Arquitetura do medo e a vida nos condomínios fechados

(Por Patricia Vieira)

Porto Alegre tem muitos condomínios. Conforme o Panorama do Mercado Imobiliário feito pelo Sindicato de Habitação do Rio Grande do Sul (Secovi-RS), em 2016, a Capital tinha 14.402 conjuntos habitacionais, os quais abrigavam cerca de 70% da população total do município. Ainda conforme o levantamento, a maioria deles se concentra em áreas centralizadas da cidade, como os bairros Petrópolis, Menino Deus e Centro Histórico. Por outro lado, em regiões mais afastadas, existe um número menor de condomínios, fazendo delas lugares de acelerado crescimento urbano atualmente. É o que acontece nas Zonas Sul e Norte da Capital.

Segundo o arquiteto e urbanista Cláudio Ugalde, chefe da Divisão de Planejamento Urbano e Regional da Metroplan (Fundação Estadual de Planejamento Metropolitano e Regional) em um contexto de crise da segurança pública, o aumento da violência torna-se grande argumento para a venda dos imóveis nessas regiões. Assim, cria-se o fenômeno da chamada Arquitetura do Medo. “As pessoas e as comunidades se fecham para a interação social. É esse conjunto edificado, todas as soluções arquitetônicas que se estabelecem para se fechar a interação social e para afugentar as pessoas que tentam se aproximar de alguma maneira.” Diferente das áreas onde existe amplo comércio, circulação em praças e áreas de uso comum do espaço público, os arredores desses empreendimentos se tornam vazios, fazendo com que a circulação de pedestres se torne algo escasso. Assim, predomina o risco de incidência de crimes e violência. “Todas as áreas em que existem dificuldades de circulação e presença de pessoas gera insegurança. Enquanto os condôminos buscam ter segurança intramuros, as pessoas que trafegam nas ruas ao longo dos muros, pelo lado de fora, não têm segurança alguma, porque são fachadas inativas” explica Cláudio.

Quadro: (infográfico explicativo sobre fachadas ativas, inativas e áreas públicas arquivo: fachadas ativas e inativas ok)

Aliado a questões como o aumento da frota de veículos particulares do RS, a sensação de medo se transforma num ciclo. Conforme dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RS), Porto Alegre possui quase 675 mil veículos em circulação, considerando carros e motos. Em regiões em que a incidência de condomínios é predominante, a utilização de automóveis particulares significa a privação do uso de mecanismos de interação social e uso comum, como por exemplo, a utilização de transporte coletivo e espaços abertos.

Para a psicóloga Luciara Itaqui, esses fatores tendem a modificar a estrutura da relação do urbano e das pessoas: “As cidades no decurso da história sempre tiveram um sentido de exercício de cidadania e como espaço de convivência social. Devido ao contexto de insegurança, as pessoas passam a ver os outros com receio. Esse isolamento doméstico faz com que as pessoas fiquem privadas da vivência urbana. Isso intensifica a privatização da vida e faz com que a relação com a cidadania seja castrada, pois o espaço público não é mais o espaço das trocas, do aprendizado. A rua não é mais um local de socialização, mas uma via que serve para levar as pessoas de um local privado para outro.”

Dessa forma, o esvaziamento do espaço público se torna algo comum, e a realidade da crise da segurança, um episódio de isolamento coletivo. A população porto-alegrense modifica sua história através de novos formatos de “bolhas sociais”. Para Luciara, “sem a vivência com o diferente, cada vez mais as pessoas criam suas ilhas de isolamento social e o medo acaba imperando.” Nessa perspectiva, o urbanista Cláudio acredita no enfrentamento coletivo da violência através do uso do espaço público: “Tornar a cidade mais segura é um desafio para todos nós.” Afinal, vencê-lo significa repensar privilégios individuais em benefício da sociedade em coletivo.

Sobre francisco.amorim

Professor

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