Paixão ao futebol, indiferença à vida

(Por Gabriela Soares)

O Brasil ocupa uma das primeiras posições no ranking de torcedores mortos em confrontos antes e após as partidas de futebol. As torcidas organizadas se tornaram celeiros do terror esportivo, instalando um clima de medo e insegurança para quem frequenta os estádios. É perceptível o aumento da violência e da incompetência das autoridades em controlar a situação. Nos últimos anos, apenas 3% dos delitos no âmbito do futebol (racismo, xenofobia, machismo, agressão, mutilação e morte) foram punidos. São Paulo é apontado como estado mais violento do país, seguido pelo Rio Grande do Norte e Pernambuco.

De acordo com um estudo realizado pelo sociólogo Maurício Murad, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o número de mortes ainda se concentra em classes mais baixas e com escolaridade até o ensino fundamental, mas a estatística alcança todas as faixas sociais, renda e níveis de formação, inclusive mestres e doutores. O pesquisador destaca em seus ensinamentos que, embora os confrontos sejam provocados por torcidas organizadas, a maioria dos mortos são “inocentes”: até 2013, eles eram a maioria. Antes, a faixa etária ficava restrita a jovens de 15 a 24 anos e agora chega aos 33 anos.

História das torcidas

Conforme disposto no artigo “Lazer e violência nas torcidas organizadas”, o surgimento das primeiras torcidas era denominado “charanga”, agrupamento de pessoas que visavam apoiar seus clubes, com instrumentos musicais, de uma forma alegre e o uso de uniformes. A Torcida Uniformizada do São Paulo, criada em 1940 e a Charanga do Flamengo, criada em 1942, foram os primeiros movimentos organizados.

As Torcidas Organizadas, assim como se entende hoje, começaram a existir no final da década de 60. O Grêmio Gaviões da Fiel, com fundação em 1969, é considerado a primeira torcida organizada. Com o passar dos anos as torcidas vão se firmando, inclusive por meio da violência e o quadro de associados cresce de maneira significativa, nos anos 90.

A primeira morte ligada à violência no futebol aconteceu em 1988, quando Cléo Sóstenes Dantas da Silva, 24 anos, foi assassinado em frente à sede da torcida do Palmeiras, seu clube de coração. Ele era presidente da Torcida Mancha Verde depois extinta pela Justiça, mas que retornou com o nome de Mancha Alviverde.

Comportamento do torcedor organizado

Segundo o professor de História das instituições de ensino, Fapa e Uniritter, Walter Lippold conta que o fenômeno da violência na questão do futebol não está restrito ao Brasil. Apresentamos antecedentes já na questão do Hooligans, jovens que se divertem através de futebol, bebidas e brigas, sendo o fenômeno mais estudado na Inglaterra.

Inicialmente, o termo hooligan pode designar tanto um comportamento ligado a uma família que apresenta conduta antissocial, quanto a um grupamento específico de torcedores. A primeira característica que difere os hooligans é que estes possuem afinidade com movimentos políticos de extrema direita e com ideias xenofobias.

Para entender melhor a cabeça dos membros das torcidas organizadas, em entrevista, um integrante da banda Oficial do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, conta como iniciou sua paixão pelo clube que resultou no fanatismo. Hoje, com antecedência criminal e sem permissão de comparecer nas partidas, ele afirma: “Acho que vale a pena arriscar a vida pelo time”.

Como iniciou o interesse em assistir aos jogos e a sua participação na Geral?

Comecei a frequentar os estádios desde cedo. Interessei-me em participar da torcida organizada, mas principalmente da banda. A banda que anima o jogo. Aos poucos fui me enturmando e conhecendo todos os membros. Comecei a ir cada vez mais aos jogos. Quem participa da torcida, tem que chegar com bastante tempo de antecedência. Se um jogo inicia às 21 horas da noite, mais ou menos ao meio-dia temos que estar no estádio.

O clube tem participação da organização da torcida? Tem alguma ajuda de custo como ingressos, transporte ou na retirada dos torcedores quando presos?

Antigamente o clube ajudava bastante. Hoje em dia, não temos ajuda em nada. Uns cinco anos atrás, tudo era melhor, a festa no estádio era mais completa. Hoje não temos nada. Não conseguimos nada. Não temos ajuda com ingresso, com transporte, viagens para outros estados e países. Se vamos presos, o clube não fornece assistência, ainda prejudica nas identificações. O clube não está nem aí pra torcida. A torcida faz por si mesmo. Temos que fazer material pra vender pra conseguir dinheiro para os gastos, para os instrumentos. Temos que achar maneiras.

 Quais os motivos que levam as brigas?

Geralmente, briga dentro da própria torcida envolve mais ego, principalmente quando estamos mais alterados, e bêbados. As brigas com as torcidas rivais envolve a questão de provar ser a maior torcida. Já brigamos com a direção pelo descaso com a gente, por deixarem de oferecem o que precisamos. Antigamente as brigas eram mais frequentes, e sim, por dinheiro, status, de ser reconhecido.

Vale a pena arriscar a vida pelo clube? Tudo isso não prejudica a imagem do Grêmio?

É uma pergunta muito difícil. Depende do ponto de vista do que seria arriscar a vida pelo clube. A gente sempre exalta o nome do Grêmio, às vezes temos que fazer algo para nos proteger e proteger quem está do nosso lado, mas acho que vale a pena arriscar a vida sim. Torcedor fanático pensa totalmente diferente do torcedor comum que chega só na hora do jogo e se senta para assistir.

Qual a diferença entre o torcedor “comum” e o torcedor fanático?

O torcedor comum torce pelo time só no dia do jogo. O torcedor fanático vive o time todos os dias, 24 horas por dia. Temos reuniões semanais. Chegamos cedo aos jogos, estamos frequentemente neles. Só nós sabemos o que passamos pra conseguir dinheiro pra acompanhar o time. Quando entramos no estádio ou até mesmo fora dele, a razão fica em casa. Não aceitamos que falem mal do nosso time, dos jogadores. É difícil de entender. O jogo já conduz uma emoção, e naquela mistura de sentimentos não aceitamos críticas e acabamos tendo atitudes erradas.

Referente aos antecedentes criminais. Quais são?

Eu tenho algumas. Em 2012, foi a primeira vez que fui detido. Eu fui fichado como rixa (briga de dois grupos rivais definidos). Depois fui detido mais umas dez vezes, mas as principais são por rixas, danos a patrimônio privado, incitação à violência, agressão, sendo consequentemente as que envolvem mais as torcidas. Já usei tornozeleira eletrônica. Eu teria que cumprir uma transação penal onde deveria ficar dez jogos sem ir ao estádio, me apresentei nove vezes na delegacia e uma não apareci. O juiz determinou que eu colocasse tornozeleira eletrônica. Usei menos de dois meses, pois não era mais necessário o monitoramento.

Então se você não participasse da torcida, hoje não teria essas antecedências. Você é um agressor pela torcida. Isso? Ter essas antecedências pelo teu time, carregar isso na tua vida, vale a pena?

Não é questão de ser agressor pela torcida, mas obviamente se eu não participasse não teria essas antecedências. Foram fatos que aconteceram que eu tive que me defender. Ter antecedente criminal não faz diferença na minha vida, eu não tenho uma condenação, tenho passagens. Minha ficha corrida é toda limpa. Nunca fui condenado, nem vou. Fui absolvido de todas. Já cumpri muitos anos fora dos estádios. São coisas que acontecem.

Você já foi proibido de ir a algum jogo? O grêmio tem fiscalização, como as catracas biométricas?

Já fui proibido diversas vezes em ir aos jogos, durante três meses, cinco meses, de dez a quinze jogos. Já usei tornozeleira eletrônica. O Grêmio não fiscaliza nada. Quem fiscaliza os detidos é a Brigada Militar e o Ministério Público. Os times (Internacional e Grêmio) não tem fiscalização nem deles próprios, quem dirá dos detidos. O Juizado do Torcedor geralmente quando proíbe alguém é acordado que o torcedor deve comparecer meia hora antes e meia hora após o jogo na delegacia mais próxima.

 

Fanatismo e violência

“Uma pessoa que vive para bater nos outros e em defender o time, na minha visão, não está na normalidade psicológica. Ser fanático, dentro do normal, chorar e ficar triste, acredito que no Brasil é mais aceitável”, opina o professor Walter, que para compreender o fanatismo e a violência, entra a categoria da Psicologia.

Como psiquiatra, filósofo, cientista social e revolucionário, Frantz Fanon foi um dos pensadores mais instigantes do século XX. Ele abrange que todo o ser humano tem dois tipos de pulsão: A pulsão Eros, é uma pulsão ligada aos instintos sexuais e a pulsão Thanatos, um impulso agressivo contra os outros e contra a si mesmo. Freud escreve isso quando se dá conta que a algo no ser humano inato. Toda energia Eros e Thanatos tem que ser sublimada. Toda sociedade precisa ter uma válvula de escape para as condutas agressivas.

Os fatores econômicos, políticos ou socioculturais podem influenciar no comportamento e na atitude dos torcedores. Este comportamento de massa tende a alterar certos valores, expectativas, sentimentos e sentidos das ações individuais. “Um homem sozinho na rua é uma coisa, esse homem com mais dois homens já me parece um pensamento de matilha. Vem à necessidade de se exibir, de masculinidade, para mostrar que ele é potente, através da agressividade”, refere-se o professor Walter a mudança de comportamento do indivíduo que é causada pela presença de um grupo, principalmente na violência futebolística.

Talvez, a necessidade de serem diferenciados dos torcedores comuns, conforme afirmado na entrevista do integrante da banda, possa contribuir também nesta mudança de comportamento. Um exemplo simples é que estes torcedores organizados assistem às partidas em pé. Esta postura é totalmente diferente dos torcedores comuns, que assistem ao jogo sentado e levantando-se somente durante os intervalos. Da mesma forma, a violência real pode ser estimulada pelo consumo de drogas lícitas e ilícitas, como por exemplo, o álcool. O uso dessas substâncias faz com que o indivíduo perca a inibição, sendo mais difícil distinguir comportamentos desejáveis de indesejáveis. “Toda violência física é a incapacidade de verbalizar aquilo que você sente”, finaliza o professor Walter. O Ministério Público do RS foi questionado sobre o assunto, entretanto não se manifestou.

 

Dados coletados para calcular a média de mortes ocorridas em cinco anos no Brasil

2010: 12 pessoas morreram por causa de futebol no Brasil.

2011: 11 pessoas tiveram a morte comprovadamente ligada a rixas de torcidas.

2012: 23 pessoas foram mortas por torcerem por times diferentes. Nesse ano, a violência do futebol dobrou.

2013: 30 pessoas foram assassinadas por torcedores rivais. Foi o maior número da história.

2014: 18 pessoas morreram por causa de futebol no Brasil. A redução se deveu à pausa para a Copa do Mundo.

2015: 15 pessoas morreram por agressão em público. Houve o aumento da presença das mulheres nos estádios.

Dados coletados dos cinco times mais punidos que tiveram de jogar sem a presença da torcida ou 100 km de distância se suas sedes por causa de atos violentos dos torcedores entre 2011 a 2016

Atlético-PR 11 jogos além da perda de dois mandos de campo;
Corinthians 9 jogos por mau comportamento dos torcedores;
Goiás 6 jogos pela bomba atirada da torcida esmeraldina na arquibancada onde estava a torcida do Sport;
Vasco 5 jogos por mau comportamento dos torcedores;
Palmeiras 5 jogos além da perda de um mando de campo.

Sobre francisco.amorim

Professor

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