A era do fake news e o papel do jornalismo

(Por Jocelias Costa)

A pós-verdade foi escolhida a palavra de 2016 pelo dicionário de Oxford, que definiu o termo como “ algo que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência para definir a opinião pública do que o apelo à emoção ou crenças pessoais”. Mas como ela afeta a vida dos comunicadores? Como os jornalistas estão reagindo a essa nova realidade?

Para o jornalista da rádio Guaíba, Carlos Guimarães, a fake news está muito ligada a definição da pós-verdade e que esse fenômeno está mais associado ao receptor da notícia do que por aqueles que emitem publicamente as informações. “A fake news surge a partir de uma mídia independente que lança um boato ou uma notícia para condicionar a opinião pública e dependendo de como for, podemos acreditar ou não naquilo que foi publicitado”, opinou o jornalista.

Na visão do sociólogo e jornalista, Marcos Rolim, um dos fatores determinantes para o crescimento do “fake news” é a disseminação das novas tecnologias que torna possível que todos sejam emissoras de informações de fatos ou fenômenos sociais. “ O que ocorre é que essas possibilidades – que possuem extraordinário potencial democrático –  também facilitam e até estimulam a produção irresponsável de informações.” explicou o sociólogo.

Outra questão destacada por Marcos Rolim foi o fato da sociedade ser influenciada pelas notícias falsas devido a falta de uma formação cidadã, acreditando apenas nas informações que confirmam seus preconceitos, onde acontece o compartilhamento das informações falsas. “Uma pessoa com noções elementares a respeito de ética e comunicação jamais reproduziria uma mensagem anônima, por exemplo, mas pessoas sem noção  fazem isso com frequência”, relatou Marcos Rolim que também destacou que na polarização política e ideológica, as noticias falsas se tornam uma arma de guerra. “ Quem se sente em um debate, não tem tempo nem disposição para pensar. O que importa é sobreviver e “matar” seu adversário.”

Comentarista esportivo da rádio Guaíba desde 2014, Carlos Guimarães também enfatizou a questão do público acreditar naquilo que vai de encontro ao pensamento dele. “Existe fake news que são escancaradas, mas tem muita gente que acredita por ter empatia aquilo que acredita. Isso acontece muito em política e também no futebol.”

E o papel do jornalista?

Sobre o papel do jornalista em relação a esse fenômeno, Carlos Guimarães entende que a profissão no Brasil está passando por um processo de adaptação, as disseminações das redes sociais e que cada vez mais o jornalista deve buscar entender o fato das pessoas estarem buscando informações de forma independente e também refletir sobre o verdadeiro papel do jornalismo na sociedade nos dias de hoje. “Acredito que o jornalismo mudou. Não saberia dizer o que é um verdadeiro jornalismo. O verdadeiro jornalismo que nos ensinam em sala de aula é o da função social do quarto poder, aquela ideia que somos importantes para a sociedade somos informantes para o que a sociedade precisa”, ressaltou o jornalista. Marcos Rolim comentou que a imprensa tem responsabilidade no crescimento do fake news por muitas vezes não apurar as próprias informações que podem ser facilmente instrumentalizadas pelos emissores das falsas notícias. “Caberá à imprensa – a antiga e a nova imprensa – desmontar as notícias falsas, denunciando o que elas carregam de manipulação e desprezo pela Inteligência. Se ela não fizer isso, estará condenada a desaparecer”, falou o sociólogo.

Com o objetivo de apurar os fatos que muitas vezes são recebidos pelas redes sociais, em abril deste ano o Grupo RBS lançou o serviço “Notícia Falsa na rede”, buscando esclarecer  os boatos surgidos nas páginas de facebook, sites, e grupos de whatsapp. O mentor da ideia foi o jornalista e produtor da rádio Gaúcha, Tiago Boff explicou que o projeto surgiu após uma entrevista com a Secretária Estadual do Meio Ambiente, Ana Pellini, que na ocasião esclareceu uma notícia que estava sendo compartilhada no whatsapp, que o Jardim Botânico seria vendido para uma empreiteira. A notícia era falsa e a partir desse fato, surgiu o quadro na rádio Gaúcha sendo expandida para o jornal Zero-Hora. Tiago Boff trabalha em conjunto com a equipe de redes sociais de Zero Hora, onde são recebidas com tons duvidosos. “Eles recebem muitos compartilhamentos de notícias que, aparentemente, são falsas. Erros de português, manchetes extraordinárias, sensacionalistas, que envolvem política e comumente são publicadas em sites não confiáveis. Depois da suspeita, eu busco um dos citados, empresa, fonte, etc. Escrevemos a matéria para a Zero Hora – eu ou algum repórter que esteja com a pauta – e também gravo para o ar.” No projeto “Notícia Falsa na rede”, Tiago Boff afirma que o whatsapp é o maior disseminador de notícias falsas.

Mesmo com a evidência das redes sociais e das possíveis criações de notícias o brasileiro acredita ainda nas informações da grande mídia, segundo pesquisa do Instituto Reuters para o Estudo de Jornalismo, divulgado pela universidade inglesa Oxford afirmou que 60% dos brasileiros entrevistados acreditam nos meios de comunicação. Além disso o levantamento aponta que os brasileiros preferem a prática do celular como instrumento de informação, sendo 65% do país faz uso dos smartphones. Segundo a pesquisa mais de 97% das famílias brasileiras têm um aparelho de TV, mas só em 2015, apenas uma em cada duas casas ficavam conectadas a internet.  As produtoras de notícias permaneceram as  mais populares no ambiente on-line, mas  com alterações significante no uso de dispositivo usados para acessas o conteúdo de jornalismo, tendo nos smartphones como principal canal de consumo de noticias pela internet.

(Revisado: Danrley Gonçalves e Bruna Graco )

Sobre francisco.amorim

Professor

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