A identidade estética e o poder dos significados

(Por Jennyfer Siqueira)

Falso e significado são palavras intimamente ligadas quando uma cultura já possui sua definição de “belo” e se confronta com outra fora da “norma”. A mulher negra que ostenta suas tranças, dreadlocks ou mega hair está sujeita a julgamentos nessa realidade. Tendo que reafirmar a todo o momento o que é verdadeiro para si e o que as representam como beleza. E para as especialistas, o problema são significados colocados nessa estética diferente da “verdadeira” e “ideal”.

“Vejo esse falso como uma característica que as outras pessoas atribuem a mim”, Sandra Meirelles afirma. Quando a técnica de enfermagem do Hospital da Criança Conceição reflete sobre a expressão “pessoa falsa”, chega ao que é consenso na academia. Tanto a historiadora, Fernanda Oliveira, quanto a psicóloga, Ana Maria Bercht, concordam que o uso de expressões como falso ou pessoa falsa criam um juízo de valor de como alguém é como ser humano. “As pessoas afirmam uma identidade antes de saber o que penso”, aponta Sandra.

Ana, mestranda em psicologia social, nunca se deparou com esse conceito de falso. Se voltarmos um pouco, mais precisamente, a partir da história das Américas, a liberdade do falso nunca existiu para grupos racializados. “Existe a possibilidade de acionar e manter aquilo que é verdadeiro para si”, conforme analisa a historiadora. Sandra sabe bem o que é isso. Depois de 20 anos tendo tranças, resolveu mudar. Agora, com o cabelo curto, conta que ele representa melhor sua personalidade prática e camaleônica. Apesar de não atribuir sentido político e de ativismo nas tranças, tinha como bonito o penteado. O que não impedia “os outros” de atribuir o significado ao seu cabelo.

Como canal de transmissão de mensagens, e sustentada pela estrutura social, a estética estabelece sua importância pelo potencial de manifestação da identidade que o ser humano “nutre de sentidos e significados que se fazem através do corpo”. Para Fernanda, quando esse movimento é realizado, a pessoa passa a dizer quem ela é, do que se orgulha e deixa de ser “um corpo apontado pelo outro”. Entretanto, Ana ressalva que “não podemos dizer que uma pessoa é falsa pela sua estética e aparência” já que ela envolve outras questões como estrutura social e relações de poder.

Assim como Fernanda e Ana, Sandra vê a afirmação desse estereótipo nas falas dos conhecidos quando veem sua mudança de corte de cabelo e ligam sua estética ao estereótipo criado para mulher negra que usa alisamento, dreads, mega hair e tranças. Apesar de não levantar bandeira, ela concorda com a historiadora que para os grupos racializados o corpo fala e as pessoas o leem. “Todos nós temos nossos preconceitos. A única forma de reverter isso é estudando. É procurar saber do que se trata antes de falar a sua opinião”, diz Sandra.

As crianças, principalmente meninas, são bombardeadas com modelos pré-estipulados por seus responsáveis e pelo seu ambiente social. A psicóloga relaciona a realidade das mulheres serem ensinadas a enxergarem seus corpos sob a ótica da aparência desde cedo ao fato delas serem as maiores consumidoras de tratamentos, serviços e produtos associados a beleza. Ana aponta o vínculo desse “belo” a características tidas como positivas pela estrutura social por estarem associadas às pessoas brancas e que automaticamente “rejeita as outras etnias”.

A beleza negra trava a mais de 50 anos uma luta para ser reconhecida e exposta a termos afirmativos. Como analisa a historiadora, o grupo adquiriu a possibilidade de diferenciar o falso do verdadeiro e de dizer “isso é o que me constitui”. Conquista de anos de ativismo cada vez mais presente nos círculos sociais e na mídia. Fernanda ainda ressalta a importância de não deixar o debate ficar na superfície e perder “seu potencial de transformação”. Já que quando aprofundada, a rejeição dessa “beleza” a outras culturas encontra-se com o cerne de grande problema que é pensar racialização no Brasil.

(Revisado por Larissa Pessi, Luísa Meímes e Marjorie Paula)

Legenda da Foto: Mulheres debatem expressão “pessoa falsa” a partir da ótica da estética e identidade

Crédito da Foto: Fayler Aprato

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