A palavra oficial entra em crise

(Por Ana Carolina Pinheiro)

Na maior cidade da América do Sul, crianças matriculadas nas escolas municipais têm merenda reduzida para prevenir a obesidade infantil. Graças à aprovação da reforma trabalhista, trabalhadores terão maior possibilidade de negociar de igual para igual com seus patrões. Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) é apto para julgar e conceder habeas corpus a empresário mesmo após ter sido padrinho de casamento da filha do acusado. No Rio Grande do Sul, servidores públicos recebem seus salários parcelados há 20 meses devido a crise do Estado. Apesar de deixarem dúvidas sobre sua autenticidade, estes fatos foram divulgados em veículos oficiais.

Não é de hoje que as instituições valem-se da credibilidade que têm para propagar informações que nem sempre são verdadeiras, mas, paralelamente, elas nunca foram tão desacreditadas e questionadas. Relembrando o clássico “Por que os líderes mentem”, de John Mearsheimer, a jornalista e mestre em Relações Internacionais, Denise De Rocchi, explica que precisamos primeiro pensar o que significa mentira. Um líder pode mentir deliberadamente, pode omitir uma informação ou não ser totalmente transparente na maneira de apresentar algo.

E é justamente com este espectro da mentira que os governos jogam em busca de benefícios, ocultando determinados fatos ou apresentando números de um jeito que os favoreça. “Hoje, as leis de transparência obrigam os governos a prestar contas do uso do dinheiro público, mas às vezes esse dado é oferecido de uma maneira tão confusa que quase ninguém entende”, explica Denise. Para o jornalista, advogado e doutor em Sociologia, Dani Rudnicki, esse jogo possibilita discursos pautados mais pelo marketing do que pela verdade. “Há poucos anos, uma governadora afirmou que alcançou o déficit zero no Estado. Hoje, nós estamos com uma tremenda crise econômica, com o atraso do funcionalismo – e não sabe se é verdade ou não que falta dinheiro porque o governo não tem credibilidade”, reflete Rudnicki.

Outro fator que contribuiu para a descrença dos governos e das instituições é a agilidade do fluxo de informações e a interação promovida pelas redes sociais. “Estamos no momento da pós-verdade, em que as pessoas tendem a acreditar no que elas querem. Hoje, se um governo ou um jornalista publica algo que não corresponde à realidade, ou que o leitor não quer aceitar como verdade, a resposta vem”, ressalta Denise. Já para Rudnicki, um exercício interessante é observar os discursos dos últimos cinco governadores do Estado. “Todos garantem que melhoraram a questão da segurança pública e reduziram a criminalidade, e isso é fantástico! Se nos últimos 20 anos a violência vem diminuindo, porque a população têm tanto medo?”, completa.

A descrença da população nas instituições pode ser percebida também no imaginário cada vez mais comum de que político é tudo igual e que nenhum presta. Essa generalização do estigma do político mau-caráter fez com que surgissem figuras com o discurso do não-político, como por exemplo Donald Trump, que era um grande empresário. “A gente vive num modelo de democracia que é a democracia representativa. Se a maior parte da população diz que as pessoas que foram eleitas para representá-las não as representa, é um problema e tanto”, afirma a jornalista.

Em junho de 2017, o instituto Datafolha publicou uma pesquisa sobre o grau de confiabilidade das instituições brasileiras. Segundo ela, 69% dos brasileiros não confiam nos partidos políticos. O percentual de descrença no Congresso Nacional e na Presidência da República foi de 65%, e o da Justiça Eleitoral ficou em 40%. A mesma pesquisa revelou que a instituição de maior confiabilidade segundo os brasileiros são as Forças Armadas, cujo índice de desconfiança foi de apenas 5%.

Números que revelam que a palavra oficial está em crise. A população já não acredita mais na forma de atuação adotada tradicionalmente pelas instituições. Velhas práticas já não são mais aceitas por uma sociedade que busca a ampliação das leis de transparência e que, graças a internet, tem maior possibilidade de acesso à informação. Hoje, em poucos minutos os fatos se tornam públicos, caem nas redes sociais e logo são replicados por milhares de pessoas. A única saída que parece haver para a reconstrução da confiabilidade das instituições é a reinvenção: um novo modelo, com uma nova forma de atuação e de diálogo, e que precisa imediatamente começar a ser discutido.

(Revisado por: Patrícia Vieira e Rafael Godoy)

Pesquisa do Datafolha revela índice de credibilidade de instituições brasileiras

 

 

Sobre francisco.amorim

Professor

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