Quando a homofobia começa em casa

(Por Walter de Souza)

Uma pessoa LGBT morre por dia no Brasil. Isso é o final de uma cadeia de violência que pode começar em casa contra lésbicas, gays, bissexuais e transexuais.  Em Porto Alegre, a falta de leis e projetos para proteção e combate à homofobia doméstica deixam crianças, adolescentes e até mesmo adultos desamparados, já que a prática ainda não é criminalizada no país.

O estudante de 18 anos, Pedro Riiks, vítima de homofobia, relata que em 2014 assumiu ser homossexual para a família. “Em 2014 assumi que sou homossexual. Com a minha mãe foi tranquilo. Com meu pai não“. Ele também conta que ficou um ano sem contato com seu pai, mas que atualmente os dois possuem uma relação mais estável. “Meu pai no começo não me aceitou. Agrediu-me tanto verbalmente, como fisicamente. Hoje temos uma boa relação. Ele já é casado com outra pessoa que o ajudou a aceitar minha condição”, informa o jovem. O discente também contou que apesar de seu padrasto não o aceitar na condição de homossexual por ter tido uma criação diferente, ambos possuem uma boa relação.

A coordenadora da Comissão de Direitos Humanos de Porto Alegre, Sylvia Severo, acredita que a falta de dados em relação à violência doméstica sofrida por homossexuais tenha a ver com uma espécie de constrangimento, afinal, a vítima estará denunciando um membro de sua família. Ela informa que a comissão quando recebe casos de violência aconselha a vítima a formalizar uma denúncia, pois acredita que o fortalecimento da luta para criminalizarem a homofobia, deve partir através da denúncia. “Entendemos que por ser uma denúncia contra a família à vítima se sentirá constrangida, mas frisamos que o mesmo deve sempre denunciar toda e qualquer tipo de agressão”, enfatiza Sylvia.

O psicólogo Vinicius Pasqualin afirma que no consultório quando se recebe um paciente homossexual agredido a primeira medida é verificar a capacidade que o mesmo tem de lidar com o problema. Pasqualin relata que ao ouvir um pai, que rejeita a sexualidade do seu filho, o melhor a ser feito é aconselhá-lo a respeitar o mesmo, e tentar entendê-lo para que ele não tenha sua saúde mental prejudicada e possa encarar o processo de aceitação com mais facilidade, tendo em vista que o apoio familiar é fundamental.

O também psicólogo e professor da Fadergs, Eduardo Marodin, acredita que as escolas devem se envolver com a causa. Pois os alunos podem ter seu desempenho prejudicado devido algum processo de ansiedade ou até mesmo depressão que possam ser causados devido à falta de aceitação dos pais. Marodin também acredita que há duas medidas viáveis que as escolas podem adotar para dar suporte a alunos homossexuais vítimas de agressão. O primeiro é discutir sobre diversidade de gênero tanto com os alunos quanto com os pais. E o segundo é formar um grupo de apoio, com alunos e até professores que sejam LGBT para que a escola já esteja preparada e tenha alguém responsável para dar suporte ao aluno e ao mesmo tempo permitir que o discente não tenha seu rendimento escolar prejudicado.

O coordenador da ONG Nuances Célio Golin relata que a falta de dados impede que não só a instituição como outras ONGs obtenha um número de pessoas para saber se há uma demanda necessária para que seja criado um projeto parecido com a Casa1, centro de cultura e república de acolhimento para LGBT em situação de risco fundado em São Paulo, no dia 25 de janeiro deste ano. O projeto foi idealizado pelo jornalista e militante dos direitos humanos, Iran Giusti, em parceria com Otávio Salles, e financiado através de uma campanha de financiamento coletivo na internet. A mesma teve a duração de um mês e foram arrecadados 112 mil reais para manutenção do local e o aluguel da casa. O restante é financiado por Iran com recursos próprios.

Segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB), responsável por elaborar anualmente o Relatório de Assassinatos LGBT no Brasil reconhecido pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, os assassinatos a LGBT fechou em 2016 com o maior número de mortes em todos os anos, com aproximadamente 340 homossexuais assassinados.

Em 2017, o caso que ganhou destaque internacional foi à morte da transexual Dandara Santos. A vítima foi assassinada em fevereiro deste ano no Ceará e teve o vídeo de seu assassinato divulgado na internet. Um dia após o caso Dandara ser transmitido no programa da Rede Globo “Profissão Repórter”, a deputada Luizianne Lins apresentou um projeto a ser aprovado na Câmara em que o ato de violência e assassinato a pessoas LGBT passa a ser considerado crime. Caso aprovada, a lei ganhará o nome de Dandara Santos. Riiks também contou que neste ano foi vítima de agressão por causa de homofobia. Desta vez o ocorrido aconteceu na rua. O estudante conta que três pessoas o abordaram e o agrediram fisicamente. Ele também informou que registrou ocorrência na delegacia, mas que a denúncia não teve resultado.

A história de Pedro Riiks comprova que casos de violência por homofobia é um problema no Brasil. De acordo com especialistas, os meios para ajudar o combate à violência à população LGBT são as denúncias, e também a criação de projetos que podem começar na escola como grupos de apoio e discussão sobre diversidade de gêneros em aula. Outro módulo é o encaminhamento para um especialista em saúde mental para que o mesmo consiga fortalecer sua capacidade de lidar com o problema e também ponderar os pais para que apoiem e respeitem a condição de seus filhos.

Crédito da foto de capa da matéria: divulgação Vitória Ribeiro (CC)

 

Sobre francisco.amorim

Professor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *