A espetacularização das brigas entre torcedores pela imprensa

(Por Victória Alfama)

Estádio Beira-Rio, dia de clássico Gre-Nal: 1o de março de 2015. A Geral do Grêmio, acompanhada do restante da torcida gremista, se desloca desde o ponto de encontro no antigo Olímpico, no bairro Azenha, em Porto Alegre. Na chegada, confronto entre torcedores. Uma pessoa é ferida por uma pedrada. Arena do Grêmio, dois anos antes, outro Gre-Nal: torcedores marcam uma briga na esta- ção de metrô de Sapucaia do Sul, da Trensurb. Dois torcedores são presos e 11 vidros de um vagão, estilhaçados. Horas depois, relatos sobre as cenas de violência já podiam ser encontradas em sites dos principais jornais, dividindo espaço com as informações sobre as partidas. É neste momento, segundo especialistas, que, em alguns casos, os setoristas de esporte estão pisando na bola. Narrando cenas de brigas, os repórteres trabalham como correspondentes de guerras em dias de clássicos na Capital. A narração das brigas sem contextualização e o uso de termos como “rivais”, “guerra” e “batalha”, muitas vezes, serve mais para promover os integrantes das torcidas envolvidos em confrontos do que para buscar soluções. Diante de diversas coberturas da imprensa local, muitos concordam em mudar a forma como ocorre a apuração das brigas. “Vários fatores precisam ser questionados. Desde a forma como os clubes financiam as Organizadas, passando, inclusive, pelo clima de guerra proporcionado pelos veículos de comunicação”, afirmou Sandra de Deus, coordenadora do Curso de Especialização e líder do grupo de pesquisa em Jornalismo Esportivo da UFRGS. Para Sandra, brigas não devem ser consideradas como um acontecimento alheio ao futebol. Segundo a jornalista, não existe a “diminuição” da gravidade das brigas; existe, sim, uma cobertura irreflexiva, onde a espetacularização dos fatos se sobrepõe à apuração jornalística. Visão semelhante pode ser encontrada no Ministério Público. Segundo o promotor responsável, Márcio Bressani, a forma de abordagem da imprensa frequentemente é equivocada, tomando proporções descabidas. “Existe, por vezes, uma desproporção. Questões positivas são deixadas de lado e as questões negativas acabam tomando o lugar”, relatou o promotor. Questionado sobre a possível influência que matérias negativas podem ter nos leitores, Bressani afirma: “sem dúvida nenhuma. Existem pessoas que não possuem discernimento para entender que aquilo é uma questão negativa e já pensam em vingança”. “Nós acompanhamos as brigas, acompanhamos a punição e o cumprimento da punição”, relatou o editor Diego Araújo, sobre a cobertura na editoria de esporte da Zero Hora. Desde 2012, o jornal possui um grupo de investigação para cobrir este o polêmico dentro do futebol, sempre dando espaço para o contraponto dos envolvidos. Segundo Araújo, o grupo investiga o fato com falas de todas as partes envolvidas, inclusive da torcida organizada. Além do acompanhamento das situações de violência, a equipe relatou casos de dinheiro entre clubes e torcidas organizadas e falhas no cumprimento de punições de torcedores que não poderiam frequentar os estádios. Os jornalistas realizam a cobertura normal em dias de jogos e, em casos de matérias especiais, se infiltram entre os torcedores. “Fizemos uma série de reportagens sobre as torcidas organizadas há nove anos. Nos infiltramos e descobrimos como elas funcionam”, explicou ainda Cid Martins, repórter da Rádio Gaúcha. Outras iniciativas passam pela aproximação dos repórteres com as torcidas nas arquibancadas. Um exemplo é o trabalho feito por jornalistas da Rádio Gaúcha. “Trouxemos a identificação com o torcedor nas arquibancadas. Faz parte do nosso acompanhamento”, relatou Kelly Matos, repórter da Gaúcha. Já no Correio do Povo, diante do fato, após a localização dos participantes, os repórteres escutam os agressores, os seguranças, o Ministério Público e a Federação Gaúcha de Futebol. “Jornalista não é o dono da verdade. Ouvimos todos os lados e tu tens a tua opinião. Não necessariamente, na maioria das vezes, é a melhor opinião ”, comentou Hiltor Mombach, editor de esporte do Correio do Povo. Para os especialistas, no entanto, caberia aos jornalistas a melhor apuração dos fatores ligados à violência fora dos gramados, como as origens dos episódios de brigas nas torcidas e os incentivos que os clubes dão às torcidas organizadas, compreendendo a relação entre os envolvidos para além da troca de socos.

 

 

 

 

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