A violência contra as mulheres nos espaços públicos

(Por Brunna Oliveira)

Por que mudar suas roupas para sair? Por que trocar sua rotina diária, como pegar um ônibus em um determinado local e horário para poder se sentir segura? Quando um bom dia ou boa noite se tornou um convite para homens? Por que as mulheres ainda precisam aceitar como um “elogio” cantadas intimidadoras e desconfortáveis? Como ainda vivemos em uma sociedade machista que entende como normais atitudes como estas? Esses são alguns questionamentos que a grande maioria das mulheres, se não todas, já parou mesmo que por um breve momento, para tentar entender.

Diariamente, as delegacias da mulher do Rio Grande do Sul (DEAM’s) recebem denúncias sobre alguma violência de gênero. Em média 4 mulheres são estupradas por dia, sendo 63 casos de lesão corporal e 109 denúncias a respeito de ameaças, conforme dados da Secretaria de Segurança Pública. Este é um problema que atinge as mulheres em diversos cantos do Rio Grande do Sul e mesmo assim os dados são bastante escassos. Quando se trata da violência nos espaços públicos, esses dados são silenciosos e muitas vezes não são nem denunciados, pois julgam não ser “grave o suficiente”, ou acreditam que o Estado irá se omitir perante suas denúncias.

Tatiane, 26 anos, estudante de história da arte, recordou alguns episódios de abuso dentro dos ônibus. Ela comentou que nunca havia sentido essa insegurança tão evidente, que surgiu há alguns anos. A vítima, que já sofreu mais dois assédios no transporte público, recorda a circunstância mais impactante pela qual já passou. Quando estava sentada na janela do ônibus, aproveitando o pouco tempo que tinha para dormir, já que a sua rotina era um tanto árdua com a faculdade, pegou no sono.

“Eu coloquei em dúvida o que eu estava vendo. Eu coloquei em dúvida o que tinha acontecido. Isso é bastante dessa construção social de desacreditar a palavra da mulher”, relata.

No momento em que acordou, sentada no banco próximo à janela do ônibus, lembra de acordar e se arrumar, tentando se localizar. Olhou para baixo, estava vestida com uma saia e o indivíduo que sentava ao seu lado, já havia colocado a mão em sua perna. Ela comentou não acreditar no que estava vendo. “Uma vez que o medo é tão evidente, ele se torna presente em todo o lugar” acrescentou a vítima. Sem reação, ela comenta que seu principal receio era do que uma pessoa daquelas seria capaz de fazer caso ela tentasse sair dali ou falar algo. Todos esses episódios aconteceram dentro do transporte público, um lugar que têm outras pessoas, mas que ninguém tem coragem de falar algo, porque normalmente as pessoas têm medo de atitudes como essas.

As delegacias estão recebendo com o passar do tempo, maior número de denúncias sobre a violência nos espaços públicos. Conforme informações da delegada Jeiselaure de Souza, que atende a DEAM no município de Viamão, 7 a 10 ocorrências são feitas diariamente, em média. Ela comenta que um dos dias de maior procura é a segunda-feira, pois não há plantão 24 horas e por isso as mulheres precisam se dirigir a uma delegacia de pronto atendimento para registrar o B.O.

Cantada ou assédio?

“Temos notado que quanto mais campanhas de conscientização, palestras e encontros com mulheres existem, maior é o número de ocorrências. Isso não significa que há aumento da violência contra a mulher, mas sim que as mulheres estão criando cada vez mais coragem para fazer as denúncias. O importante é denunciar, sempre o mais rápido possível” afirma.

Para as mulheres que se sentem desconfortáveis ou inseguras para registrar a ocorrência, a delegada explica que o atendimento é feito por meio de fichas. A denúncia é efetuada em uma sala individualizada, onde a vítima pode relatar o que houve e informa se tem interesse em medida protetiva. Após isso, são feitos todos os encaminhamentos: exames periciais, serviço de proteção à mulher – caso necessário – e acompanhamento psicológico. Depois que as medidas protetivas de urgência são encaminhadas ao Poder Judiciário, a vítima deve comparecer ao local em até 48 horas para saber se foi deferida.

Em um dia quente e com um grande volume de pessoas circulando na capital do RS, Débora, 22 anos, estudante de jornalismo, recorda de pegar um ônibus para ir até um dos bairros da cidade – estava lotado, até então nada fora do normal, visto a situação que nosso transporte público se encontra nos horários de pico. A garota comentou que todos estavam “esmagados” e que inclusive não tinha espaço para se mover ou conseguir trocar de lugar dentro do coletivo. Era mais um dia normal de temperaturas altíssimas e a vítima lembra de estar com uma blusa de alcinhas e que quando tentava encontrar um espaço um rapaz a encarava.

Ela estava desconfortável, pois o rapaz que a observava, olhava descaradamente para seus seios e para seu rosto em forma de intimidá-la. O homem a pressionava e por mais de uma vez ficou se esfregando na vítima, até ela sentir sua blusa molhada. Sem ter para onde fugir e desesperada, Débora não sabia o que fazer.

“Ele era um rapaz alto e jovem. Não tinha uma figura de “homem tarado” como estamos acostumadas a imaginar. Por ser tão alto, ele ficava batendo na minha barriga com o pênis e em uma das vezes, cheguei a sentir minha blusa molhada. Nessa hora fiquei pasma, em choque. Eu só consegui dizer: “Meu deus!”.

Sobre francisco.amorim

Professor

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