Qual o lugar do indígena em Porto Alegre?

(Por Deise Freitas)

Caminhar pelas ruas de Porto Alegre é parte da rotina da população da capital gaúcha. Mas o seu caminho pode estar sendo observado se você não pertencer a parte hegemônica da população. As minorias sempre são acompanhadas por olhos que observam com desconfiança. Olhos preconceituosos e julgadores. Para os grupos indígenas, que trabalham no centro de Porto Alegre, os olhos não são lá muito amistosos. Eles vêm carregados de uma coisa muito antiga: o preconceito. Onde o preconceito contra o indígena começou? lá em 1500, ano do chamado “descobrimento do Brasil”. Quando os portugueses chegaram, estranharam os nativos – tinham certeza que o modo que viviam não estava certo. Tentaram despir de sua cultura aqueles que chamaram de “índios”. Isso foi há 517 anos, mas a marca da discriminação e da intolerância se mantém até hoje.

Centro de Porto Alegre, aos poucos o sol vai nascendo. As lojas abrem suas portas, pessoas caminham apressadas de um lado para outro, o movimento é constante. Toda essa cena está comandada pelo relógio. No meio do caos programado, há quem observa e segue no seu próprio tempo. Uma família indígena chega, são mulheres, homens e uma grande quantidade de crianças. Sem nem um comprometimento com o relógio, estende uma toalha bem simples. Em cima do pequeno pedaço de pano são cuidadosamente colocados alguns artesanatos. A família devidamente instalada está pronta para ser ignorada.

A Constituição de 1988 alterou como o indígena era visto pelo Estado e trouxe transformações às leis vigentes no Estatuto do índio de 1973. A principal mudança foi o reconhecimento do índio como índio. Parece estranha essa última frase, mas antes disso a identidade cultural dos povos indígenas não era respeitada. -Vistos como incapazes e fadados ao desaparecimento, os índios ficaram por muito tempo na sombra da existência.

Finalmente conquistou-se o direito a organização social, aos costumes, línguas, crenças e tradições. Mas quão assegurados os indígenas estão? Qual o suporte que o Estado lhes oferece para usufruir dos seus direitos?

Durante a semana,  famosa entre os porto alegrenses, rua da praia é ponto de comércio para Guarani, Kaigangue e Charrua. No final de semana o destino é o Parque da Redenção, onde a concentração de pessoas é grande – assim como o comércio ambulante. Além da venda de artesanatos, há apresentações de música e de dança indígenas. O que eram para ser locais de trabalho, acabam se transformando em lugares de violência social.

O cacique da Aldeia Cantagalo, Jaime Vherá Guyrá, relata as dificuldades que os indígenas passam ao tentar o sustento de suas famílias no centro de Porto Alegre. O descaso vem também de quem, por lei, tem compromisso de assistência: a prefeitura. “ Com muita briga, a gente teve muita briga pra ver se deixavam o indígena que está no meio do centro vender seu trabalho. Nunca recebemos com dignidade”, relata o cacique. Mas mesmo com a conquista, Jaime denuncia o descaso, a falta de apoio. Fala com pesar sobre as intempéries que dificultam as vendas dos artesanatos. Para ele a liberdade do comércio não basta, tem que haver estrutura e suporte.

O novo coordenador municipal dos Povos Indígenas, Guilherme Fuhr, concorda com o cacique da aldeia Cantagalo. Para ele, deve existir um apoio da prefeitura. “Não pode haver um retrocesso no que já foi conquistado”, salienta o coordenador. Como nova proposta de atuação para seu mandato, Guilherme Fuhr tem ideia de transformar o mês de abril no mês da cultura indígena – Como acontece em setembro, tradicional mês das comemorações gaúchas. O coordenador acredita que o conhecimento sobre a cultura indígena pode afastar o preconceito das pessoas.

Outra reclamação de Jaime é como os índios se sentem sob os olhares dos não indígenas (juruá em guarani). A falta de conhecimento da cultura indígena leva ao preconceito, e às vezes até a uma ação mais ríspida. Furh relata que a população liga para a prefeitura “denunciando” grupos indígenas pela forma que vivem no centro da capital gaúcha. Seja por estarem ocupando um espaço público ou pela presença das crianças, que costumam ficar brincando sem restrição de caminhada.

O antropólogo, Sérgio Baptista, explica melhor a relação do indígena na cidade com base em artefatos guaranis encontrados pela região do centro. “Foi sobre as aldeias indígenas guarani que a cidade se erigiu e se impôs. Igualmente, a presença deles continua após a fundação de Porto Alegre”, esclarece. E certamente mantendo seus antigos costumes, como o de criar os filhos de forma livre “não compreendendo como os juruá deixam seus filhos em creches”.

O espaço indígena tenta ser reconquistado. Das terras onde eram donos, hoje lutam com muito sofrimento para ter direito ao que é seu. E que a própria constituição brasileira garante. Luta solitária dos que compartilham o mesmo interesse. Interesse que a poucos interessa.

Ao andar pelo centro de Porto Alegre, a imagem da família sentada no chão com crianças correndo se destoa do restante, dos prédios, da pressa, dos manequins, dos carros… Mal sabem aqueles que estranham, que os estranhos são aqueles que olham com diferença e indiferença.

Brique da Redenção é espaço dominical para grupos indígenas venderem seus artesanatos (Deise Freitas)

 

Sobre francisco.amorim

Professor

1 comentário

  1. Parabéns, excelente explanação sobre a convivência que deveria sim ser mais harmônica, amistosa, e despida da indiferença que, talvez pela escravização imposta pelo relógio, a correria diária nos impõe.

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