Cirurgia plástica, perfeição e artificialidade

(Por Giullia Santos)

A busca incessante pela perfeição do corpo e os padrões de beleza impostos pela sociedade alimentam o mercado de cirurgia plástica estética no Brasil. No ano passado, mais de 800.000 procedimentos foram realizados no país, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, por um público majoritariamente feminino. Mulheres insatisfeitas com seus corpos que encontram, no bisturi, uma solução rápida para o problema. Mas o que era para ser solução traz à tona o questionamento social sobre a verdade do corpo cirurgicamente modificado.

Representando, aproximadamente, 87% dos pacientes que optam pela cirurgia, as mulheres lidam constantemente com as imposições do mercado de beleza. “A pressão social pela busca da perfeição do corpo”, conforme destaca a psicóloga Carla Menegat, tem um papel fundamental na procura por estes procedimentos. Implante de silicone, lipoaspiração e abdominoplastia lideram a lista de intervenções mais realizadas no país, em 2016.

O sociólogo Francisco Romão Ferreira, autor do livro Ciência, arte e cultura no corpo: a construção de sentidos sobre o corpo a partir das cirurgias plásticas, reflete: a cirurgia plástica promove uma autoimagem forte e positiva, mas esquece de dizer que é a ideologia que constrói a necessidade dessa autoimagem”. Desta forma, “o que pode significar estar feliz com a sua autoimagem? Seria estar adaptado às regras do jogo? Ajustado ao controle disciplinar dos corpos?”, questiona o sociólogo.

Por influência do padrão de beleza, “algumas mulheres optam por uma intervenção cirúrgica sem necessidade”, analisa Carla Menegat. A cirurgia plástica impacta diretamente na autoestima dos pacientes e, portanto, no seu entendimento de imagem e identidade pessoal. O aumento dos procedimentos está relacionado à importância atribuída à imagem, que no processo de construção de identidade, atua como o principal veículo de identificação. Para Giulia Araújo, de 19 anos, a escolha pelo implante de silicone “está relacionada com a autoestima”, afirma a jovem.

Apesar do aumento significativo da cirurgia plástica, é comum ouvir críticas e comentários envolvendo essas mulheres. Ao impor a necessidade de um corpo perfeitamente idealizado, a sociedade também rebate a prática da cirurgia, apontando como artificial, o corpo modificado através destes procedimentos. “A produção de sentidos sobre a imagem do corpo e a percepção que o sujeito tem do próprio corpo é, ao mesmo tempo, individual e coletiva”, reflete Francisco Romão.

Casos famosos como o de Andressa Urach, que esteve entre a vida e a morte após complicações cirúrgicas, aumentam o debate e a crítica aos procedimentos, reforçando a ideia de resultados artificiais e o risco da cirurgia estética desmedida. A busca pela perfeição reflete nas estatísticas divulgadas pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e a indústria da beleza alimenta a corrida feminina contra a balança, o tempo e o natural.

(Revisado por Hiashine Florentino e Luiza Brandão)

Fonte do gráfico: Divulgação de Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica

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