Senegaleses segregados na Capital

(Por Vitória Karoline)

A violência com senegaleses no Estado do Rio Grande do Sul aumenta a cada ano pela discriminação e xenofobia praticada com esses imigrantes no qual a maioria são vendedores ambulantes. Para combater a violência diária, os senegaleses possuem como referência a Associação de Senegaleses de Porto Alegre junto a Secretaria de Desenvolvimento Social, eles auxiliam os imigrantes senegaleses, desde 01 de janeiro de 2015 fazendo os protocolos necessários, atendendo solicitação de pedido de refúgio e encaminhando as ocorrências de agressões. Segundo o presidente da Associação de Senegaleses Mor Ndiaye, atualmente Porto Alegre, possui em média de 1.200 senegaleses sendo que no Rio Grande do Sul vivem 4.000 imigrantes.

Enquanto a equipe de reportagem esperava para entrevistar o presidente Ndiaye, um senegalês que não quis se identificar desabafou sentir saudade de sua família, ao falar sobre eles, ele bate sua mão no peito duas vezes; um sinal de respeito e orgulho de sua família e diz Há 2 anos estou morando no Brasil. Daqui 3 meses irei voltar ao Senegal, tenho medo de voltar e minha família não estar mais lá… fico pensando se eles estão vivos ou não. Sinto muita saudade deles”.

“O motivo para chegar no Brasil é um ritual, crescemos em um lugar onde vimos que não temos oportunidades para realizar o nosso sonho e temos de ir para outro país. Mas com certeza o melhor motivo de vir para o Brasil é para ajudar minha mãe. O ensinamento que eu tenho da minha religião, sempre a melhor coisa do mundo, o que podemos fazer, é ajudar a nossa mãe e o nosso pai” disse o vice-presidente da associação de senegaleses Omar Mourid.

Os senegaleses que vivem no Brasil, enfrentam a xenofobia e a discriminação em seu dia-a-dia de uma forma transparente aos olhos dos outros indivíduos. Imigrantes e negros acabam sofrendo também com o racismo. O Brasil infelizmente é um dos países onde o racismo ainda é muito praticado. Segundo os dados do SIM/Datasus, em 53,37% do total de homicídios ocorridos no Brasil (56.337), as vítimas foram os jovens (30.072); destes, 77,0% eram pretos e pardo, sendo 93,30% do sexo masculino (Brasil 2014). “Eles sofrem calados. Muitos não sabem o que é a palavra racismo, eles nunca ouviram falar pois são inocentes. Eles chegam aqui e se deparam com algo que não eram acostumados. Ano passado tivemos que devolver muitos senegaleses ao Senegal por problemas de cabeça ou depressão. Eles acabam tendo uma crise existencial e enlouquecem” diz Ndiaye.

Eles não gostam de falar pois se sentem mal. Alguns imigrantes possuem medo pois acham que podem ser vítimas de agressões futuramente. No decorrer de uma entrevista com o senegalês Serigne Toure, ele admite que sofreu racismo, mas opta por não falar para não se sentir mal. Toure está no Rio Grande do Sul há 2 anos e 6 meses e possui diploma em eletricista, informática, ar condicionado, câmara de vigilância e marceneiro.

“No brasil tem muita oportunidade, mas não para nós imigrantes senegaleses por conta da discriminação. Sou profissional de pintura, mas como eu não consigo emprego, não sei como vou conseguir me sustentar aqui e nem como ajudar meus familiares que permaneceram no Senegal. Sinto muita falta deles. Se eu tivesse oportunidade, voltaria hoje á tarde para o Senegal”, diz Ousmane Niang que está há 3 anos e 6 meses sem ver a sua família.

Algumas pessoas enxergam os senegaleses como pessoas que querem roubar emprego de outras, mas a realidade é a outra. “Desde que brasil é brasil nunca ouvi nenhuma reclamação sobre esses imigrantes que chegaram aqui e tomaram conta de nossas terras. E chega 1.200 imigrantes senegaleses em Porto Alegre e estão tomando conta, por que será!?”, desabafa Ndiaye.

Para falar a respeito disso, conversamos com o professor de história, atualidades e ciências políticas da rede Unificado, Pedro Duarte.

Repórter: – Qual a relação do Brasil com os imigrantes?

Pedro Duarte: De todos os países, o Brasil é a nação que mais recebeu correntes migratórias em toda a história. Afinal, aqui, muito antes da colonização europeia, povos autóctones já se deslocavam de região para região, como é o caso dos índios guaranis, que migraram da região amazônica para esta porção sul do continente, ocupando o que hoje é Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

Após a Descoberta da América, pelos espanhóis, e o reconhecimento do Brasil, além da grande migração voluntária de portugueses, a colônia ainda recebeu a maior diáspora compulsória da humanidade, onde mais de quatro milhões de negros africanos foram trazidos, ao longo de mais de três séculos para trabalhar como escravos. Na mesma proporção, o território que hoje compreende o Rio Grande do Sul, recebeu ao longo dos séculos estes portugueses e africanos, que ajudaram a moldar, junto com espanhóis, o caráter cultural que hoje o Estado possui.

Por volta do século XVII, mais portugueses – agora de Açores -, em casais, chegavam ao território sul. Mais adiante, no século XIX e início do século XX, foi a vez de imigrantes alemães, italianos e poloneses preencherem os vazios geográficos e concluir o mosaico étnico que hoje forma a cultura gaúcha. Por isso, é importante perceber que tanto o Brasil quanto o próprio Rio Grande do Sul, ao longo de toda a sua história, recebeu várias correntes migratórias. E todo esse histórico, hoje em dia, faz com que outros países ainda olhem para o Brasil como opção de refúgio e uma terra de oportunidades. Atualmente Porto Alegre tem recebido um grande afluxo de senegaleses, que buscam asilo no nosso estado em busca de oportunidades e condições de vida. Vale destacar que estes imigrantes em busca de refúgio compartilham de crenças e pensamentos sociais que não conflitam com a nossa cultura. Por isso, recebê-los é mais que uma demonstração de fraternidade, é um ato de reconhecimento social para com mais esta cultura que vem a somar. Negar a entrada de senegaleses no Rio Grande é negar a própria história de todas as outras etnias que vieram para cá e que ajudaram a formar a cultura do nosso Estado.

Os efeitos psicológicos

A psicopedagoga Vera Martins, de Porto Alegre, analisa o atual cenário cultural:

“Penso que o mundo está vivendo um movimento cultural, social, econômico e político, o que gera uma busca de qualidade de vida para todo cidadão. Assim como muitos brasileiros saem para terem novas oportunidades no exterior, recebemos senegaleses, haitianos, nigerianos, que vem para o Brasil em busca de estudo, emprego, paz. Considero o nosso país bastante preconceituoso. Sabemos que o negro brasileiro já sofre discriminação, imagina então um negro senegalês que não fala a mesma língua, não professa o mesmo credo, não tem a mesma formação cultural! A resistência na divisão de espaço, compartilhamento de culturas, usos e costumes exige com que nos desapeguemos da tradição e nos libertemos do preconceito que permeia nossa sociedade. Acredito que estamos passando por um processo de aprendizado cuja convivência é inevitável, e todos nós seremos um mesmo povo, lutando por qualidade de vida.”

 

Suporte para os imigrantes:

O Centro Ítalo Brasileiro de Assistência e Orientações aos Imigrantes (CIBAI) recolhe inúmeras doações diárias como alimentos, roupas, cobertores e livros para os imigrantes. Uma das pessoas que compõe esse time, é a secretária Mari Matos, ela recolhe as doações feitas e tem o primeiro contato com os imigrantes que chegam até o local pedindo doações e para voluntários fazerem o seu currículo. O CIBAI também realiza curso de português para os imigrantes que não dominam a língua portuguesa. A professora Jheine Sieben está dando aula a 10 meses no CIBAI e comenta sobre o que significa o CIBAI para ela: “A principal forma de quebrar preconceitos e paradigmas é unindo culturas e informando sobre elas, e o CIBAI é isso. É dar a oportunidade voluntárias de eles aprenderem o português para sua formação e podem conviver e se relacionar com brasileiros e vice-versa”.

A pesquisa feita pelos estudantes da faculdade UniRitter no dia 05 de junho de 2017, aponta que 100% dos senegaleses veem ao Brasil possuem o objetivo de ajudar seus familiares que permanecem no Senegal. Senegal é localizado na África Central e faz fronteira com o Oceano Atlântico e é dividido em 14 regiões nas quais a desnutrição e pobreza predomina. A professora e uma das administradoras do curso de português do CIBAI Aline Medeiros comenta: “a maioria deles vêm para o nosso país em busca de melhores oportunidades para poder ajudar seus familiares. Então, ao ajuda-los nessa conquista do idioma, indiretamente estamos lhes ajudando a alcançar os seus objetivos”.

Para assessorar os imigrantes também temos Grupo de Assessoria a Imigrantes e Refugiados (GAIRE), eles auxiliam os imigrantes nos Casos Trabalhistas, Revalidação de Diplomas, Reunião Familiar e Solicitação de Refúgio, casamento, acesso à educação e à saúde. Existe também o Serviço de Assessoria Jurídica Universitária (SAJU), todos os serviços prestados por eles são de forma gratuita tais como assessoria jurídica, psicológica e social. Eles exercem um papel importante na vida dos imigrantes pelo fato de não conhecerem a legislação brasileira e precisa ter conhecimento para saber seus direitos. “A questão da língua e a burocracia das nossas instituições acabam dificultando muito a questão migratória na prática, as políticas públicas de integração ainda estão muito abaixo da qualidade necessária e como consequência isso acaba gerando muitas demandas de migrantes procurando o GAIRE e outros serviços de assistência jurídica gratuita. ” Afirma Bruno Cardoso integrante do GAIRE.

Referente à esta situação comentada, o vice-presidente Mourid, relata um acontecimento que ocorreu com ele quando chegou no Brasil: “Eu entrei no Brasil pelo Acre, peguei um ônibus e fui para São Paulo e de lá para Caxias do Sul, morei 6 meses em Caxias, lá eu trabalhei com construção civil, um serviço muito pesado, porém depois de 6 meses começaram a me explorar e eu tive que tolerar pois no momento não sabíamos muita coisa para processar a forma de trabalho, existia muita coisa errada no serviço”. Atualmente Mourid mora em Porto Alegre/RS desde 2014.

 

Nova lei para imigrantes

No dia 25 de maio foi publicado no Diário Oficial da União a nova lei de imigração que impacta diretamente na vida dos imigrantes. A opinião do vice-presidente Mourid, referente à nova lei ele é de que irá facilitar mais as coisas e que a justiça irá tratar um imigrante da mesma forma que um brasileiro. Um dos pontos que irá facilitar é a documentação, muitas pessoas se formam em seu país de origem, mas o seu o documento não vale no Brasil. Os principais vetos são:

  • Anistia para migrantes que ingressaram no Brasil sem documentos até 6 de julho de 2016;
  • Conceito de “migrante” – a lei sancionada conta apenas com as definições de “imigrante”, “emigrante”, “residente fronteiriço”, “visitante” e “apátrida”
  • Revogação das expulsões de migrantes decretadas antes de 1988;
  • Livre circulação de povos indígenas entre fronteiras nas terras tradicionalmente ocupadas por eles;
  • Extensão da autorização de residência a pessoas sem vínculo familiar direto;
  • Dispensa do serviço militar de brasileiros por opção ou naturalizados que cumpriram obrigações militares em outro país;
  • Direito dos migrantes de exercer cargo, emprego ou função pública
  • Concessão de visto ou de autorização de residência para fins de reunião familiar a outras hipóteses de parentesco, dependência afetiva e fatores de sociabilidade
  • Definição que considera como grupos vulneráveis: solicitantes de refúgio; requerentes de visto humanitário; vítimas de tráfico de pessoas; vítimas de trabalho escravo; migrantes em cumprimento de pena ou que respondem criminalmente em liberdade; menores desacompanhados.

Fonte: site MigraMundo.

Foto: Vitória Karoline

 

Sobre francisco.amorim

Professor

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