Consequências cirúrgicas provocadas pela cultura do corpo perfeito no século XXI

(Por Pâmela Bassualdo)

O Brasil é o segundo país no ranking de cirurgias plásticas no mundo. Esse cenário impulsiona mais as intervenções estéticas a cada ano. Cerca de 200 mil procedimentos estéticos são feitos anualmente no país, mas em muitos casos o erro médico gera resultados jamais esperados, tanto físicos como psicológicos.

De acordo com artigos da psicóloga Helena Miranda dos Santos, a expectativa é produzida pelo o que é idealizado na mídia, causando em mulheres e homens uma procura pelo corpo ideal. Essas idealizações para um corpo perfeito são maioria entre as pessoas do século XXI e intervenções estéticas, invasivas ou simples, aumentaram desde 2011. “Nós, como seres que vivemos na busca do desejado, consumimos esses serviços e produtos na expectativa de sermos aceitos, felizes e termos sucesso”, explica o psicólogo Elias Pokorski.

O procedimento mais utilizado no mundo inteiro é a aplicação de botox, toxina que em grandes quantidades é letal. Aliás, essa é a palavra que descreve bem a média de oito casos de mortes por cirurgias plásticas por ano no Brasil. Mulheres são cerca de 87% de quem procura um cirurgião, e entre as cirurgias feitas, as principais são: Lispoaspiração, colocação de próteses nos seios, rinoplastia e abdominoplastia.

Quando ganhou o primeiro filho, Patrícia Mosele, de 40 anos, percebeu a diferença que isso causou em seu corpo. Como milhões de mulheres ao redor do mundo, ela se incomodava com os defeitos que via, principalmente na barriga após a gravidez. Pensou em uma intervenção cirúrgica, foram duas bem-sucedidas, mas na terceira toda a expectativa virou pesadelo. O médico cometeu graves erros e Patrícia precisou de 17 operações de correção para recuperar o que foi perdido. A expectativa de melhorar se tornou a expectativa de corrigir. Tinha vinte e dois anos quando fez a primeira abdominoplastia. Uma enquete aberta em uma rede social mostrou que 88% dos que responderam têm entre 18 e 24 anos e estão interessados em procedimentos estéticos. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgias Plásticas, desde 2015 houve um aumento na realização dos procedimentos em pessoas dessa faixa etária.

Por trás de uma taxa tão alta de sucesso, há uma porcentagem que não é percebida. A pequena parcela de cirurgias mal feitas ou de negligência médica, que desenrola severos problemas físicos e mentais nos pacientes. A cirurgia de Patrícia foi considerada pelo Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, como uma das cinco piores já realizadas na instituição. Mesmo com processos por danos morais e assédio sexual, o médico que errou sua cirurgia continua a exercer a função de cirurgião plástico.

As penas são brandas e segundo relatório do Conselho Regional de Medicina de São Paulo somente 46% das denúncias foram favoráveis aos pacientes, sendo aplicadas como danos morais. Advogada e professora de Direito da Universidade de São Paulo, Simone Henriquez explica como respondem esses médicos na Justiça: “Teoricamente o profissional médico responde um processo civil, penal – lesão corporal e até homicídio- e administrativamente – no âmbito do Conselho Profissional”. No site JurisBrasil, que mostra um banco de dados sobre jurisprudência, constam mais de quatro mil resultados sobre processos de responsabilidade em danos estéticos de cirurgias plásticas. Isso é um total de 2% das operações realizadas.

Além de gastar cerca de 50 mil reais em correções cirúrgicas, Patrícia Mosele ainda precisou ir ao psicólogo, devido a uma depressão e baixa auto-estima.  “Cada dia que passa eu tento correr atrás e superar, nunca vai ser 100% de novo”, desabafou. O médico que realizou o procedimento colocou uma prótese maior do que o corpo comportava, os pontos abriram e o caso agravou. Os sintomas psicológicos são diferentes para cada indivíduo. “Cada pessoa tem sua velocidade e particularidade na maneira como lida em cada fase. Mas se pensarmos em problemas gerados pode pensar na depressão, que é algo comum em situações assim”, explica o psicólogo Elias Pokorski. A maioria dos psicólogos procurados pela reportagem não conseguiu dar parâmetros para os sintomas produzidos por cada paciente, sendo necessária análise aprofundada para cada ocorrência.

Casos como o de Patrícia podem parecer difíceis de encontrar, mas são mais comuns do que se imagina. Apesar dos riscos, milhares de pessoas ainda pretendem passar por cirurgias arriscadas na busca do corpo mostrado em páginas publicitárias. A decisão pelos procedimentos foi unânime entre os jovens que participaram da enquete, e a insatisfação com o próprio corpo é reforçada principalmente pelas mídias sociais. A meta de Pati, como é chamada pelos amigos, é terminar de cuidar do que foi arruinado, juntando dinheiro para mais uma cirurgia de correção, que ela espera ser a última. A busca pela perfeição está longe do fim para ela e para tantas outras Patrícias que já existem ou existirão ao redor do mundo.

(Revisado por Paula Chidiac, Danrley Passos e Andrew Fischer)

Legenda: Apesar dos índices de mortes e erros em cirurgias plásticas, o Brasil continua nas primeiras posições dos procedimentos estéticos do mundo

Crédito da foto: Pamela Bassualdo

Sobre francisco.amorim

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