Motoristas sofrem com constante insegurança

(Por Evelyn Lucena)

Motoristas de aplicativo estão sofrendo com a violência de diferentes formas, entre agressões psicológicas e físicas, chegando a casos de latrocínio (roubo seguido de morte). Segundo Formulário Social, 11,4% já foram vítimas de roubo na Capital. Com o aumento do medo e da violência, no dia 7 de março protestaram após um colega, vítima de latrocínio, ser encontrado morto.

Hoje a Uber conta com cerca de 8 mil motoristas em Porto Alegre e mais de 50 mil no Brasil inteiro, contabilizando 8,7 milhões de usuários. Com o início de uma atividade recente surgiu um novo risco que aumentou no ano passado. No dia sete de novembro de 2016 a Uber começou a aceitar dinheiro em espécie no Brasil para que os números de passageiros dobrassem. Por conta da preocupação dos motoristas perante a segurança, em fevereiro de 2017 começou a pedir CPF para as corridas em dinheiro. A empresa não respondeu o e-mail quando contatada até o encerramento da reportagem. Na visão dos motoristas essa forma não adiantou e muitos migraram para aplicativos que só aceitam cartão de crédito visando a segurança. “O que leva a violência ser mais recorrente por aceitar dinheiro é o cadastro falho que a empresa tem”, relata Amanda Capalbo, 42 anos e motorista de aplicativo.

Joel Teixeira, 59 anos, aposentado da aviação e também motorista, diz: “O recebimento do dinheiro em espécie abriu uma porta para que o pessoal nos aborde sabendo que estamos com dinheiro ali, isso se tornou muito perigoso para a gente, porque já aconteceu com vários colegas de serem assaltados por chamada em dinheiro”.

O comissário da Polícia Civil, Tarcio Guilherme Ribeiro, comenta sobre os principais cuidados que as pessoas devem ter, entre eles: dirigir com as portas trancadas e os vidros fechados, diminuir a velocidade antes de parar no semáforo, ficando menor tempo possível parado, evitar parar quando perceber algo suspeito e investir em equipamentos de segurança.

A empresa chegou no Brasil sem a autorização e clandestinamente. Se instalou e tomou conta da cidade, virando preferência da maioria dos passageiros que deixaram os táxis e migraram para os aplicativos. A Câmara dos Deputados aprovou a lei 5587/2016 do deputado federal Carlos Zaratini (PT-SP) que cria a regulamentação para implantação dos motoristas nas ruas e pede uma série de exigências com aprovação prévia da Prefeitura Municipal. Foi aceita com 276 dos votos.

A lei diz que os municípios e os Distrito Federal ficam encarregados de regulamentar e fiscalizar o serviço de transporte individual por aplicativos, devendo observar diretrizes que visem a eficiência e a segurança na prestação do serviço. Entretanto essa série de exigências tira o foco tanto da Uber quanto de qualquer empresa de motoristas de aplicativos, por tornar um serviço que é para ser privado, público​.

Dados de um Formulário Social feito pela reportagem do Unipautas, respondido por 86 motoristas de aplicativo, mostram que 64,4% dos motoristas já sofreram algum tipo de violência psicológica, onde acharam que seriam assaltados ou que estavam correndo algum tipo de risco enquanto trabalhavam. Muitos deles passaram a deixar de trabalhar até tarde ou de madrugada. Bom Jesus (87,2%), Cruzeiro (81,4%) e Mario Quintana (73,3%) estão entre os três lugares que os motoristas costumam achar mais perigosos e por conta disso, evitam aceitar as corridas. Segundo dados de eficiência da Secretaria de Segurança Pública o número de veículos fiscalizados em 2017 caiu, com uma diferença de 171,715 veículos que não foram fiscalizados em comparação com os números de 2016. Esse número pode estar relacionado com a insegurança e aumento de roubos de veículos na cidade.

Porto Alegre teve 803 furtos e 2,572 roubos de veículos, segundo a Secretaria de Segurança Pública neste ano. Com estes números e a constante violência na cidade, motoristas afirmam que já sentiram muito medo por pensar que seriam assaltados. Joel ainda conta uma situação pela qual achou que poderia ter sido agredido ou assaltado.

“Para cada chamada que recebo é uma novidade. É sempre uma surpresa e a gente sempre está em risco. Dependendo da localização cancelamos a viagem. O stress é grande e o cuidado mais ainda […] já tive passageiros suspeitos a bordo, entraram os dois e sentaram atrás. Mandaram subir o Morro Santa Tereza. Fiquei todo momento esperando levar um coronhaço e ser atacado por trás. Fiquei numa posição favorável para eles. Felizmente, deu tudo certo, pagaram e foram embora”. Ribeiro aconselha que os cidadãos devem sempre estar vigilantes, entretanto, não entrar em um “pânico social”, tendo bom senso do momento e lugar que estão. Ele também reforça como lidar com situações onde ocorrem riscos de latrocínio ou agressões: “Sempre em que a nossa vida, que é nosso maior bem, estiver em risco, devemos atender às situações deste tipo de abordagem, mesmo que levem o veículo, bens e valores em dinheiro”.

Para a psicóloga Marquerita Sobczak Martins: “É muito complicado e sofrido, pois o medo toma uma dimensão absurda, deixando a pessoa com dificuldades de concentração e de desenvolver suas atividades de trabalho, contribuindo muito para que ele tenha uma frustração e baixa autoestima, levando este indivíduo muitas vezes a ter que se afastar do seu emprego ou em último recurso, ter uma demissão”. Ela também avalia que muitos são os danos psicológicos e que as pessoas podem vir a ter ansiedades, crises do pânico, falta de concentração e insônia. “As fibromialgias estão intimamente ligadas ao medo, à sensação de estar em constante risco, como se estivessem sempre esperando que algo ruim possa acontecer e contribuindo para uma patologia mais tarde caso estas sensações não sejam tratadas. ” explica a psicóloga.

Para auxiliarmos a polícia ao combate ao crime, Ribeiro ressalta que devemos sempre fornecer informações mesmo que anônimas, incluindo realizar o B.O de veículos roubados.

Amanda ainda comenta: “não deixa de ser uma carona remunerada, mas diferente da carona, eu não sei quem é o passageiro que vai entrar no carro”. Ainda há muito o que ser ajustado em prol da segurança dos motoristas que deveria ser prioridade para a empresa.

Confira dados da pesquisa

Sobre francisco.amorim

Professor

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