As origens da violência

(Por Diego Rodrigues)

Historiadores, filósofos, sociólogos, psicólogos, entre outros cientistas, buscam há séculos explicações sobre as causas da violência. Seríamos naturalmente violentos ou aprendemos a ser ao longo da vida? Há o que ser feito? Como fazemos? Muitas perguntas, algumas respostas e uma certeza: compreender esse fenômeno social de modo complexo definirá os rumos da Humanidade.

Crises institucionais, crime organizado, violência doméstica, ataque a minorias nos acompanham há muito tempo. Em um contexto de globalização, a intolerância não apenas ficou mais evidente, mas foi potencializada, acreditam os especialistas. Vivemos uma sociedade do conflito, a conflitualidade aparece em quase todos os momentos das relações humanas. A violência passou a ser forma corrente de exercício de poder.

Seria possível acabar com a violência? Para o doutor em Sociologia e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Direito da UniRitter, Dani Rudnicki, é praticamente impossível. Conforme ele, no entanto, um dos caminhos seria o controle por meio da redução das assimetrias sociais. O professor aponta a criação de “territórios de paz”, por exemplo, como um projeto que ajudou no controle dos indicadores criminais em áreas mais atingidas pelo crime organizado.

Mas como compreender a rotina de violência, muitas vezes, revelada na vida cotidiana, em casa, no trabalho, em está- dios de futebol? A resposta é complexa. “Uma perspectiva individualista é o senso comum como justificativa para que atos violentos sejam cometidos. Fatores genéticos, transtornos, frustrações e traumas podem justificar atitudes tomadas. Porém, nem sempre a motivação se justifica de forma individualizada”, diz o psicólogo e membro do Núcleo de Pesquisa em Trauma e Estresse da Escola de Humanidades (NEPTE), da PUCRS, Gustavo Ramos Silva. Outro fator importante é o processo de socialização na infância e adolescência. Se houver um modelo violento para uma criança, ponderam especialistas, há chance de ela ter um futuro violento.

O efeito é em cascata. A violência cresce em níveis alarmantes, segundo as estatísticas. O Atlas da Violência 2017 aponta que, em 2015, no Brasil, ocorreram 59.080 homicídios. O que equivale a uma taxa de 28,9 por 100 mil habitantes. O número aponta que, no ano de referência, a cada uma hora, aproximadamente sete pessoas eram mortas neste país. Os números mostram que negros têm mais chance de serem assassinados. De cada 100 pessoas vítimas de homicídio no Brasil, 71 são negras. De 2005 a 2015, houve um aumento de 18,2% na taxa de homicídio de negros. Mulheres e a população LGBT estão entre as vítimas mais frequentes.

A violência não é algo que preocupa somente a população brasileira. Segundo dados apresentados pelo Global Peace Index (GPI) 2017, o ano que se passou mostrou uma ligeira melhora na pontuação geral no índice de paz mundial. A pesquisa indica que esta é a primeira melhoria na paz global registrada desde 2014. Fato considerado de maior importância é o número de países que apresentaram melhora, 93, em comparação com aqueles que se deterioraram, 68.

Com os dados apresentados, conclui-se que o mundo melhorou um pouco no quesito paz de 2015 para o ano passado, porém, tornou-se menos pacífico na última década. A Islândia segue no topo como país mais pacífico do mundo, posição esta que ocupa desde 2008. No ranking, é seguida por Nova Zelândia, Portugal, Áustria e Dinamarca. Na parte inferior do índice, comparado ao ano anterior, houve pouca mudança. A Síria continua a ser o país mais violento do mundo, seguido de Afeganistão, Iraque, Sudão do Sul e do Iêmen.

O ranking demonstra o quanto as guerras presentes nos países com menor índice de passividade afetam na paz mundial. O Brasil ocupa a posição de número 105, superado na América Latina como menos pacífico somente por Venezuela e Colômbia, 144 e 147 no ranking, respectivamente.

Professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e em Políticas Públicas da UFRGS e diretor do Instituto Latino-americano de Estudos Avançados (ILEA), José Vicente Tavares dos Santos diz que a violência é um comportamento justificado por um determinado código social. As pessoas, quando cometem um ato de violência, de algum modo, têm interiorizadas um código de conduta que as autorizam a cometer o ato. A violência não é um ato irracional. Por que existe tal cultura de recorrer à violência para solucionar uma disputa, conflito ou desavença? Esta é a grande questão a ser respondida, diz o professor. A primeira conclusão baseia-se na reprodução da violência dentro do grupo familiar, onde, por vezes, a palmada é a forma de educar uma criança. No outro extremo, os idosos também são vítimas de pessoas dentro de casa. Outro fator é reprodução da violência pelos meios de comunicação, pois a mídia atua como agente de socialização. O romance policial também tem impacto no fenômeno social. Livros e séries de TV romantizam e dramatizam atos violentos e, muitas vezes, os apontam como solução para conflitos. Assim, há enorme produção de significados que legitimam a violência como código ordenador de condutas. Todos esses são fenômenos que propagam a produção da cultura da violência.

Como passar a viver então em uma cultura de paz? Para o sociólogo, o primeiro passo é o diagnóstico, identificação e nomeação do que realmente é um ato violento para, aos poucos, desconstruir a cultura de violência. Isso depende da criação de uma cultura de paz, mostrando que há alternativas. Mediação e arbitração de conflitos seriam fundamentais, neste sentido, no desenvolvimento de uma cultura de tolerância e, por consequência, de paz. Segundo José Vicente, a violência é um ato que destrói a cidadania do outro. A cultura da paz, por sua vez, é reconhecer o outro como diverso.

Sobre francisco.amorim

Professor

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