Capital registra mais de mil ocorrências de violência contra idosos

(Por Ariel Freitas)

Ao aguardar a sua vez para ser atendido na Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, Bartolomeu, 74 anos, ex-pedreiro e viúvo, se tornou oficialmente um dos 1.062 registros de crimes cometidos contra idosos em Porto Alegre nos primeiros meses de 2017. Vítima de ameaças constantes, o senhor que reside no bairro Nova Gleba, zona leste da capital, revela que possui receio por uma disputa de terreno entre familiares.

Casos como o de Bartolomeu acabam se tornando frequentes na cidade em que 15 pessoas são atendidas na Delegacia do Idoso diariamente. Só em janeiro deste ano foram registradas 225 ocorrências na Delegacia do Idoso, sendo 51 direcionadas ao tema de ameaças. No mês de fevereiro a DPPI obteve 238 queixas, 23 sobre maus-tratos. O mês em que foi apresentado o maior número de registros foi o de março com 288 acusações, 23 delas por injúrias contra idoso. Até o final desta apuração, 17 de maio, foram registrados 106 Boletins de Ocorrências sendo sete por lesões corporais.

A violência em números

 

Segundo dados obtidos da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, os crimes mais cometidos contra idosos são os de ameaça, maus-tratos, abandono, injúria, apropriação de bem, negligência, omissão na assistência ao idoso, discriminação de pessoa idosa, lesão corporal, perturbação da tranquilidade e estelionato. As mulheres idosas lideram os rankings de denúncias por sua vulnerabilidade e pela sua expectativa de vida maior.

AS RAÍZES DA VIOLÊNCIA

Grande parte das ocorrências demonstram que as agressões têm sido cometidas nos locais onde as vítimas deveriam nutrir o sentimento de segurança: em casa. A falta de paciência e intolerância por parte da família tem se mostrado mais evidente quando o tema é a pessoa idosa. Familiares que deveriam assegurar a proteção, reproduzir o sentimento de afeto e garantir as necessidades básicas são os que mais cometem esse tipo de infração.

Em alguns casos, os agressores passaram por uma infância conturbada em que o único contato entre uma criança e seus pais acaba sendo o momento em que é repreendido com agressões físicas e psicológicas, fazendo ele reproduzir sua experiência. Esse círculo vicioso se torna difícil de ser interrompido sem a procura de uma ajuda profissional. “Isso gera uma cicatriz profunda e fica difícil cessar sem o auxílio de sessões de terapia”, explica a psicóloga Elisabeth Mazeron.

Contando com um número reduzido de funcionários, o departamento de proteção tenta atender a demanda de 200 casos mensais. Sofrendo por transferências de servidores têm em sua disposição nove funcionários para exercer atividades diárias. Essa mudança afeta diretamente no dia-a-dia do atendimento comprometendo o setor responsável pela apuração dos casos. O comissário Alan Lopes explica que com a redução na quantidade de funcionários a DPPI perdeu o Grupo de Investigação, se concentrando apenas em crimes hediondos. O aumento nos delitos com pessoas de 60 anos ou mais fica evidente quando elaboramos uma comparação com os dados adquiridos em todo o ano de 2015, período que a DPPI obteve o maior número de registros (2,5 mil). Os primeiros meses de 2017 com 1062 ocorrências quase alcança a metade dos índices do ano retrasado (1350).

A CAPITAL MAIS ENVELHECIDA

Porto Alegre tem se destacado como a Capital que possui o maior índice de idosos no país. De acordo com os dados do Observatório da Cidade de Porto Alegre representam cerca de 15% da população no país. Com a rápida expansão da faixa-etária e com os crimes acompanhando esse cenário, foram elaboradas políticas públicas com o objetivo de proteger o bem-estar dos cidadãos com uma idade avançada. Em 2014, foi criado o projeto de lei que formou a Semana Municipal de Combate à Violência. Idealizado pelo vereador Márcios Bins Ely (PDT) o programa visa alertar a sociedade gaúcha sobre os maus-tratos sofridos pelos idosos.

Em um cenário em que a população possui uma faixa etária mais envelhecida, instituições que buscam acolher vítimas de maus-tratos, abandonos, negligências, e etc., ganham espaço. O Asilo Padre Cacique abriga atualmente cerca de 150 idosos. Fundado em 19 de junho de 1898, a instituição procura proporcionar proteção e atividades diárias que contribuem para suas vidas sociais e emocionais. Disponibilizando aulas de informáticas nas terças-feiras, o Baile dos Idosos realizados por voluntários às quintas-feiras e sessões de cinemas aos sábados. Natália Chim, voluntária do asilo, explica que os idosos encontram um recomeço conhecendo pessoas com idades semelhantes, recebendo o afeto dos funcionários e construindo novas histórias de identificação a instituição.

Segundo especialistas precisamos pensar em políticas públicas com urgência, pois o Estado está envelhecendo. O Rio Grande do Sul possui aproximadamente 1.9 milhão de habitantes com uma faixa-etária igual ou superior a 60 anos, dos quais 210 mil deles vivem em Porto Alegre. A preocupação pelo bem-estar do idoso é constante e apesar de ter apresentado recursos para reduzir as violências, os projetos têm apresentado resultados ineficazes.

 

Crédito das fotos: Cainan Xavier

Legenda: Idosos abandonados são assistidos no Asilo Padre Cacique

 

Sobre francisco.amorim

Professor

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