Monstros dentro do computador

(Por Lidiane Moraes)

Para muitos pais, uma criança não corre risco ao se divertir em um computador, celular ou tablet. Entretanto, pesquisas podem mostrar o contrário. Os apontamentos do site não governamental Safernet revelam que a internet é onde as crianças podem estar mais vulneráveis. Em 2016, o site processou 56.924 denúncias anônimas de pornografia infantil na internet. Um aumento de 0,31% em relação ao ano anterior. 15,9% das denúncias estavam hospedadas na rede social Facebook. O Brasil ocupa o terceiro lugar com maior número de hosts (hospedeiro) denunciados, conforme ranking divulgado na página. As denúncias foram feitas através da Central de Denúncias, software desenvolvido pela plataforma para computar e monitorar as informações que são disponibilizadas para qualquer cidadão que quiser acessar.

Fonte: Safernet

 

O diretor de Prevenção e Atendimento da Safernet, Rodrigo Nejm, explica que a coleta das informações tem o intuito de facilitar e colaborar com o trabalho do Ministério Público e da Secretaria de Direitos Humanos. As ações são realizadas para que o estado brasileiro tenha soluções efetivas para o problema. Rodrigo ressalta que a ONG não tem nenhum poder de remoção de conteúdo. As remoções só podem ser feitas pelo sistema judiciário ou pela própria plataforma. “Nosso sistema verifica se as páginas que foram denunciadas continuam no ar, fazemos a verificação para o usuário que denunciou, através do protocolo da denúncia”, explica.

Para a delegada da Delegacia de Polícia para Crianças e Adolescentes de Porto Alegre (DECA), Laura Lopes, a orientação é que os pais evitem que os filhos fiquem expostos a estas situações. O monitoramento das redes é a principal forma de evitar o contato com estranhos, já que a maioria dos casos que recebe na delegacia é de perfis falsos, usados como forma de atrair as vítimas. A delegada ainda alerta que algumas redes como o Facebook são impróprias para menores de idade, como as próprias políticas de uso propõem.

“Tu pensa assim, que horror, olha o que eu vi… Mas que bom que eu vi!”. Foi assim que Rita descobriu uma conversa de um estranho com seu filho, de 14 anos. Embora ela monitorasse com frequência as redes sociais do menino, devido à correria do dia-a-dia, não o havia feito naquela semana. Foi somente em uma das faxinas semanais no quarto do filho, que o inesperado aconteceu. A mãe do menino lembra que teve algo como uma intuição – e ao olhar o celular em cima da cama, resolveu checar as mensagens.

Foi então que sentimentos de preocupação e insegurança tomaram conta dela. Nas mensagens do Facebook, encontrou conversas com um rapaz mais velho. Além das conversas, algumas ligações também teriam sido feitas para o celular de seu filho, inclusive de madrugada. Nas conversas, o homem propunha um jogo de adivinhações: quem errasse mandava foto “como o outro quisesse”. Ainda que o menor insistisse em envio de figurinhas quando do erro da pergunta, o aliciador insistia no envio de fotos pessoais.

Comportamentos como o das conversas encontradas pela mãe do menino no celular do filho são comuns entre pedófilos. Apesar de não ser possível traçar um perfil exato do agressor. Uso de elogios excessivos e tentativa de agradar às crianças é comum nos casos de pedofilia na internet. A empresa de segurança japonesa Trend Micro, disponibilizou em seu site uma cartilha mostrando um monitoramento feito com as perguntas mais comuns e o que elas queriam dizer. Questionamentos de onde o computador fica instalado na casa pode demonstrar interesse em uma conversa longe dos pais. Ofertas de carreira de modelo também são uma das táticas usadas.

Na maioria dos casos, os agressores fazem ameaças às vítimas para que não desistam das conversas. É o que explica Luciana Tisser, doutora na área de Ciências da Saúde e professora no Centro Universitário Ritter dos Reis. Mesmo com um relacionamento aberto com os pais, as crianças podem ficar reféns do agressor. Ainda segundo Luciana, apesar dos sinais serem sutis, é essencial que os pais estejam atentos às mudanças comportamentais dos filhos. A criança pode ficar apática e demonstrar mudanças como baixo rendimento escolar, medo excessivo, quadros de depressão ou isolacionismo e, em outros casos, pode demonstrar comportamento hiperssexualizado. A orientação da psicóloga é que se tenha sempre uma conversa aberta com as crianças. Luciana ainda destaca a importância do acompanhamento psicoterápico após um trauma. “O acompanhamento é imprescindível para minimizar os efeitos negativos, que são inevitáveis. É aconselhado que a criança faça um acompanhamento por um longo período após o trauma”.

Ao questionar o filho sobre os motivos da conversa com o estranho, o menino explicou à Rita que não contou pois achou que era apenas um jogo. Quando percebeu a insistência do homem em mandar fotos, decidiu parar o contato. Após a descoberta do caso, ela buscou apoio junto à família, que orientou a registrar a ocorrência. As denúncias de casos de pedofilia podem ser feitas nas delegacias especializadas de proteção à criança e adolescente, ou, em qualquer delegacia da cidade. A delegada Laura Lopes explica ainda, que é importante que o URL (endereço virtual) da página seja fornecido pelo denunciante, uma vez que a remoção da página dificulta o trabalho da polícia. São características de crime registrar por qualquer meio, cena de sexo explícito ou pornográfico envolvendo crianças ou adolescentes conforme o artigo 240 da Lei n° 11.820 de 13 de novembro de 2008 do Código Penal Brasileiro. A pena para esses crimes é de reclusão de quatro a oito anos e multa.

Além da denúncia na delegacia da cidade, Rita fez a denúncia da página do homem para o Facebook. O acionamento da escola também foi necessário. O menor e o aliciador, já maior de idade, estudam no mesmo local, onde ela acredita que o contato tenha começado. A instituição prometeu observá-los e mantê-los distantes. Atitude que, para a Mestre em Educação e Coordenadora do curso de Pedagogia da UniRitter, Lenir dos Santos Moraes, foi totalmente errada. A professora explica que a escola tem um papel fundamental na vida das crianças, já que é o lugar de maior convívio depois de casa. “Em casos graves, quando as partes envolvidas são da mesma instituição, a escola deve se posicionar; jamais se omitir. Se alguma denúncia deste tipo chega ao Ministério Público, a escola é implicada junto”.

Rita ainda não recebeu retorno sobre o andamento do caso por parte da delegacia, e a página do homem continua ativa no Facebook. Manter um relacionamento aberto com os filhos, e monitorização do conteúdo acessado são essenciais para evitar que casos como esse se repitam. Ainda que vivamos em uma era onde a comunicação se tornou mais digital do que pessoal, os pais devem sempre buscar meios de conectar-se com os filhos. A evolução na relação entre pais e filhos deve acompanhar a velocidade em que a internet se expande.

Fonte: Safernet

Gráficos: Lidiane Moraes

Foto: Leonardo Ferreira

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