Violência a 60 quadros por segundo

(Por Bruno Raupp)

A violência é brutal no Brasil e o nosso cinema tem banalizado este problema em detrimento do sucesso comercial e renome mundial. A ferocidade presente no dia a dia e a selvageria que assola o cidadão brasileiro não deve ser vendida como um mero produto de entretenimento e, muito menos, transformada em um padrão a ser imitado copiosamente pelos estúdios tupiniquins.

O cinema, desde seu primórdio, tem o poder de contar histórias reais e debater temas recorrentes da sociedade. Com o amadurecimento da chamada sétima arte, os assuntos debatidos em tela tornaram-se mais viscerais e expositivos. Portanto, a exportação da estética da violência deve ser vista com maus olhos, pois subjuga o gênero de forma tendenciosa e falha na busca por um diálogo real e necessário.

A violência é um tópico presente em qualquer forma de arte. Da literatura ao teatro, ela é um tema central para entender e debater as construções sociais que ocorrem atualmente. O cinema, como ferramenta de debate, auxiliou e auxilia nesse entrave, pois possui a habilidade de contextualizar um determinado tipo de violência – como filmes de guerra, e entregar às grandes massas, gerando debate e criando uma reflexão em seu público.

Entretanto, a possibilidade de acender uma discussão sobre determinado assunto deve ser tratada com proeza e cautela. Ao analisar o cinema nacional atual, a violência é um assunto recorrente entre as produções cinematográficas. Desta prerrogativa surge uma questão importante: o cinema brasileiro debate a violência como um problema intrínseco na sociedade ou reproduz uma estética criada com o intuito de lucro na bilheteria?

Essa pergunta tem severa importância na criação de uma visão crítica em relação às produções nacionais. Um dos expoentes do cinema brasileiro em trazer a violência para as salas de cinema é o filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. Lançado em 2002, a obra captura, através de sua narrativa, a violência do tráfico nas favelas e a violência causada pelas diferenças entre classes sociais.

Por mais que outros filmes já tivessem debatido a violência urbana – Central do Brasil, de Walter Salles, de forma mais contida e Pixote, a Lei do Mais Fraco, de Héctor Babenco, de forma mais explícita, foi Cidade de Deus que alcançou tanto sucesso de crítica quanto de público, gerando uma alta receita e disputando variados prêmios de renome internacional.

Com o lançamento de Tropa de Elite, de José Padilha, em 2007, essa estética catapultada por Cidade de Deus ganhou ainda mais força. Tropa de Elite reforçou temas como a violência enraizada nas instituições e a tensa realidade das favelas do Rio de Janeiro.

O filme também fez um estrondoso sucesso nas bilheterias nacionais – levando a produção de uma sequência lançada em 2010 – e disputou inúmeros festivais. Mas, ao analisar uma década após o seu lançamento, o cinema nacional foi inundado por filmes com temáticas similares, mas que falham em debater a violência como problema social, criando apenas um produto que busca o entretenimento e lucro com um viés violento.

Para o Professor do Departamento de Sociologia da UFRGS, Alex Niche Teixeira, a discussão sobre a violência no cinema se estende ao escopo político e seu atual estado de polarização. “A possibilidade de discussão do sistema como um todo ficou para o segundo Tropa de Elite e exige um tipo enquadramento que tem sido equivocadamente rotulado como de esquerda e com isso, vinculado ao porta vozes desta abordagem nos espaços políticos partidários como aqueles com envolvimento com o petismo e a defesa de vagabundo”, comenta o professor. Esta polarização acaba por influenciar negativamente nas produções cinematográficas, pois pode haver boicotes por parte do público, dependendo de como o tema é retratado e debatido.

Em 2015, foi lançado o filme Operações Especiais, de Tomás Portella, protagonizado por Cléo Pires. Cléo, na película, representa uma policial honesta que deve sobreviver a um sistema corrupto. Essa premissa possui dois pontos interessantes de se debater. Por um lado, o papel principal de um filme policial pertencer a uma mulher é um saldo positivo, pois instituições como a polícia são notoriamente conhecidas pela sua hierarquia sexista e misógina. Porém, ao debater a violência de forma maniqueísta, a obra abandona sua função de ferramenta de argumentação e acaba perdendo seu posto de legitimar causas sociais que sofrem com os mais diversos tipo de violência, o que acaba gerando estereótipos e falácias que prejudicam a narrativa cinematográfica e o cinema nacional no geral.

Segundo o Professor do Departamento de Antropologia da UFRGS, Marcelo Tadvald:

“Tanto o cinema quanto outras mídias, tendem a reforçar ou fortalecer padrões disponíveis na sociedade, e isto vale para linguagem, comportamento, moda, assim por diante. Justamente tal aspecto caracteriza e potencializa o papel do cinema como ferramenta de discussão e transformação social de forma especial, pois ele convoca o grande público ao debate sobre questões sociais e artísticas prementes. O cinema se constitui assim em um verdadeiro panóptico do social.”

Outro problema que decorre, é o fato de que filmes com este tipo de abordagem tornem-se um padrão estabelecido de sucesso comercial. Desta forma, outros projetos e debates acabam não recebendo atenção suficiente da grande mídia e, muitas vezes, sequer chegam às salas de cinema, alcançando apenas pequenos circuitos e festivais.

“O fato é que vivemos em um país violento. Não faltam manchetes de jornais e programas sensacionalistas de televisão descrevendo crimes brutais, mas normalmente, quando essas histórias não tratam sobre tráfico de drogas, elas nem são contadas no cinema”, criticou o cineasta Lucas Reis, em relação à falta de diversidade quando o tema debatido é a violência.

Isso afeta diretamente a produção nacional e o movimento cinematográfico. O cinema brasileiro já possui a comédia como um padrão atual, com dezenas de filmes que reproduzem uma mesma fórmula e acabam excluindo novos tipos de abordagens de gênero.

Todavia, nos últimos dois anos, uma nova cena vem ganhando forças com filmes como Aquarius, de Kleber Mendonça Filho e Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert. Isso demonstra uma nova etapa para o cinema nacional, pois ambos filmes debatem diferentes problemas sociais com abordagens inusitadas para as produções brasileiras.

Debater a violência é importante para compreender os fenômenos sociais com maior espectro, entretanto, o modo como esta discussão tem sido colocada em debate deve ser revisto. A mera reprodução de falácias ou a imitação unidimensional dos entraves relacionados à violência que emergem da sociedade acabam por não gerar reflexão alguma.

O cinema é uma poderosa ferramenta de argumentação. A sua capacidade de inspirar e envolver o espectador ao ponto gerar um raciocínio deve ser mantida como seu principal objetivo, pois a sétima arte é um ponto de partida para que visões e pensamentos mudem para melhor, contanto que esteja no caminho certo.

A história do cinema brasileiro

Gráfico (Bruno Raupp)

Foto da matéria divulgação (Alexandre Lima)

Sobre francisco.amorim

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