Entre bombas e flores

(Por Guilherme Telmo)

Abdul abre um longo e generoso sorriso ao receber a reportagem.

“Salamaleico”, ele cumprimenta, usando uma expressão árabe que significa “que a paz esteja com você”. Expressão tradicional que por muitas vezes é relacionada com praticantes de violência e terror. Abdul é xeque (líder espiritual) da mesquita de Canoas, segunda maior do estado e um dos mais de 35 mil muçulmanos que habitam o Brasil, segundo o senso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ele acredita, porém, que esse número é muito maior, podendo alcançar a casa de 800 mil fiéis, devido à grande quantidade de imigrantes que chegaram ao país. Dentre essa enorme quantidade, ele faz parte de um povo que sofre constantes discriminações e mesmo a milhares de quilômetros distantes de sua terra, enfrentam em situações cotidianas o preconceito da sociedade ocidental.

O xeque afirma conhecer algumas dezenas de pessoas que acreditavam encontrar no Brasil uma alternativa viável a onda de xenofobia espalhada por diversos países da Europa. Porém, a realidade não se mostrou-se tão favorável assim. Embora não existam números concretos e denúncias conclusivas, quem procura fugir da caótica situação no Oriente Médio encontra resistência e enfrenta preconceitos por boa parcela da população. “Certa vez, descendo de um voo em São Paulo, uma criança apontou para mim e disse em voz alta a sua mãe que eu parecia com um daqueles homens bombas da TV. A invés de repreender seu filho, ela me olhou como se eu fosse uma criatura desprezível. Me senti mal por não ser a primeira situação parecida que já vivi”, conta Abdul. Na ocasião, estar vestindo Cirwal e Trabush, trajes típicos da cultura muçulmana foram suficientes para despertar olhares preconceituosos. Ele teme que a onda conservadora que parece se espalhar pelo mundo atinge seus “irmãos e irmãs. “; lhe causa preocupação a recente eleição do republicano Donald Trump para governos os Estados Unidos.

Abdul afirma que problematização Oriente contra Ocidente nunca esteve tão radical e acirrada, e que isso tende a prejudicar “toda a comunidade islâmica, incluindo a que se encontra no Brasil. “Desde a Idade antiga, já existiam conflitos entre o mundo ocidental e o mundo oriental. Mas o que é importante salientar é que não existe uma relação de causa e efeito, não sendo necessariamente obrigatório um choque cultural e bélico entre as duas civilizações˜, explica Denise Rochi, especialista em Relações Internacionais. Ainda segundo Denise, a associação feita entre muçulmano e terrorista por partes dos “países de primeiro mundo” aumentou consideravelmente após o atentado de 11 de setembro. “Não foi o primeiro ataque da história, porém devido a visibilidade, impacto, número de vítimas altíssimo, no coração de um dos grandes centros mundiais, com certeza foi o de maior repercussão. A partir dali, e logo depois sendo iniciada a ‘Guerra ao Terror’, a imagem do cidadão islâmico foi estereotipada como de terrorista, provocando as tensões que vemos até hoje”, completa.

Para Bernardo Lewwgoy, doutor e especialista em antropologia pela UFRGS, a xenofobia alimenta os atos extremistas e fortalece os grupos terroristas. De acordo com ele, as práticas intolerantes vão de acordo ao que pregam os radicais, de que o Ocidente é inimigo e, portanto, deve ser castigado.  Lewgoy diz ainda que possibilidades de ataques terroristas no Brasil, apesar da pouca prováveis, podem acontecer. Isso, segundo o antropólogo, se deve à onda crescente do conservadorismo no país e um possível aumento de importância nas relações internacionais com os países europeus e os Estados Unidos, surgindo como um possível novo alvo de atentados.

Em meio a este cenário, Abdul questiona a falta de interesse das pessoas em aprender a diferenciar radicais islâmicos e praticantes da doutrina difundida por Maomé. “O Alcorão nos ensina somente a praticar o bem, amar o próximo, assim como outros livros sagrados como a Bíblia e o Torá. Pagamos pela distorção que alguns indivíduos, que não são muçulmanos, fazem das escrituras sagradas” afirma, salientando que existem “malucos” em todas as crenças. Ele se entristece a lembrar o recente incidente ocorrido na Síria, onde armas químicas foram deliberadamente lançadas contra civis deixando 92 pessoas mortas, grande parte delas crianças. Acredita que episódios como esse só aumentam o ódio por parte dos radicais e influenciam a incidência de novos ataques globais. Segundo dados da Oxford Research Group, instituição de pesquisa britânica, mais de 11 mil crianças já morreram somente na Síria desde o início da guerra civil em março de 2011. Se forem adicionados números em outros países árabes que passam por conflitos, como o Iraque, o número total de crianças mortas nos últimos 5 anos alcança os 13 mil. Vítimas de ataques repentinos, muitas das crianças que ficam no caminho acabam sendo doutrinadas e inseridas no contexto terrorista desde cedo. “Imagine para uma criança que acaba de perder os pais, vítima de bombardeios e ataques. Na cabeça delas, a situação se torna confusa e basta um pequeno empurrão para, infelizmente, seguir o caminho errado” comenta a Psicóloga Fernanda Marret, que trabalha com crianças carentes e também presta serviços voluntários a jovens órfãos.  Ela afirma ainda que é natural do ser humano, especialmente crianças, ao se encontrarem desamparadas, seguir os conselhos e ensinamentos da primeira pessoa que lhe aparece, o que muitas vezes, no contexto em que vivem, são extremistas. Alimentando-as com ódio e com o falso pretexto que é o certo para seguir os ensinamentos do Alcorão, tem-se aí um potencial terrorista em formação.

Na mesquita, porém, as crianças que frequentam o espaço parecem distantes da triste realidade que assola os países em guerra. Nem todas que ali estão são muçulmanas (a grande maioria não é, aliás) mas estão inclusas nas atividades didáticas promovidas por Abdul. Aulas e oficinas são oferecidas para os pequenos todas as sextas-feiras, o que é motivo de orgulho para o xeque. “Sou professor, e como todo educador, sendo muçulmano ou não, tenho o objetivo de apresentar o mundo para essas crianças, e evidentemente, desde cedo fomentar a semente da solidariedade e aceitação das diferenças na cabeça delas. Assim como eu, existem diversos outros que fazem atividades parecidas Brasil a fora, muçulmanos, que infelizmente não tem seu trabalho reconhecido e continuam sendo alvo de perseguições e insultos”, aponta o xeque. Já são 16h, e está na hora de deixar o local. Abdul se dispõe para marcarmos uma nova visita, caso haja necessidade em contatá-lo de novo. Ele se despede com outra tradicional saudação islâmica e regressa para dentro de seu lugar preferido, onde se sente livre para colocar em prática os ensinamentos que aprendeu. Ensinamentos que não envolvem terror e violência.

 

 

Sobre francisco.amorim

Professor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *