Menos ciclovia, mais violência

(Por Richard Masiero)

‘’Quebrei a clavícula. Um pedestre cortou meu caminho na ciclovia da José [do Patrocínio], e como tem carros estacionados, não deu para desviar direito. Bati no retrovisor de um carro e fui ao chão.’’ Esse é o relato de Leonardo Accurso, fotógrafo, de 27 anos. ‘’Já apanhei, já tive que bater e já fui atropelado. No caso em que bati, eram dois tentando bater em mim.’’, disse Naian Meneghetti, empresário, 26 anos. Esses relatos são comuns entre ciclistas, o desrespeito e a violência se tornaram fatores diários nas ciclovias de Porto Alegre.

Essa violência é motivada devido à falta de urbanização. O Plano Diretor Cicloviário de Porto Alegre previa 495 quilômetros de ciclovias, distribuídas e interligadas pelas principais áreas da cidade. Somente 45,2 quilômetros foram construídos, compondo menos de 10% do que foi proposto. Através de seu portal on-line, a EPTC afirmou o atraso nas obras depende das contrapartidas dos empreendimentos imobiliários, os quais representam boa parte dos recursos. Existem ainda as ciclovias que estavam nos projetos das obras para a Copa do Mundo de 2014, que nunca saíram do papel. Com isso, os ciclistas são obrigados a trafegar de forma compartilhada com o trânsito, motivando os principais casos de violência.

‘’Nosso trânsito pode ser comparado à Lei da Selva, numa espécie de vale-tudo, onde o mais forte prepondera sobre o mais fraco. O ciclista e o pedestre constituem a parte mais vulnerável do sistema.’’, afirma João Fortini Albano, doutor em transportes. O ciclista, diante de não ter vias exclusivas, fica submetido a dividir espaço com carros, caminhões, ônibus, motos e pedestres. A ciclovia só tem condição de funcionar bem se formar uma rede interligada onde o ciclista possa se engrenar nos principais destinos, satisfazendo as necessidades de deslocamento. Apesar de ser baixo o custo para se fazer um quilômetro de ciclovia, a infraestrutura cicloviária de Porto Alegre está crescendo de maneira devagar. Não se observa uma grande vontade política.

Ciclista transitando na contramão, junto ao trânsito – Foto: Richard Masiero

 

Em abril deste ano, voluntários da Cidade da Bicicleta, um espaço aberto que fomenta a cultura da bicicleta na Capital, fizeram uma carta aberta para o Prefeito Nelson Marchezan Jr., solicitando atenção e agilidade. Quanto mais tempo se leva para construir as ciclovias planejadas, mais o plano inicial se torna obsoleto. Em 2013, a Câmara dos Deputados fez uma emenda constitucional que previa que 20% do valor arrecadado em multas de trânsito fossem revertidos para os projetos cicloviários. Em 2014 a emenda foi derrubada e o valor nunca chegou a ser aplicado na construção de ciclovias.

Ciclista trafegando sobre a calçada – Foto: Richard Masiero

 

Acidentes envolvendo ciclistas em Porto Alegre

Fonte: EPTC

Segundos os dados oficiais, até abril deste ano foram registrados 50 acidentes envolvendo ciclistas.

A equipe de reportagem conversou com um motorista, que preferiu não se identificar. Segundo ele, o espaço para os ciclistas é de suma importância, mas precisa ser mais bem pensado.

O que você acha sobre as ciclovias em Porto Alegre? ‘’É preciso ter um espaço para os ciclistas, senão eles ficam andando junto com a gente no trânsito. Correm risco de se machucar, ainda mais que a gente não cuida muito para o lado direito [da via], a gente olha mais para o lado esquerdo porque é onde passam as motos. Tem que fazer ciclovia, o que não pode é fazer que nem a do [Hospital] Mãe de Deus, que atrapalha todo trânsito.’’

O motorista se referiu à ciclovia da Avenida José de Alencar, no Bairro Menino Deus. Em frente ao Hospital Mãe de Deus, as duas vias da Avenida se transformam em apenas uma, porque existe um ponto de táxi e a ciclovia. Com isso, nos horários de maior movimento, os carros se afunilam para passar, gerando congestionamento.

Na Europa, o uso da bicicleta surgiu através dos movimentos ambientalistas. A bicicleta se posiciona a favor do meio ambiente e da saúde das pessoas. A construção de ciclovias incentiva o uso de transportes alternativos, mas é necessário que esse sistema atenda as necessidade de deslocamento, principalmente de casa para o trabalho e vice-versa. Além das ciclovias, é necessário também a existência de bicicletários, para ter onde deixar as bicicletas. No Brasil, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília são as cidades com uma estrutura cicloviária melhor desenvolvida. Porto Alegre ocupa o 13` lugar, segundo um levantamento da Organização Mobilize Brasil.

Em Porto Alegre, a realidade é a inexistência de ciclovias em quantidade suficiente, e quando o tráfego é compartilhado com outros veículos, existe falta de respeito e violência.

 

Uso das bikes

PRÓS

  • 10 bicicletas estacionadas ocupam espaço equivalente ao de 1 carro estacionado.
  • 5 bicicletas em movimento ocupam o espaço de um automóvel.
  • Nas distâncias entre 400 metros a 1,5 quilômetros, a bicicleta é o meio de transporte mais rápido.
  • 5.000 bicicletas em circulação representam 6,5 toneladas a menos de poluentes no ar.

 

CONTRAS

  • Vulnerabilidade a roubos
  • Lado mais fraco nas colisões
  • Dificuldades nas rampas e subidas extensas
  • Vento, frio e chuva
  • Poucas faixas para circular
  • Lenta para grandes deslocamentos

Sobre francisco.amorim

Professor

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