Casos de uso suspeito do cartão TRI somaram mais de 14 mil em 2016, diz EPTC

Sarah Acosta

Um fenômeno pouco notado dentro dos ônibus da capital, mas que tem acontecido de forma frequente, são pessoas passando pelas catracas com cartões do Transporte Integrado de Porto Alegre (TRI) que não pertencem a elas. Jovens usando cartões de idosos, trabalhadores usando o desconto escolar dos filhos e pessoas sozinhas passando com cartões de acompanhantes. A rapidez com que os cartões são passados no sensor impediria a fiscalização dos cobradores.

De acordo com dados da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), atualmente existem mais de 270 mil usuários beneficiados com isenções, dentre eles deficientes, acompanhantes, idosos, crianças carentes contempladas com o Vou à Escola, agentes da Brigada Militar, Guarda Municipal e fiscais da EPTC. E mais de 120 mil usuários que pagam apenas meia passagem, sendo eles estudantes e professores. Os passageiros que não se encaixam no perfil dos beneficiários acabam tendo que pagar a passagem integral que hoje custa R$ 4,05.

A EPTC, até o final de 2016, já havia analisado o uso suspeito de mais de 14.000 cartões e orientado cerca de 7.000 usuários quanto ao uso pessoal e intransferível de seu benefício. “Desta fiscalização, cassamos 3.457 cartões isentos por inúmeras irregularidades, inclusive idosos, que somaram 760 cassações nos últimos 3 anos”, afirma Jorge Brasil, gerente de relacionamento na empresa pública.

Foram transportados mais de 290 milhões de passageiros nos ônibus de Porto Alegre, somente em 2016. Dentre estas pessoas, 24 milhões foram pagantes de meia tarifa e 46 milhões usuários de isenções. Os benefícios e isenções destas categorias representaram 24% dos usuários do transporte público da capital no ano passado, e nem todos foram usados por seus verdadeiros donos.

Para o professor de Psicologia da UniRitter, Carlos Alberto Veit, o Brasil enfrenta uma crise de valores. “Com o enfraquecimento da tradição, das famílias e das religiões caímos em uma espécie de vale tudo”, e completa “Acrescido a isso, tem o jeitinho brasileiro, que é bem caracterizado pela Lei de Gerson: ‘Gosto de levar vantagem em tudo’”. O professor também atenta para o exemplo que o povo recebe dos próprios governantes que são pessoas acusadas de corrupção, mas que não recebem nenhuma punição legal. “Eles transmitem a ideia de que ‘se deram bem’, não importando a maneira. É o tipo de exemplo que muitos tentam copiar”, explica.

Na visão da antropóloga social e professora de pós-graduação da PUCRS, e Lucia Helena Alves Muller, a questão não é tão grave, tem um teor mais familiar e por conta disto os indivíduos que cometem essa infração não percebem que é algo errado. “A ideia de que tu, como idoso, tem um cartão TRI que não usa e tem o teu neto que vai todo o dia para escola e está pagando a passagem cara, tu não dar[o cartão] para ele é negar teu papel de avô”, defende. Lucia ainda afirma que a circulação de recursos, não apenas do cartão TRI, representa a sobrevivência, principalmente de famílias de baixa renda que é onde estão os principais usuários do transporte público. “A gente vive em uma sociedade onde a vida econômica é uma vida familiar, não é individual, o dinheiro circula, até o cartão de crédito circula”, completa.

Vale ressaltar que o valor da tarifa é calculado de acordo com o custo da quilometragem sobre o número de pessoas pagantes. Quanto menos pessoas pagando a passagem, maior o valor da tarifa. Logo, estas pessoas que deixam de pagar a passagem ao utilizar o cartão de terceiros contribuem para o aumento do custo. Para cessar casos como estes, a EPTC tem projetos sendo desenvolvidos. O mais importante deles é a implantação da biometria facial para fazer o controle dos isentos.

(Revisado por Andrew Fischer e Danrley Passos)

Legenda: Carteiras do TRI são usadas irregularmente na Capital

Crédito: Sarah Acosta

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