Latrocínio a cada 10 dias na Capital

(Por Ana Paula Lima)

A cada dez dias, um gaúcho morre em assalto na capital. De Janeiro a abril de 2017, ocorreram nove crimes de latrocínio, que é o roubo seguido de morte, na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Segundo indicadores criminais divulgados pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Rio Grande do Sul, nesse mesmo período em 2011, havia seis vítimas e em 2016 o número aumentou, totalizando em 15.  Contudo, a cidade gaúcha não é a única a apresentar casos de latrocínios neste ano, em todo o RS já são 42 vítimas, também divulgadas pela SSP.

Das nove vítimas de latrocínios na capital, até o fechamento desta reportagem, estão: Bassirou Diop, Pedro de Freitas Pinto, Altair Bock, José Carlos Bueno, Leo Edson Schwalb, Masahiro Hatori, Adriano Camargo Martins, Moisés Doring Jeske e Gabryel Machado Delgado. A maioria dos crimes aconteceu em bairros de Porto Alegre durante o dia, como o Centro, considerado um dos lugares mais perigosos da cidade, que teve duas mortes. As vítimas apresentam idade entre 20 a 67 anos e foram mortas a facadas ou tiros, e os pertences visados pelos bandidos eram carros, dinheiros e celulares.

O diretor da Delegacia Regional de Porto Alegre, Eduardo Hartz, disse que o principal fator para o crescimento de latrocínio é o aumento populacional e a diminuição do policiamento ostensivo, que é o serviço da Brigada Militar, assim habilitando o agressor a se sentir mais seguro a roubar. Mas, conforme o Centro de Informações Estatísticas/Núcleo de Demografia e Previdência (FEE), em 2011 a população da capital era de 1.463.596 e no ano de 2015 obteve um aumento não muito significativo e se estendeu para 1.475.717 habitantes.

Eduardo Hartz afirmou que das nove vítimas, quatro casos já estão resolvidos e os criminosos presos. Os outros cinco estão em fase de formalização, com pedidos de prisão decretados. Já no ano de 2016, em torno de 70% dos casos foram elucidados e 30% estão em investigação.

O delegado ainda ressalta que a resolução dos casos é mais complexa do que em casos de homicídio, quando normalmente um estudo sobre a vida da vítima pode auxiliar a identificar possíveis suspeitos. Porém, no latrocínio, por ser uma questão patrimonial, não existe relacionamento entre ambos, a pessoa atacada é escolhida de forma aleatória, dificultando a apuração do crime, que é considerado o mais grave investigado nas delegacias distritais. As investigações são feitas através de câmeras, retrato falado da pessoa que presenciou a cena do crime e denúncias. Para auxiliar nesta investigação, o diretor geral do Instituto de Perícias do RS, Cleber Muller, conta que em todos os acontecimentos que envolvem mortes, são recolhidas as digitais e muitos dos casos de latrocínio o bandido tem envolvimento com o tráfico de drogas.

O Artigo 157 do Código Penal, parágrafo V e inciso 3°, diz que se o roubo resulta em morte, a reclusão é de vinte a trinta anos. Mesmo assim parece existir um fatores que levam o assaltante a continuar na atividade delitiva. As observações do delegado Hartz são que a droga fomenta na pessoa uma vontade de adquirir meios para consumi-las. Ele ainda afirma que a forma mais fácil é assaltando e muitas vezes esse ladrão é iniciante, e está sob o efeito do crack. “Temos percebido que o perfil do assaltante, tem sido um bandido jovem, entre 18 e 19 anos, pessoas que não possuem uma perícia sobre a arma”, explica Hartz. Por isso, o roubo algumas vezes resulta em morte, no nervosismo e com medo de que a vítima reaja, o bandido atira. “Nós ouvimos da maioria dos agressores o seguinte argumento: Eu não queria matar, mas achei que ele fosse reagir e meu dedo estava no gatilho e quando vi aconteceu”, finaliza Eduardo Hartz.

Hoje, muitos jovens, menores de idade, estão envolvidos com assaltos e mortes. O Psicólogo Carlos Eduardo, explicou como começa esse envolvimento e diz que o bandido se forma em casa, entre a família.  “Existem famílias completamente desregradas, situações de pais que abandonam, se envolvem no crime e a criança desde pequena é carente, ela não tem os cuidados essenciais. E o estado não apresenta uma cobertura a falhas familiares”. Ele ainda complementa, que o latrocínio parece uma espécie de vingança, contra os maus tratos que o agressor recebeu na infância e assim aquela vítima irá pagar por isso. “O sujeito está drogado e existe um pensamento suprimido e ele executa o ato”, concretiza o psicólogo.

Já na percepção do doutor em sociologia com pós-doutorado em criminologia, Rodrigo Azevedo, o debate está muito mais ligado, na existência de uma cultura de sociabilidade violenta, dentro de determinadas áreas, onde o estado não está presente e quando aparece, é de forma violenta. Assim, gera um viés de como as pessoas entram no mundo da violência, elas acabam se socializando num contexto onde há arma de fogo e a violência vira um mecanismo de acerto de contas e administração de conflitos.

Para a resolução e a diminuição dos crimes de latrocínios em Porto Alegre, o delegado Hartz conta que é preciso colocar mais policiais da Brigada Militar nas ruas. “O policial fardado inibe o crime”. Também fala que o sistema prisional da capital gaúcha sofre certa deficiência, que deveria ter uma maior efetividade para que os agressores pudessem cumprir a pena necessária. Além disso, o sistema deveria oportunizar formas e projetos, para que o bandido volte para a sociedade melhor, pois 90% dos presos, não praticaram aquele crime pela primeira vez.

O sociólogo Azevedo apontou soluções, colocando em questão a necessidade de atuação da polícia, para recolher as armas de fogo, que estão circulando de forma ilícita. A partir do relatório preliminar ranking dos estados no controle de armas, divulgado no Fórum de Segurança Pública, a cada 100 habitantes no Rio Grande do Sul, uma a quatro pessoas, utilizam armas ilegais. Para Azevedo, a redução da violência, deve iniciar com um investimento em políticas sociais e uma melhora na oferta de ensino, especialmente nas áreas mais periféricas.

Hartz diz que estão trabalhando para que não haja mais casos em 2017. “Estamos identificando os agressores e solicitando a prisão com provas bem formalizadas, para que eles possam permanecer presos.” Ressalta também que o propósito é dar uma resposta ágil e qualificada, em relação aos acontecimentos de latrocínio e pede que a comunidade não reaja ao assalto e que mesmo que a situação seja complicada, tente manter a calma.

Para que haja uma redução nos crimes de latrocínio, é preciso uma preocupação maior do estado, deve haver mais policiais nas ruas e o sistema prisional necessita funcionar de forma em que o bandido saia da prisão diferente. O Código Penal tem que revisar as leis, pois o tempo de reclusão para os criminosos tem que ser muito maior, vinte a trinta anos é um número pequeno para a gravidade dos crimes. O investimento em escolas mais qualificadas, serviços de apoio, como pedagogas, é fundamental, principalmente aos colégios localizados nos lugares mais periféricos. Além de todas essas alternativas, é primordial que todas as armas ilegais sejam recolhidas. Entretanto, se existissem apenas armas legais, com certeza os casos de latrocínios seriam inferiores aos atuais.

Crédito: Leonardo Ferreira

 

 

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