Um estupro a cada 11 minutos

(Por Andreza Ferraz)

Débora se lembra de cinco estupros. Desde os oito anos, ela sofre o abandono da família, Estado, amigos e colegas. O seu caso não é raro. Segundo as estatísticas recolhidas pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), a cada 11 minutos uma mulher é estuprada neste país. São 130 mulheres estupradas todos os dias. Esses são dados subnotificados, porque as pesquisas mostram que apenas 10% das mulheres violentadas e estupradas têm coragem de denunciar. Outro dado: apenas 35% das mulheres que apanham dos seus companheiros têm coragem de delatar. E os números não param por aí: 70% dessas vítimas de estupro são crianças e adolescentes, mais de 80% do sexo feminino. Mulheres de diferentes classes e raças são violentadas, embora as negras sejam as principais vítimas letais. A música ‘’Maria, Maria’’ de Milton Nascimento, que em um trecho diz: ‘’De uma gente que ri, quando deve chorar, e não vive, apenas aguenta’’, traduz a história de vida de Débora. Aos oito anos, a menina foi morar sozinha nas ruas do centro de Porto Alegre por um motivo comum quando ocorre abuso sexual dentro de casa: sua mãe não acreditou que o seu companheiro abusava da filha. Então a expulsou de casa. De lá para cá, Débora foi vítima de estupro por mais quatro vezes durante toda a sua vida. O último foi aos dezenove anos quando aceitou uma carona de moto. Com quinze anos descobriu que era portadora de HIV, por conta dos abusos sofridos, pois não havia nascido com a doença. Mesmo sendo muito nova, a vítima tinha consciência de que ser tocada por um homem mais velho estava errado. Ela não entendia o motivo para ele estar fazendo aquilo com ela. Milhares de mulheres não denunciam os seus agressores por medo. Esse é o sentimento que acompanha as vítimas dia e noite, sem parar. Por se sentirem envergonhadas, culpadas e muito abaladas psicologicamente, elas acabam não prestando queixa na polícia. Em 2012, foram 1.437 casos de estupro no Rio Grande do Sul, segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP). Em 2013, foram 1.424 casos; em 2014, foram 1.373; em 2015, foram 1.432; em 2016, foram 1.472; e durante janeiro, fevereiro e março de 2017, foram 341 casos de estupros registrados em delegacias. No seu cotidiano era possível enxergar, naturalmente, o lado indesejável da vida. Sua casa era cercada de pessoas desconhecidas, drogas e mortes. Não era necessário abrir a porta de casa para ser vítima desse ciclo que cerca a sociedade. A mãe de Débora já havia sido abusada durante sua infância, e anos depois, sua filha passou pelo mesmo trauma. Mas Débora não atribui esses fatos a alguma falta de cuidado ou irresponsabilidade da sua base familiar. Acha que foi azar do destino, infelicidade. A assistente social Larissa Ferreira, atualmente funcionária educadora social num Abrigo Residencial, fala sobre a sua experiência em trabalhar no Hospital de Clínicas de Porto Alegre no setor de Violência sexual contra Criança e Adolescente. Para a assistente social, geralmente, ou quase sempre, as famílias não conseguem cuidar das vítimas e acabam expondo-as para a situação mais grave, o abuso sexual. A violência sexual é cometida por pessoas próximas às crianças e adolescentes. Depois de ter passado por tantas experiências ruins, Débora se entregou às drogas. Começou a usar crack para fugir dos problemas que a cercavam 24h por dia. Vendeu os móveis da casa, brigava com os familiares, não conseguia cuidar dos filhos, passou fome e não aguentava a sequência de tratamentos em hospitais. Por último, ficou hospitalizada no Hospital Mãe de Deus por 28 dias. Hoje, com 28 anos, Débora é mãe de quatro filhos. Está saudável e esperançosa. Dois filhos moram com famílias diferentes e os outros dois vivem com ela. Confira trechos da entrevista de Débora à reportagem.

“É por nada que as coisas estão acontecendo hoje em dia”, desabafa vítima

Unipautas – Se acontecesse hoje, tu denunciarias na delegacia da mulher?

Débora – Sim. Hoje existe muita coisa, hoje é diferente. Eu assisto muita televisão, presto bem mais atenção nas coisas. Hoje talvez eu arrancasse o cabelo do estuprador para ter uma chance de fazer DNA. Arranharia, para pelo menos ter uma chance de saber quem é a pessoa. Hoje eu também conversaria com ele. Pediria para não me matar, porque eu tenho família, e para usar camisinha, porque eu tenho medo.

Unipautas – Desde o primeiro abuso, até o último, o que mudou na tua vida? Qual foi a experiência adquirida com este trauma?

Débora – Eu me tornei uma pessoa melhor. Eu não sou uma pessoa ruim, eu não sou uma pessoa má, mas poderia ser. Se precisar tirar a roupa do corpo para ajudar alguém, eu tiro. Todo mundo gosta de mim, mas eu não me misturo com ninguém porque tenho medo. Eu só vou a festas com o meu marido, porque tenho medo de alguém fazer alguma coisa contra mim. Eu só não quis ter a vida que a minha mãe levou… Eu fui tentar levar a vida que ela levou, a vida do lado ruim, mas consegui reverter para o lado do bem.

Unipautas – O que tu deseja para os estupradores?

Débora – Eu queria que existisse pena de morte. Às vezes, o juiz não tem certeza se ele cometeu o crime, libera e ele faz de novo. Mas ninguém sabe a dor que a pessoa está passando e a família. Se um dia a minha filha me contar que algo de errado aconteceu com ela, eu vou acreditar nela. Diferente da minha mãe, que não acreditou em mim. Se depender de mim, a pessoa vai presa.

Unipautas – Hoje tendo filhos, o cuidado é redobrado para que esse ciclo de traumas não se repita na sua família?

Débora – Claro. Eu morro de medo que façam alguma coisa para a minha filha, e protejo ela demais. Quando ela crescer, de repente possa achar que eu a sufoquei demais, mas vai entender quando eu explicar como a vida funciona. Quando o meu filho for ter a primeira relação, eu vou dizer para ele usar camisinha, para não ter a mesma doença que a mãe dele tem. Eu não quero que os meus filhos passem o que eu passei.

Unipautas – Se tu pudesses deixar uma mensagem de alerta para as pessoas que vão ler essa entrevista, qual seria?

Débora – Tomar cuidado pelas ruas, não andar pela escuridão. Esse negócio de internet… Não marcar encontro com ninguém. Não tenho muito o que dizer, porque, às vezes nem dá tempo de nada. É por nada que as coisas estão acontecendo hoje em dia.

Unipautas – Qual é a vida que tu desejas seguir daqui pra frente? Objetivos, sonhos, amor, família.

Débora – O meu sonho já vai ser realizado daqui a pouco: é que o meu marido saia da cadeia, e que eu não use mais drogas. O meu objetivo é conquistar tudo que eu perdi há um mês (bens materiais e dignidade). Dar o melhor que eu puder para os meus filhos, ajudar o meu irmão, meu pai.

 

Sobre francisco.amorim

Professor

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