No pain, no gain: quando o incentivo vira abuso no esporte

(Por Luana Meireles Carvalho)

Treinos longos, sequência de exercícios rigorosos, gritos incessantes, tapas na cabeça, ironias, “pagar” mais um abdominal, dormir no chão, deboches e frases como você está cortado, não preciso de perdedor. Essas são algumas das situações que atletas sofrem de treinadores esportivos no Rio Grande do Sul. Ainda em processo de formação esses atletas entram em clubes esportivos, responsáveis por treinar, revelar e patrocinar diferentes modalidades. O esporte praticado por eles encarado de maneira profissional, lazer ou até mesmo como ideal de vida, muitas vezes vira um cenário de dor, angústia, pressão e violência.

“Desilusão, deprimido, só durmo, troco o dia pela noite, aquela vida de atleta não tenho mais. Deixei tudo para trás e ainda penso em desistir da modalidade. Vou seguir em frente. Mas foi uma atitude suja, me abalou totalmente psicologicamente“, relata o atleta de Voleibol, Michel Fritsch Dick. A imagem do que é ser um atleta é refletida em conseguir ser um grande jogador, ganhar dinheiro, ajudar a família, ter uma ascensão social ou ser reconhecido pela mídia. Resultando no espelho da sociedade onde a grande massa populacional pressupõe em ganhar ou perder. Por essa busca incessante o atleta aceita se submeter a condições de níveis altíssimos de treinos insanos para conseguir chegar no objetivo, no resultado esperado.

Até onde profissionais, os chamados “técnicos” devem exigir do seu atleta? Exercícios feitos de forma agressiva, testes de resistência, treinos longos ou um simples tapa na cabeça. Segundo psicólogo Eduardo Souza, o atleta acaba entrando em over training, sobrecarga, excesso de estimulação. Um aumento muito rápido do número ou da intensidade das sessões de treinamento, instruções forçadas de movimentos tecnicamente muito difíceis, métodos de programas de treinamentos unilaterais ou muito intensos, pausas de recuperação insuficientes, e consequências estressantes para o corpo.

Levando o atleta a adquirir transtornos psíquicos, como stress, ansiedade, mal-estar, lesões e sofrimento. Distanciando de vez as considerações mentais, físicas e sociais deste indivíduo. “Dirigentes aproveitam desta situação e tratam o atleta como um produto a ser lançado, entre mil deles um vai vingar, se der certo ótimo. Caso contrário são descartados”, afirma Eduardo Souza.

Para as meninas do futebol feminino do Internacional já é diferente. Elas que participaram de uma peneira com mais de 700 mulheres, vindas de todas as partes do estado do Rio Grande do Sul para disputar vaga para o time formado deste ano. As atletas do Internacional estão passando por uma preparação intensa, mas com muita atenção com a carga de treino, intensidade e volume. Visando ainda disputar o Gauchão 2017 e ano que vem participar do Brasileirão série A2.

Há três messes as meninas não eram atletas e agora elas são. E atleta deve ter um tratamento diferente de quem joga na várzea, entre amigos ou quem joga por jogar. Dentro da individualidade de cada uma, algumas são mais sensíveis, teimosas, fortes, outras não aceitam críticas, mas todas entendem o contexto que elas são profissionais de futebol. “A cobrança sempre vai existir. Tanto de nós com elas, e elas com elas, todas juntas com o mesmo objetivo. Chegar em resultados sem ultrapassar os limites morais, éticos do ser humano”, comenta preparadora física do futebol feminino do Internacional, Suellen Ramos.

Atrás de um atleta revelado em alto desempenho ou um amador recém-mirim iniciando no mundo do esporte, há situações que não deveriam acontecer e acabam sendo simbolizadas pelo silêncio. Muitas vezes, as agressões só são detectadas em dias de competição por um árbitro ou assistente. Tendo como papel ser o mediador do espírito esportivo, o árbitro preza por uma disputa a mais equilibrada possível, presenciando e tendo uma visão completa do atleta, treinador, clube e torcida. Busca o chamado Flair Play, jogos limpos, justos. Além de estar atento a respeito da aplicação das regras de cada modalidade, presa que o jogo ocorra da forma mais saudável.

Por isso, Lisandro Paim dos Santos, árbitro internacional de vôlei de praia, defende como postura ideal de um treinador que o fator determinante seja o de potencializar, focar em buscar um desempenho, táticas e práticas, dar suporte. Não inserir responsabilidades se não conhece o perfil da pessoa. Achar métodos de alavanca o progresso. “Isso dá trabalho. Educador é vocação, treinador é mais uma profissão. Treinador tem que fazer, sem reclamar.  Educadores entendem o perfil de cada adulto ou criança, que chega em suas mãos, na tomada de decisões diferentes para cada um. O problema não é ser agressivo, mas mal-educado. Agressividade só serve para aumentar o potencial no jogo, não para atrapalhar socialmente o grupo”, conta Lisandro Paim.

Os atletas também sofrem com pressões de outros lados. Além de treinadores, presidentes e diretores de clubes cobram resultado imediatos. “Dirigentes visam só o lucro. Tratar mal o pejorativo do lucro é burrice, o que resulta no retorno financeiro. O atleta não alcança o potencial dele, pode até ser muito bom, pode dar resultados, mas poderia dar muito mais frutos por um longo período de tempo se estivesse em outras condições. Milhares de talentos abandonam o esporte por conta disso”, informa técnica de ginástica artística, principal feminino da Sogipa, Lisiane Lewis.

O esporte que muda gerações, salva vidas, transforma vencedores. Será que está bem representado por seus treinadores? O que está por trás de tudo isso? “Cobro bastante. Trabalho com a autonomia de um atleta que ele deve saber se defender, saber lidar com as situações. Meu atleta tem que colocar a cara a tapa, para ter uma evolução. Eles não são um grupo de associados para participar de um campeonato, eles são atletas que representam um clube, vivência do mundo real, alcançar o ponto mais alto, tem que render. Sou o patrão, o chefe de vocês e vou cobrar resultados. Os fracos desistem, quando ele vai encarar esses desafios? ”, ressalta treinador de voleibol da Sogipa, Lúcindo Júnior.

Segundo Lúcindo Júnior, ele vem de uma formação que se cobrava mais e hoje em dia sofre problemas. ” Cobro demais dos meus atletas e os pais estão querendo a “minha cabeça”, por que xingo, grito, mas aqui não é grupo de estudos. Mas todos acham que o culpado é sempre o treinador. O que é avaliado? O cara que cobra para ter resultados ou o que passa só a mão por cima para garantir o seu emprego. Anos atrás já fui mais linha dura que hoje. Antigamente elogiava menos. Digo que é o mínimo que o atleta tinha que fazer. Mas ninguém é um profissional pronto, cada ano procuro evoluir, mudar para me adaptar ao trabalho e ao meu público”, completa Lúcindo.

De acordo com o Tribunal de Justiça Desportiva do RS, respeitar os princípios éticos, regras esportivas e principalmente a saúde dos competidores é regra geral no esporte, pois faltando algum desses três elementos não há espetáculo. Casos como do atleta Michel Dick não são registrados no Tribunal, nem em Confederações esportivas. Ficam apenas na memória das vítimas, que sofrem, muitas vezes, em silêncio.

“Pode ser uma talentosa pessoa que tem potencialidade que se eu falar: rola, pula, carrega 20 quilos ela vai fazer, o perfil é mais próximo a isso, mas se todos forem assim, o grupo vai se matar entre eles”, afirma árbitro Lisandro Paim. O sentimento de alcançar metas individuais é o primeiro passo para desagrega qualquer grupo, seja ele esportivo ou empresarial. Tudo começa de dentro para fora. Os líderes vão passar para seus liderados, os liderados vão passar para suas casas e a casa vai passar para torcida. Essa é a cultura esportiva desta geração de campeões.

Foto: Luana Meireles

Sobre francisco.amorim

Professor

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