada por Paulo Bevilacqua, com a ajuda de suas “colegas trans” Márcia Rocha e Daniela Andrade, todas as vagas disponibilizadas no site são oferecidas por empresas que se cadastram gratuitamente para anunciar suas ofertas de emprego.

As oportunidades são escassas

Para Célio Golin, coordenador da Organização Não Governamental Nuances, ao mesmo tempo em que existe discriminação no mercado de trabalho, há um nicho definido em que pessoas em questões de vulnerabilidade acabam se submetendo. São o caso das redes de supermercado e do telemarketing. Esse último, emprega muitos gays e lésbicas por não estarem em contato direto com o público, mas sim atrás de um fone de ouvido com microfone, afirma.

Segundo Golin, de modo algum irão justificar a resposta negativa de uma vaga pela condição de ser mulher, negro, trans ou homossexual, irão usar uma desculpa qualquer. Não é fácil provar que é essa a razão, mas com o acúmulo dos fatos vai ficando mais explícito. “Já tivemos um caso de uma transexual estagiária de uma agência da Caixa Econômica Federal que o gerente dela exigia que ela usasse roupas masculinas, vestisse sapatos sociais e frequentasse o banheiro masculino, o que caracteriza um caso de assédio moral”, ilustra.

Luísa Stern, transexual, advogada da Igualdade RS e prestadora de trabalho voluntário no Serviço de Assessoria Jurídica Universitária – SAJU da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, diz não receber muitas denúncias de trans vítimas de preconceito no mercado de trabalho pela dificuldade destas pessoas se inserirem no mercado de trabalho. Por uma minoria estar habilitada e capacitada para o mercado formal, muitas estão na informalidade, seja trabalhando como profissionais do sexo ou em outras profissões estereotipadas, como nas áreas de beleza, estética e artisticas, fazendo shows.  Quando recebem denúncias, procuram encaminhar e mobilizar os canais competentes, conta.

Desde que começou a advogar no SAJU e em casos particulares, Luísa lembra que o promotor de justiça aceitava a mudança de nome de pessoas trans, também nos casos de retificação de gênero e de sexo, para quem passou pela cirurgia genital. No entanto, este ano, diz, houve um retrocesso. “Desde que mudou a assessora jurídica do juíz, passaram a exigir laudo psiquiátrico com diagnóstico da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde – CID, depois que achávamos que isto já estava solucionado”.

“A pessoa é constantemente vitimizada e violentada”

O Unipautas conversou com a defensora pública Mariana Py Muniz Cappellari, que presta atendimento no Centro de Referência em Direitos Humanos – CDRH, a respeito de como proceder em casos de transfobia no mercado de trabalho e quais os tipos de atendimento que o Centro presta. Confira:

Unipautas: Ter o nome social negado pelo juíz é enquadrado como violência estatal?

Mariana Py Muniz Cappellari/CDRH: O nome social não é respeitado dentro de determinados órgãos porque ainda tem muita confusão entre as pessoas. Entre o que significa o conceito de gênero e sexo. Vão muito pela questão biológica e não pela questão de gênero, é de construção social, de como a pessoa se enxerga, se sente, se vê e percebe a sua identidade. A Defensoria Pública, diferente da maioria das instituições públicas, possui  uma resolução interna que determina a utilização do nome social nos atendimentos, na forma da triagem. Existe, até mesmo, uma resolução que foi escrita entre o Conselho Nacional de Política Criminal Penitenciária e o Conselho Nacional de Discriminação, que aduz que no sistema prisional deveriam se observar a questão do nome e prevê que as transfemininas permaneçam em unidades prisionais destinadas às mulheres.

Unipautas: Nos casos em que “escrivão”/policial orienta que a ocorrência seja registrada de forma diferente como o caso ocorreu, como é tratada a denúncia?

Mariana: O nosso boletim de ocorrência é muito falho porque tem campos que não são preenchidos e há a questão dos dados LGBT, por isso quem produz esses dados geralmente são organizações da sociedade civil, porque não temos dados oficiais. Não há uma legislação específica para LGBT, o que pode ser considerado uma violência estatal. A violência não é só física ou psicológica. Para a Organização Mundial de Saúde, o conceito de violência se aplica também à privação de direitos. As pessoas não sabem o que é identidade de gênero, orientação sexual e acabam reproduzindo no seu atendimento pré-conceitos que possuem. Na maioria das instituições e no próprio Direito, se discute, inclusive, se o feminicídio pode ser aplicado a uma trans mulher.  Ainda não é possível enquadrar uma trans mulher no conceito de mulher, tanto que a Lei Maria da Penha e a Delegacia de Proteção. Quando chegam para registrar uma ocorrência que uma profissional do sexo transexual foi violentada ao longo do programa, não vai entrar para o sistema estatal o termo “a mulher” naquele acolhimento. Ela vai ser atendida na esfera comum, ou seja, a pessoa é constantemente vitimizada e violentada. Essa é, talvez, a maior dificuldade. Há, ainda, questão de preconceito também em relação à prostituição. Traz no imaginário social das pessoas uma série de arcabouços morais, o que tem muito a ver com a cultura machista, de que se a pessoa se colocou naquela situação era porque estava pedindo. É a cultura do estupro, né. Ou, se não tivesse se prostituindo talvez isso não tivesse acontecido.

Unipautas: Quando há caso de transfobia no mercado de trabalho, como a vítima é atendida?  

Mariana: No serviço público, é possível que se faça denúncia e se a pessoa conseguir comprovar isso, é possível ajuizar uma ação buscando uma indenização ou questionar essa forma de seleção. O serviço público comumente está vinculado a um concurso. Hoje, em alguns locais, como a UFRGS, por exemplo, nas seleções que houveram no ano passado para as pós-graduações, houveram cotas para pessoas transexuais. Têm alguns lugares que estão se expandindo pra isso, mas claro, têm muitas dificuldades que a pessoa transexual enfrenta no trabalho, principalmente em relação ao nome e é por isso recebemos muitos pedidos de retificação do registro civil, também quanto ao gênero. O que acontece é que as pessoas, muitas vezes, tem um documento civil que não corresponde ao documento social e alguns locais não adotam o nome social. Tem pessoas que quando trabalham em determinados lugares precisam prender o cabelo ou se vestir de uma forma masculina, neutra, quando a pessoa se identifica com o gênero feminino.

Unipautas: Existe hoje algum plano de inclusão dos transexuais, como há hoje nas políticas públicas da cidade de São Paulo o Programa Transcidadania, o qual tem por objetivo a reintegração social?

Mariana: Eu desconheço a existência. A gente sabe que têm iniciativas como o Trans ENEM, mas não estão vinculadas à política pública.

Unipautas: Transexuais mulheres são tratadas dentro dos direitos da mulher?

Mariana: Aqui? Sim, dentro do guarda-chuva da violência contra a mulher, mas também dentro do guarda-chuva da violência estatal.

Falta de legislação

A falta de legislação específica que tipifique os crimes motivados por homolesbotransfobia tem dificultado, inclusive, pesquisas de dados oficiais. Observação que foi unânime entre os entrevistados.  

Existem algumas leis que amparam o grupo de pessoas LGBT’s, como a resolução nº 11, de 18 de dezembro de 2014, que diz respeito aos registros policiais, estabelecendo parâmetros para a inclusão dos itens “orientação sexual”, identidade de gênero” e “nome-social” nos boletins de ocorrência emitidos pelas autoridades policiais no Brasil.  Também a resolução nº 12, de 16 de janeiro de 2015, que assegura o acesso e permanência de travestis e transexuais nas instituições de ensino, orientando o reconhecimento institucional de identidade de gênero. Também o decreto nº 48.118, de 27 de junho de 2011, o qual garante o tratamento nominal, inclusão e uso de nome social de travestis e transexuais nos registros estaduais relativos a serviços públicos prestados no âmbito do Poder Executivo Estadual e dá providências.

Já a Lei nº 11.872, de 19 de dezembro de 2002, que dispõe sobre a promoção da liberdade de orientação prática, manifestação, identidade, preferência sexual e dá outras providências, traz alguns enquadramentos.

 

Entenda as denominações

Bissexual: pessoas que têm atração sexual, física e/ou afetiva por pessoas de ambos os sexos

Cisgênero: quando a identidade de gênero equivale ao seu corpo biológico

Gay: homem que sente atração por outro homem

Gênero: é construído socialmente e não em decorrência da anatomia de seus corpos

Homoafetividade: relação afetiva e sexual entre pessoas do mesmo sexo

Homossexual: pessoa que sente atração física, sexual e/ou afetiva por pessoas do mesmo sexo

Identidade de gênero: percepção de gênero que a pessoa se reconhece

Intersexual: pessoa que possui sexo ambíguo

Lésbica: mulher que tem atração física por outra mulher

Orientação sexual: atração física, sexual e/ou afetiva que a uma pessoa tem pela outra

Transexual: pessoa que possui identidade de gênero diferente da estabelecida para o seu sexo biológico

Transgênero: pessoa que possui expressão de gênero e/ou identidade de gênero diferente daquela atribuída ao corpo biológico

Travesti: pessoa que, independente da orientação sexual, assume características físicas e psicossociais atribuídas ao sexo oposto, mas, ao contrário da pessoa transexual, aceita o seu sexo biológico

Homolesbotransfobia: termo utilizado para indicar discriminação contra os grupos populacionais inseridos na sigla LGBTI – lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, transgêneros, travestis e intersexuais

Violência a 60 quadros por segundo

(Por Bruno Raupp)

A violência é brutal no Brasil e o nosso cinema tem banalizado este problema em detrimento do sucesso comercial e renome mundial. A ferocidade presente no dia a dia e a selvageria que assola o cidadão brasileiro não deve ser vendida como um mero produto de entretenimento e, muito menos, transformada em um padrão a ser imitado copiosamente pelos estúdios tupiniquins.

O cinema, desde seu primórdio, tem o poder de contar histórias reais e debater temas recorrentes da sociedade. Com o amadurecimento da chamada sétima arte, os assuntos debatidos em tela tornaram-se mais viscerais e expositivos. Portanto, a exportação da estética da violência deve ser vista com maus olhos, pois subjuga o gênero de forma tendenciosa e falha na busca por um diálogo real e necessário.

A violência é um tópico presente em qualquer forma de arte. Da literatura ao teatro, ela é um tema central para entender e debater as construções sociais que ocorrem atualmente. O cinema, como ferramenta de debate, auxiliou e auxilia nesse entrave, pois possui a habilidade de contextualizar um determinado tipo de violência – como filmes de guerra, e entregar às grandes massas, gerando debate e criando uma reflexão em seu público.

Entretanto, a possibilidade de acender uma discussão sobre determinado assunto deve ser tratada com proeza e cautela. Ao analisar o cinema nacional atual, a violência é um assunto recorrente entre as produções cinematográficas. Desta prerrogativa surge uma questão importante: o cinema brasileiro debate a violência como um problema intrínseco na sociedade ou reproduz uma estética criada com o intuito de lucro na bilheteria?

Essa pergunta tem severa importância na criação de uma visão crítica em relação às produções nacionais. Um dos expoentes do cinema brasileiro em trazer a violência para as salas de cinema é o filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. Lançado em 2002, a obra captura, através de sua narrativa, a violência do tráfico nas favelas e a violência causada pelas diferenças entre classes sociais.

Por mais que outros filmes já tivessem debatido a violência urbana – Central do Brasil, de Walter Salles, de forma mais contida e Pixote, a Lei do Mais Fraco, de Héctor Babenco, de forma mais explícita, foi Cidade de Deus que alcançou tanto sucesso de crítica quanto de público, gerando uma alta receita e disputando variados prêmios de renome internacional.

Com o lançamento de Tropa de Elite, de José Padilha, em 2007, essa estética catapultada por Cidade de Deus ganhou ainda mais força. Tropa de Elite reforçou temas como a violência enraizada nas instituições e a tensa realidade das favelas do Rio de Janeiro.

O filme também fez um estrondoso sucesso nas bilheterias nacionais – levando a produção de uma sequência lançada em 2010 – e disputou inúmeros festivais. Mas, ao analisar uma década após o seu lançamento, o cinema nacional foi inundado por filmes com temáticas similares, mas que falham em debater a violência como problema social, criando apenas um produto que busca o entretenimento e lucro com um viés violento.

Para o Professor do Departamento de Sociologia da UFRGS, Alex Niche Teixeira, a discussão sobre a violência no cinema se estende ao escopo político e seu atual estado de polarização. “A possibilidade de discussão do sistema como um todo ficou para o segundo Tropa de Elite e exige um tipo enquadramento que tem sido equivocadamente rotulado como de esquerda e com isso, vinculado ao porta vozes desta abordagem nos espaços políticos partidários como aqueles com envolvimento com o petismo e a defesa de vagabundo”, comenta o professor. Esta polarização acaba por influenciar negativamente nas produções cinematográficas, pois pode haver boicotes por parte do público, dependendo de como o tema é retratado e debatido.

Em 2015, foi lançado o filme Operações Especiais, de Tomás Portella, protagonizado por Cléo Pires. Cléo, na película, representa uma policial honesta que deve sobreviver a um sistema corrupto. Essa premissa possui dois pontos interessantes de se debater. Por um lado, o papel principal de um filme policial pertencer a uma mulher é um saldo positivo, pois instituições como a polícia são notoriamente conhecidas pela sua hierarquia sexista e misógina. Porém, ao debater a violência de forma maniqueísta, a obra abandona sua função de ferramenta de argumentação e acaba perdendo seu posto de legitimar causas sociais que sofrem com os mais diversos tipo de violência, o que acaba gerando estereótipos e falácias que prejudicam a narrativa cinematográfica e o cinema nacional no geral.

Segundo o Professor do Departamento de Antropologia da UFRGS, Marcelo Tadvald:

“Tanto o cinema quanto outras mídias, tendem a reforçar ou fortalecer padrões disponíveis na sociedade, e isto vale para linguagem, comportamento, moda, assim por diante. Justamente tal aspecto caracteriza e potencializa o papel do cinema como ferramenta de discussão e transformação social de forma especial, pois ele convoca o grande público ao debate sobre questões sociais e artísticas prementes. O cinema se constitui assim em um verdadeiro panóptico do social.”

Outro problema que decorre, é o fato de que filmes com este tipo de abordagem tornem-se um padrão estabelecido de sucesso comercial. Desta forma, outros projetos e debates acabam não recebendo atenção suficiente da grande mídia e, muitas vezes, sequer chegam às salas de cinema, alcançando apenas pequenos circuitos e festivais.

“O fato é que vivemos em um país violento. Não faltam manchetes de jornais e programas sensacionalistas de televisão descrevendo crimes brutais, mas normalmente, quando essas histórias não tratam sobre tráfico de drogas, elas nem são contadas no cinema”, criticou o cineasta Lucas Reis, em relação à falta de diversidade quando o tema debatido é a violência.

Isso afeta diretamente a produção nacional e o movimento cinematográfico. O cinema brasileiro já possui a comédia como um padrão atual, com dezenas de filmes que reproduzem uma mesma fórmula e acabam excluindo novos tipos de abordagens de gênero.

Todavia, nos últimos dois anos, uma nova cena vem ganhando forças com filmes como Aquarius, de Kleber Mendonça Filho e Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert. Isso demonstra uma nova etapa para o cinema nacional, pois ambos filmes debatem diferentes problemas sociais com abordagens inusitadas para as produções brasileiras.

Debater a violência é importante para compreender os fenômenos sociais com maior espectro, entretanto, o modo como esta discussão tem sido colocada em debate deve ser revisto. A mera reprodução de falácias ou a imitação unidimensional dos entraves relacionados à violência que emergem da sociedade acabam por não gerar reflexão alguma.

O cinema é uma poderosa ferramenta de argumentação. A sua capacidade de inspirar e envolver o espectador ao ponto gerar um raciocínio deve ser mantida como seu principal objetivo, pois a sétima arte é um ponto de partida para que visões e pensamentos mudem para melhor, contanto que esteja no caminho certo.

A história do cinema brasileiro

Gráfico (Bruno Raupp)

Foto da matéria divulgação (Alexandre Lima)

Faltam leis, sobram preconceitos

(Por Robson Hermes)

A cada 27 horas, uma lésbica, gay, bissexual ou transexual é morto no Brasil. Segundo o relatório do Grupo Gay da Bahia referente a 2015, o número de assassinatos de LGBTs é alto. O país, segundo alguns estudos, seria o que possui a maior taxa de crimes contra transexuais e travestis, concentrando 50% dos crimes cometidos pelo mundo. Mas o número real pode ser maior, pois o país ainda não possui dados estatísticos oficiais. A violência que essa população sofre não se resume apenas a violência física. As humilhações e violências psicológicas também fazem parte do cotidiano dessa minoria.

Os órgãos legislativos garantem direitos igualitários a algumas minorias. Hoje, o racismo é crime, assim como agredir a uma mulher ou abusar de um menor de idade. Qualquer pessoa dessas minorias que sofra algum tipo de ato discriminatório ou abusivo motivado por sua característica pode recorrer aos braços da lei para se sentir amparado. O mesmo não acontece ao rapaz que sai de mãos dadas com o namorado. Essa demonstração de afeto desencadeia, muitas vezes, humilhações públicas, xingamentos invectivos e, nos piores casos, lesões corporais graves. A infração motivada por repúdio ao homossexual não confere crime atualmente, pois não há uma legislação vigente que acate esta demanda.

Na Câmara dos Deputados, existe um Projeto de lei criado pela ex-deputada Iara Bernardi, em 2006. O PL 122/2006 constitui como crime quaisquer atos discriminatórios em razão de identidade de gênero e opção sexual – não aderindo à heterossexualidade. Este PL que tramita no Congresso Nacional está arquivado atualmente, como a maioria dos projetos que visa garantir igualdade ou atender a demandas específicas da população LGBT. O PL 06/2015, da deputada Manuela D’ávila (PCdoB – RS), que equipara direitos para casais homossexuais terem direito à inscrição, como entidade familiar nos programas de habitação do Estado – como o Minha Casa, Minha Vida – ainda aguarda análise na Comissão de Direito e Justiça. A deputada, que já esteve na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias na Câmara dos Deputados, atua em audiências públicas com relação à violência homofóbica e transfóbica. Manuela presidiu a Frente Parlamentar LGBT em Brasília, na qual participou da criação do material didático para garantir respeito e diversidade na escola, o kit anti-homofobia. Outro projeto que não vingou, devido à resistência da bancada evangélica e membros mais conservadores da Câmara. O Deputado Jair Bolsonaro, é um ativo opositor das tentativas de avanço em direitos dos LGBT. Em alguns dos seus discursos na Câmara, Bolsonaro argumenta que as propostas que abordam direitos e tentativas de inclusão LGBT ferem os valores da família.

“Essa onda de querer combater a homofobia está estimulando o homossexualismo, a pederastia, a baixaria. Eu não quero isso para a minha neta, para o meu neto!
Apelo a todos para que não levem para a galhofa a imoralidade que a Comissão de Direitos Humanos e Minorias está patrocinando nesta Casa. Isso, no meu entender, é o maior escândalo de que se tem conhecimento no Brasil atual”, disse Bolsonaro em discurso na Câmara, na votação da primeira tentativa de inserir nas escolas públicas o kit anti-homofobia, em 2010. Em seu discurso, o deputado usa o termo “homossexualismo”, termo proposto em 1869, pelo médico húngaro Benkert. O uso desse termo configura em considerar a homossexualidade como patologia.

Como não há uma legislação específica para a população LGBT, há demandas que são direcionadas ao Poder Judiciário. Nesse âmbito, a população LGBT tem encontrado amparo e reconhecimento de direitos não previstos em lei, como possibilidade de adoção, cirurgia de mudança de sexo pelo SUS e reconhecimento de união estável. Foi essa a saída encontrada por Ana Naiara Malavolta para ter reconhecida legalmente sua união com sua companheira. Ana optou por oficializar sua união para ajudar na criação de jurisprudência. “Todos os direitos que são garantidos para a população LGBT são frutos de decisões judiciais. Não existe uma legislação consolidada. Existem, ainda, tentativas de reverter aquilo que se conseguiu por decisão judicial”, analisou. Ana se refere ao Estatuto da Família, PL criado em 2013 pelo deputado Anderson Ferreira (PR – PE), aprovado recentemente Câmara. O projeto define como entidade familiar núcleos formados por um homem e uma mulher em um casamento ou união estável, ou separadamente com seus descendentes. O projeto, ainda, visa garantir direitos prioritários às famílias que se encaixarem à normativa. Para a Deputada Federal, Maria do Rosário (PT), o projeto é retrógado, pois rotula as famílias e exclui da tutela do Estado a maioria das famílias brasileiras. “Ele (o projeto) desconhece os diferentes arranjos familiares, como os movidos por relações afetivas. Para atingir, que este era o objetivo, as pessoas homossexuais, ele atinge essas pessoas, retira-lhes direitos e, ao mesmo tempo, tira direitos de famílias que são diferenciadas, como as formadas por grupos de irmãos”, critica a deputada, que é conhecida pela defesa dos direitos humanos.

No Rio Grande do Sul, existe o único Centro de Referência de Direitos Humanos gestado pela Defensoria Pública. O centro possui duas linhas de atuação: violência contra mulher, que possui amparo específico, e violência estatal, mais abrangente, podendo, assim, atender aos LGBTs. Como a maioria das vítimas do Estado são pessoas socialmente vulneráveis, a instituição faz o acolhimento psicossocial das vítimas e toma as devidas providências para que não haja revitimização. Segundo a Defensora Pública, Mariana Py Muniz Capellari, as vítimas que recorrem à Defensoria Pública e se encaixam nas demandas são encaminhadas diretamente ao CRDH. No centro recebem acolhimento psicossocial, no qual é analisada a complexidade de cada caso. “Confeccionamos muitas vezes nesse acolhimento um plano de segurança. Dependendo da situação de violência, a vítima corre riscos à integridade, segurança e à própria vida”.

Uma forma de ter representatividade na sociedade foi a criação das ONGs LGBT, que atuam na área da informação, educação, cultura e visam lutar pelos direitos dessa população. Essas instituições também possuem papel importante na mensuração e criação de estatísticas. Uma vez que, não há legislação específica, há, consequentemente, invisibilidade na coleta de dados. Logo, não havendo essa mensuração de dados estatísticos sobre esses crimes, não há como ter embasamento para que se criem políticas públicas para a demanda da população LGBT. O Grupo Gay da Bahia é um referencial em dados estatísticos desse grupo, pois é pioneiro em ter um banco de dados de crimes movidos por ódio, além de divulgarem os dados em um boletim anual.

Outra ONG de importante participação na causa é o Grupo Nuances pela Livre Expressão Sexual. Segundo Célio Golin, um dos membros fundadores do grupo, que se chamava Movimento Homossexual Gaúcho quando foi criando em 1991, a ONG tem o papel de representar a população nas discussões na sociedade civil, inclusive em âmbito nacional. O Nuances participou da elaboração de diversas políticas públicas, como no Programa RS Sem Homofobia, no qual uma das ações feitas foi a criação do nome social para travestis e transexuais. Outra ação que o grupo realizou foi a formação, em parceria com a Secretaria de Segurança Pública, de um grupo de estudos de policiais civis, agentes penitenciários e pessoas do movimento social para discutir ações dentro do sistema carcerário e na área de segurança pública voltadas para os LGBTs. Nesses encontros eram discutidos assuntos como a implantação do item “homofobia” nos boletins de ocorrência. Porém, segundo Célio, com a troca de governo houve uma descontinuidade desses projetos

As Paradas de Orgulho Gay ou Paradas Livres são uma forma de resistir e se fazer notar da população LGBT. Esses eventos, que são vistos como festas ou citados como orgias, são eventos de cunho político, pois neles, são reivindicados direitos, levantadas bandeiras do movimento e, por haver uma grande movimentação de massa, há uma visibilidade perante o STF, parlamentos e ministérios. Desde 1997, em Porto Alegre, sempre houve apoio por parte da Prefeitura Municipal, doando infraestrutura. Nesse ano, a prefeitura já comunicou com meses de antecedência que não fornecerá recursos para a realização do evento.

Em contrapartida à realidade da escassez de dados oficiais, a Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro é vanguardista ao adicionar o item de crimes motivados por homofobia nos boletins de ocorrência. Esse avanço ainda é insuficiente para que se elaborem políticas públicas para a diminuição dessa violência. Segundo o Grupo Gay da Bahia, o estado teve o terceiro maior número de mortes de LGBT do Brasil, em 2016. É um problema maior do que legislativo. O descaso do Estado a essa minoria é apenas um reflexo do que é cultural, a heterossexualidade é tida como única e autêntica sexualidade. Ser homossexual e assumir isso, hoje, ainda é uma afronta ao sistema.

A equipe de reportagem tentou contato, por diversas vezes, com os deputados Jair Bolsonaro e Jean Wyllys, porém não obteve retorno. Tentou contato também com a Prefeitura Municipal de Porto Alegre e não obteve retorno.

 

Latrocínio a cada 10 dias na Capital

(Por Ana Paula Lima)

A cada dez dias, um gaúcho morre em assalto na capital. De Janeiro a abril de 2017, ocorreram nove crimes de latrocínio, que é o roubo seguido de morte, na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Segundo indicadores criminais divulgados pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Rio Grande do Sul, nesse mesmo período em 2011, havia seis vítimas e em 2016 o número aumentou, totalizando em 15.  Contudo, a cidade gaúcha não é a única a apresentar casos de latrocínios neste ano, em todo o RS já são 42 vítimas, também divulgadas pela SSP.

Das nove vítimas de latrocínios na capital, até o fechamento desta reportagem, estão: Bassirou Diop, Pedro de Freitas Pinto, Altair Bock, José Carlos Bueno, Leo Edson Schwalb, Masahiro Hatori, Adriano Camargo Martins, Moisés Doring Jeske e Gabryel Machado Delgado. A maioria dos crimes aconteceu em bairros de Porto Alegre durante o dia, como o Centro, considerado um dos lugares mais perigosos da cidade, que teve duas mortes. As vítimas apresentam idade entre 20 a 67 anos e foram mortas a facadas ou tiros, e os pertences visados pelos bandidos eram carros, dinheiros e celulares.

O diretor da Delegacia Regional de Porto Alegre, Eduardo Hartz, disse que o principal fator para o crescimento de latrocínio é o aumento populacional e a diminuição do policiamento ostensivo, que é o serviço da Brigada Militar, assim habilitando o agressor a se sentir mais seguro a roubar. Mas, conforme o Centro de Informações Estatísticas/Núcleo de Demografia e Previdência (FEE), em 2011 a população da capital era de 1.463.596 e no ano de 2015 obteve um aumento não muito significativo e se estendeu para 1.475.717 habitantes.

Eduardo Hartz afirmou que das nove vítimas, quatro casos já estão resolvidos e os criminosos presos. Os outros cinco estão em fase de formalização, com pedidos de prisão decretados. Já no ano de 2016, em torno de 70% dos casos foram elucidados e 30% estão em investigação.

O delegado ainda ressalta que a resolução dos casos é mais complexa do que em casos de homicídio, quando normalmente um estudo sobre a vida da vítima pode auxiliar a identificar possíveis suspeitos. Porém, no latrocínio, por ser uma questão patrimonial, não existe relacionamento entre ambos, a pessoa atacada é escolhida de forma aleatória, dificultando a apuração do crime, que é considerado o mais grave investigado nas delegacias distritais. As investigações são feitas através de câmeras, retrato falado da pessoa que presenciou a cena do crime e denúncias. Para auxiliar nesta investigação, o diretor geral do Instituto de Perícias do RS, Cleber Muller, conta que em todos os acontecimentos que envolvem mortes, são recolhidas as digitais e muitos dos casos de latrocínio o bandido tem envolvimento com o tráfico de drogas.

O Artigo 157 do Código Penal, parágrafo V e inciso 3°, diz que se o roubo resulta em morte, a reclusão é de vinte a trinta anos. Mesmo assim parece existir um fatores que levam o assaltante a continuar na atividade delitiva. As observações do delegado Hartz são que a droga fomenta na pessoa uma vontade de adquirir meios para consumi-las. Ele ainda afirma que a forma mais fácil é assaltando e muitas vezes esse ladrão é iniciante, e está sob o efeito do crack. “Temos percebido que o perfil do assaltante, tem sido um bandido jovem, entre 18 e 19 anos, pessoas que não possuem uma perícia sobre a arma”, explica Hartz. Por isso, o roubo algumas vezes resulta em morte, no nervosismo e com medo de que a vítima reaja, o bandido atira. “Nós ouvimos da maioria dos agressores o seguinte argumento: Eu não queria matar, mas achei que ele fosse reagir e meu dedo estava no gatilho e quando vi aconteceu”, finaliza Eduardo Hartz.

Hoje, muitos jovens, menores de idade, estão envolvidos com assaltos e mortes. O Psicólogo Carlos Eduardo, explicou como começa esse envolvimento e diz que o bandido se forma em casa, entre a família.  “Existem famílias completamente desregradas, situações de pais que abandonam, se envolvem no crime e a criança desde pequena é carente, ela não tem os cuidados essenciais. E o estado não apresenta uma cobertura a falhas familiares”. Ele ainda complementa, que o latrocínio parece uma espécie de vingança, contra os maus tratos que o agressor recebeu na infância e assim aquela vítima irá pagar por isso. “O sujeito está drogado e existe um pensamento suprimido e ele executa o ato”, concretiza o psicólogo.

Já na percepção do doutor em sociologia com pós-doutorado em criminologia, Rodrigo Azevedo, o debate está muito mais ligado, na existência de uma cultura de sociabilidade violenta, dentro de determinadas áreas, onde o estado não está presente e quando aparece, é de forma violenta. Assim, gera um viés de como as pessoas entram no mundo da violência, elas acabam se socializando num contexto onde há arma de fogo e a violência vira um mecanismo de acerto de contas e administração de conflitos.

Para a resolução e a diminuição dos crimes de latrocínios em Porto Alegre, o delegado Hartz conta que é preciso colocar mais policiais da Brigada Militar nas ruas. “O policial fardado inibe o crime”. Também fala que o sistema prisional da capital gaúcha sofre certa deficiência, que deveria ter uma maior efetividade para que os agressores pudessem cumprir a pena necessária. Além disso, o sistema deveria oportunizar formas e projetos, para que o bandido volte para a sociedade melhor, pois 90% dos presos, não praticaram aquele crime pela primeira vez.

O sociólogo Azevedo apontou soluções, colocando em questão a necessidade de atuação da polícia, para recolher as armas de fogo, que estão circulando de forma ilícita. A partir do relatório preliminar ranking dos estados no controle de armas, divulgado no Fórum de Segurança Pública, a cada 100 habitantes no Rio Grande do Sul, uma a quatro pessoas, utilizam armas ilegais. Para Azevedo, a redução da violência, deve iniciar com um investimento em políticas sociais e uma melhora na oferta de ensino, especialmente nas áreas mais periféricas.

Hartz diz que estão trabalhando para que não haja mais casos em 2017. “Estamos identificando os agressores e solicitando a prisão com provas bem formalizadas, para que eles possam permanecer presos.” Ressalta também que o propósito é dar uma resposta ágil e qualificada, em relação aos acontecimentos de latrocínio e pede que a comunidade não reaja ao assalto e que mesmo que a situação seja complicada, tente manter a calma.

Para que haja uma redução nos crimes de latrocínio, é preciso uma preocupação maior do estado, deve haver mais policiais nas ruas e o sistema prisional necessita funcionar de forma em que o bandido saia da prisão diferente. O Código Penal tem que revisar as leis, pois o tempo de reclusão para os criminosos tem que ser muito maior, vinte a trinta anos é um número pequeno para a gravidade dos crimes. O investimento em escolas mais qualificadas, serviços de apoio, como pedagogas, é fundamental, principalmente aos colégios localizados nos lugares mais periféricos. Além de todas essas alternativas, é primordial que todas as armas ilegais sejam recolhidas. Entretanto, se existissem apenas armas legais, com certeza os casos de latrocínios seriam inferiores aos atuais.

Crédito: Leonardo Ferreira

 

 

Qual o lugar do indígena em Porto Alegre?

(Por Deise Freitas)

Caminhar pelas ruas de Porto Alegre é parte da rotina da população da capital gaúcha. Mas o seu caminho pode estar sendo observado se você não pertencer a parte hegemônica da população. As minorias sempre são acompanhadas por olhos que observam com desconfiança. Olhos preconceituosos e julgadores. Para os grupos indígenas, que trabalham no centro de Porto Alegre, os olhos não são lá muito amistosos. Eles vêm carregados de uma coisa muito antiga: o preconceito. Onde o preconceito contra o indígena começou? lá em 1500, ano do chamado “descobrimento do Brasil”. Quando os portugueses chegaram, estranharam os nativos – tinham certeza que o modo que viviam não estava certo. Tentaram despir de sua cultura aqueles que chamaram de “índios”. Isso foi há 517 anos, mas a marca da discriminação e da intolerância se mantém até hoje.

Centro de Porto Alegre, aos poucos o sol vai nascendo. As lojas abrem suas portas, pessoas caminham apressadas de um lado para outro, o movimento é constante. Toda essa cena está comandada pelo relógio. No meio do caos programado, há quem observa e segue no seu próprio tempo. Uma família indígena chega, são mulheres, homens e uma grande quantidade de crianças. Sem nem um comprometimento com o relógio, estende uma toalha bem simples. Em cima do pequeno pedaço de pano são cuidadosamente colocados alguns artesanatos. A família devidamente instalada está pronta para ser ignorada.

A Constituição de 1988 alterou como o indígena era visto pelo Estado e trouxe transformações às leis vigentes no Estatuto do índio de 1973. A principal mudança foi o reconhecimento do índio como índio. Parece estranha essa última frase, mas antes disso a identidade cultural dos povos indígenas não era respeitada. -Vistos como incapazes e fadados ao desaparecimento, os índios ficaram por muito tempo na sombra da existência.

Finalmente conquistou-se o direito a organização social, aos costumes, línguas, crenças e tradições. Mas quão assegurados os indígenas estão? Qual o suporte que o Estado lhes oferece para usufruir dos seus direitos?

Durante a semana,  famosa entre os porto alegrenses, rua da praia é ponto de comércio para Guarani, Kaigangue e Charrua. No final de semana o destino é o Parque da Redenção, onde a concentração de pessoas é grande – assim como o comércio ambulante. Além da venda de artesanatos, há apresentações de música e de dança indígenas. O que eram para ser locais de trabalho, acabam se transformando em lugares de violência social.

O cacique da Aldeia Cantagalo, Jaime Vherá Guyrá, relata as dificuldades que os indígenas passam ao tentar o sustento de suas famílias no centro de Porto Alegre. O descaso vem também de quem, por lei, tem compromisso de assistência: a prefeitura. “ Com muita briga, a gente teve muita briga pra ver se deixavam o indígena que está no meio do centro vender seu trabalho. Nunca recebemos com dignidade”, relata o cacique. Mas mesmo com a conquista, Jaime denuncia o descaso, a falta de apoio. Fala com pesar sobre as intempéries que dificultam as vendas dos artesanatos. Para ele a liberdade do comércio não basta, tem que haver estrutura e suporte.

O novo coordenador municipal dos Povos Indígenas, Guilherme Fuhr, concorda com o cacique da aldeia Cantagalo. Para ele, deve existir um apoio da prefeitura. “Não pode haver um retrocesso no que já foi conquistado”, salienta o coordenador. Como nova proposta de atuação para seu mandato, Guilherme Fuhr tem ideia de transformar o mês de abril no mês da cultura indígena – Como acontece em setembro, tradicional mês das comemorações gaúchas. O coordenador acredita que o conhecimento sobre a cultura indígena pode afastar o preconceito das pessoas.

Outra reclamação de Jaime é como os índios se sentem sob os olhares dos não indígenas (juruá em guarani). A falta de conhecimento da cultura indígena leva ao preconceito, e às vezes até a uma ação mais ríspida. Furh relata que a população liga para a prefeitura “denunciando” grupos indígenas pela forma que vivem no centro da capital gaúcha. Seja por estarem ocupando um espaço público ou pela presença das crianças, que costumam ficar brincando sem restrição de caminhada.

O antropólogo, Sérgio Baptista, explica melhor a relação do indígena na cidade com base em artefatos guaranis encontrados pela região do centro. “Foi sobre as aldeias indígenas guarani que a cidade se erigiu e se impôs. Igualmente, a presença deles continua após a fundação de Porto Alegre”, esclarece. E certamente mantendo seus antigos costumes, como o de criar os filhos de forma livre “não compreendendo como os juruá deixam seus filhos em creches”.

O espaço indígena tenta ser reconquistado. Das terras onde eram donos, hoje lutam com muito sofrimento para ter direito ao que é seu. E que a própria constituição brasileira garante. Luta solitária dos que compartilham o mesmo interesse. Interesse que a poucos interessa.

Ao andar pelo centro de Porto Alegre, a imagem da família sentada no chão com crianças correndo se destoa do restante, dos prédios, da pressa, dos manequins, dos carros… Mal sabem aqueles que estranham, que os estranhos são aqueles que olham com diferença e indiferença.

Brique da Redenção é espaço dominical para grupos indígenas venderem seus artesanatos (Deise Freitas)

 

Motoristas sofrem com constante insegurança

(Por Evelyn Lucena)

Motoristas de aplicativo estão sofrendo com a violência de diferentes formas, entre agressões psicológicas e físicas, chegando a casos de latrocínio (roubo seguido de morte). Segundo Formulário Social, 11,4% já foram vítimas de roubo na Capital. Com o aumento do medo e da violência, no dia 7 de março protestaram após um colega, vítima de latrocínio, ser encontrado morto.

Hoje a Uber conta com cerca de 8 mil motoristas em Porto Alegre e mais de 50 mil no Brasil inteiro, contabilizando 8,7 milhões de usuários. Com o início de uma atividade recente surgiu um novo risco que aumentou no ano passado. No dia sete de novembro de 2016 a Uber começou a aceitar dinheiro em espécie no Brasil para que os números de passageiros dobrassem. Por conta da preocupação dos motoristas perante a segurança, em fevereiro de 2017 começou a pedir CPF para as corridas em dinheiro. A empresa não respondeu o e-mail quando contatada até o encerramento da reportagem. Na visão dos motoristas essa forma não adiantou e muitos migraram para aplicativos que só aceitam cartão de crédito visando a segurança. “O que leva a violência ser mais recorrente por aceitar dinheiro é o cadastro falho que a empresa tem”, relata Amanda Capalbo, 42 anos e motorista de aplicativo.

Joel Teixeira, 59 anos, aposentado da aviação e também motorista, diz: “O recebimento do dinheiro em espécie abriu uma porta para que o pessoal nos aborde sabendo que estamos com dinheiro ali, isso se tornou muito perigoso para a gente, porque já aconteceu com vários colegas de serem assaltados por chamada em dinheiro”.

O comissário da Polícia Civil, Tarcio Guilherme Ribeiro, comenta sobre os principais cuidados que as pessoas devem ter, entre eles: dirigir com as portas trancadas e os vidros fechados, diminuir a velocidade antes de parar no semáforo, ficando menor tempo possível parado, evitar parar quando perceber algo suspeito e investir em equipamentos de segurança.

A empresa chegou no Brasil sem a autorização e clandestinamente. Se instalou e tomou conta da cidade, virando preferência da maioria dos passageiros que deixaram os táxis e migraram para os aplicativos. A Câmara dos Deputados aprovou a lei 5587/2016 do deputado federal Carlos Zaratini (PT-SP) que cria a regulamentação para implantação dos motoristas nas ruas e pede uma série de exigências com aprovação prévia da Prefeitura Municipal. Foi aceita com 276 dos votos.

A lei diz que os municípios e os Distrito Federal ficam encarregados de regulamentar e fiscalizar o serviço de transporte individual por aplicativos, devendo observar diretrizes que visem a eficiência e a segurança na prestação do serviço. Entretanto essa série de exigências tira o foco tanto da Uber quanto de qualquer empresa de motoristas de aplicativos, por tornar um serviço que é para ser privado, público​.

Dados de um Formulário Social feito pela reportagem do Unipautas, respondido por 86 motoristas de aplicativo, mostram que 64,4% dos motoristas já sofreram algum tipo de violência psicológica, onde acharam que seriam assaltados ou que estavam correndo algum tipo de risco enquanto trabalhavam. Muitos deles passaram a deixar de trabalhar até tarde ou de madrugada. Bom Jesus (87,2%), Cruzeiro (81,4%) e Mario Quintana (73,3%) estão entre os três lugares que os motoristas costumam achar mais perigosos e por conta disso, evitam aceitar as corridas. Segundo dados de eficiência da Secretaria de Segurança Pública o número de veículos fiscalizados em 2017 caiu, com uma diferença de 171,715 veículos que não foram fiscalizados em comparação com os números de 2016. Esse número pode estar relacionado com a insegurança e aumento de roubos de veículos na cidade.

Porto Alegre teve 803 furtos e 2,572 roubos de veículos, segundo a Secretaria de Segurança Pública neste ano. Com estes números e a constante violência na cidade, motoristas afirmam que já sentiram muito medo por pensar que seriam assaltados. Joel ainda conta uma situação pela qual achou que poderia ter sido agredido ou assaltado.

“Para cada chamada que recebo é uma novidade. É sempre uma surpresa e a gente sempre está em risco. Dependendo da localização cancelamos a viagem. O stress é grande e o cuidado mais ainda […] já tive passageiros suspeitos a bordo, entraram os dois e sentaram atrás. Mandaram subir o Morro Santa Tereza. Fiquei todo momento esperando levar um coronhaço e ser atacado por trás. Fiquei numa posição favorável para eles. Felizmente, deu tudo certo, pagaram e foram embora”. Ribeiro aconselha que os cidadãos devem sempre estar vigilantes, entretanto, não entrar em um “pânico social”, tendo bom senso do momento e lugar que estão. Ele também reforça como lidar com situações onde ocorrem riscos de latrocínio ou agressões: “Sempre em que a nossa vida, que é nosso maior bem, estiver em risco, devemos atender às situações deste tipo de abordagem, mesmo que levem o veículo, bens e valores em dinheiro”.

Para a psicóloga Marquerita Sobczak Martins: “É muito complicado e sofrido, pois o medo toma uma dimensão absurda, deixando a pessoa com dificuldades de concentração e de desenvolver suas atividades de trabalho, contribuindo muito para que ele tenha uma frustração e baixa autoestima, levando este indivíduo muitas vezes a ter que se afastar do seu emprego ou em último recurso, ter uma demissão”. Ela também avalia que muitos são os danos psicológicos e que as pessoas podem vir a ter ansiedades, crises do pânico, falta de concentração e insônia. “As fibromialgias estão intimamente ligadas ao medo, à sensação de estar em constante risco, como se estivessem sempre esperando que algo ruim possa acontecer e contribuindo para uma patologia mais tarde caso estas sensações não sejam tratadas. ” explica a psicóloga.

Para auxiliarmos a polícia ao combate ao crime, Ribeiro ressalta que devemos sempre fornecer informações mesmo que anônimas, incluindo realizar o B.O de veículos roubados.

Amanda ainda comenta: “não deixa de ser uma carona remunerada, mas diferente da carona, eu não sei quem é o passageiro que vai entrar no carro”. Ainda há muito o que ser ajustado em prol da segurança dos motoristas que deveria ser prioridade para a empresa.

Confira dados da pesquisa

Menos ciclovia, mais violência

(Por Richard Masiero)

‘’Quebrei a clavícula. Um pedestre cortou meu caminho na ciclovia da José [do Patrocínio], e como tem carros estacionados, não deu para desviar direito. Bati no retrovisor de um carro e fui ao chão.’’ Esse é o relato de Leonardo Accurso, fotógrafo, de 27 anos. ‘’Já apanhei, já tive que bater e já fui atropelado. No caso em que bati, eram dois tentando bater em mim.’’, disse Naian Meneghetti, empresário, 26 anos. Esses relatos são comuns entre ciclistas, o desrespeito e a violência se tornaram fatores diários nas ciclovias de Porto Alegre.

Essa violência é motivada devido à falta de urbanização. O Plano Diretor Cicloviário de Porto Alegre previa 495 quilômetros de ciclovias, distribuídas e interligadas pelas principais áreas da cidade. Somente 45,2 quilômetros foram construídos, compondo menos de 10% do que foi proposto. Através de seu portal on-line, a EPTC afirmou o atraso nas obras depende das contrapartidas dos empreendimentos imobiliários, os quais representam boa parte dos recursos. Existem ainda as ciclovias que estavam nos projetos das obras para a Copa do Mundo de 2014, que nunca saíram do papel. Com isso, os ciclistas são obrigados a trafegar de forma compartilhada com o trânsito, motivando os principais casos de violência.

‘’Nosso trânsito pode ser comparado à Lei da Selva, numa espécie de vale-tudo, onde o mais forte prepondera sobre o mais fraco. O ciclista e o pedestre constituem a parte mais vulnerável do sistema.’’, afirma João Fortini Albano, doutor em transportes. O ciclista, diante de não ter vias exclusivas, fica submetido a dividir espaço com carros, caminhões, ônibus, motos e pedestres. A ciclovia só tem condição de funcionar bem se formar uma rede interligada onde o ciclista possa se engrenar nos principais destinos, satisfazendo as necessidades de deslocamento. Apesar de ser baixo o custo para se fazer um quilômetro de ciclovia, a infraestrutura cicloviária de Porto Alegre está crescendo de maneira devagar. Não se observa uma grande vontade política.

Ciclista transitando na contramão, junto ao trânsito – Foto: Richard Masiero

 

Em abril deste ano, voluntários da Cidade da Bicicleta, um espaço aberto que fomenta a cultura da bicicleta na Capital, fizeram uma carta aberta para o Prefeito Nelson Marchezan Jr., solicitando atenção e agilidade. Quanto mais tempo se leva para construir as ciclovias planejadas, mais o plano inicial se torna obsoleto. Em 2013, a Câmara dos Deputados fez uma emenda constitucional que previa que 20% do valor arrecadado em multas de trânsito fossem revertidos para os projetos cicloviários. Em 2014 a emenda foi derrubada e o valor nunca chegou a ser aplicado na construção de ciclovias.

Ciclista trafegando sobre a calçada – Foto: Richard Masiero

 

Acidentes envolvendo ciclistas em Porto Alegre

Fonte: EPTC

Segundos os dados oficiais, até abril deste ano foram registrados 50 acidentes envolvendo ciclistas.

A equipe de reportagem conversou com um motorista, que preferiu não se identificar. Segundo ele, o espaço para os ciclistas é de suma importância, mas precisa ser mais bem pensado.

O que você acha sobre as ciclovias em Porto Alegre? ‘’É preciso ter um espaço para os ciclistas, senão eles ficam andando junto com a gente no trânsito. Correm risco de se machucar, ainda mais que a gente não cuida muito para o lado direito [da via], a gente olha mais para o lado esquerdo porque é onde passam as motos. Tem que fazer ciclovia, o que não pode é fazer que nem a do [Hospital] Mãe de Deus, que atrapalha todo trânsito.’’

O motorista se referiu à ciclovia da Avenida José de Alencar, no Bairro Menino Deus. Em frente ao Hospital Mãe de Deus, as duas vias da Avenida se transformam em apenas uma, porque existe um ponto de táxi e a ciclovia. Com isso, nos horários de maior movimento, os carros se afunilam para passar, gerando congestionamento.

Na Europa, o uso da bicicleta surgiu através dos movimentos ambientalistas. A bicicleta se posiciona a favor do meio ambiente e da saúde das pessoas. A construção de ciclovias incentiva o uso de transportes alternativos, mas é necessário que esse sistema atenda as necessidade de deslocamento, principalmente de casa para o trabalho e vice-versa. Além das ciclovias, é necessário também a existência de bicicletários, para ter onde deixar as bicicletas. No Brasil, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília são as cidades com uma estrutura cicloviária melhor desenvolvida. Porto Alegre ocupa o 13` lugar, segundo um levantamento da Organização Mobilize Brasil.

Em Porto Alegre, a realidade é a inexistência de ciclovias em quantidade suficiente, e quando o tráfego é compartilhado com outros veículos, existe falta de respeito e violência.

 

Uso das bikes

PRÓS

  • 10 bicicletas estacionadas ocupam espaço equivalente ao de 1 carro estacionado.
  • 5 bicicletas em movimento ocupam o espaço de um automóvel.
  • Nas distâncias entre 400 metros a 1,5 quilômetros, a bicicleta é o meio de transporte mais rápido.
  • 5.000 bicicletas em circulação representam 6,5 toneladas a menos de poluentes no ar.

 

CONTRAS

  • Vulnerabilidade a roubos
  • Lado mais fraco nas colisões
  • Dificuldades nas rampas e subidas extensas
  • Vento, frio e chuva
  • Poucas faixas para circular
  • Lenta para grandes deslocamentos

O que vive um LGBT Negro no Brasil

(William Corrêa)

De pele escura ou clara, criado por uma cultura racista. Na televisão, desenhos animados com protagonistas brancos, seus amigos eram negros, engraçado. Nunca se viu representado. Achou que fosse um palhaço, com seu cabelo black, todos riam na escola, apontavam e diziam ”É seu cabelo mesmo ou é esponja?”

Se reconhecer enquanto negro

Ser negro no Brasil sempre foi complexo, tanto para negros de pele clara, quanto para negros de pele escura. O longo caminho até chegar na aceitação, é árduo, graças ao processo de miscigenação e intenção real em embranquecer a população. Pessoas negras de pele clara aprendem a se reconhecer como brancas, o que não é diferente com as de pele escura, pois nossas estruturas sociais ainda são racistas. Quando este processo não é entendido na infância por uma criança negra, a aceitação é demorada. O privilégio de ter pele clara é transitar com mais facilidade num mundo que aparentemente te julga pela cor da pele, onde a falta de identidade e o fato de não saber quem se é, acaba de forma bruta, interferindo nessa aceitação.

 

Mulheres negras e o processo árduo da aceitação

“Nunca me considerei negra antes, até mesmo, pelo que as pessoas diziam: por eu ser clara, não ser tão negra.”

Estudante de Gestão Ambiental pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), Aládia Dutra, 21 anos, conta que até seus dezoito anos se considerava “parda”, por ser filha de pai branco e de mãe negra. Não que a estruturação (pai branco e mãe negra) fosse um problema, mesmo que fosse um grande problema. O principal fator que interferiu nessa aceitação, acredita, foi a ausência de diálogo, numa perspectiva baseada na miscigenação (por uma cultura que reforça o racismo cotidiano), ainda hoje, levada a sério no Brasil. Com ela, essa aceitação e entendimento, aconteceram de forma autônoma, como na verdade deve acontecer.

O não diálogo e entendimento é o que acaba afetando na compreensão da verdadeira identidade de uma pessoa negra. Quando não há essa troca de informação e direcionamento com uma visão diferente da que nos é transmitida pela história do Brasil, no âmbito escolar, acaba afetando nessa aceitação. A compreensão da identidade de raça que existe num contexto histórico equivocado, é o grande empecilho que perpetua durante o processo árduo até chegar à aceitação.

O Brasil sendo um país cultural e estruturalmente racista, tendo a escravidão como um pilar e que nos anos 30 desenvolveu um discurso firme, afirmou a ideia da democracia racial, com um pensamento que sugere de forma tranquila a miscigenação entre brancos, negros e índios. Essa ideia funciona para muitos, até hoje, para valer a opressão racial que ainda existe, tornando uma das bases principais para que a reprodução de desigualdades sociais se prolongue. Por este viés histórico e social, temos uma fraca autonomia vinda de uma aceitação por pessoas negras: tanto pelas de pele escura – que desde seu nascimento se entendem enquanto negras, mas que recusam sua cor, por conta da cultura racista imposta – como, pelas de pele clara – que não se entendem como brancas tampouco como negras.

Aládia explica que seus pais ainda não estão instruídos e preparados para discutirem sobre a negritude e a sua aceitação de identidade enquanto mulher negra de pele clara:

“Até hoje para eles sou parda, mulata. Não estão adaptados ainda, porém, estou sempre os corrigindo.”, conta.

Antes, a estudante não se reconhecia como pessoa negra (por conta de não se sentir pertencente à população negra), foi o que a fez aceitar sua condição enquanto mulher e negra, já que, não tinha uma identidade para se espelhar, tampouco a sua. Este entendimento, em que era possível ser negra e ter a pele clara, não existia, sua aceitação fez tudo se tornar possível nessa perspectiva. Mesmo que o racismo e a desligitimidade de sua identidade, enquanto mulher negra de pele clara, fosse testada, tanto pelo racismo social, quanto pelas pessoas mais próximas, continuou firme neste doloroso processo. A sociedade era determinante nessa aceitação tardia, por ela, mesmo que tardia, com seus dezoito anos, tinha uma identidade, a sua identidade de raça e se entendia enquanto negra, era o que bastava, por se amar, por se entender (ainda que a autoestima tivesse de ser trabalhada diariamente).

“Aceitei meu cabelo depois de perceber que pessoas com o cabelo maior que o meu e “melhor” que o meu, estavam passando pelo procedimento big chop para largar a progressiva.”

A estudante de Direito pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), Tatyani Rodrigues, 24 anos, afirma que o processo de alisamento, foi um processo que lhe trouxe autoestima, percebeu que era bonita e se sentia muito bem com o cabelo liso. No entanto, a química o detonou, gerando uma enorme insatisfação, sendo esse um dos fatores que abalou sua autoestima. Quando aceitou seu cabelo crespo entendeu que o processo anterior, era momentâneo, por ser uma autoestima embranquecida, algo que a fazia buscar uma adequação de um padrão de beleza.

Para Tatyani, o rap, foi um dos determinantes para seu protagonismo político e social, muito importante, ela reforça. Mesmo que sempre soubesse e tivesse entendimento de que era uma pessoa negra, porém, com maturidade, mais adiante, entendeu o que significava e o quanto precisava lutar para se afirmar numa sociedade munida de racismo.

“Quando resolvi passar pelo processo de transição, não foi uma decisão política de afirmação racial, mas os desdobramentos, sim.”, ressalta.

Antes de se reconhecerem enquanto negras, meninas alisam seus cabelos como representam a maioria das revistas focadas em moda, determinando um ”padrão de beleza”. Desta maneira, a sociedade afirma que elas devem ser mulheres embranquecidas; magras, cabelos presos, nada semelhante ao armado ou aceito, mas o que era bonito para a mídia, o de bem próximo ao de uma mulher branca. Sendo este, um padrão de beleza estabelecido pela sociedade; pelos meios de comunicação e principalmente pela publicidade. Com isso, os comerciais publicitários excluem diretamente as mulheres negras deslegitimando a representatividade e estabelecendo um padrão preconceituoso, reproduzido de racismo velado e/ou explícito.

“Quando criança, queria liso, nunca gostei dele cacheado. Vivia com o cabelo preso e achava feio. Escutava que era feio. Quando namorei, meu namorado gostava dele liso e pagou definitiva pra mim. Fiz, fui fazendo até decidir tentar me adaptar com os cachos, pois nos outros , achava bonito.”, relata Aládia. 

 

Homens negros gays: a estética patriarcal e sua sexualidade 

Os homens negros, por sua vez, cortam totalmente seus cabelos para serem aceitos no meio patriarcal de um hétero padrão; suas expressões e atitudes são mais rígidas e másculas, por conta do estereótipo socialmente que os é dado, o que não deixa de afetar veladamente sua ancestralidade, sexualidade e aceitação, por exemplo; se essa for a realidade de um homem negro gay, como é representada no filme Moonlight (um filme que toca nas feridas de um jovem negro), sua aceitação sexual, tende a não acontecer e quando acontece passa por um processo tão doloroso quanto o da sua aceitação de identidade negra.

No ensino fundamental nem mesmo no ensino médio teve professor que discutisse aceitação de identidade para pessoas negras, muito menos em casa, e assim, existem exemplos parecidos com a mesma realidade. Sua aceitação foi por volta dos 17 anos, na época, mesmo sendo um negro de pele escura, não tinha entendimento do quanto era importante para sua aceitação pessoal, afirmação social e valorização de uma estética que sempre foi vista como feia, deixar o cabelo crescer, se tornaria revolucionário.

Lembra que na época, mesmo que quisesse deixar o cabelo crescer, fazia o possível para invisibilizar sua própria estética, assim como as pessoas ao seu redor faziam. Pois, se o deixasse crescer, vivenciaria o que muitas crianças negras vivem no ambiente escolar e fora dele. Quando uma criança negra assume seu cabelo com ou sem entendimento social de afirmação política, não deixa de ouvir apelidos que se tornam frequentes: assolam, bombril, cotonete, cabelo ruim, peruca e tantos outros. O dito “bullying” que se trata de agressões de variadas formas, na verdade, não deixa de ser um racismo reproduzido por crianças. Porém, nenhuma criança nasce racista, a sociedade a ensina, o meio em que ela vive, a cultura reafirmando o ódio contra os negros, reforça o racismo. A discriminação é velada, muitas vezes, também explícita, agredindo de forma verbal e física, principalmente, afetando de forma intensa, a psicológica. Fora do meio escolar, a estética do jovem e do homem negro (com cabelo black) sempre foi vista de forma marginalizada, julgada como: exótica, suja, duvidosa e curiosa. Não que o racismo deixe de afetar negros com cabelo mais baixo, mas assumir e caminhar pela rua com ‘’black power’’ é ofensivo para a população brasileira.

Lucas Stempniak, 18 anos, estudante de Serviço Social pela Faculdade e Desenvolvimento do Rio Grande do Sul (FADERGS) explica que enquanto negro, nunca se odiou, até por que, sempre teve uma grande autoestima, o que a maioria das vezes é o contrário. Jamais se deixou abalar por qualquer piada ou comentário racista no âmbito escolar, suas atitudes, a todo o momento, na defensiva, não o privavam do racismo, até mesmo, institucional.

Muitos dos jovens negros, diferente de Lucas, não só odeiam as situações em si, como também, começam a se odiar: o seu cabelo, o seu nariz, a sua boca, a sua estética. O que acaba definindo um auto-ódio por conta de uma estrutura onde temos como domínio o racismo.

“Nunca deixei meu cabelo crescer por não acreditar que fosse bonito. Todos da minha família sempre me reafirmaram isso. Porém, sempre quis deixar crescer, mesmo que não tivesse consciência política do quão era importante para minha afirmação enquanto negro.”

O momento em que vivemos, tem tido amplas discussões de pautas voltadas ao processo de aceitação enquanto pessoa negra. Entretanto, o processo estrutural que foi imposto após a escravidão, ainda tem sido o mesmo mecanismo social para deslegitimar a população negra. O aceitar-se enquanto negro, é uma atitude revolucionária que nem toda pessoa negra tem entendimento, por todo este condicionamento estrutural e cultural que nos é apresentado, de geração a geração. As discussões precisam ser amplas para que o entendimento seja feito por parte de seus protagonistas: com espaço de voz, protagonismo e representatividade. O processo de aceitação precisa ser natural, leve e não doloroso.

 

LGBTfobia e racismo

Carnaval de Rua de Porto Alegre onde as pessoas aproveitam as férias, se divertem nos blocos, reencontram amigos, fazem blackface, agridem, desrespeitam a cultura alheia e vacilam, vacilam e muito. Carnaval, muita alegria: só que não!

Fevereiro, o mês que ficou marcado no corpo e na vida de Marcos Santana, jovem negro e gay de 19 anos que foi vítima de LGBTfobia na capital.

Depois de sair do bairro Cidade Baixa, onde acontecia o Carnaval de Rua deste ano, houve a abordagem pelos agressores. Próximo ao Parque da Redenção, quatro homens o cercaram, o jovem que estava sozinho, notou que o tom de voz violento e a aproximação cada vez mais intimista dos indivíduos, não fosse somente um assalto, o que na verdade não era. As agressões físicas começaram no momento em que ele se atentou à rápida aproximação, tentando fugir, o que não adiantou muito, mesmo tentando reagir, eram quatro homens contra um jovem imobilizado.

 “Comecei a me desaproximar deles, quando percebi que já estavam me intimidando, tentei reagir, não consegui escapar, pois querendo ou não, eles me cercaram, colocando um pano em meu rosto com querosene e álcool, foi quando perdi a consciência”, conta Marcos. 

O caso não apareceu em jornais impressos muito menos televisivos, ainda sendo desconhecido e de desinteresse pela grande mídia gaúcha, inclusive por parte da população porto-alegrense. Casos como este, acabam não tendo tanta relevância e interesse público, por se tornar mais um dado estatístico: mais uma vítima, mais um caso, mais uma violência e, dependendo do grau da violência, mais um LGBT negro morto. Por este motivo, enquanto pessoa livre, Marcos, perdeu totalmente sua autonomia diante de uma brutalidade que acontece todo dia a cada 1h com a população LGBT no país.

No Brasil, acontecem diariamente casos de LGBTfobia, o maior número de mortes ocorre na faixa dos 21 a 30 anos (Mascos, tinha 19 anos) segundo o Grupo Gay da Bahia, uma ONG voltada para a defesa dos direitos dos LGBT`s no país.  Mesmo não tendo dados estatísticos recentes e verídicos sobre violências físicas e psíquicas, a fragmentação das informações é um dos principais problemas enfrentados por uma sociedade que precisa urgentemente de políticas públicas que eduquem os cidadãos sobre a diversidade. O ano de 2016 foi um dos anos mais violentos desde os anos setenta contra pessoas LGBTs, foram registradas 343 mortes, entre Janeiro e Dezembro, ou seja, a cada 25 horas um LGBT foi e ainda é assassinado por conta da LGBTfobia, o que faz do Brasil, um país no topo de opressões quando se trata de gêneros. Uma violência que não está apenas nas ruas e não vem exclusivamente de desconhecidos, está presente em todos os âmbitos da sociedade e pode surgir de quem menos se espera, ainda mais quando não se tem o recorte racial tão necessário para dados estatísticos sobre essa intersecção de violência, uma vez que: um LGBT negro sofre duas, três, quatro vezes, ou até mais tipos de opressões por conta da questão social, racial, estética e de gênero. Os tipos de agressões passam de preconceito, violência verbal e física, até a um crime de ódio.

A intersecção de violências

Tâmara Biolo, fez parte da Gestão Estadual do Rio Grande do Sul, da Secretaria de Desenvolvimento Social, Trabalho, Justiça e Direitos Humanos, acompanhou o trabalho do Ministério dos Direitos Humanos em Brasília, quando ainda existia, que fazia um pouco da produção de dados estatísticos focado na violência com população LGBT. Porém, segundo ela, o país ainda é deficiente numa perspectiva de políticas públicas, pois a pesquisa é feita somente por uma fonte, no caso do Brasil, o que nem sempre é correto, sendo que há vítimas que acabam não denunciando a violência, o que acaba não gerando estatísticas. Diferente de outros países que fazem anualmente a pesquisa de vitimização, dentro dessa pesquisa vai trazer os vários recortes que uma comunidade em situação de vulnerabilidade vive:

“Por exemplo, as mulheres lésbicas alegam, e realmente isso é verdade, que elas sofrem mais discriminação e violência do que homens gays, as trans e as travestis, por sua vez, mais ainda, por outro componente também que é o tabu da sexualidade. Se a pessoa ainda for negra, então maior vai ser essa violência que ela vai sofrer por um fenômeno de discriminação cruzada. As discriminações e os preconceitos vão se somando, fazendo com que a pessoa fique numa situação maior de vulnerabilidade à violência e de exclusão.”, detalha Tâmara. 

Diferente​ do depoimento da advogada, Leonel Radde, agente da Polícia Civil da 1° Delegacia de Homicídios de Porto Alegre explica que esse tipo de estudo estatístico não existe, um homicídio contra pessoa LGBT entra no quadro geral, como lesão corporal. Ainda ressalta que só o sexo é computado: masculino ou feminino, não existindo nenhum atendimento específico direcionado ao público LGBT, o que na verdade existe, na academia, são aulas focadas nestas temáticas de acessibilidade onde debatem e tratam de direitos humanos. Leonel finaliza frisando que depende muito do profissional que vai estar no balcão fazendo o atendimento.

Marcos depois de ser agredido disse que foi à uma delegacia prestar queixas e denunciar o abuso que havia sofrido, segundo ele, o atendimento em especial às pessoas LGBTs são como se fosse qualquer outro. O jovem se sentiu imponente no momento em que descrevia a situação, por achar que só fosse mais um caso e que não tomasse proporção. Detalha que não sofreu alguma discriminação no local mas que​ ainda assim é necessário um preparo especial e direcionado ao público que é socialmente vulnerável a violência, como por exemplo; as mulheres, os negros e a comunidade LGBT.

mais recente pesquisa cedida pela Secretaria Especial de Direitos Humanos do Ministério da Justiça e Cidadania disponibiliza em seu site o “Relatório de Violência Homofóbica no Brasil” do ano de 2013, o documento apresenta dados de enfrentamento à homofobia e às demais formas de preconceito no país naquele ano. Um estudo completo, tendo parceria juntamente com o Grupo Gay da Bahia. Segundo o levantamento realizado pela ONG, a pesquisa foi feita de forma hemerográfica, com base em notícias publicadas em veículos de comunicação.

Por outro lado, temos poucos grupos de discussões que apresentem dados estatísticos com o recorte racial dentro da população LGBT que foi o caso de violência sofrido pelo Marcos Santana. O Coletivo Camaleão – Coletivo Universitário de Defesa Sexual e Identidade de Gênero da Universidade Federal do Rio Grande tem como objetivo dar visibilidade e promoção de discussões sobre diversidade sexual e gênero, como também, fatores que estão relacionados e que potencializam opressões fazem parte da identidade dos sujeitos; raça, etnia, classe, idade e regionalidade, por exemplo.

Louize Bueno, 24 anos, integrante do Coletivo explica que enquanto mulher negra de pele clara, o racismo não é tão exacerbado ou evidenciado, pela cor da pele. Enquanto uma pessoa negra de pele mais escura, morador de periferia está constantemente em situação de vulnerabilidade, onde a abordagem é agressiva por parte do poder de segurança pública que ao invés de assegurar suas vidas, invisibiliza o negro, pobre e favelado, e quando LGBT, a situação não muda de figura. Contudo, estando no ambiente acadêmico, a estudante, mesmo sendo cotista, diz que algumas vezes se blinda de situações de violências. Porém, ressalta:

“Ainda assim, há momentos em que fica muito evidente a hipersexualização que meu corpo mestiço sofre. Essa hipersexualização se potencializa com minha sexualidade: sou lésbica assumida e quando se junta aos demais aspetos do racismo, essas duas opressões se somam e me torno mais um alvo de violências para essa sociedade racista, machista e LGBTfóbica desabafa, Louize.

Dentro do movimento LGBT não existe recorte racial, tampouco de classe, para pessoas negras, pois para entender que sobre tudo as pessoas LGTB’s que estão em situação de mais exposição de violência e de precarização da vida, são negras. Tiago Serafim, também integrante do Coletivo Camaleão, reforça a frase de uma das representatividades que recorta em seus discursos políticos o poder da mulher negra. Angela Davis, professora e filósofa, sendo mulher negra, lésbica e integrante dos Panteras Negras (grupo revolucionário americano da década de 60), afirma em seu livro “Mulher, Raça e Classe” que a raça, indica a classe.  Por este motivo, o mercado de trabalho na sociedade capitalista sofre por diversas contradições que acabam contribuindo para a desigualdade existente com a classe trabalhadora, atingindo principalmente as mulheres, negros, LGBT’s e pobres. Com isso, essas particularidades sofrem condições diferentes no processo de exploração da sua força de trabalho, em função de seu sexo, raça, orientação sexual e condição econômica, por meio deste abuso de poder.

Mesmo com vasta informação e protagonismo da população negra na mídia, e da representatividade legítima de mulheres negras em cargos de poder, a luta tem sido árdua à comunidade LGBT negra, principalmente, às mulheres negras, onde os direitos são deixados de lado, em que o assédio moral aumenta e o abuso de poder, a maioria das vezes, vem munido de discriminações.

Natalia Flores, 20 anos, estudante de Gestão em RH, disse que nunca foi silenciada mesmo sendo deficiente física, o que a torna num contexto social cinco vezes oprimida: por ser mulher, negra, lésbica, pobre e deficiente física. Sempre firma em suas posições sendo no mercado de trabalho ou aonde quer que seja. Acredita que racismo existe e que com ela, é sempre tudo bem velado.

Existem poucos espaços de acolhimento e atendimento psíquico e focado em discussões para saber lidar com essa problemática social que é a LGBTfobia munida do racismo, o Centro de Referência em Direitos Humanos, Relações de Gênero, Diversidade Sexual e Raça (CRDH), é um projeto desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisa em Sexualidade e Relações de Gênero (NUPSEX) da UFRGS que tanto acolhe, como também orienta vítimas de discriminação, promovendo a discussão e formação no âmbito de direitos humanos. Tem como principal objetivo proporcionar acolhimento e orientação à população LGBT vítima de discriminação, violência, preconceito relacionados à identidade de gênero e orientação sexual; realiza formação e qualifica profissionais das políticas públicas de educação, saúde, segurança pública e assistência social; assim como projetos de formação para escolas de ensino fundamental e médio. Por meio do Ciclo de Cinema, busca promover o debate e a reflexão a respeito de temáticas que se relacionam com o pleno exercício da cidadania e dos direitos humanos. O espaço acolhe pessoas vítimas neste âmbito em Porto Alegre, e através de sua página no Facebook,  vem sempre executando atividades que são divulgadas e compartilhadas, o Centro reforça a temática da sexualidade e suas conjunções com o gênero, a raça, a classe e diversos outros marcadores sociais.

O trabalho com a população LGBT não deixa de ser delicado e de forma colaborativa, o local desenvolve alguns tipos de atividades, o primeiro passo individual é o acolhimento, desenvolvido um trabalho especial em conjunto que possam suprir as necessidades da pessoa:

“Agendamos uma conversa com ela e depois encaminhamos para algum lugar, por exemplo; a demanda que mais temos são às pessoas transexuais, então, criamos um grupo de convivência de pessoas trans para pessoas trans, em elas possam trocar experiências de vida. E também, a partir de demanda, mais focada em eventos com temáticas específicas, por exemplo; se uma escola precisa falar sobre transexualidade no âmbito escolar, nós organizamos uma roda de conversa dentro da instituição.”, esclarece Tiago Rodrigues, estudante de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

A sociedade de forma ampla precisa se atentar e compreender a diversidade social que o Brasil tem. A partir da empatia e de decisões para leis cabíveis, promover discussões com pautas atuais e relevantes pro meio escolar, político e cultural. Para que assim, haja o entendimento e respeito de que um LGBT, um negro ou uma mulher em condição vulnerável, sofrem com frequência uma sobreposição de violências estruturais.

 

Aládia e seu processo de reconhecimento enquanto mulher negra

Marcos manifesta sua indignação

Fotos de William Corrêa

 

A espetacularização das brigas entre torcedores pela imprensa

(Por Victória Alfama)

Estádio Beira-Rio, dia de clássico Gre-Nal: 1o de março de 2015. A Geral do Grêmio, acompanhada do restante da torcida gremista, se desloca desde o ponto de encontro no antigo Olímpico, no bairro Azenha, em Porto Alegre. Na chegada, confronto entre torcedores. Uma pessoa é ferida por uma pedrada. Arena do Grêmio, dois anos antes, outro Gre-Nal: torcedores marcam uma briga na esta- ção de metrô de Sapucaia do Sul, da Trensurb. Dois torcedores são presos e 11 vidros de um vagão, estilhaçados. Horas depois, relatos sobre as cenas de violência já podiam ser encontradas em sites dos principais jornais, dividindo espaço com as informações sobre as partidas. É neste momento, segundo especialistas, que, em alguns casos, os setoristas de esporte estão pisando na bola. Narrando cenas de brigas, os repórteres trabalham como correspondentes de guerras em dias de clássicos na Capital. A narração das brigas sem contextualização e o uso de termos como “rivais”, “guerra” e “batalha”, muitas vezes, serve mais para promover os integrantes das torcidas envolvidos em confrontos do que para buscar soluções. Diante de diversas coberturas da imprensa local, muitos concordam em mudar a forma como ocorre a apuração das brigas. “Vários fatores precisam ser questionados. Desde a forma como os clubes financiam as Organizadas, passando, inclusive, pelo clima de guerra proporcionado pelos veículos de comunicação”, afirmou Sandra de Deus, coordenadora do Curso de Especialização e líder do grupo de pesquisa em Jornalismo Esportivo da UFRGS. Para Sandra, brigas não devem ser consideradas como um acontecimento alheio ao futebol. Segundo a jornalista, não existe a “diminuição” da gravidade das brigas; existe, sim, uma cobertura irreflexiva, onde a espetacularização dos fatos se sobrepõe à apuração jornalística. Visão semelhante pode ser encontrada no Ministério Público. Segundo o promotor responsável, Márcio Bressani, a forma de abordagem da imprensa frequentemente é equivocada, tomando proporções descabidas. “Existe, por vezes, uma desproporção. Questões positivas são deixadas de lado e as questões negativas acabam tomando o lugar”, relatou o promotor. Questionado sobre a possível influência que matérias negativas podem ter nos leitores, Bressani afirma: “sem dúvida nenhuma. Existem pessoas que não possuem discernimento para entender que aquilo é uma questão negativa e já pensam em vingança”. “Nós acompanhamos as brigas, acompanhamos a punição e o cumprimento da punição”, relatou o editor Diego Araújo, sobre a cobertura na editoria de esporte da Zero Hora. Desde 2012, o jornal possui um grupo de investigação para cobrir este o polêmico dentro do futebol, sempre dando espaço para o contraponto dos envolvidos. Segundo Araújo, o grupo investiga o fato com falas de todas as partes envolvidas, inclusive da torcida organizada. Além do acompanhamento das situações de violência, a equipe relatou casos de dinheiro entre clubes e torcidas organizadas e falhas no cumprimento de punições de torcedores que não poderiam frequentar os estádios. Os jornalistas realizam a cobertura normal em dias de jogos e, em casos de matérias especiais, se infiltram entre os torcedores. “Fizemos uma série de reportagens sobre as torcidas organizadas há nove anos. Nos infiltramos e descobrimos como elas funcionam”, explicou ainda Cid Martins, repórter da Rádio Gaúcha. Outras iniciativas passam pela aproximação dos repórteres com as torcidas nas arquibancadas. Um exemplo é o trabalho feito por jornalistas da Rádio Gaúcha. “Trouxemos a identificação com o torcedor nas arquibancadas. Faz parte do nosso acompanhamento”, relatou Kelly Matos, repórter da Gaúcha. Já no Correio do Povo, diante do fato, após a localização dos participantes, os repórteres escutam os agressores, os seguranças, o Ministério Público e a Federação Gaúcha de Futebol. “Jornalista não é o dono da verdade. Ouvimos todos os lados e tu tens a tua opinião. Não necessariamente, na maioria das vezes, é a melhor opinião ”, comentou Hiltor Mombach, editor de esporte do Correio do Povo. Para os especialistas, no entanto, caberia aos jornalistas a melhor apuração dos fatores ligados à violência fora dos gramados, como as origens dos episódios de brigas nas torcidas e os incentivos que os clubes dão às torcidas organizadas, compreendendo a relação entre os envolvidos para além da troca de socos.

 

 

 

 

No pain, no gain: quando o incentivo vira abuso no esporte

(Por Luana Meireles Carvalho)

Treinos longos, sequência de exercícios rigorosos, gritos incessantes, tapas na cabeça, ironias, “pagar” mais um abdominal, dormir no chão, deboches e frases como você está cortado, não preciso de perdedor. Essas são algumas das situações que atletas sofrem de treinadores esportivos no Rio Grande do Sul. Ainda em processo de formação esses atletas entram em clubes esportivos, responsáveis por treinar, revelar e patrocinar diferentes modalidades. O esporte praticado por eles encarado de maneira profissional, lazer ou até mesmo como ideal de vida, muitas vezes vira um cenário de dor, angústia, pressão e violência.

“Desilusão, deprimido, só durmo, troco o dia pela noite, aquela vida de atleta não tenho mais. Deixei tudo para trás e ainda penso em desistir da modalidade. Vou seguir em frente. Mas foi uma atitude suja, me abalou totalmente psicologicamente“, relata o atleta de Voleibol, Michel Fritsch Dick. A imagem do que é ser um atleta é refletida em conseguir ser um grande jogador, ganhar dinheiro, ajudar a família, ter uma ascensão social ou ser reconhecido pela mídia. Resultando no espelho da sociedade onde a grande massa populacional pressupõe em ganhar ou perder. Por essa busca incessante o atleta aceita se submeter a condições de níveis altíssimos de treinos insanos para conseguir chegar no objetivo, no resultado esperado.

Até onde profissionais, os chamados “técnicos” devem exigir do seu atleta? Exercícios feitos de forma agressiva, testes de resistência, treinos longos ou um simples tapa na cabeça. Segundo psicólogo Eduardo Souza, o atleta acaba entrando em over training, sobrecarga, excesso de estimulação. Um aumento muito rápido do número ou da intensidade das sessões de treinamento, instruções forçadas de movimentos tecnicamente muito difíceis, métodos de programas de treinamentos unilaterais ou muito intensos, pausas de recuperação insuficientes, e consequências estressantes para o corpo.

Levando o atleta a adquirir transtornos psíquicos, como stress, ansiedade, mal-estar, lesões e sofrimento. Distanciando de vez as considerações mentais, físicas e sociais deste indivíduo. “Dirigentes aproveitam desta situação e tratam o atleta como um produto a ser lançado, entre mil deles um vai vingar, se der certo ótimo. Caso contrário são descartados”, afirma Eduardo Souza.

Para as meninas do futebol feminino do Internacional já é diferente. Elas que participaram de uma peneira com mais de 700 mulheres, vindas de todas as partes do estado do Rio Grande do Sul para disputar vaga para o time formado deste ano. As atletas do Internacional estão passando por uma preparação intensa, mas com muita atenção com a carga de treino, intensidade e volume. Visando ainda disputar o Gauchão 2017 e ano que vem participar do Brasileirão série A2.

Há três messes as meninas não eram atletas e agora elas são. E atleta deve ter um tratamento diferente de quem joga na várzea, entre amigos ou quem joga por jogar. Dentro da individualidade de cada uma, algumas são mais sensíveis, teimosas, fortes, outras não aceitam críticas, mas todas entendem o contexto que elas são profissionais de futebol. “A cobrança sempre vai existir. Tanto de nós com elas, e elas com elas, todas juntas com o mesmo objetivo. Chegar em resultados sem ultrapassar os limites morais, éticos do ser humano”, comenta preparadora física do futebol feminino do Internacional, Suellen Ramos.

Atrás de um atleta revelado em alto desempenho ou um amador recém-mirim iniciando no mundo do esporte, há situações que não deveriam acontecer e acabam sendo simbolizadas pelo silêncio. Muitas vezes, as agressões só são detectadas em dias de competição por um árbitro ou assistente. Tendo como papel ser o mediador do espírito esportivo, o árbitro preza por uma disputa a mais equilibrada possível, presenciando e tendo uma visão completa do atleta, treinador, clube e torcida. Busca o chamado Flair Play, jogos limpos, justos. Além de estar atento a respeito da aplicação das regras de cada modalidade, presa que o jogo ocorra da forma mais saudável.

Por isso, Lisandro Paim dos Santos, árbitro internacional de vôlei de praia, defende como postura ideal de um treinador que o fator determinante seja o de potencializar, focar em buscar um desempenho, táticas e práticas, dar suporte. Não inserir responsabilidades se não conhece o perfil da pessoa. Achar métodos de alavanca o progresso. “Isso dá trabalho. Educador é vocação, treinador é mais uma profissão. Treinador tem que fazer, sem reclamar.  Educadores entendem o perfil de cada adulto ou criança, que chega em suas mãos, na tomada de decisões diferentes para cada um. O problema não é ser agressivo, mas mal-educado. Agressividade só serve para aumentar o potencial no jogo, não para atrapalhar socialmente o grupo”, conta Lisandro Paim.

Os atletas também sofrem com pressões de outros lados. Além de treinadores, presidentes e diretores de clubes cobram resultado imediatos. “Dirigentes visam só o lucro. Tratar mal o pejorativo do lucro é burrice, o que resulta no retorno financeiro. O atleta não alcança o potencial dele, pode até ser muito bom, pode dar resultados, mas poderia dar muito mais frutos por um longo período de tempo se estivesse em outras condições. Milhares de talentos abandonam o esporte por conta disso”, informa técnica de ginástica artística, principal feminino da Sogipa, Lisiane Lewis.

O esporte que muda gerações, salva vidas, transforma vencedores. Será que está bem representado por seus treinadores? O que está por trás de tudo isso? “Cobro bastante. Trabalho com a autonomia de um atleta que ele deve saber se defender, saber lidar com as situações. Meu atleta tem que colocar a cara a tapa, para ter uma evolução. Eles não são um grupo de associados para participar de um campeonato, eles são atletas que representam um clube, vivência do mundo real, alcançar o ponto mais alto, tem que render. Sou o patrão, o chefe de vocês e vou cobrar resultados. Os fracos desistem, quando ele vai encarar esses desafios? ”, ressalta treinador de voleibol da Sogipa, Lúcindo Júnior.

Segundo Lúcindo Júnior, ele vem de uma formação que se cobrava mais e hoje em dia sofre problemas. ” Cobro demais dos meus atletas e os pais estão querendo a “minha cabeça”, por que xingo, grito, mas aqui não é grupo de estudos. Mas todos acham que o culpado é sempre o treinador. O que é avaliado? O cara que cobra para ter resultados ou o que passa só a mão por cima para garantir o seu emprego. Anos atrás já fui mais linha dura que hoje. Antigamente elogiava menos. Digo que é o mínimo que o atleta tinha que fazer. Mas ninguém é um profissional pronto, cada ano procuro evoluir, mudar para me adaptar ao trabalho e ao meu público”, completa Lúcindo.

De acordo com o Tribunal de Justiça Desportiva do RS, respeitar os princípios éticos, regras esportivas e principalmente a saúde dos competidores é regra geral no esporte, pois faltando algum desses três elementos não há espetáculo. Casos como do atleta Michel Dick não são registrados no Tribunal, nem em Confederações esportivas. Ficam apenas na memória das vítimas, que sofrem, muitas vezes, em silêncio.

“Pode ser uma talentosa pessoa que tem potencialidade que se eu falar: rola, pula, carrega 20 quilos ela vai fazer, o perfil é mais próximo a isso, mas se todos forem assim, o grupo vai se matar entre eles”, afirma árbitro Lisandro Paim. O sentimento de alcançar metas individuais é o primeiro passo para desagrega qualquer grupo, seja ele esportivo ou empresarial. Tudo começa de dentro para fora. Os líderes vão passar para seus liderados, os liderados vão passar para suas casas e a casa vai passar para torcida. Essa é a cultura esportiva desta geração de campeões.

Foto: Luana Meireles

Entre bombas e flores

(Por Guilherme Telmo)

Abdul abre um longo e generoso sorriso ao receber a reportagem.

“Salamaleico”, ele cumprimenta, usando uma expressão árabe que significa “que a paz esteja com você”. Expressão tradicional que por muitas vezes é relacionada com praticantes de violência e terror. Abdul é xeque (líder espiritual) da mesquita de Canoas, segunda maior do estado e um dos mais de 35 mil muçulmanos que habitam o Brasil, segundo o senso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ele acredita, porém, que esse número é muito maior, podendo alcançar a casa de 800 mil fiéis, devido à grande quantidade de imigrantes que chegaram ao país. Dentre essa enorme quantidade, ele faz parte de um povo que sofre constantes discriminações e mesmo a milhares de quilômetros distantes de sua terra, enfrentam em situações cotidianas o preconceito da sociedade ocidental.

O xeque afirma conhecer algumas dezenas de pessoas que acreditavam encontrar no Brasil uma alternativa viável a onda de xenofobia espalhada por diversos países da Europa. Porém, a realidade não se mostrou-se tão favorável assim. Embora não existam números concretos e denúncias conclusivas, quem procura fugir da caótica situação no Oriente Médio encontra resistência e enfrenta preconceitos por boa parcela da população. “Certa vez, descendo de um voo em São Paulo, uma criança apontou para mim e disse em voz alta a sua mãe que eu parecia com um daqueles homens bombas da TV. A invés de repreender seu filho, ela me olhou como se eu fosse uma criatura desprezível. Me senti mal por não ser a primeira situação parecida que já vivi”, conta Abdul. Na ocasião, estar vestindo Cirwal e Trabush, trajes típicos da cultura muçulmana foram suficientes para despertar olhares preconceituosos. Ele teme que a onda conservadora que parece se espalhar pelo mundo atinge seus “irmãos e irmãs. “; lhe causa preocupação a recente eleição do republicano Donald Trump para governos os Estados Unidos.

Abdul afirma que problematização Oriente contra Ocidente nunca esteve tão radical e acirrada, e que isso tende a prejudicar “toda a comunidade islâmica, incluindo a que se encontra no Brasil. “Desde a Idade antiga, já existiam conflitos entre o mundo ocidental e o mundo oriental. Mas o que é importante salientar é que não existe uma relação de causa e efeito, não sendo necessariamente obrigatório um choque cultural e bélico entre as duas civilizações˜, explica Denise Rochi, especialista em Relações Internacionais. Ainda segundo Denise, a associação feita entre muçulmano e terrorista por partes dos “países de primeiro mundo” aumentou consideravelmente após o atentado de 11 de setembro. “Não foi o primeiro ataque da história, porém devido a visibilidade, impacto, número de vítimas altíssimo, no coração de um dos grandes centros mundiais, com certeza foi o de maior repercussão. A partir dali, e logo depois sendo iniciada a ‘Guerra ao Terror’, a imagem do cidadão islâmico foi estereotipada como de terrorista, provocando as tensões que vemos até hoje”, completa.

Para Bernardo Lewwgoy, doutor e especialista em antropologia pela UFRGS, a xenofobia alimenta os atos extremistas e fortalece os grupos terroristas. De acordo com ele, as práticas intolerantes vão de acordo ao que pregam os radicais, de que o Ocidente é inimigo e, portanto, deve ser castigado.  Lewgoy diz ainda que possibilidades de ataques terroristas no Brasil, apesar da pouca prováveis, podem acontecer. Isso, segundo o antropólogo, se deve à onda crescente do conservadorismo no país e um possível aumento de importância nas relações internacionais com os países europeus e os Estados Unidos, surgindo como um possível novo alvo de atentados.

Em meio a este cenário, Abdul questiona a falta de interesse das pessoas em aprender a diferenciar radicais islâmicos e praticantes da doutrina difundida por Maomé. “O Alcorão nos ensina somente a praticar o bem, amar o próximo, assim como outros livros sagrados como a Bíblia e o Torá. Pagamos pela distorção que alguns indivíduos, que não são muçulmanos, fazem das escrituras sagradas” afirma, salientando que existem “malucos” em todas as crenças. Ele se entristece a lembrar o recente incidente ocorrido na Síria, onde armas químicas foram deliberadamente lançadas contra civis deixando 92 pessoas mortas, grande parte delas crianças. Acredita que episódios como esse só aumentam o ódio por parte dos radicais e influenciam a incidência de novos ataques globais. Segundo dados da Oxford Research Group, instituição de pesquisa britânica, mais de 11 mil crianças já morreram somente na Síria desde o início da guerra civil em março de 2011. Se forem adicionados números em outros países árabes que passam por conflitos, como o Iraque, o número total de crianças mortas nos últimos 5 anos alcança os 13 mil. Vítimas de ataques repentinos, muitas das crianças que ficam no caminho acabam sendo doutrinadas e inseridas no contexto terrorista desde cedo. “Imagine para uma criança que acaba de perder os pais, vítima de bombardeios e ataques. Na cabeça delas, a situação se torna confusa e basta um pequeno empurrão para, infelizmente, seguir o caminho errado” comenta a Psicóloga Fernanda Marret, que trabalha com crianças carentes e também presta serviços voluntários a jovens órfãos.  Ela afirma ainda que é natural do ser humano, especialmente crianças, ao se encontrarem desamparadas, seguir os conselhos e ensinamentos da primeira pessoa que lhe aparece, o que muitas vezes, no contexto em que vivem, são extremistas. Alimentando-as com ódio e com o falso pretexto que é o certo para seguir os ensinamentos do Alcorão, tem-se aí um potencial terrorista em formação.

Na mesquita, porém, as crianças que frequentam o espaço parecem distantes da triste realidade que assola os países em guerra. Nem todas que ali estão são muçulmanas (a grande maioria não é, aliás) mas estão inclusas nas atividades didáticas promovidas por Abdul. Aulas e oficinas são oferecidas para os pequenos todas as sextas-feiras, o que é motivo de orgulho para o xeque. “Sou professor, e como todo educador, sendo muçulmano ou não, tenho o objetivo de apresentar o mundo para essas crianças, e evidentemente, desde cedo fomentar a semente da solidariedade e aceitação das diferenças na cabeça delas. Assim como eu, existem diversos outros que fazem atividades parecidas Brasil a fora, muçulmanos, que infelizmente não tem seu trabalho reconhecido e continuam sendo alvo de perseguições e insultos”, aponta o xeque. Já são 16h, e está na hora de deixar o local. Abdul se dispõe para marcarmos uma nova visita, caso haja necessidade em contatá-lo de novo. Ele se despede com outra tradicional saudação islâmica e regressa para dentro de seu lugar preferido, onde se sente livre para colocar em prática os ensinamentos que aprendeu. Ensinamentos que não envolvem terror e violência.

 

 

À espera da humilhação

(Por Lúcia Haggstrom)

O artigo 5º da Constituição Federal determina que a pena deve ser cumprida pelo detento e mais ninguém. Em frente à entrada do Presídio Central, no entanto, em dias de visita, centenas de pessoas, a maioria mulheres, se organizam em uma fila dupla de aproximadamente 200 metros, carregando sacolas plásticas com comidas, roupas e dinheiro para entregar a seus familiares apenados. Expostas à fina garoa e a brisa gelada, no sábado de véspera do Dia das Mães, algumas delas precisaram disputar o espaço da calçada com comerciantes locais que vendiam sacolas e roupas aceitas na revista, classificadas por muitas como humilhante.

“O que a gente não faz por amor?”, comentou com um leve sorriso a visitante D.F., 21, que preferiu não ser identificada. Ela relata que a aquisição dos equipamentos de revista eletrônica não basta para que as humilhações acabem. “Eles já colocaram o scanner para evitar o constrangimento, mas não mudou nada… A gente passa pela esteira e depois levanta o sutiã, baixa a calça até os joelhos, aí tem que abrir os cabelos e mostrar a língua, porque elas (as Policiais Militares responsáveis pela revista) não sabem olhar ali na máquina”, desabafa a visitante.

Até 2014, os visitantes podiam ser obrigados a se despir, agachar e tossir algumas vezes. Esse processo ocorria para se certificar de que não estavam tentando ingressar com drogas e outros materiais ilícitos dentro da unidade penitenciária. Como resultado de um processo emitido em fevereiro do mesmo ano, esse tipo de procedimento foi vetado em todo o sistema carcerário gaúcho, inclusive no Presídio Central, o principal do Estado. Um scanner corporal foi adquirido para que a revista manual não fosse mais necessária. Porém, o que é previsto em lei está muito distante da realidade.

O juiz da 1ª Vara de Execuções criminais, que é responsável pelo Presídio Central, Sidinei Brzuska, explica o motivo desses abusos ainda ocorrerem. “Essa é uma questão que está muito enraizada na cultura e muitas vezes troca o servidor, ou assumem novos servidores que não sabem disso e acabam submetendo a visita a essa revista, sendo que existem decisões judiciais que proíbem isso”. Para ele, há uma falha na instrução dos profissionais que acabam cometendo os equívocos. Entretanto, apesar de ter atuado para o fim das revistas íntimas, mesmo com novas denúncias sobre excessos, nenhuma intervenção foi feita por parte da vara para que servidores, mesmo que recém-chegados, estejam cientes das regras. Um dos promotores de Justiça da fiscalização de presídios do Ministério Público do Rio Grande do Sul responsável pela fiscalização do Presídio Central, Luciano Pretto, lamenta que isso ainda seja uma realidade e expõe as limitações da promotoria em combater esses abusos. “Infelizmente nós não podemos fazer muito por elas, porque a maioria não quer se identificar para não sofrer represálias… e sem essa identificação a promotoria fica de mãos atadas […] sobre as situações específicas não existe o que possa ser feito sem a denúncia formalizada”, defende Pretto.

Além dos relatos de mal-uso do equipamento, ainda há reclamações a respeito da falta de critério para entrada de visitantes. M.R.B., 49 anos, visita seu irmão pela segunda vez no presídio. Ele foi preso preventivamente e não tinha antecedentes criminais. A irmã critica a falta de padronização para a entrada. “Não tem um padrão, elas (as PMs) definem na hora se tu vai ou não entrar, me parece um abuso de poder delas […] elas te nivelam como se tu também fosse bandida”. O juiz defende que o ingresso seja para todos da mesma forma, mas destaca que não há como isso ser modificado hoje. O diretor do Presídio Central, tenente-coronel Gayer, argumenta que o tratamento é adequado. “O tratamento que é dado para elas é digno, mas não é de amizade. É de carcereiro, de sempre achar que vai entrar material ilícito”.  No entanto, os relatos não são de encarcerados, mas de seus visitantes que avaliam que a desconfiança não justifica o tratamento agressivo.

D.F.,21, visita o marido que cumpre pena no Central. “Já é humilhante a gente tá aqui para entrar […] ao invés de facilitarem, porque elas (as brigadianas) são pagas pelo governo para fazer isso, elas são ignorantes. Eu acredito que elas pensam que são superiores e se a gente bate boca, fica sem entrar por seis meses”, conta a visitante. O relato revela a autonomia das agentes em vetar a entrada mesmo que não tenham sido apreendidos materiais proibidos na revista. O diretor do Central nega as acusações. “Isso não ocorre […] Quando há fundada suspeita ela deixa de ser uma revista, um tratamento normal, que é a questão da entrada de visita e passa a ser uma ocorrência policial […] e quando há detecção de um corpo estranho dentro da pessoa e não há identificação do que seria esse material, essa visita é bloqueada. Não entra naquele dia até mostrar o que é”, explica o coronel.

De acordo com dados oficiais, apenas 10% dos objetos cuja entrada é proibida em casas penitenciárias tentam ingressar no Presídio Central através das visitas. Comparado com o montante, esse número ainda é pouco expressivo. Em São Paulo, esse dado cai para três em cada 10 mil no total, enquanto no presídio gaúcho a mesma relação representa dez em cada cem, isto é, mais de 330 vezes maior. O promotor Luciano Pretto avalia que esse número ainda é muito baixo e não justifica o rigor das revistas vexatórias. “Para nós, a prioridade é a dignidade da pessoa e assegurar o direito de estar com o seu familiar ou amigo que tá preso, porque a droga, a gente sabe que vai entrar de outras formas também”. O magistrado defende que essa diferença entre os dois dados é consequência do domínio das facções dentro do Presídio Central. “O preso tá em risco na galeria, porque tá devendo, aí o familiar do outro é obrigado a levar pra pagar a conta… então carrega mais ali”. Mas infelizmente, essa não é uma realidade exclusiva do Central.

Segundo o promotor, o ideal seria que o visitante não tivesse acesso aos locais do preso, mas que o apenado se deslocasse até um local destinado para a visita. Se isso ocorresse, o visitante não precisaria ser revistado e sim o condenado, que após a visita, passaria por uma averiguação completa. No entanto, o país não prevê presídios em que isso seja possível como esclarece o juiz: “os presídios que nós estamos construindo agora continuam não se preocupando com essa questão […] o Brasil ainda não decidiu qual tipo de presídio quer”. As unidades carcerárias brasileiras são edificações antigas com manutenção precária. Essa situação aumenta a violência dentro e fora das casas prisionais e nesse contexto, o Estado perde o controle sobre o preso.

O tenente-coronel Gayer nega que haja abuso de autoridade na sala de revista assim como nas demais dependências do Presídio Central e defende que as atitudes dos brigadianos seguem o regulamento definido pela instituição e são o cumprimento do seu trabalho. “Nós vamos continuar dificultando e vai ter sempre visita reclamando. Quanto mais a gente acerta e mais prisões são feitas aqui, mais reclamações vai ter”, declarou o diretor.

Em outubro do ano passado, o Senado sancionou a lei 13.271 que proíbe a prática de revistas vexatórias em todo o país. Apesar disso, as humilhações seguem ocorrendo, o que sugere que a falha seja mais do que uma questão de legislação. Visitar alguém em um presídio, por si só, é constrangedor e muitos visitantes, se identificados publicamente, estão sujeitos à perda de emprego, por exemplo. Isso revela que a opressão vai além do agente penitenciário, mas é também uma construção cultural, onde a própria sociedade discrimina inocentes pelos atos de seus conhecidos.

Revistas são consideradas desrespeitosas e exageradas (confira vídeo)

Fila de visitantes para revista no Presídio Central (crédito: Mirella Rocha)

A intolerância no ambiente de trabalho e suas consequências

(Por Thaís Rodriguez)

Gustavo de Andrade, 54 anos, está atuando como de motorista de ônibus atualmente. Trabalhou a maior parte da vida nessa profissão, mas para grandes empresas e no emprego anterior prestou serviços a uma influente família. Também já foi bancário, mas a estrada, segundo ele, é libertadora. Não se cansa de seguir nessa profissão, entretanto, trabalhar anos no mesmo lugar pode ser entediante. Segundo o simpático motorista, por esse motivo pede demissão de em média 5 a 8 anos em cada empresa, pelo simples fato de se sentir preso.

Diz que é preciso ter muito ‘’sangue frio’’ pois o psicológico pode ser facilmente abalado para quem não está preparado, uma vez que passou por lugares onde andar armado era considerado normal. Já para a técnica de enfermagem, Malvina Terezinha, 58, que está a 28 anos na mesma empresa. Diz que passou por diversos altos e baixos, diz ser necessário saber em quem confiar. Confessou ter pensado em abrir mão do cargo por ter tido uma supervisora agressiva, ao ponto de voltar aos choros para casa. Mas pensava em como seria difícil procurar emprego na situação dela, solteira e mãe de 3 filhos, trabalhando por 36 horas. Oque veio a ponderar o que valia mais a pena já que teve mais um menino depois dos 40, logo a pressão foi ainda maior. Inspirada e ativa, mostrou-se satisfeita por ter ultrapassado grandes barreiras, e conta que é preciso ser forte e paciente se quer chegar aonde se quer, pelas maneiras corretas.

No presente momento conta os dias para se aposentar e poder curtir os netos. Segundo a psicóloga Luana Santos, é notável tamanha procura em seu consultório por pessoas insatisfeitas de alguma maneira em seus empregos e transmitem insegurança ao falar sobre seus pensamentos e vida pessoal. Tendem a se afastar dos entes queridos ao pensar que trazem problemas e despesas ao eles ao procurarem tratamento, sem saber qual o princípio. É preciso transparecer mudanças e muitas vezes transtornos de humor para surgir a procura por solução. O tratamento se inicia basicamente ao trabalhar a auto estima do paciente, dialogar e colocar as cartas na mesa. Porém, por se tratar de algo que os sustenta. O retorno pode ser tardio, bem porque erram ao pensar que só existe aquele mundo, aquela vaga ou até mesmo aquela pessoa. As oportunidades existem, mas é necessário buscá-la, e eu estou aqui para isso. Se auto valorizar para aí sim ser valorizado, e todos nós merecemos. ‘’Temos o direito de ir atrás da felicidade’’ afirma.

A troca diária de humor, a preguiça de realizar atividades e a monotonia da rotina podem causar grandes impactos na saúde psicológica, desde a escola á aposentadoria. É preciso ser atento aos detalhes de forma mútua. Nunca é tarde para recomeçar e aprender, antes de prestar atenção ao redor, repare mais em você.

Capital registra mais de mil ocorrências de violência contra idosos

(Por Ariel Freitas)

Ao aguardar a sua vez para ser atendido na Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, Bartolomeu, 74 anos, ex-pedreiro e viúvo, se tornou oficialmente um dos 1.062 registros de crimes cometidos contra idosos em Porto Alegre nos primeiros meses de 2017. Vítima de ameaças constantes, o senhor que reside no bairro Nova Gleba, zona leste da capital, revela que possui receio por uma disputa de terreno entre familiares.

Casos como o de Bartolomeu acabam se tornando frequentes na cidade em que 15 pessoas são atendidas na Delegacia do Idoso diariamente. Só em janeiro deste ano foram registradas 225 ocorrências na Delegacia do Idoso, sendo 51 direcionadas ao tema de ameaças. No mês de fevereiro a DPPI obteve 238 queixas, 23 sobre maus-tratos. O mês em que foi apresentado o maior número de registros foi o de março com 288 acusações, 23 delas por injúrias contra idoso. Até o final desta apuração, 17 de maio, foram registrados 106 Boletins de Ocorrências sendo sete por lesões corporais.

A violência em números

 

Segundo dados obtidos da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, os crimes mais cometidos contra idosos são os de ameaça, maus-tratos, abandono, injúria, apropriação de bem, negligência, omissão na assistência ao idoso, discriminação de pessoa idosa, lesão corporal, perturbação da tranquilidade e estelionato. As mulheres idosas lideram os rankings de denúncias por sua vulnerabilidade e pela sua expectativa de vida maior.

AS RAÍZES DA VIOLÊNCIA

Grande parte das ocorrências demonstram que as agressões têm sido cometidas nos locais onde as vítimas deveriam nutrir o sentimento de segurança: em casa. A falta de paciência e intolerância por parte da família tem se mostrado mais evidente quando o tema é a pessoa idosa. Familiares que deveriam assegurar a proteção, reproduzir o sentimento de afeto e garantir as necessidades básicas são os que mais cometem esse tipo de infração.

Em alguns casos, os agressores passaram por uma infância conturbada em que o único contato entre uma criança e seus pais acaba sendo o momento em que é repreendido com agressões físicas e psicológicas, fazendo ele reproduzir sua experiência. Esse círculo vicioso se torna difícil de ser interrompido sem a procura de uma ajuda profissional. “Isso gera uma cicatriz profunda e fica difícil cessar sem o auxílio de sessões de terapia”, explica a psicóloga Elisabeth Mazeron.

Contando com um número reduzido de funcionários, o departamento de proteção tenta atender a demanda de 200 casos mensais. Sofrendo por transferências de servidores têm em sua disposição nove funcionários para exercer atividades diárias. Essa mudança afeta diretamente no dia-a-dia do atendimento comprometendo o setor responsável pela apuração dos casos. O comissário Alan Lopes explica que com a redução na quantidade de funcionários a DPPI perdeu o Grupo de Investigação, se concentrando apenas em crimes hediondos. O aumento nos delitos com pessoas de 60 anos ou mais fica evidente quando elaboramos uma comparação com os dados adquiridos em todo o ano de 2015, período que a DPPI obteve o maior número de registros (2,5 mil). Os primeiros meses de 2017 com 1062 ocorrências quase alcança a metade dos índices do ano retrasado (1350).

A CAPITAL MAIS ENVELHECIDA

Porto Alegre tem se destacado como a Capital que possui o maior índice de idosos no país. De acordo com os dados do Observatório da Cidade de Porto Alegre representam cerca de 15% da população no país. Com a rápida expansão da faixa-etária e com os crimes acompanhando esse cenário, foram elaboradas políticas públicas com o objetivo de proteger o bem-estar dos cidadãos com uma idade avançada. Em 2014, foi criado o projeto de lei que formou a Semana Municipal de Combate à Violência. Idealizado pelo vereador Márcios Bins Ely (PDT) o programa visa alertar a sociedade gaúcha sobre os maus-tratos sofridos pelos idosos.

Em um cenário em que a população possui uma faixa etária mais envelhecida, instituições que buscam acolher vítimas de maus-tratos, abandonos, negligências, e etc., ganham espaço. O Asilo Padre Cacique abriga atualmente cerca de 150 idosos. Fundado em 19 de junho de 1898, a instituição procura proporcionar proteção e atividades diárias que contribuem para suas vidas sociais e emocionais. Disponibilizando aulas de informáticas nas terças-feiras, o Baile dos Idosos realizados por voluntários às quintas-feiras e sessões de cinemas aos sábados. Natália Chim, voluntária do asilo, explica que os idosos encontram um recomeço conhecendo pessoas com idades semelhantes, recebendo o afeto dos funcionários e construindo novas histórias de identificação a instituição.

Segundo especialistas precisamos pensar em políticas públicas com urgência, pois o Estado está envelhecendo. O Rio Grande do Sul possui aproximadamente 1.9 milhão de habitantes com uma faixa-etária igual ou superior a 60 anos, dos quais 210 mil deles vivem em Porto Alegre. A preocupação pelo bem-estar do idoso é constante e apesar de ter apresentado recursos para reduzir as violências, os projetos têm apresentado resultados ineficazes.

 

Crédito das fotos: Cainan Xavier

Legenda: Idosos abandonados são assistidos no Asilo Padre Cacique

 

Gaslighting: o machismo que violenta a mente feminina

(Por Giovana Moraes)

“Você é louca”, “você está exagerando”, “isso é coisa da sua cabeça”, “isso nunca aconteceu”. Frases como essas tendem a se repetir, e o grau de violência tende a aumentar. Faz parte do jogo colocar a vítima como culpada, levando o agressor a tomar determinadas atitudes: “Você me faz agir dessa maneira”, “Por que você está fazendo isso comigo?”. E de pergunta em pergunta os relacionamentos abusivos vêm acumulando um número maior de vítimas. Violência psicológica que especialistas denominam de Gaslighting.

Em meio à turbulência política que o Brasil enfrenta, esse debate ganhou força nos últimos meses. O movimento feminista vem identificando comportamentos que acabam prejudicando a autoestima e a confiança das mulheres. Uma dessas práticas é chamada de “gaslighting”, exemplo de abuso psicológico no qual informações são distorcidas fazendo com que a vítima questione sua própria realidade e conduta.

Há grandes chances de você já ter vivido um relacionamento assim. E eu quero lhe dizer que: você não está sozinha.

“Eu era exagerada por me chatear ao ter minhas intimidades sexuais contadas em uma roda de cerveja”

Natalia Dias, 21 anos

“Ele dizia que eu tinha que agradecer por tê-lo, pois ninguém além dele iria me querer”

Camila Fernandes, 26 anos

“Tentava me controlar, se eu não olhasse para ele enquanto gritava comigo, ele segurava meu rosto com força e apontava o dedo em minha cara”

Vanessa Dutra, 17 anos

“Ele só me queria por perto por capricho, pelo prêmio de me ter”

Luana Medeiros, 22 anos

“Ele terminou comigo porque eu era uma vadia”

Giulia Ferraro, 20 anos

Se você se identifica ou já passou por isso, estejam cientes que nem tudo o que acontece é culpa de vocês. Vocês não são obrigadas a se modificar a ponto de não se reconhecer para agradar outra pessoa, porque um relacionamneto tem que ser recíproco. Amor próprio é maravilhoso, porque você passa a não aceitar de outra pessoa menos do que você se ama. E por mais que seja difícil, tenham força. Vale a pena no final, o sentimento de liberdade é maravilhoso.

A mulher não é uma propriedade. Nunca é culpa da vítima. Mulheres não são produtos. Isso não deve ser invisível na mídia e na cultura. A voz das mulheres precisa ser valorizada. Mulher não “tem que” nada, se não quiser. O Gaslighting violenta a mente feminina. É o tipo de manipulação emocional que alimenta uma epidemia em nosso país. Uma epidemia sem fim, que define as mulheres como loucas e exageradamente sensíveis. Isso é injusto. É hora de se conscientizar. Unidas. Só assim a mudança, pelos olhos da sociedade, acontecerá.

 

Maus-tratos contra animas é crime

(Por Liege dos Santos)

Violência contra animais ainda é uma questão não levada muito a serio por muitas pessoas. Em Porto Alegre, pelos dados oficiais, são realizadas 15 fiscalizações por dia pela SEDA (Secretária Especial dos Direitos Animais). Temos o caso do circo Ringling Bros and Barnum & Bailey em Long Island, nos Estados Unidos, com tigres e camelos lesionados e outros animais aprisionados, sendo forçados a realizar truques degradantes e não naturais. Ou o caso dos três animais feridos que foram resgatados pelo Batalhão de Polícia Militar Ambiental (BPMA) em Brasília, no Distrito Federal. Segundo o site ANDA, existem milhares de petições espalhadas pelo mundo no site Avaaz, feitas para conscientizar as pessoas.

Segundo especialistas os maus tratos contra animais não são apenas agressões físicas, e sim qualquer ato que prive a vida do próprio, como por exemplo: abandono, manter em cárcere, envenenamento, utilizar animais em shows que possam lhe causar pânico ou estresse, entre outros.

Com o advento da lei 9.605/88 ocorreu em todo Brasil a implementação da SEDA e a criação de uma Delegacia de Polícia Civil que apura crimes de maus tratos contra animais. Contatados por telefone, a delegacia relatou que não têm estatísticas sobre maus tratos e a polícia está preocupada com crimes contra a vida humana.

A Secretaria Especial dos Direitos Animais realizou 28 mil ações de fiscalização contra abandono e maus-tratos em Porto Alegre. “O dia inteiro nós recebemos solicitações através de reclamações da comunidade. Relatam sobre atropelamentos, violência contra animais, abandono, pessoas que vão viajar e deixam sozinhos, não dão água nem comida, etc”, diz Katia Eleonora Gueiral Lima, veterinária da SEDA. “Não albergamos e não recolhemos. Nosso atendimento aqui é médico veterinário. Tem que ligar para o 156 e gerar um protocolo de atendimento. A partir daí será prestado o atendimento clinico e cirúrgico, sendo a pessoa que trouxe, responsável pela adoção ou indicação do animal”.

A lei que regulamenta a questão dos maus tratos é penal e criminaliza o fato, estabelecendo uma pena para o agressor. Foi criada pela União o IBAMA, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, que fiscaliza e cria inquéritos criminais. Cabe a União e seus órgãos competentes a fiscalização sobre a criação e o desvio de condutas que levam à agressão. Ceres Berger Faraco, Professora na faculdade de Veterinária da UniRitter FAPA, opinou: “Acho super importante falrmos sobre isso e alertar. É preciso que a justiça trate disso cada vez mais pois são coisas importantes. A questão da penalização merece ser vista em termos gerais”.

Com a freqüência da violência contra animais e a gravidade desse tipo de conduta, temos em Porto Alegre e área metropolitana várias instituições governamentais, privadas e organizacionais, como por exemplo a SEDA E ARPA. A Secretaria Especial dos Direitos Animais foi criada em 2011 com a missão de estabelecer e executar políticas públicas destinadas à saúde, proteção, defesa e bem-estar animal em Porto Alegre. Em cinco anos, a Seda realizou 1.681 adoções pelo programa Me Adota?, 18.870 atendimentos veterinários, 8.414 cirurgias não eletivas e 28.626 castrações.

A Associação Rio Grandense de Proteção aos Animais (ARPA) foi fundada em 1949 e desde então atua na proteção de cães e gatos de rua. A entidade ficou muito conhecida pela comunidade porto-alegrense na época em que a Sra. Palmira Gobbi, era presidente da Associação. Nascida em Pelotas, Dona Palmira como era conhecida, não media esforços para coibir os maus tratos e enfrentar pessoalmente agressores de animais. A ARPA trabalha basicamente com controle populacional através de esterilizações a baixíssimo custo ou gratuito. “Ano passado fizemos em torno de 6 mil cirurgias de esterilização. Nosso foco é trabalhar com controle populacional”, relatou o presidente Julio Ferraz.

Nos últimos anos têm surgido um grande número de pessoas – ligadas ou não a uma instituição não governamental – que se dedicam a defesa dos animais. Nesse sentido, acabam suprindo a atividade de cuidados aos animais que recebem maus tratos, sendo ativistas e buscando que a lei seja cumprida, tanto por particulares como pelos órgãos públicos.

Acyr Winckler Martins, ativista e voluntário na empresa Proteção Animal, criou a ONG SOS Viralatas, que conta com 257 cães no abrigo. “Nós começamos um trabalho com animais a partir de uma situação de resgate de muitos anos, onde um animal foi atropelado ao lado do meu trabalho e ninguém fez nada para socorrer, muito menos o atropelador. O bichinho ficou no meio da avenida no meio do caminho e na chuva. Não temos funcionários. Somos apenas duas pessoas e ambos trabalham”, relata Winckler.
Desde 2008 a ONG realiza uma campanha que acontece no último final de semana de todo mês. A ação ocorre aos sábados e domingos na Usina do Gasômetro. “Essa campanha ajuda a manter os animais da ONG”, afirmou Acyr.

Tais condutas não são aceitas pelas pessoas e o caminho é o de conscientização. É necessário que exista a educação para que as pessoas entendam que os animais não são objetos e possuem as mesmas necessidades que os seres humanos. Temos a conduta da SEDA como exemplo. “Temos que dar assistência, não só penalizar. Precisamos trabalhar com a educação, principalmente em escolas com as crianças. Temos que começar a dar base mais fácil”, diz a médica veterinária Katia.

 

SEDA: cão abandono recolhido pelo município

 

Quando a homofobia começa em casa

(Por Walter de Souza)

Uma pessoa LGBT morre por dia no Brasil. Isso é o final de uma cadeia de violência que pode começar em casa contra lésbicas, gays, bissexuais e transexuais.  Em Porto Alegre, a falta de leis e projetos para proteção e combate à homofobia doméstica deixam crianças, adolescentes e até mesmo adultos desamparados, já que a prática ainda não é criminalizada no país.

O estudante de 18 anos, Pedro Riiks, vítima de homofobia, relata que em 2014 assumiu ser homossexual para a família. “Em 2014 assumi que sou homossexual. Com a minha mãe foi tranquilo. Com meu pai não“. Ele também conta que ficou um ano sem contato com seu pai, mas que atualmente os dois possuem uma relação mais estável. “Meu pai no começo não me aceitou. Agrediu-me tanto verbalmente, como fisicamente. Hoje temos uma boa relação. Ele já é casado com outra pessoa que o ajudou a aceitar minha condição”, informa o jovem. O discente também contou que apesar de seu padrasto não o aceitar na condição de homossexual por ter tido uma criação diferente, ambos possuem uma boa relação.

A coordenadora da Comissão de Direitos Humanos de Porto Alegre, Sylvia Severo, acredita que a falta de dados em relação à violência doméstica sofrida por homossexuais tenha a ver com uma espécie de constrangimento, afinal, a vítima estará denunciando um membro de sua família. Ela informa que a comissão quando recebe casos de violência aconselha a vítima a formalizar uma denúncia, pois acredita que o fortalecimento da luta para criminalizarem a homofobia, deve partir através da denúncia. “Entendemos que por ser uma denúncia contra a família à vítima se sentirá constrangida, mas frisamos que o mesmo deve sempre denunciar toda e qualquer tipo de agressão”, enfatiza Sylvia.

O psicólogo Vinicius Pasqualin afirma que no consultório quando se recebe um paciente homossexual agredido a primeira medida é verificar a capacidade que o mesmo tem de lidar com o problema. Pasqualin relata que ao ouvir um pai, que rejeita a sexualidade do seu filho, o melhor a ser feito é aconselhá-lo a respeitar o mesmo, e tentar entendê-lo para que ele não tenha sua saúde mental prejudicada e possa encarar o processo de aceitação com mais facilidade, tendo em vista que o apoio familiar é fundamental.

O também psicólogo e professor da Fadergs, Eduardo Marodin, acredita que as escolas devem se envolver com a causa. Pois os alunos podem ter seu desempenho prejudicado devido algum processo de ansiedade ou até mesmo depressão que possam ser causados devido à falta de aceitação dos pais. Marodin também acredita que há duas medidas viáveis que as escolas podem adotar para dar suporte a alunos homossexuais vítimas de agressão. O primeiro é discutir sobre diversidade de gênero tanto com os alunos quanto com os pais. E o segundo é formar um grupo de apoio, com alunos e até professores que sejam LGBT para que a escola já esteja preparada e tenha alguém responsável para dar suporte ao aluno e ao mesmo tempo permitir que o discente não tenha seu rendimento escolar prejudicado.

O coordenador da ONG Nuances Célio Golin relata que a falta de dados impede que não só a instituição como outras ONGs obtenha um número de pessoas para saber se há uma demanda necessária para que seja criado um projeto parecido com a Casa1, centro de cultura e república de acolhimento para LGBT em situação de risco fundado em São Paulo, no dia 25 de janeiro deste ano. O projeto foi idealizado pelo jornalista e militante dos direitos humanos, Iran Giusti, em parceria com Otávio Salles, e financiado através de uma campanha de financiamento coletivo na internet. A mesma teve a duração de um mês e foram arrecadados 112 mil reais para manutenção do local e o aluguel da casa. O restante é financiado por Iran com recursos próprios.

Segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB), responsável por elaborar anualmente o Relatório de Assassinatos LGBT no Brasil reconhecido pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, os assassinatos a LGBT fechou em 2016 com o maior número de mortes em todos os anos, com aproximadamente 340 homossexuais assassinados.

Em 2017, o caso que ganhou destaque internacional foi à morte da transexual Dandara Santos. A vítima foi assassinada em fevereiro deste ano no Ceará e teve o vídeo de seu assassinato divulgado na internet. Um dia após o caso Dandara ser transmitido no programa da Rede Globo “Profissão Repórter”, a deputada Luizianne Lins apresentou um projeto a ser aprovado na Câmara em que o ato de violência e assassinato a pessoas LGBT passa a ser considerado crime. Caso aprovada, a lei ganhará o nome de Dandara Santos. Riiks também contou que neste ano foi vítima de agressão por causa de homofobia. Desta vez o ocorrido aconteceu na rua. O estudante conta que três pessoas o abordaram e o agrediram fisicamente. Ele também informou que registrou ocorrência na delegacia, mas que a denúncia não teve resultado.

A história de Pedro Riiks comprova que casos de violência por homofobia é um problema no Brasil. De acordo com especialistas, os meios para ajudar o combate à violência à população LGBT são as denúncias, e também a criação de projetos que podem começar na escola como grupos de apoio e discussão sobre diversidade de gêneros em aula. Outro módulo é o encaminhamento para um especialista em saúde mental para que o mesmo consiga fortalecer sua capacidade de lidar com o problema e também ponderar os pais para que apoiem e respeitem a condição de seus filhos.

Crédito da foto de capa da matéria: divulgação Vitória Ribeiro (CC)